Quando escrevi--_O homem deve ser sceptico_, eu sabia onde ficava a
fonte de Helvecio, Rousseau, Spinosa e outros, que o _Camarão_ conhecia
igualmente, como no Japão a esta hora se sabe que hontem chegou o vapor
do Norte! Mas tal nomeada de literato consummado ganhei na opinião dos
ledores do _Camarão_, que a redacção do _Lagarto_, receiando
desequilibrar a prosperidade, poz logo á minha disposição todas as suas
columnas.
Respondi á offerta enviando a minha--_Ella_.
Tres dias depois, corria ella o mundo, inserta na 1.ª columna do 1.º
numero da 2.ª serie do periodico, levando na cabeça este chapelinho:
«--A redacção do _Lagarto_ sente ineffavel satisfação dando aos seus
assignantes a grata noticia de haver o muito talentoso, muito sympathico
e já assaz conhecido autor do--_Homem deve ser sceptico_, honrado as
humildes columnas do nosso periodico com o prestigio do seu invejavel
nome. A poesia abaixo inserta, verdadeiro primor da imaginação, fôra o
melhor padrão da gloria de Petrarcha, se Petrarcha a escrevesse.
Felicitamo-nos, pois, reconhecendo que o mavioso poeta deste torrão,
reune em si conjunctamente as qualidades dos cysnes do Senna, do Tejo,
de Thebas, de Albião, de Torento, da Ausonia, etc.»
Leiam a primeira estrophe _d'ella_:
--Não sei dizer se a flôr da larangeira
É tão formosa, tão gentil, tão bella,
Como a flôr do jardim da phantasia,
A flôr do meu amor, a minha--_Ella_...
Quem souber, diga.
Vim a saber mais tarde que cysne Ausonio queria dizer--Virgilio; cysne
de Torento--Torquato Tasso; Cysne de Albião--Miltão; cysne de
Thebas--Pindaro; cysne do Tejo--Camões; cysne do Senna--Lamartine; cysne
da... n'uma palavra, que todos os poetas tem o seu _quê de pato_.