Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do
Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e
apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar
da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão,
fazendo-lhe mil pequenos serviços.
Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as
compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella
cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração
desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma
coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia
moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.
Na ingenua criança, não havia difficuldade em aprender; mas na morena
filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:
--Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a
trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que
sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de
mim, o teu Deus!
Adalberto respondia:
--A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa
mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e
vê todas as caras.
O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice,
que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria
moral humilhava-a diante do prisioneiro.
Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do
desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre
as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e,
comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de
esconder.
Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e
traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.
--Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno
professor.
--Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrever _o
oe_, _a a_, o que é preciso para escrever _pae... vós... eu..._ etc.
etc., cá tenho as minhas razões.
O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no
chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava
muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram
quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.
Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem
todos os dias lhe fazia estudar o que chamava os _seus exercicios_, quer
dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo
quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande
facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças,
dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que
n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições
naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella,
fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em
pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes
feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar
vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka,
saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para
ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno
castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha
vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso,
humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.
Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por
principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa;
que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem
nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer
as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o
authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto
ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços
indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o
palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.
Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das
grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se
sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe
ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de
bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca
iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas
parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este
favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por
natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina
bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A
unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da
sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se
terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova
da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos
burros.
Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias
de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e
enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que
provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha
desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato
justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de
ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza,
comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos
admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.
Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com
isso.
O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma
grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que
mereciam grandes gargalhadas da multidão. O pequeno Valneige acabava ás
vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia
não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de
bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda
em cima, pagavam um vintem.
A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada
de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas,
um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr
de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha
muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto
do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com
Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora,
que não era senão grande barulho a compasso.
O final de todas as representações, o mais lindo do programma, era a
dança de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo
preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos
movimentos de braços attrahiam a multidão e a juntavam de roda do
theatro, Adalberto não deixava de cahir em um espanto visinho da
admiração. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de
romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lançavam
faiscas; havia o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma
grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella
hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares:
Gella, a _Andaluza_. Tocava muito bem castanholas, e dançava lindamente
a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a
applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam
flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um
pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe
dedicava, teria querido vêl-a sempre occupada com trabalhos de costura
ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho
grosseiro, que não a respeitava.
O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que
chamavam _um triumpho_, não parecia mais feliz por isso. Pelo contrario
uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas
vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a
Adalberto:
--Vês tu, meu pequeno, eu canso-me porque é o meu officio; mas se julgas
que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras
mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um
lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que
os proprios burros.
Exprimindo por esta forma nobres pensamentos na sua linguagem trivial, a
filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e
esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella,
juntava uma verdadeira estima.
[Ilustração pág. 181. Dançava lindamente. (Pag. 179).]
CAPITULO XIV
Adalberto teria sido o decimo quarto.
Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige;
só elles não estavam tristes, porque não tinham conhecido Adalberto.
Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores
variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um
bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados,
contentes de vêr suas mães, e de respirar uma suave frescura.
As mil occupações de uma grande exploração punham em movimento todos da
quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda o trabalho e a
esperança da proxima colheita que preparavam de longe.
O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que
differença entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e
triste, que presentemente havia.
Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no
collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua mãe.
No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da
familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este
tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem á
sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordação.
A senhora de Valneige sabia bem que as crianças não supportam a
tristeza; que na sua idade o espirito é muito inconstante e o coração
muito pouco formado, para não necessitarem uma grande distracção.
Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que
podem haver no campo, como passeios a pé e de carruagem, jantares sobre
a relva etc. Tinham installado um _tiro_ no parque para se exercitarem,
e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio
juntava-se o encanto d'um grande mysterio.
Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em
questão; não se sabia o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a
dizer:
--Mas o que será?...
O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas
vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as
ferias sem o menor cuidado. Não que elle tivesse menos boas intenções do
que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desapparição de seu filho, a
sua debil saude paralysava-lhe os esforços, e bem contra a sua vontade a
inquietação matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas,
feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo
n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar só, e nunca
pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua
dôr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha
Rosinha, que não se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito
querido pequeno. Mesmo quando estava só, a boa mulher murmurava,
continuando a fazer meia, que parecia não acabar nunca:
--E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria
succedido! Uma criança não conhece o perigo; é a obediencia que o livra
de todos os males.
Em quanto os corações dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos,
as ferias ião andando o seu caminho. Nada as fazia parar; ainda mais
dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o
collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, não deixavam de pensar muito;
não porque temessem o estudo como rapazes preguiçosos, que querem passar
o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e
entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a
sociedade exige d'aquelles que a hão de governar um dia. Sentiam tambem
quanto é vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relações, que
estabelecem entre camaradas a semelhança das idades e a vida em commum.
Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras ás
horas do recreio, cujos encantos são bem conhecidos, apezar das nodoas
negras que em geral se seguem.
Só dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao pé de sua
extremosa mãe, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem
gravada n'essa memoria do coração, que acompanha nos estudos as crianças
affectuosas.
--Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoço, chegou o momento de
conferir ao vencedor o premio mysterioso.
--Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor
fraternal.
--Não quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom
humor como rapazes de juizo, conheço que o coração deve estar muito
opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.
--Tem muita razão, minha querida mamã. E Frederico e Eugenio abraçavam
sua mãe, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:
--É ámanhã ao jantar, á sobremeza que eu hei de dar os premios.
--Como, os premios!
--Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O
papá fez a conta dos tiros; um de vocês tem vantagem, mas o outro
segue-o de tão perto, que, na verdade, não posso deixal-os partir sem
lhes dar um testemunho honroso. Terão, pois, um primeiro premio, e um
segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de
Champagne!...
Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em
Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio
viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia
d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.
D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da
visinhança: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais
intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que é uma grande coisa!
Estes sujeitinhos só comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos vem
dos antigos: «para ámanhã os negocios sérios.»
Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a
palavra _grande_ queria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda
de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos
outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não
se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o
coração nas mãos.
No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os
visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano.
Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha.
Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas
recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo
que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de
retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de
entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez
fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar
com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para
facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao
cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou
apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque,
sendo Frederico o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tres _senhores_
dentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava
de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a
condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder
impedir que fossem todos para o fundo.
[Ilustração pág. 189. Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)]
Estes divertimentos, interrompidos só por um bom _luncheon_, duraram até
ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres
condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com
affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.
Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma
animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um
momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção.
Eduardo exclamou de repente:
--Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com
jantares de treze:
--Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo
rindo.
O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o
espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.
--Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?
--É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que,
entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte do Justo por
excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela
Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do
Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito
tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda,
que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não
esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas
pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma
recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes
uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se
sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia
alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz
effectivamente mais barulho do que mal.
Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que
accrescentou com meiguice.
--Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho
superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem
sequer notaste o numero treze.
--Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.
--E porque, dize?
A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre, perturbou-se;
arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido,
como, que lhe escapou esta resposta:
--Porque elle teria sido o decimo quarto!
Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um
triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber
n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia
remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as
crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o
jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais
interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.
Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de
uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de
Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa
contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro
relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro
relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se,
abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis:
Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o
encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as
tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja
relojoeiros!
Quando Frederico acabou de vêr o relogio e de o agradecer á sua mamã,
tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava já achando os
preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio um _porte-monaie_
bem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio
animadissimo dispôz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, tão vivas
são as emoções dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia,
e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.
Todos partilharam sinceramente a alegria das crianças, e até seu pae
sahiu da seriedade em que tinha cahido. De repente, e quando uma
conversação animada demorava á meza tão intima sociedade, eis que a
velha Rosinha se precipita na sala do jantar, levada por um pensamento
que lhe faz esquecer todas as ceremonias.
--Desculpe-me, senhor, disse ella vivamente, o carteiro veio ha pouco e
deixou para o senhor uma carta que pôz sobre o buffete n'um cantinho,
entre o candieiro e a rolha do frasco da conserva. Parece que bebeu de
mais, o que é bem ridiculo para um carteiro! Tem uma lettra tão
exquisita, a carta. Não será isto d'alguem que nos dê noticias do
pequenino?
O senhor de Valneige, muito impressionado pela perturbação da boa velha,
tirou-lhe das mãos a carta mal dobrada, escripta em papel ordinario com
uma especie de tinta vermelha apenas legivel, sem ordem, nem
orthographia.
A senhora de Valneige ficou immovel, os convidados estavam anciosos e
Rosinha esperou de bocca aberta.
O senhor de Valneige leu em alta voz:
«_O seu pequeno está bem sou eu que sou a filha do homem que o tem se me
dão a sua palavra de honra que não fazem mal a meu pae eu o
entregarei.--resposta para o correio a M. XXX em Nantua._»
CAPITULO XV
Adalberto ficou sabendo porque Gella escrevia na areia.
Um dia de manhã tinham mandado Gella fazer compras a Nantua, porque era
perto d'esta cidade que estavam então acampados.
O pequeno Mustaphá acompanhava a rapariga para ajudar a trazer as
provisões. O unico prazer que tinha na vida era de longe em longe um
passeio com Gella. N'esse dia, á volta, e em quanto caminhava junto
d'ella, disse-lhe a sua protectora:
--Olha, tomemos este atalho, d'onde se não vê a carruagem, e vamos-nos
sentar um instante; tenho uma coisa para te dizer.
--O que é, minha boa Gella?
--Oh! grandes negocios; mas primeiro vais prometter-me não dizer palavra
da nossa conversa.
--Ah! Gella, não tenha medo. Para que ha de desconfiar de mim? Posso eu
fazer-lhe mal? E não vê que ha seis mezes, que não tento fugir, com medo
que seu pae se enfureça comsigo?
--És muito bom rapaz, bem sei. Ouve: tu não podes viver assim, é preciso
acabar com isto. Tenho muita pena quando penso que tens papá, mamã, uma
casa, e que podias ser feliz.
--Eu tambem tenho pena, mas o que hei de fazer, se gosto da minha Gella?
Ir-me-hia embora, acredite, se não fosse o receio de lhe fazer levar
pancadas, e sabe Deus o que mais!
--Pois bem, tudo se ha de arranjar; vou dizer-te o meu segredo.
--Um segredo?
--Sim, um grande segredo. Eu escrevi a teu pae.
--A meu pae? para que?
--Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu
pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?
--Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e
faltar; que um dia em Valneige o papá tinha ralhado com Frederico, por
me ter dado a sua palavra de honra de que não faria trapaça ao jogo da
bola e tel-a feito. O papá zangou-se muito e disse a meu irmão: Bem se
vê que não sabes o que é palavra de honra; quando um homem honrado a dá,
está compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer
faltar á tua palavra, não te chamarei mais meu filho. D'aqui até lá,
responde sim ou não, é quanto basta.
--Conheço essa historia, já m'a contaste e disse commigo n'esse dia:
Visto que se educam tão bem as crianças em Valneige, é porque é boa
gente; quando dizem sim é sim, quando dizem não é não.
--Oh! de certo, lá em casa é assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que
escreveu ao papá?
Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criança e com um
tom grave respondeu-lhe: