deu-m'a e então eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que
havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.
--Como! fez isso?
--É verdade. Fizeste-me doer o coração com tudo quanto me tens dito de
tua mamã, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irmã, toda de
branco, fez a sua primeira communhão. Queres saber? ás vezes chorava de
noite e dizia commigo: pois tu, desgraçada, vais deixar este innocente
n'um sitio onde elle vê só o mal, podendo salval-o com uma palavra?
--Que boa que é, minha querida Gella! tornarei então a vêr meus paes?
--Sim, has de vêl-os, meu pequeno.
--Mas a Gella o que ha de fazer para não a matarem? Dizia...
--Eu não corro risco, do momento em que te levarem, quando me não
estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de
representação. Não importa, se fiz o que fiz é porque tenho confiança em
ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre é pae. O
meu é aspero, é verdade, não me faz feliz; mas apezar disso se gosta
d'alguem n'este mundo é de mim.
--Deveras? disse Adalberto espantado, porque não podia comprehender, que
aquelle homem amasse alguem.
--Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle
estava como doido, e um dia, talvez não acredites, sentado ao pé da
minha cama, vi-o chorar.
--Está fallando sério?!
--É a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. São máos,
têem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle
senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que será
julgado, condemnado, mandal-o-hão para os trabalhos forçados, sósinho,
desgraçado, e, se fôr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas
vezes pancadas, é verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu
era pequena, que me livrou dos máos, e emfim é meu pae! Mas agora, que
eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, não receio nada.
--Oh! não; não receie! Meu pae não a atraiçôa! Oh! como estou contente!
Nem sei o que digo, parece que até me falta o ar.
--Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes
serviços; sem ti ignorava que houvesse um Céo, nunca m'o tinham dito, e
do teu Deus nunca me tinham fallado.
--Agora, que Gella o conhece, póde bem servil-o.
--Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim, é talvez servil-o
separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecerás quando fores feliz?
--Nunca, disse a criança, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar
de Gella á mamã que tambem lhe ha de querer muito.
--Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fôres embora, meu
Deus! meu Deus!...
Dizendo isto, Gella olhava para o Céo, como se começasse a comprehender
a vontade de Deus, e a criança viu duas grandes lagrimas, que lhe
desciam pelas faces. Era a primeira vez que chorava na sua presença.
Diante da commoção d'esta natureza tão rude e forte, sentiu-se
profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio
de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno
pensava no seu papá, na sua mamã, nos seus irmãos e irmãs e tão
commovido estava que não podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar;
mas não sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez
pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e
repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!
--Oh! que felicidade! disse o meu nome!
--Querido pequeno, bem cedo será tua mãe quem t'o dirá.
--Bem cedo?
--Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que façam o resto.
Têem as necessarias indicações para te encontrarem.
--Mas como poude escrever-lhes? Não vejo na carruagem tinta nem penas.
--Ora! é bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de
papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o
meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de páu
para fazer de penna; mas para ter tinta é que eu não sabia como havia de
ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei que o
melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu
sangue.
--Pobre Gella! fez-lhe muito mal?
--Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, já se sabe, mas o teu pae
poude ler porque me respondeu no dia seguinte.
--Oh! mostre-me a sua carta! só a letra.
--Não percebes que já a queimei?
--Ah! é verdade. Se a achassem, que desgraça! E como era o sobrescripto?
--Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia ás vezes buscar
cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas
certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas
para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim
fez-se.
Agora é esperar.
--Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!
--Espero que sim. Teus paes só te davam bons conselhos, é preciso
seguil-os. Has de dizer á tua mamã, que sempre te aconselhei bem. Oh!
não lhe deixes suppôr que eu sou má rapariga.
--Oh! socegue!
Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo.
Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do
saltimbanco, ouviu uma grande questão entre o Hercules e o seu filho,
que, exagerando os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de
roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro;
a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.
[Ilustração pág. 203. Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)]
Entrando para a carruagem Adalberto sentiu-se desesperado. A sua sorte
pareceu-lhe então mais horrorosa, comparando-a com as dôces imagens que
a esperança lhe tinha feito conceber. Com receio de se achar envolvido
n'esta ignobil scena foi sentar-se sem dizer palavra n'um velho banco,
perto da porta, e Gella, que começava a ser boa para todos, esforçou-se
por apaziguar seu pae e por afastar a velha Praxedes, que se regalava em
o irritar com os seus ditos.
Quando a zanga não era excitada pela propria filha, o Hercules
deixava-lhe ás vezes bastante poder para pacificar a todos. É que a
rapariga era como um raio de sol n'estas trevas moraes, em que todos se
agitavam. Seu pae, é verdade, era capaz de tudo em um momento de colera,
mas gostava d'ella a seu modo, como ella dizia, e a sua bella Andaluza,
como elle lhe chamava nos seus raros momentos de bom humor, era o anjo
bom d'aquelle coração semi-barbaro.
CAPITULO XVI
Adalberto estava ali.
Que lindo tempo! nem uma nuvem no Céo! um perfeito dia de primavera!
Josephina, bonita alsacianna de treze para quatorze annos, tinha acabado
de se enfeitar e de se pentear com muita pommada. Estava contentissima,
fazendo tenir na algibeira a sua pequena fortuna de tres tostões, e
esperando á porta que os seus amigos passassem e a levassem como se
tinha ajustado. Estes amigos eram a tia Tourtebonne e o senhor Baptista;
iam á feira de M...
O tempo corria, e a rapariguinha não deixava de estar inquieta, vendo
demorar-se um prazer ha tanto tempo esperado. É que a tia Tourtebonne, a
quem seus paes a confiavam era a exactidão em pessoa, e, por força,
alguma circumstancia independente da sua vontade a demorava.
Effectivamente não se enganou; eis o que tinha succedido.
Deve primeiro saber-se, que a feira de M... occupava muito o pensamento
da tia Tourtebonne. Havia mais de quarenta annos que se não lembrava de
faltar a ella uma só vez. Fazia negocios todo o anno, mas esta feira,
que durava tres dias, achava-a invariavelmente em optima disposição de
espirito. Fazia tenção de se divertir, e por isso se divertia muito. Era
um d'esses genios felizes que qualquer coisa distrahe, que ri porque os
outros riem, que está contente porque os outros estão contentes.
Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem,
porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha
um excellente meio de transporte; a carroça do senhor Baptista. Ia-se
bem saccudido, é verdade, e a velha Manon não deixava de tropeçar, mas
afinal chegava-se. O bom do homem, que não tinha nada de divertido, ia
simplesmente á feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques,
esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar
relações. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que
tinha insupportaveis dôres de dentes, que o não deixavam dormir, e
porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de
M..., os arrancava _sem dôr_. Estas palavras têem um poder magico sobre
o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda não
tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco
da sua simplicidade nativa no trato dos cidadãos. Por isso não
acreditava senão metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.
Em consequencia d'esta falta de fé, demorava a partida de minuto para
minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio
se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella
tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no
fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos nós sabemos não ser
caso de pressa.
Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual
da velha Manon. N'um instante abraça a sua mamã e eil-a na carroça.
--Até que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e
como nos vamos divertir!
Josephina no meio d'estas alegres expansões, olhou para a cara do senhor
Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dôr de dentes,
justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforço
supremo e ameaçava uma grande inchação. O desgraçado, para conjurar
tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme
parche d'algodão em rama, seguro por um lenço azul atado por baixo da
barba. Tinha além d'isto amarrado a cabeça com outro lenço vermelho, e
por cima um barrete d'algodão branco, sobre o qual se enrolava como um
turbante um terceiro e grande lenço de seda côr de vinho; e apezar
d'esta armação ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista
tinha agarrado por costume, no seu forte boné de lontra, e tinha-o
pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!
[Ilustração pág. 209. Os arrancava _sem dôr_. (Pag. 208.)]
Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia
Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para não perder o seu sério,
ainda que o seu bom coração se resentisse dos soffrimentos do seu
companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso
dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas
saccudidelas, que lhe augmentavam a dôr, a boa da mulher tomou sob a sua
responsabilidade o animal e o seu tropeçar, e, de redeas na mão, começou
a governar. «Hi! hi! anda, anda Manon!» Esta maneira de a animar
acompanhada do continuo movimento de braço eram necessarias, para que
Manon não parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e não gostava
de mudar de logar.
Quanto ao seu dono estava absorvido pelas dôres de dentes, o que é facil
de perceber, porque não ha nada que absorva tanto.
Houve antigamente philosophos que negaram a dôr. Oh! de certo que não
tinham tido dôres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso
para se assemelhar a estes senhores, e não seria elle com certeza quem
negasse a dôr. Pelo contrario não se passavam cinco minutos sem dizer
ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presença do inimigo. Como
era naturalmente laconico, não dizia mais; mas a sua cara dizia o resto.
Não sahia de todo aquelle preparo de algodão e de lenço e companhia,
senão uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido,
um meio nariz sem expressão e um canto da bocca tristemente descahido,
signal d'uma grande desconsolação. Nem pensava no feliz cachimbo, que,
com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella
tranquilla existencia; emfim não achava n'este mundo senão aquelles
repellões!.... Pobre homem!
Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraçãosinho bom e
lamentava o senhor Baptista. Quanto á sua visinha teria de boa vontade
acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro;
disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o
pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dôres.
Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do
que costumava.
Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo
prado guardando as vaccas de sua mãe; tinha um viver doce mas um pouco
monotono. Dava portanto grande apreço aos divertimentos, e a feira
estava tão bonita, tão bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha é a base de
todas as festas populares, e não faltava n'esta. Os cavallos, os bois,
as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava,
mugia, balava e grunhia sem se querer calar.
Os cães ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que
todos com os seus continuados e magnificos _co-co-ro-cós_... Dir-se-hia
que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multidão, que,
para não perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como
tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlatão, chamava toda a
gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que
todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os
olhos vendados. Á direita os cães sabios faziam exercicio; á esquerda os
macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada
passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande
tentação para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho
nunca faz mal; sabia-o elle bem, e por isso bebia um muitas vezes; mas
hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.
Entre todos estes divertimentos, todas estas distracções, acima de todo
este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de
Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros
annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda
mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria
os admiraveis e estrondosos _bumbuns!_ mil vezes repetidos pelo grande
tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos começar!
Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vêr, sem
perder nada, os jogos, as danças e as cambalhotas. Josephina esperava
divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que
encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia,
só via as suas dôres de dentes, e a todos succederia outro tanto.
A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:
Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem
demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma
trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita não pensaria
mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?
O pobre homem não se atrevia a desapprovar á sua visinha que tinha toda
a razão, por isso não respondia senão: _hum!_ n'um certo tom, que
equivalia a dizer: _amen!_ Comtudo fazia o que podia para não vêr por em
quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que
não tinha dôres de dentes, via muito bem.
Se lhe diziam: «Olhe, ali á tem!» experimentava no mesmo instante um
grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de
algum illustre ventriloquo.
Josephina era cruel; sabia que não se estabeleceriam na feira sem fazer
a operação; não pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre
esta multidão, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou
o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem
vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um
lenço pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de
rigor para ser admittido ás recepções.
A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se
livida em vez de pallida.
--Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem.
De que tem medo? Olhe que não é coisa do outro mundo.
Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o
paciente, que com a coragem que póde ter um cobarde envergonhado,
dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente
as dôres de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se
adiantado muito, ficou por honra de firma.
Ainda que o charlatão não cessasse de declarar com emphase que arrancava
os dentes sem dôr, não se sahia das suas mãos sem a cara transtornada e
as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer,
mas o annuncio não mentia, era pois a clientela que se enganava. Um
tinha mexido a cabeça, outro o pé; este estava mal disposto, aquelle
tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operação;
alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os
dentes apertados. Estas justificações, que o ultimo cliente nunca
acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de
esperança.
O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio.
O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de
plumas e mangas arregaçadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e,
com ar altivo, preparou-se para vencer pela força o que lhe oppozesse
resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa
conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem
n'este caso.
Não se póde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque não póde deixar
de ser, mas parece que a cabeça vai atraz d'elle.
O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a
gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com
effeito, não se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas só um
_rrran! rataplan! pan! pan!_ depois uma musica alegre, e mais longe um
realejo, que tocava desde a aurora o _Galope de Gustavo_. O senhor
Baptista pagou e desceu depressa, depressa; tão azafamado estava o
operador.
O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem
dôr é que não. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha
provavelmente mexido sem querer. Não disse palavra, não proferiu uma
queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo
todo o caminho; não havia outra coisa a fazer.
Afinal a emoção, a sacudidela, e o _Galope de Gustavo_ ainda em cima
acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era,
fez com que elle se sentasse.
Josephina, graças aos seus quatorze annos, ficou espantada. Julgava que
uma vez este negocio terminado o bom do visinho passaria a divertir-se
muito, e que todos os abafos seriam desnecessarios. Quanto se enganava!
O senhor Baptista juntou aos outros o lenço da algibeira, com que tapou
a bocca, e declarou que tinha mais uma dôr de cabeça furiosa.
Que desengano! Josephina assustou-se com a idéa de tornar a subir para a
carreta, mas felizmente não foi preciso. O honrado mercador de queijo
installou-se n'uma pequena casa de pasto improvisada, estabelecida por
tres dias debaixo de uma barraca parda, e em vez de fazer ali algum
gasto entregou-se pelo mesmo preço ao aborrecimento resultante do seu
incommodo.
Ainda que d'uma apparencia muito feia o bom do homem não era nada
egoista; exigiu pois dos seus companheiros de viagem que não fizessem
mesmo caso d'elle. Josephina achou esta idéa magnifica; mas a senhora
Tourtebonne prometteu vir de vez em quando perguntar como elle estava, e
partir no meio do dia se o seu incommodo se tornasse insupportavel.
Josephina resignou-se e andou com a sua digna conductora uns duzentos
passos n'uma hora; tantas coisas havia para admirar!
Apezar de se extasiar vendo isto e aquillo, a boa rapariguinha exclamou:
--Oh! o que eu desejo vêr, mais do que tudo, são os saltimbancos.
--E eu tambem, minha pequena.
--Bem sei eu porque. Está pensando no seu rapazinho?
--Justamente. Desde esta manhã que só penso n'elle, e toda a noite
sonhei com aquelle desgraçadinho querido filho!
--E acha que poderia reconhecel-o?
--Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um
principe, e que se chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle
tem mãe! É horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal
desgraça endoidecia.
E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne
enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que não tinha.
A conversação sobre Adalberto não podia interromper-se; ambas repetiam:
--Está talvez ali! Quem sabe?
De repente, no meio da multidão avistam os caros amigos Julião e sua
mulher, que seus amos tinham mandado á festa, para que se divertissem um
bocado.
Este encontro foi theatral; prometteram não se separarem; e o bondoso
Baptista, feliz por vêr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado
da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasião para se
retirar. Julião tinha tratado de segurar meio de conducção para a volta;
combinaram que partiriam todos quatro juntos, e começaram a gozar
tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenções de
esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os
dentes sem dôr.
Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostões. Comprou bolos
que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na
loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu
um vintem a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer
de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.
Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas.
Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma
grande preoccupação.
Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia
Tourtebonne e Sophia não cessavam tambem de pensar no _pequeno da
adêga_, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, não
duvidava da sua presença, chegando a parecer-lhe impossivel que elle não
estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma idéa.
Sophia dava tudo para poder levar á sua ama a criança, cuja sorte ella
não cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que
sentiria a pobre mãe do _pequeno da adêga_, quando lhe levassem o seu
querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma
aventura, uma emoção; teria sido uma felicidade para todos e um
divertimento para ella; o senhor Julião, amigo zeloso da justiça e
pontual antes de tudo, só queria uma coisa--denunciar aos policias a
infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladrões pagarem na cadeia o
crime commettido; era tambem esta a opinião de seu amo.
Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela
feira; um lindo dia favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia
entendedores com idéas negras que repetiam: «Vamos ter agua!» Josephina
achava que se não devia dizer uma coisa a que ninguem prestava attenção.
Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas
casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho
que conduzia á carruagem. Umas nuvens negras ameaçavam chuva, havendo já
quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.
A cincoenta passos da carruagem Julião exclamou:
--Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vêr! Dez minutos mais ou dez
minutos menos não faz nada ao caso.
Josephina approvou Julião.
--Como ella é bonita! accrescentou o marido de Sophia.
--E como ella dança bem, com as suas flôres de romã na cabeça, respondeu
a tia Tourtebonne, que se não fartava de a admirar, dizendo a todo o
instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!
Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos
lhe gritavam: «bis! bis!» A pobre rapariga saudava, dançava e tornava a
saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criança
vestida como um dançarino de corda rompeu por entre a turba com uma
bandeja na mão; parecia que o signal para partir estava dado, toda
aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta á direita ou á
esquerda, para não despender um vintem e conservar a sua dignidade aos
olhos dos outros.