Eram oito horas e meia da noite, subi e desci a rua do Ouvidor.
Nenhum _ignotus Deus!_ nenhuma mulher com cara de entender a epistola!
Mas eu confiava na inspiração!
As transeuntes levavam todas a reboque um marido ou cousa com semelhança
disso.
Eram nove e meia. Ainda nada.
Mas o frade não me sahia da mente!
--Dar-se-ha o caso, reflecti, que hoje seja a noite tão sómente dos
casados?
Entendamo-nos. Queria dizer, a noite de sómente passeiarem os casados;
nós sabemos que todas as noites são delles, _quand-même_...
Puz-me a olhar através dos vidros os livros expostos á venda na casa
Garnier.
D'ahi a pouco, chega e pára a outra vidraça uma mulher _só_... Só digo
eu, não contando o cãosinho felpudo, que a-seguia.
Era um animalsinho com ar inoffensivo e prasenteiro e cara de quem não
aceitaria, se lhe mandassem, um cartel. Começa a mão do frade!
Olhou... olhou... (ella e não o cão), e entrou na livraria. Ouvi-a dizer
em francez de Racine:
--_Les Femmes, par Alphonse Karr?_
--É justamente a mulher, que eu sonhava, disse a mim mesmo; mulher que
lêsse o autor de _La pêche.... en eau douce... et en eau salée...._
Abeirei-me á porta.
Deram-lhe o livro; folheou-o, pagou-o sem questionar o preço, deu
boa-noite e sahio.
Fóra da loja, tomei-lhe a frente, comprimentei-a com acatamento,
rogando-lhe aceitasse a carta.
--Quem é o senhor? e donde vem essa carta? perguntou meio desdenhosa.
--É tudo um mysterio, respondi. Lendo a carta saberá.
--Ah! cheira a mysterio? pois sim, dê-m'a, eu gosto dos mysterios.
Tomou-a e partio com ar senhoril. E viva o frade!
Ao desapparecer na turbamulta, aproximou-se-me um permanente pedindo-me
o charuto para acender um cigarro.
--Camarada, lhe disse, eu não inventei a polvora, porque nasci depois
della inventada.
Elle concordou, rosnando:
--Polvora! polvora! que diabo é polvora?