A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o
corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza
com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á
academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram
mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á
philosophia e á litteratura, mas decretou que todos se prosternassem
diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes
grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados,
cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes,
reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito
de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi
outorgado.
Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto
e do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar
como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos
foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao
dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e
a legislação tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a
religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko,
copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de
pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da
terra chamaram a perola do reinado.
Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos
diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e
gloriosa do seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas
esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram
recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro,
e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações
atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido
a bella concubina:
--Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia;
dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.
Kalaphangko respondeu com um beijo.
--Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.
Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma
tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os
corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza.
Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo
era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de
Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle
afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.
De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente,
mas por hypothese. Mandou chamar os academicos; vieram todos menos o
presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;
prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:
--Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.
--Erguei-vos, disse benevolamente o rei.
--O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos
em terra.
--Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com
um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.
Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal
assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e
nas leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era
um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,
ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade,
confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do
reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender
nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?
--Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho.
O coração é excellente, caracter puro, elevado...
Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos,
sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da
cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado
do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que
queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio que só
podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da
academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano
artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos
preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:
--Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos,
com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se
ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais
singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa
Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com
lealdade, embora confidencialmente...
Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong
resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada
superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um fino gesto
de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes
fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou
chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não
dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou,
ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a
unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio
U-Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os
restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros
usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E,
entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko
estava attonito.
Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a
academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a
linda Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do
crime. Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a
primavera proxima? Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e
viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os
corpos.
Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se
ir aguas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam
restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada
começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula
mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara,
tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando
occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo
mãi e pai da creança.
--Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.
Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco
ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já
então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro
um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous
amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais
distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um
barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os
quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam
aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a
claridade do mundo»!
A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de
assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em
academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de
camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se
alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do
Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança,
sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.