decidido que os peixes, ao contrario de nós, passeiam de boa vontade
quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos pés á cabeça sempre que o
ceo estava escuro. Por condescendencia com sua mulher, consentia é
verdade em se abafar mais; _cache-nez_, lenço de seda, gravata grande, e
chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de
maneira que punha o chapeu á banda, como quem dizia: «Que me importa!
Não serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?»
A senhora Deschamps, no interesse da paz, não fazia mais do que um
sermão respeitoso, depois do qual abandonava o marido á sua desgraçada
sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de
intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporação.
Sophia, n'estes casos, não deixava de fazer uma cara de piedade, e de
dizer, pensando em Julião:
--Ai! minha senhora, não me falle em homens; não ha nada peior do que
elles!
Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu
marido pelas _amendoas_ ou no dia dos seus _annos_, em quanto que a
senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa
branca, bom calçado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo
quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos
os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa
que lhe punham á mão, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao
armario; portanto não se esquecia mesmo do lenço d'assoar.
Julgam talvez que esta excellente senhora amaldiçoava o lago, que fazia
sombra á sua felicidade?
Não, teria sido uma d'essas opposições vulgares, que se encontram em
toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um
coração dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades
d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um chorão tão alto
como ella, que em poucos annos, á força de cuidados, tinha conseguido
crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua
linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.
Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se
para ao pé da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes
d'aquellas ondas. Não porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e
seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distracção, e
bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, á
mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de
proposito, um bocado de pão cortado para isso. D'isto resultava que os
peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava
sempre, e vinham ao encontro da senhora, que não gostava d'elles.
Pode fazer-se idéa, depois d'esta pequena descripção, como a vida era
doce e agradavel n'aquella modesta habitação a que chamavam a casa
branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solidão sobre
o fundo verde dos prados e sobre as diversas côres dos alamos e das
faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse
nome, que, se tivessem tido a lugubre idéa de lhe pintar as quatro
frentes de preto, é provavel que se continuasse a chamar a _Casa
branca_.
O corpo e o espirito repousavam á vontade entre essas quatro paredes,
tão chegadas umas ás outras, e á sombra da pequena propriedade. Uma
criança, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se
correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou
Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se só um, o bastante
para dar vida e animação.
Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia tão
socegada entre as couves e as ervilhas.
E a horta! que delicia! Ajudado por Julião, o senhor Deschamps revolvia
a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos
eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a
parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se não semeavam. Não era
grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos
podiam dizer como a cantiga:
Ha quatro canteiros
No jardim de minha tia...
A alegria dos dois _casaes_ era em grande parte devida á horta. O
senhor dirigia e participava do trabalho de Julião, tendo cuidado, bem
entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as
hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para
metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.
Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o
mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha
arrumado e acondicionado da traça o seu fato de inverno com tanto
empenho, que parecia uma rapariga. É que o coração conserva-se muito
tempo novo quando a tempestade o não sacode, e está solidamente amarrado
a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido
passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas
filhas, em nada invejava a sua habitação de inverno. De mais a mais
tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes
offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua
mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem
estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer
os seus preparativos de jornada.
Durante o inverno não ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro
vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear tudo
quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.
O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo
indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos á
propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi
paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher
tanto gostava.
Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio
era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro
anno de casados, era estimado não só como objecto d'arte, mas tambem
como uma lembrança. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa
até á adêga. Representava a nobre mãe dos Gracchos animando seus filhos
a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.
A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. Não se entrava
em duvida que a excellente senhora tivesse bastante força moral para
preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, não tendo
tido senão filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mães de familia
bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas
faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle,
e sua mãe dizia que valiam tres vezes mais.
Estava-se a vinte e dois de Março, dia escolhido n'esse anno para se
mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom
humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudança! Repartia-se o
trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julião as teias de
aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedição, e,
como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differença
de que abria caminho á civilisação, representada por Sophia.
Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido
n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador
tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfregão, e só
retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente,
como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.
Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar
tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda,
melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo
de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraçada, a boa
Sidonia começava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a
espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando
Julião, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o
feliz dono da casa não podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurança:
«Como se está bem aqui!»
Julgava então sua mulher ter conquistado o bastão de marechal, porque
não imaginava maior satisfação do que a alegria do seu Raymundo.
Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia
começou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chaminé
da cosinha, dirigiu-se para a adêga, com uma véla de cebo na mão para ir
buscar um pouco de carvão miudo e duas ou tres achas grossas.
Desce, entra, e o que ha de vêr? Uma taboa ao pé do tonel; o pouco
carvão que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de
distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...
Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adêga tão bem
fechada, Sophia experimentou uma sensação de medo, bem natural. Comtudo,
como não queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo
d'ella, a cosinheira, vendo que não havia, no fim de contas, nem um gato
na adêga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada
Julião e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.
Os homens admiraram-se; quanto á senhora Deschamps, sendo uma das suas
fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a
occasião. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.
Começou então o capitulo das supposições; foi comprido e interessante.
Quando já não havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto
não fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas
palavras escritas com carvão na parede. Diz a historia, que o rei
Balthazar tremeu de medo, vendo uma mão mysteriosa traçar sobre a parede
da sala do festim tres palavras, que elle não podia ler. A pobre Sidonia
teve, pelo menos, o espirito tão perturbado como elle, lendo esses nomes
lançados no subterraneo como outras tantas exclamações de afflicção:
Papá! mamã! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!
O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julião, que tinha sido
soldado, não poude deixar de proferir dois ou tres palavrões, que lhe
desculpavam nas grandes occasiões. Quanto á cosinheira, abandonada de
todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que,
sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adêga, e que ella nunca
mais lá voltava.
--Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa, é melhor pensar do
que ter medo, que é a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui,
não ha duvida; mas o diabo ataca as almas e não as garrafas vazias; e
não escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordações de
familia.
Sophia respirou um pouco melhor, porque tinha pelo senhor Deschamps um
verdadeiro respeito, fundado na discrição da sua opinião, quando se não
tratava da pesca.
Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o,
para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras
que ainda não tinham visto.
--Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!
A senhora leu com profunda emoção.
--Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!
Mais abaixo havia ainda:
--Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite faço nove annos... tenho
fome!
É preciso ser mãe para comprehender o que sentia a boa senhora
Deschamps. Uma criança tinha estado fechada n'este subterraneo, só,
abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.
Levantou a fita doirada e disse com uma profunda tristeza!
--Oh! meu Deus! quando penso que esta criança tem mãe!
E dizendo isto, a excellente senhora não poude conter o chôro. Seu
marido pegou-lhe na mão:
--Vamos, vamos, socéga, minha boa amiga, não te afflijas mais. Irei,
mesmo ámanhã, a casa do commissario de policia, virão lavrar o auto, e,
se Deus quizer, chegaremos talvez a encontrar o rasto d'esse
desgraçadinho.
--Meu querido Raymundo, eu guardo a fita, mostral-a-hei se for preciso,
mas não quero desfazer-me d'ella.
--Porque?
--Porque, vês tu, quando entregarem esta criança a sua mãe,
mandar-lhe-hei a fita. Pobre mulher! ha de conserval-a toda a vida como
uma lembrança.
--Não muito alegre, accrescentou Sophia.
--Ah! Sophia! Você nunca teve filhos!... Dirá, como toda a gente, que
esta fita é triste á vista; mas, quando estiver sósinha, ha de olhar
para ella, ha de tocar-lhe. Oh! eu bem sei, o que ella ha de sentir.
Em quanto subiam todos juntos, o amor maternal despertou-se por tal
forma no coração da boa Sidonia, que começou a scismar com verdadeira
inquietação na sua neta Genoveva que, quando passeava, ia sempre um
pouco longe de seus paes ou da sua mestra, não se lembrando senão de ir
atraz do arquinho.
--É preciso que eu escreva ámanhã de manhã á sua mãe, exclamou ella!
Deus meu! se furtassem aquella pequena!
D'este modo cada um se achou no vestibulo com uma idéa differente, mas
as quatro idéas tinham a mesma origem. Ao senhor Deschamps, como homem
pratico e escrupuloso, não se lhe tirava da idéa o commissario, uma
busca, os agentes de policia, uma circular, algumas linhas nos jornaes,
e por fim dois ou tres artigos do codigo.
[Ilustração pág. 159. Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)]
A senhora Deschamps pensava na pena da pobre mamã de Adalberto, e
agourava um desgosto igual para ella e suas filhas.
Sophia, muito consolada porque o demonio não tinha vindo á sua adêga,
fazia tenção de contar o caso durante toda a estação e fazer ler as
palavras mysteriosas a todos os seus conhecimentos; pensava mais que as
cebolas, que queria deitar no assado, não poderiam coser-se bem, porque
o acontecimento, a tinha demorado.
Julião, que sabia calcular, e que, n'outra posição social, teria sido um
bom mathematico, perguntava a si mesmo como demonio tinha feito o
rapazinho para sahir pela fresta. Entrar percebia-se, mas sahir! acabou
por achar a necessidade d'alguem o ter ajudado. Ao mesmo tempo, como era
cuidadoso, amaldiçoava o mofino rato que tinha roido a porta da adêga,
e, sem nunca deixar de pensar em Adalberto, cuidava tambem em tapar
aquelle buraco e vêr se quanto antes matava os ratos.
CAPITULO XII
Adalberto era o assumpto de todas as conversações.
--Ora, até que emfim chegaram!
--É como diz, e trazemos o bom tempo.
--Já tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de
andar sobre o molhado.
--Faço idéa.
--Que quer, senhora Juliana, quando se está no mundo é preciso aceitar o
tempo como Deus o manda.
--Vendeu bastante ao menos?
--Ora, _vossemecê_ bem sabe, maçãs sempre maçãs. Em quanto as ha
vive-se. As violetas não renderam quasi nada; e agora ainda as coisas
vão peior.
--Então porque?
--Porque a batata temporã já tarda.
--Ai! que preguiçosa.
--É assim mesmo. Ah! mas tudo isto são pequenas miserias; ha outras no
mundo muito maiores, senhora Juliana.
--Oh! se ha! senhora Tourtebonne!
Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam
de pé ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande
prazer; era uma distracção encontrarem-se duas vezes por semana, sempre
no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, não se separaram.
Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma
coisa.
Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata temporã, não se
prestando ás confidencias, foi Sophia quem começou, voltando á sua
primeira idéa, á falta d'outra melhor.
--É verdade, eis-nos outra vez de volta... não me dá cuidado; eu gosto
do campo. Aqui ha só uma coisa que aborrece, é a solidão.
--Não diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha tão
bonita!
--Mesmo por isso; se nós estivessemos a dez passos era melhor.
--Faz-me rir, senhora Juliana. _Vossemecê_ não era medrosa.
--Não era, mas sou agora.
--Queira desculpar, mas a razão vem com a idade. Ora diga, como quer que
entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.
--Apesar d'isso, entraram.
--Pelo buraco da chave?
--Não, pela fresta da adêga.
--O que! _vossemecê_ está a mangar; não cabe uma perna minha.
É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o
ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma
fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas
dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos
de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a
duvidar accrescentou:
--Não me acredita? Pois bem, venha vêr.
Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana,
acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.
--Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas,
aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é
estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o
architecto?
Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não
allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno,
Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto,
as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o que
tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o
seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande
eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as
palavras escritas com carvão.
[Ilustração pág. 165. Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)]
Quando chegou a isto: «Chamo-me Adalberto...»
Parou de repente, e exclamou:
--É elle minha querida, é elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora
vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! É
possivel!...
A emoção foi tão repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e
por pouco não cahiu sobre as garrafas vazias.
--Tome cuidado! disse Sophia.
A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em
sentido contrario, e poz os seus enormes pés no pó de carvão, que, não
tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou até ao avental branco da
vendedeira. Pois ella tão aceada, tão cuidadosa, não fez caso d'isso, e
repetiu tantas vezes: «É elle! é elle!» que Sophia julgou que ella tinha
endoidecido. Bem depressa viu que não era assim; a sua antiga conhecida
tirou o lenço da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia
facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito
loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe tinha escorregado dos
dedos; era a sua expressão favorita.
Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem
faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario
de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido
testemunha, e a declaração de ambos feita n'aquella mesma tarde.
Se o carrinho cheio de fructa não tivesse ficado lá em cima, e se um
bom bocado de vitella sobre o lume não reclamasse os cuidados da
cosinheira, não se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na
adêga.
As supposições da tia Tourtebonne não tinham fim; a imaginação ajudando
o seu bom coração, rodeava a criança de chimeras; tinha chegado a
querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: o
_meu_ rapazinho.
Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne
com o mais vivo interesse. Felicissima por vêr o negocio em boas mãos,
disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus
discursos, ainda que só acreditasse em metade, indicios de que poderia
tirar partido.
A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperança, porque, depois da
descoberta, não tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criança a
sua mãe. Ainda mais, acabou por sonhar acordada, o que era a maneira de
arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao
desfecho.
É incrivel! apezar dos seus cincoenta e cinco annos e o seu glorioso
titulo de avó, a boa Sidonia deixou-se assaltar por uma grande
quantidade de idéas, de projectos, de _castellos no ar_, todos dedicados
ao _pequeno da adêga_, como dizia Sophia. De todas estas coisas pouco
dizia a seu marido, que teria feito caçoada d'ella; ora o coração tem as
suas criancices, e não gosta que o juizo d'outrem lh'as faça sentir. O
senhor Deschamps, tão bom marido, não percebia absolutamente nada de
sonhos, de supposições e de commentarios; quando se achava n'outro sitio
que não fosse á borda do seu lago em dia de chuva, era positivo até ao
ultimo ponto; e por isso apreciava Julião, que tudo fazia com methodo.
De tempos a tempos queixava-se, sem se zangar, de que se fallava um
pouco de mais em Adalberto, e, se sua mulher entristecia, fazia-lhe
notar que uma só das suas indagações, feita a tempo e a horas,
adiantaria mais os negocios que todos os discursos e todos os suspiros
que se podem imaginar: a isto a boa Sidonia, não achando que responder
puxava a agulha e fallava de outra coisa.
CAPITULO XIII
Adalberto tinha já passado dezoito mezes na casa do saltimbanco.
Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito,
suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de
consolação physica, mas o seu espirito e o seu coração revoltavam-se.
Não perdia, comtudo, nem a esperança nem a coragem, e não esquecia que
muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que
torna um homem menos forte do que a desgraça é a falta de animo.
--Eu, pensava elle, sou um homem como o papá, excepto a idade e a
altura; é preciso ter coragem.
O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordações de
familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe
comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. Não
achava prazer algum na companhia do bom Natchès, que só tinha a
intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos
desgraçado do que parecia, porque não sentia o horror da sua situação.
Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, tão
fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria
despertado a sollicitude d'uma mãe; mas Tilly não chegava a saber o que
era uma mãe. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a
reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda
pretextos para ralhos.
Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer
ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os
progressos do que ella chamava o seu _defluxo_. Esse defluxo era uma
indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas
vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com
tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:
--Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.
As duas crianças raras vezes conversavam. Desde a sua fuga, Adalberto
era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo
receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação
lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha
lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco
era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra
casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu
aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que
evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto
lhe custava chamar-lhe _avósinha_. Esta querida criança ficou espantada,
quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito
que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe
Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.
--Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?
--Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza,
quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se
ama a Deus de todo o coração.
--Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me,
acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para
o Céo?
--Essas coisas não se sabem.
--Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando
tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.
--Pode ser, não entendo d'isso.
D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido
de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso
reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes,
e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro
nome: