O movimento instantaneo de toda a multidão tinha é verdade differentes

causas: a dansa acabára, Gella tinha desapparecido, a noite

aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em

debandada.

Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas

chuvas, os outros cobriam a cabeça com o lenço.

Era uma scena de barulho, de confusão, de gritos, de mau humor, de que

se não póde fazer idéa.

A encantadora e loira criança continuava o seu peditorio.

Chegou perto de Josephina, que não tirava os olhos d'ella. A pequena

alsacianna, levada pela sua idéa, puxou-lhe pelo braço e disse-lhe com

um ar absoluto:

--Não é verdade que te roubaram, e que te chamas Adalberto?

O pequeno não pareceu nada admirado, olhou com toda a confiança para

Josephina e disse-lhe que sim.

--Conheço-te! conheço-te! exclamou a tia Tourtebonne abrindo-lhe os

braços.

O pobre pequeno lançou-se n'elles sem hesitar; parecia adevinhar toda a

bondade d'aquelle coração.

Ao mesmo tempo a chuva cahia em torrentes, o tumulto tinha chegado ao

seu auge e mal se via na escuridão, que augmentava, um pequeno

pellotiqueiro, que tres ou quatro pessoas arrastavam precipitadamente

para a estrada.

A criança subia já para a carruagem, quando Julião disse ás mulheres:

--Partam sem mim, quero fallar com os policias, o negocio não ha de

ficar assim.

--Deixa os policias e vem comnosco, Julião; uma vez que pilhámos o

pequeno é tudo quanto queremos.

--Nada, nada. A cadeia não foi feita para os cães.

Julião desappareceu.

Ao mesmo tempo, uma mulher com vestuario de camponeza, bonita, pallida e

tremula precipitou-se para a carruagem gritando com desespero:

--És tu?

Sophia, assustada, cobriu com o seu grande chale a cabeça do pequeno, e

a sua companheira disse ao conductor:

--Partamos! partamos!

O cavallo partiu a trote, e a desgraçada mulher, encostando-se a uma

arvore, desmaiou e cahiu por terra.

CAPITULO XVII

Adalberto volta para o subterraneo.

Não se póde descrever a alegria da senhora Deschamps quando lhe levaram

em triumpho o rapazinho, que logo conheceu a _casa branca_. Imaginava a

boa senhora ter encontrado um dos seus netos, e provava-lhe com os seus

carinhos verdadeiramente maternaes um tal affecto, que Adalberto, em

pouco tempo, estava perfeitamente á vontade. Desde muito que elle só via

miseria de roda de si; póde por isso fazer-se idéa do que sentia

percorrendo aquella casa tão aceada, tão bonita e que se não mexia!

Josephina e a sua gorda amiga não o deixaram sem lhe prometter tornar a

vêl-o, promessa que elle acceitou de todo o coração, porque sentia por

ellas o mais vivo e justo reconhecimento.

O senhor Deschamps, homem positivo, tinha opposto ao primeiro

enthusiasmo uma certa incredulidade; mas a duvida não podia resistir

diante das respostas do rapazinho ás mais indagadoras perguntas.

Sophia desejára conduzil-o logo ao subterraneo. Seu amo não consentiu

sem o ter interrogado. Adalberto fallou do carvão com que tinha escripto

o seu nome e todos os nomes da sua familia; da fita doirada que tinha

deitado no chão; soube dizer o que havia na adêga; indicou o logar onde

estavam as garrafas vazias, o logar do tonel e o das tabuas. Fallou

tambem dos bichos pretos e do rato que tinha roido a porta. O que

notaram sobretudo foi o sobresalto do pequeno á primeira vez que ouviu

dar horas na pendula da sala, cujo som elle reconheceu.

Quando Sophia, acompanhada pelos seus amos, o fez descer á adêga,

Adalberto olhou para todos os lados com tristeza e fixou a vista na

fresta, o que o fez contar a historia da estrella e tudo quanto podia

dizer a respeito de Gella.

Passou-se uma meia hora n'estas primeiras emoções. O senhor Deschamps,

que já sabia por Adalberto a residencia de seus paes, dispunha-se a

escrever-lhes para que a carta partisse no dia seguinte de manhã, quando

sua mulher pensou que o seu protegido devia ter fome.

Por mais que este dissesse que durante o caminho Josephina lhe tinha

feito comer bolos, nozes e maçãs, a boa senhora julgava que elle cahia

de fraqueza.

Como Julião ainda não tinha voltado das suas buscas e Sophia, ensopada

pela chuva, tinha ido mudar de fato, a senhora Deschamps quiz preparar

pela sua mão o comer para a criança. Havia na copa carne fria, dôces e

fructa; mas, por instincto maternal, imaginou um caldo bem quente e um

ovo fresco cosido a que se seguiria uma fatia de carne assada fria e

muitas outras coisas boas. Foi para ella uma alegria o ter de aquecer o

caldo, e fazer ferver a agua para coser o ovo; sentia-se activa, estava

risonha e contente.

Depois de cada volta que tinha de dar como dona de casa entrava na sala

um momento, só para dizer pela trigessima vez:

--Oh! meu querido pequeno, como tua mãe Vae ser feliz!

Adalberto acceitou com prazer o caldo e o ovo, mas não poude comer mais

nada. O que o encantava sobretudo era o arranjo, o guardanapo branco, a

bonita faca, a colher e o garfo de prata.

Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como

lhe fizessem novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e

narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. Á

medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava,

que tinha tido um máu sonho e que conhecia desde muito os donos da _casa

branca_. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:

--Oh! Gella! minha boa Gella!

--Gostas então deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor

Deschamps?

--Como não hei de eu gostar d'ella se foi tão boa, tão boa para mim!

Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e

começou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava

tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchès, que estava meio

estupido, mas tão submisso e inoffensivo.

Por mais confiança que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho

não dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo

sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.

Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua

familia, que devia a sua liberdade aos bons corações que a Providencia

tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fóra das

provisões de Gella. Esta, ao contrario, não podia duvidar de que a

desapparição do pequeno saltimbanco fosse o fructo das suas diligencias;

e com effeito assim parecia, mas não era.

A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho

dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canapé no seu

proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois

do outro alegrar a _casa branca_.

Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licença ao senhor

Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu

pae.

--Escreverei ámanhã a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha

lettra.

Acharam a idéa delicada, e a criança, que havia dois annos não tinha

pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:

«Meus queridos papás.

Sou eu; adoro-os de todo o meu coração.

Seu filho Adalberto.»

Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de

proposito, deitado lá a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto

assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe

bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.

A sua affectuosa protectora correu para elle de braços abertos e

beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.

O rapazinho disse a sua oração, que não tinha esquecido, e sentiu-se

feliz vendo-se de joelhos defronte d'um Christo de marfim semelhante

áquelle que via em Valneige no quarto de sua mamã.

Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, até ás onze horas da manhã!

Respeitaram aquelle somno depois de tão vivas emoções. A senhora

Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito

devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julião,

que tinha chegado durante a noite.

O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto,

que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversação.

Julião com um modo rude e inflexivel, fallava, não sem praguejar um

pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignação da turba,

as maldições de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que

Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a

andaluza e duas crianças, e que estavam todos quatro na cadêa. Quanto ao

chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e

esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.

Adalberto começou a chorar, tanto mais que Julião accrescentava com

bastante indifferença, que a _Andaluza_, para defender seu pae e

favorecer a sua fuga tinha cahido de umas taboas mal seguras o que a

magoára bastante.

Uma coisa sobretudo entristecia Adalberto. Tinha um coração delicado e

leal que lhe dizia: «A pobre Gella teve confiança no papá, que lhe deu a

sua palavra de honra. Agora que está presa e que o Hercules é

perseguido, vae julgar que a enganámos, que eu sou um ingrato e que o

papá não cumpre a sua palavra. Oh! que desgraça, meu Deus, que

desgraça!»

A senhora Deschamps não comprehendeu bem o desgosto de Adalberto, mas

tentou consolal-o. O senhor Deschamps entreveio e repetiu umas poucas de

vezes muito seriamente, que a rapariga estando sob o poder de seu pae e

não tendo feito senão suavisar a sorte do prisioneiro, não se lhe faria

mal algum, e que lhe dariam com certeza a liberdade logo que o chefe

fosse preso e julgado; quanto a esse miseravel, accrescentou o senhor

Deschamps, não merece compaixão alguma.

Estas palavras só socegaram em parte a inquietação do pequeno, e nenhuma

das pessoas com quem elle estava percebia como e porque elle se

interessava tanto pelo Hercules, o homem que o tinha arrancado tão

rudemente ao amor da sua familia. Julião pensava e dizia simplesmente,

que o pequeno tinha desarranjo de cabeça.

O mais engraçado foi quando a senhora Tourtebonne, empurrando o seu

carrinho, veio de tarde saber noticias do pequeno da adêga. Quasi que o

não conheceu com o fato com que a senhora Deschamps o tinha vestido.

Quando lhe disseram que o seu protegido estava triste, e que soube a

causa da tristeza, a boa da mulher exclamou:

--É possivel! pois não gostaria de vêr aquelle maroto condemnado ás

galés para o resto dos seus dias?

--Oh! não!

--Desculpe-me dizer-lhe que tem bondade de mais. Da rapariga não digo

nada; a velha mesmo, passa; mas o chefe? É um monstro, e se eu fosse

governo em vez de ser vendedeira de fruta, havia de fazer cortar a

cabeça a todos os que roubam crianças.

Estas palavras fizeram estremecer Adalberto; mas tranquilisou-se,

pensando que a boa da mulher era realmente vendedeira de fruta.

Para combater esta tristeza inesperada, a excellente senhora Deschamps

levou Adalberto ao jardim. Um olhar que elle deitou para o lago fêl-o

presumir que a pesca seria para elle uma distracção. Fallou logo n'isso

a seu marido, que organisou a mais bonita pescaria que se póde imaginar.

Deu o melhor apparelho ao seu hospede, ensinando-lhe com bondade todas

as finuras da arte, e levando-o, por uma felicidade espantosa, a um

verdadeiro triumpho. Cada peixe que cahia causava ao pescador um tal

prazer, que os pensamentos penosos que o opprimam socegaram

visivelmente. Voaram as horas n'este util passatempo, e tendo-lhe

passado de todo a dôr de cabeça, de que o pequeno se queixára, pediu

papel, penna, tinta e poz-se a escrever:

«Meu querido papá e minha querida mamã.

«Quasi que já não sei escrever, apenas o bastante para lhes dizer que os

amo sobre todas as coisas, e que desejo muito vêl-os e abraçal-os, assim

como á minha irmã e meus irmãos. Tenho tantas coisas a dizer que não

direi nada para não ser muito extenso. Ai! ha quanto tempo os não vejo!

Estou em casa de um senhor muito bom e de uma senhora muito boa, no

quarto de quem eu fico. Ella deu-me umas calças muito boas e uma jaqueta

igual. O seu marido ensinou-me a pescar e apanhei cinco peixes; são para

frigir. Oh! que felicidade quando eu abraçar os meus papás! Que desgraça

que foi a minha desobediencia! Tudo quanto me tem succedido, foi por

minha culpa; merecia ser castigado; mas se soubessem como eu tenho sido

infeliz! Gella era muito boa, e eu gosto muito d'ella. Meu querido papá,

veja que lhe não façam mal, e que lhe não prendam o pae.

«Ella está ferida n'um pé! Ha aqui pessoas que querem fazer condemnar o

pae. Oh! venham depressa, peço-lh'o muito, por causa do que sabem e que

se não póde dizer. Não me atrevo a fallar n'isso porque é segredo e

receio que se não devam confiar segredos ao correio. Este senhor e esta

senhora sabiam que eu tinha cahido na sua adêga ha quasi seis mezes. Hei

de contar-lhes tudo, e a minha mamãsinha ha de chorar, com certeza. Ha

coisas bem exquisitas: ha pessoas tão bondosas que gostam de mim como se

me conhecessem muito. Foi uma rapariguinha que me puxou pelo braço

dizendo-me o meu nome, quando eu pedia esmola. Julguei que ella tinha

sido mandada pelos meus papás, segui-a immediatamente; chovia, eu estava

como atordoado. Empurraram-me, empurraram-me até á carruagem. Uma mulher

gritou:

«És tu?»

«Tinha a voz da minha querida mamã, mas era uma camponeza. Emfim, eis-me

a salvo e de um modo diverso do que eu esperava. Penso que foi Nosso

Senhor que arranjou isto, visto que é elle quem faz tudo. Oh! como eu

gosto dos meus papás!

«Adeus, querido papá e querida mamã, eu estou aqui muito bem, mas

gostaria muito de voltar para casa. Abraço muito muito Camilla, Eugenio

e Frederico. Oh! como nós vamos ser felizes! Abraço tambem Rosinha, de

quem nunca me esqueci. Gosto de todos de Valneige, digam-no ao Philippe,

ao Gervasio e aos outros.

«Ah! Como eu hei de ficar contente quando os tornar a vêr. Mas façam com

que não prendam aquelle horrivel homem, para que Gella não seja

desgraçada por minha causa.

«Do seu filhinho

«_Adalberto_».

O senhor Deschamps lacrou a carta do pequeno diante d'elle sem a ler,

depois mandou Julião ao correio.

Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque

ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher não deixou

de lhe fallar em Adalberto, e como Julião desejava immenso que a justiça

não deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua

opinião e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o

pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto

sabia.

Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a

inchação da cara do senhor Baptista, e essa inchação absorvia-o a ponto

que apenas lhe restava a força de responder com os seus famosos _huns_!

Só a idéa de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois

dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na

vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se

fanatico por elle, em presença d'esta incommoda inchação; e quando a sua

antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforço

supremo:

--Visto que o pequeno se achou, não é preciso mais nada.

--Não, não, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.

Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na

prisão torcia as mãos de desespero. Ella que só tinha feito bem ao

pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na fé

jurada, julgava-se perdida pela criança que tanto amára e na sua

afflicção exclamava:

--Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! não foi isto o que tu me

ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faça o bem pelo mal, e

todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto

dando-me a sua palavra de honra. Devia não ter acreditado n'ella;

acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu

mentiste e todos me enganaram! Farão condemnar meu pae! Sou eu a causa

disso, morrerei de pena, e és tu que me matarás, tu Adalberto!

Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um pé, ameaçada de

todas as desgraças a um tempo, não duvidava que o pequeno francez não

tivesse sido levado pelos seus paes, graças aos esclarecimentos d'ella.

Infelizmente Gella não era a unica a queixar-se. Na vespera á tarde, os

camponezes, deixando a festa no meio da confusão causada por uma chuva

torrencial, tinham visto ao pé d'uma arvore uma mulher do campo

desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mãos brancas contrastavam com a

simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que não era certamente

seu marido, nem seu irmão, esforçava-se para a fazer voltar a si, não

lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia

experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella

mulher?

[Ilustração pág. 237. Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)]

CAPITULO XVIII

Adalberto não era um ingrato.

Haviam passado dez dias que tinham mudado o aspecto a muitas coisas. A

velha Praxedes, que desde muito tempo parecia ter apenas um resto de

vida, mas um resto muito mau, a velha Praxedes tinha succumbido ao

choque, e o seu desapparecimento d'este mundo não deixára saudades. As

duas crianças, Natchès e Tilly, das quaes Adalberto tinha narrado as

tristes aventuras, tinham sido recolhidas provisoriamente pelos bons

moradores da casa branca. Tilly tossia a todo o momento, e todos sentiam

por esta rapariguinha uma grande compaixão.

Continuavam as indagações, mas cessaram de perseguir o Hercules; a boa

Gella, transportada da prisão para o hospicio, estava n'uma cama muito

aceiada, rodeada de cuidados, de que a sua ferida carecia. A sua

expressão era serena; sabia já que a fuga do pequeno tinha sido um dom

da Providencia. Conhecia e explicava a si propria o encadeamento de

successos que tinham preparado a libertação de Adalberto; e, tranquilla

do futuro, já não dizia: elles enganaram-me!

Mas o que se havia passado em Valneige? O pae não tinha partido

apressadamente logo que recebera a carta do senhor Deschamps? Não.

A mãe não tinha escripto, para mostrar pelo menos o seu reconhecimento?

Não.

Comtudo havia-se recebido uma resposta de Valneige, mas era de Camilla e

redigida nestes termos:

«Senhor.

«Escrevo da parte de meu pae, doente ha um mez e reduzido pela febre a

uma extrema fraqueza. A sua carta ha de cural-o de certo, porque o seu

mal é o pezar que o opprime desde que perdemos o meu manosinho.

«A mamã teria partido immediatamente se estivesse aqui, mas um negocio

muito grave obrigou deixar meu pae para emprehender uma longa viagem,

acompanhada por um dos nossos criados. Escrevi-lhe esta manhã, e mandei

com a minha a sua carta, que lhe explicará tudo. Pobre mãe, como ella

vai ser feliz depois de ter chorado tantas lagrimas! Em poucos dias ella

irá a sua casa, e póde crer que terá restituido a vida a meu pae, a

alegria a minha querida mamã, e a felicidade a uma familia toda.

«Meu pae encarrega-me de lhe dizer que meu irmão falla-lhe na sua carta

de uma rapariga chamada Gella, que prenderam, e que foi sempre muito boa

para com elle, e que nós não desejamos perseguil-a, visto ella não lhe

ter feito mal algum, mas ao contrario ter concorrido para suavisar a

triste sorte de meu irmão. Por isso meu pae deseja que se não castigue

esta rapariga, e que a mandem para o hospital se estiver doente.

«Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje

mesmo ás authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que não

continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir á

senhora Deschamps o que nós quizeramos dizer-lhe de viva voz, e

agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o

que elle soffreu entre aquella má gente. Aceite os protestos de profundo

respeito de

«_Camilla de Valneige._»

Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.

«Meu queridinho.

«Abraço-te muito, muito. A mamã partiu, ha oito dias, vestida de

camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem tenção de ir a todas as

feiras indicadas por... A nossa querida mãe estava de certo alli

ante-hontem; mas de longe e no meio da multidão não te viu ou não te

conheceu.

«O papá está bastante doente; comtudo começa a melhorar desde hontem.

Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na

qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e

chorava, como a mamã choraria se estivesse aqui.

«Não te atormentes, tudo se ha de arranjar. Não se fará mal a ninguem, e

cuidar-se-ha em fazer bem á boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta

beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que estão no collegio. A

nossa velha Rosinha está doida de contente; todos te querem muito e

desejam vêr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao pé de mim, no

nosso Valneige, no meio de todos nós.

«Tua irmã

«_Camilla_».

Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de

não o deixar perceber. Não se devia saber que sua mãe, disfarçada em

camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicações d'alguem.

Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar á palavra d'honra pedida e

dada; ora é impossivel faltar á sua palavra de honra sem se deshonrar. O

pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam

pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a

familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, tão boa rapariga e tanto

para lamentar como filha d'um salteador.

Como se póde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes não

conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia

Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que

não teria levado tão longe as attenções, e que ao mesmo tempo que

protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir

seu pae até á fronteira; Julião accrescentava até ao fim do mundo.

A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e não pensava senão

em divertir a criança, em pentear os cabellos de que a sua mamã tanto

gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas

costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes

com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma

moral muito pura se disfarçava sob os gracejos infantis. Emfim era uma

mãe a proteger o filho de outra mãe!

Sophia só dava attenção a uma coisa; a criança estava pallida e magra e

ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte

culinaria é para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito

bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e

engordasse mais depressa. Como só havia tres ou quatro dias para esta

grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e

offerecia-lhe entre as refeições uma meia duzia de bons petiscos.

Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel á tentação,

e, seguindo as insinuações de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o

dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.

Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradições de Valneige; «_uma

criança bem educada_, tinham-lhe dito cem vezes, não deve nunca comer

fóra d'horas; é golodice, torna o homem _material_, quer dizer, favorece

n'elle os instinctos do animal.»

Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse á senhora Juliana, que lhe

agradecia as suas attenções, mas que tendo comido muito bem desde que

estava na casa branca, não se lembrava já das sopas da velha Praxedes, e

que não queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua

mamã.

--Mas a sua mamã não está cá.

--Não importa; comer sem necessidade fóra d'horas seria desobedecer-lhe,

e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.

Sophia concordou que o querido pequeno era muito rasoavel, e mudou de

systema. Comtudo viu com verdadeira alegria e alguma vaidade, que o

pequeno ia engordando, que os seus olhos se animavam, e que tinha melhor

côr.

O que a felicidade e a liberdade tinham feito em grande parte,

attribuia-o Sophia só aos seus manjares; e d'este modo todos ficaram

contentes.

A Casa do Saltimbanco · 第 9 / 11 段