O excellente velho era homem de têmpera austera, não lia os jornaes. Se
os lesse teria visto que eu, apezar de haver gasto quatro annos para no
cabo chegar aos nominativos da _artinha_, por outro lado, dava provas do
meu talento.
N'aquella idade já o _Camarão_ e o _Lagarto_, periodicos _literarios_,
_artisticos_, _politicos_ e _burlescos_ publicados então, chamavam a
attenção dos leitores, o primeiro para o meu artigo intitulado _O homem
deve ser sceptico_ e o outro sobre a minha poesia--_Ella_ (á qual meu
tio alludio quando fallou na santa mulher do nosso honrado visinho o Sr.
Onofre).
O meu primeiro escripto que andou em letra redonda foi o artigo. Quem
conhece o gigante pelo dedo, conhecerá o artigo inteiro por este
começar:--«Eil-o cabisbaixo e taciturno fitando o horisonte da
existencia... Esqueleto de crenças resequidas, elle descrê da luz e das
trévas, de si e de todos, etc.»
O _Camarão_, sem inquirir como póde a gente _cabisbaixa_ fitar o
horisonte da existencia, e muito menos a que animal pertencera o
_esqueleto de crenças resequidas_, rematava o encomio ao artigo com
estas palavras de arromba:
«É de crêr que o joven e talentoso escriptor com o andar do tempo
modifique as doentias idéas, prematuramente bebidas nas fontes de
Benedicto Spinosa, J. J. Rousseau, Claudio Helvecio, e outros
materialistas. Asseveramos, no entanto, que se este artigo levasse o
nome de um destes autores--seria uma faisca electrica lançada no meio da
sociedade; tal é o vigor dos seus paradoxos...»
Muito obrigado, aos Srs. Redactores do _Camarão_.