Ouçam isto:
--Senhor meu sobrinho! abeire-se cá, sommemos as nossas contas. Ha dous
mezes esteve vossê de cama, em risco de morrer entrevado, consequencias
das suas sahidas de casa a deshoras; pondo novamente os pés na rua foi
contrahir uma divida na importancia de oitenta e cinco mil e quinhentos
réis; aqui tenho a nota:
1 Vestido de cambraia de côr com babados... 15$000
1 Chale de lã e sêda....................... 10$000
Dinheiro pedido........................... 6$000
Juros..................................... 2$000
2 Pares de chinelas de saltinho............. 6$000
1 Peça de morim francez..................... 8$000
1 Vidro d'agua de Colonia................... 1$500
1 Dito de Patchouly......................... 1$000
1 Pente de tartaruga (imitação)............ 10$000
1 Pote de pomada............................ 1$000
1 Par de brincos (ouro de lei)............. 25$000
Rs..... 85$500
pagos por mim ao Sr. Moreira, por honra das cinzas de meu irmão. Não
satisfeito com esta compra, que vossê diz ter feito para seu uso, como
se eu fosse algum pato, ave a mais estupida dos gallinheiros, tanto
assim que sempre ouvi chamar _pato_ a quem se deixa levar, sobretudo,
pelos _não me-deixes_ de certas mulheres; não satisfeito, dizia, ha oito
dias recebeu vossê uma _sova de peias_, em resposta aos desaforados
versos que dirigio á santa mulher do honrado visinho o Sr. Onofre. Somme
as parcellas, subtrahindo a _sova a seu favor_, e veja quanto me resta?
O embolso é a sua entrada para a escola de aprendizes marinheiros.... Vá
aprender a ser homem....
--E os meus estudos, tio? balbuciei.
--Os seus estudos! replicou elle; o que estuda vossê?
--Oh tio! o latim....
--Sim, o latim.... ha quatro annos anda vossê estudando o latim; e o que
sabe delle?
--Já declino os _nominativos_, tio....
Que vergonha! eu chegava aos 16 annos!