IV

A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o

corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza

com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á

academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram

mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á

philosophia e á litteratura, mas decretou que todos se prosternassem

diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes

grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados,

cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes,

reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito

de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi

outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto

e do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar

como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos

foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao

dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e

a legislação tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a

religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko,

copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de

pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da

terra chamaram a perola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos

diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e

gloriosa do seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas

esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram

recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro,

e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações

atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido

a bella concubina:

--Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia;

dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

--Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.

Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma

tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os

corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza.

Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo

era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de

Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle

afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente,

mas por hypothese. Mandou chamar os academicos; vieram todos menos o

presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;

prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:

--Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.

--Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

--O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos

em terra.

--Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com

um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.

Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal

assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e

nas leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era

um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,

ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade,

confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do

reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender

nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?

--Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho.

O coração é excellente, caracter puro, elevado...

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos,

sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da

cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado

do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que

queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio que só

podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da

academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano

artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos

preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:

--Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos,

com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se

ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais

singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa

Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com

lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong

resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada

superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um fino gesto

de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes

fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou

chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não

dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou,

ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a

unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio

U-Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os

restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros

usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E,

entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko

estava attonito.

Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a

academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a

linda Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do

crime. Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a

primavera proxima? Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e

viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os

corpos.

Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se

ir aguas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam

restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada

começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula

mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara,

tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando

occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo

mãi e pai da creança.

--Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco

ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já

então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro

um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous

amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais

distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um

barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os

quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam

aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a

claridade do mundo»!

A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de

assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em

academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de

camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se

alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do

Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança,

sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.

Historias Sem Data · 第 71 / 72 题