affectuosamente hospitaleiro, quando uma senhora d'um aspecto grave e
distincto, seguida por um criado, bateu á porta da casa branca. Julião
abriu, mas antes de ter tido tempo de lhe dirigir a palavra, correu ella
para a criança, que brincava no pateo com Tom, e apertou-a estreitamente
nos seus braços maternaes. Toda a gente accudiu. Foi grande a commoção.
O proprio senhor Deschamps perturbou-se, e Julião disse baixinho a
Gervasio, que chorava d'alegria:
--Palavra, que até estou a tremer! Faz mais impressão do que o attaque
de Sebastopol!
Depois d'este primeiro instante de surpreza entraram na sala, e, por um
rasgo de sensibilidade, a senhora Deschamps disse a seu marido:
--Deixemol-a só com elle.
Ambos sahiram da sala e fecharam a porta.
Foi então que a senhora de Valneige comprehendeu o grau da sua
felicidade.
Não fallava, mas olhava para seu filho, como se quizesse ler na sua
alma. Parecia-lhe, pobre senhora! tornar a tomar posse d'este pequeno
ser, que Deus lhe tinha dado. Pegava-lhe nas mãos, que apertava nas
suas, como para affirmar os seus direitos, e restabelecer esta dôce
cadêa, que nos impõe os affectos do coração. Oh! que de lagrimas que
cahiam dos seus olhos! Seu filho estava alli e adorava-a!
A vida tornava a ter os seus encantos. A senhora de Valneige já se não
sentia infeliz.
A presença de Adalberto ia curar seu marido, que só soffria pela sua
auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa,
commovida... Foi o momento que o bom coração de Sophia escolheu para
offerecer uma bella _omelette_ de dois ovos frescos, ou biscoitos, ou
vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia só receiava uma
coisa nas grandes agitações da alma; era vêr a sua gente morrer de
fraqueza. A senhora de Valneige, como é facil de suppor, não tinha a
menor vontade de comer uma _omelette_; recusou-a, pois, o mais
graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do
seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.
Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do
que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel
Gervasio. N'isto não fazia mais do que seguir os costumes da casa. A
senhora Deschamps não podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer,
como nossos paes, o pão e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porém,
demasiadamente as sensações delicadas, para não as confundir com uma
_omelette_ ou qualquer outra cousa. É inutil explicar o genero de
relações, que se estabeleceu entre as duas mães. Parecia que se
conheciam ha muito. É porque, effectivamente, as almas nobres
reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas ás outras sem embargo
de distancias.
A senhora de Valneige fallava á sua nova amiga essa lingoagem do
coração, que só elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a
suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.
Para ella não era a desconhecida mais do que a mãe da criança perdida,
da criança que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que
esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.
Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao
trio, a conversação tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do
futuro, porque as duas mães só tinham visto o presente. Começaram então
as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.
A castellã informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para
salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros.
Tudo se disse e tornou a dizer; a mãe estava insaciavel, fazia repetir
tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e
quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz
descer áquelle sitio, que por pouco não tinha sido um tumulo; viram-na
ler com horror as palavras escriptas na parede. Á noite mostrou desejo
de lá descer outra vez, e alli, só, no subterraneo com o seu filhinho
Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o coração é
capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse
vêr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle
chamara Adilia.
--Mamã, querida mamã, dizia o rapazinho beijando as queridas mãos de sua
mãe, é preciso procural-a no céo para que o papá a conheça e tambem
goste d'ella.
--Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha
de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para
ti, o que te fez bem.
E, como a terna mãe olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a
criança, por uma delicada inquietação, perguntou timidamente:
--O papá já não está zangado?
--Zangado porque?
--Por eu ter desobedecido. Não me quer mal por isso?
--Quem te ha de querer mal, meu pobre filho? Não foste tu bem castigado?
Teu pae espera-te para melhorar. Ama-te muito, isso sim.
Então Adalberto lançou-se nos braços que sua mamã lhe estendia, e,
submisso para sempre, á força de soffrimento, fez este juramento:
--Prometto que nunca mais torno a desobedecer.
A mãe e a criança cheios de felicidade e de ternura, ficaram alli, em pé
n'aquella adêga, e achavam-se bem. O silencio, a escuridão, tudo os
isolava; sem darem por isso ficaram immoveis, porque ninguem queria
dizer primeiro: «Partamos».
O rapasinho, commovido pela ternura da mãe, balbuciou baixinho, como se
aquella solidão ainda não fosse bastante para ouvir um segredo:
--E Gella, mamã, Gella que me quiz salvar?
--Irei vel-a ao hospital.
--Oh! que felicidade!
A hora ia adiantada. Na casa branca não se recolhiam tarde. A pendula da
sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu,
ouvindo aquella bulha, que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande
agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castiçal na mão, se
dirigiu para o seu quarto.
A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto
dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como são
os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoção que tinham mudado
para aquelle quarto o _leito-canapé_. A senhora Deschamps, delicada em
tudo, quiz que a mãe visse o filho dormir.
No dia seguinte a senhora de Valneige, não sem excitar alguma
curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que
queria vêr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado
Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu só com seu filho. Vendo-a, Gella
sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraça, pelo crime de
seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em
desalinho, revelava assim a humilhação da sua alma inculta e como que
abandonada.
A criança, cheia de confiança, abraçou-a como a unica amiga que tinha
tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas
mãos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de
seu coração. Depois sentou-se á cabeceira do leito, e fallou muito tempo
baixinho; a rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa,
Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluços
entrecortavam:
--Não, minha senhora, eu não sou digna de tantas bondades! Dar-me
trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vêr
todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae não tem
outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe pão se
lhe faltar; elle que já começa a estar velho.
Meu irmão não ficará com elle, porque só a força é que o prende; ha de
então ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora,
trabalharei, não como d'antes, porque o medico diz que eu fico côxa; mas
estou costumada a coser, e não me faltará boa vontade. Irei encontrar
meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas, é verdade, para
comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de
eu fazer, minha senhora, é meu pae!
A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: «Nunca
desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.»
Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto não tinha podido
dizer-lhe sobre a alma e o céo. Tudo se tornava possivel n'estes dias de
reclusão absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller
ia instruil-a, e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o
berço de uma nova existencia, faria a sua primeira communhão, e
unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criança tinha
dito: «Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.»
Oh! como ella seria recompensada dos seus esforços, e como se sentia bem
abençoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mão sobre a testa da
doente, que abrazava, lhe disse:
--Sê, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vossês toda a
minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres,
minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflicção que te aches,
dirige-te a mim.
Amo-te e abençoo-te.
Gella seguiu com a vista a mãe e o filho, quando ambos a deixaram, e
quando Adalberto se voltou para a vêr ainda, disse-lhe ella, com o
coração cheio de reconhecimento:
--Obrigada pelo bem que me fizeste.
[Ilustração pág. 253. Eu não sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.)]
CAPITULO XIX
Adalberto era obediente.
Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze á meza. Todos
conversavam todos riam; que animação! que contentamento! Eugenio e
Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor,
em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a
saude e a alegria.
A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto
nas algibeiras, mas, que apenas apparecêra, havia banido todo o mal e
todos os aborrecimentos.
Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias;
estava pallido e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e
vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da
partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os
espiritos e favoreciam as expansões.
Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto
teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á
inquietação que então pesava sobre todos.
Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á
meza.
Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar
doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:
--É talvez a morte que vem, e depois o céo.
Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.
A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta
rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era
realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio
publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida
para sempre, e este _sempre_ não podia durar muito. O peito delicado
d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados
tinham dito: «Sem esperança!»
E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a
solidão! as agonias! a frieza!»
A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança
christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida
affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do
seu captiveiro:
--Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.
Quanto ao bom e gordo Natchès, roubado assim como Tilly, tudo n'elle,
tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe
attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, não se
entretendo senão na cosinha, extasiando-se diante d'uma caçarola ou d'um
petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente
certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia
d'elle um instrumento commodo entre as mãos de Julião e de Sophia;
foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes,
varrendo o pateo, regando, penteando o cão. Fazia geralmente as coisas
mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho
com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que
começavam sempre assim:
--Quando eu era palhaço...
Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade;
achou tudo isso na _casa branca_, e recebia mais, a luz sufficiente aos
espiritos grosseiros para servirem o Senhor justo, que não pede contas
ao homem, senão do pouco que lhe confiou.
Não tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para
estudar a posição de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da
maneira mais util.
Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos,
encaminhando-se para o Rheno, deviam parar na _casa branca_ e descansar
na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.
Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que
seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam
Rosinha a poupar-se ás fadigas d'uma grande viagem no começo do inverno;
fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o
momento escolhido por ella para ir á sua terra, achou que não podia ir
sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e começou então a fazer
os seus arranjos. Não eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma
chapeleira velha.
--Não te esqueças do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de
roda d'ella.
--Não tem perigo! Quero-lhe como ás meninas dos meus olhos; por isso o
dependurei ao meu pescoço.
--Ao teu pescoço? Mostra-m'o...
A criança viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoço de Rosinha;
esta caixa continha o botão e a nódoa de tinta que tinha trazido do
exilio! Adalberto abraçou de todo o coração a sua velha governante.
Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus
protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam
para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.
A demora tinha sido grande; houve inquietação e incerteza; o senhor de
Valneige, não achando o seu wagon, disse a seu filho:
--Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estação.
Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na
terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as
portinhollas--iam partir. O pae lançou-se precipitadamente na carruagem
onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:
--Estamos aqui muito mal; mas é só por um quarto d'hora.
No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre
outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feições accentuadas
chamavam sobre elle a attenção.
Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho
empallidecer.
--Que tens tu, perguntou-lhe.
--Nada.
--Sentes-te mal?
--Não, papá.
O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho
respondeu-lhe transido de medo:
--É o homem!
Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.
Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o á justa
vingança d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha
testemunhas, provas: o botão, a nódoa de tinta, a fita doirada, as
palavras escritas na adêga, a deposição de Baptista e da vendedora;
Julião, Sophia, Josephina tudo lhe vinha á memoria, tudo o levava a
proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella,
que se fiava na sua palavra. É verdade que as suas previsões não se
tinham realisado; mas tinha dado indicações em troca D'uma promessa. O
senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta
promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:
--Ó meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra é um juramento,
que um homem não pode violar _debaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma
circumstancia_.
Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos;
chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beiços brancos, e
Adalberto soltou um grito. O desmaio durou só um instante; as
companheiras, de viagem abriram as vidraças para dar ar ao doente. Todos
olharam para elle e para seu filho.
Esta grande emoção passou. Na primeira estação o pae e o filho desceram.
O homem de ferro desceu tambem, e não tornou a subir.
Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia
a familia, chegaram á _casa branca_. Tudo em azafama! Faziam as camas,
punham a meza etc. Não faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais
uma fornalha acêza, porque Sophia não descansava.
Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de
amizade.
Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a
um dos seus netos.
Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa,
variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!
Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem
só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que
longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de
perfeito contentamento:
--Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era
muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer habilidades
nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!
Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado
meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas
debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram
perfeitamente e acordaram bem dispostos.
No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e
levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a
uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de
estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno
ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de
Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.
A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se
a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a
scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para
a criança.
--Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que
acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por
ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.
Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de
tratar por tu o pequeno, e ajuntou:
[Ilustração pág. 263. O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)]
--Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhe _tu_; é a ultima
vez! Não nos veremos mais sobre a terra...
E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:
--Não chores, minha filha, diz-me o coração que nos havemos de tornar a
vêr; sê honrada, sê christã e Deus será comtigo. Não sei o que vai ser
de ti; mas, visto que a tua enfermidade não te deixa d'aqui por diante
seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como
costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que
pagará a tua viagem e te permittirá começar qualquer coisa e esperar o
ganho.
Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A
doente via este bilhete na sua mão e não podia acredital-o.
--Senhora, disse ella, confunde-me com tanta bondade!... Mas eu não
posso acceitar este dinheiro. É verdade que esta somma me salvaria, que
eu ganharia facilmente a minha vida em Lyão, ao pé de minha tia, e que
meu pae, vendo-me começar um pequeno commercio, renunciaria, talvez, ao
seu modo de vida, que presentemente o cansa; mas que lhe hei de eu
dizer, quando elle me perguntar d'onde me vieram estes quinhentos
francos? É preciso que elle não desconfie de cousa alguma.
--Responde-lhe que uma senhora te viu no hospital, se compadeceu da tua
desgraça e que te quer ajudar na tua laboriosa existencia.
--Mas se quizer saber o seu nome?
--Dize-lhe que me chamo... uma senhora de caridade.
--Oh! sim. A caridade em pessoa. Eu não sabia que n'este mundo se podia
achar tanta bondade. Desde a minha infancia só conheci o mal. Agora,
minha senhora, creio bem na caridade.
Gella beijou as mãos da sua protectora, e levantou para ella um olhar de
reconhecimento.
De repente, por um sentimento profundo de gratidão e de piedade, a
senhora de Valneige disse-lhe:
--Agradeço-te, Gella, o não teres nunca concorrido para a infelicidade
de meu filho, e teres querido entregar-m'o. É preciso que haja entre nós
uma ligação; vou dar-t'a, has de guardal-a toda a vida.
Cortou então um dos lindos e loiros caracoes de Adalberto, e deu-o
áquella infeliz, que respondeu humildemente:
--Eu não sou digna d'elle! Oh! obrigada, obrigada, senhora!
Depois ficou como desfallecida pela surpreza e pelo enternecimento, e
tendo chegado a hora da separação Gella, só com as suas recordações,
escutou, com o coração despedaçado, os ultimos passos do pequeno
Adalberto....
A senhora de Valneige depois de ter cumprido esta piedosa digressão,
voltou para a _casa branca_, e seu marido approvou tudo quanto ella
tinha feito e dito.
Durante o dia passearam pelos arredores. O verdadeiro motivo d'este
passeio foi ver as pessoas, que tinham tomado uma parte tão activa em
libertar Adalberto.
Acharam na sua pequena casa, e sob os olhos de sua avó, a lindinha
Josephina, cuja intrepidez tinha sido directamente a felicidade de
todos. Recebeu um beijo da feliz mãe, e depois, como o senhor de
Valneige tinha preparado todas as coisas, aconteceu que a avó, que não
tinha outra herdeira senão Josephina, se achou proprietaria da sua
residencia, que até ali tinha alugado.
Isto fez na terra um tão grande effeito, que desde então começaram a
comprimental-a com toda a consideração, e o grande Lucas prometeu fazer
dansar a pequena n'uma festa que ia haver, apezar d'ella ainda não ter
tamanho para isso, e de ninguem olhar para ella como se não fosse já
criança.
O socegado Baptista, que estas emoções espertaram um pouco, ficou
relacionado com os habitantes de Valneige, e combinou-se que faria
remessas de queijo e harenques, para o palacio, para a villa e para a
quinta. Deram-lhe, além d'isto, um elixir admiravel para calmar as dôres
de dentes, a que era sujeito, infelizmente!
Quanto á tia Tourtebonne foi preciso desistir de a achar em casa.
Chamaram-na á _casa branca_, e os felizes paes de Adalberto, assegurando
á sua velhice uma pequena quantia, dispensaram-na de rodar mais tempo o
seu carrinho.
O seu reconhecimento exprimiu-se calorosamente; entremeava estas
expressões de vivas e fortes censuras dirigidas a si mesma, porque não
podia perdoar o ter impensadamente dito ao conductor: «Partamos!
partamos!» quando uma camponeza pallida e tremula tinha gritado: «És
tu?»
Escusado é dizer que era realmente a senhora de Valneige, procurando
mysteriosamente seu filho, e misturando-se na turba, graças ao seu
disfarce. A boa da mercadora foi-se embora dizendo:
--Fui eu que demorei a sua felicidade, minha senhora, que pena!
Um momento depois, pensando na sua fortuna, ficou radiante e disse a
Sophia:
--Espero que me hei de divertir, e passar o tempo sem trabalhar.
Que succedeu? A boa da mulher divertiu-se, é verdade; mas o habito
tornara-se para ella uma segunda natureza, e reconheceu que o maior de
todos os seus prazeres era o de rodar o seu carrinho. Não suppunha isto,
mas comprehendeu-o pelo aborrecimento profundo que se apoderou d'ella,
quando interrompeu o seu activo viver. Por isso, como mulher sensata que
era, tornou a ser vendedora e tudo se passou o melhor possivel. Evitava
sómente a chuva, a neve e as ventanias; e, em vez de dar por esmola
maçãs meias podres, dava das boas e das bonitas, o que para ella era um
gozo.
D'este modo o resgate de Adalberto foi uma felicidade para toda a gente.
Não deixaram a _casa branca_ sem terem recompensado largamente os
criados. Não sabiam o que haviam de dar a Natchès, que só apreciava o
que comia; teve um grande cartuxo de bôlos.
A familia de Valneige, depois d'alguns mezes de viagem, passou o inverno
no meiodia, e voltou na primavera para esperar os amigos em Valneige,
porque tinham promettido que aquellas doces relações se estreitariam
todos os annos por algumas semanas que passariam juntos. Que de vezes as
duas mães se recordaram uma com a outra da época de miseria e de
tristeza, que tinha atravessado a adorada criança! Que de vezes, como a
senhora Deschamps tinha previsto, a sua amiga pegou na fita doirada, que
guardava como testemunha dos dias de adversidade!
Adalberto cresceu na obediencia.
Hoje, que é um homem, obedece ainda; obedece ás ordens de Deus, ás leis
do seu paiz, aos conselhos e aos desejos de seus paes. Um dia, quando
for pae de familia, dirá como lhe diziam:
«Obedecei, meus filhos.»