Cada momento augmentava este soffrimento, e a pendula, que se ouvia na

casa de cima, parecia cantar as horas de vida que restavam ao joven

Valneige. Os mais tristes pensamentos o perseguiam. Como estava bastante

adiantado nos estudos para uma criança da sua idade, tinha lido as

aventuras de viajantes, que tinham ido parar a ilhas desertas, sem

saberem a sorte que os esperava.

Comtudo, havia dois ou tres coqueiros cujos fructos elles comiam, uma

ave brava que assavam bem ou mal, ou pelo menos um rochedo de que

arrancavam algumas ostras; mas n'este subterraneo, nada, nada, senão

carvão, madeira, garrafas vazias; era preciso sahir d'alli a todo o

custo, ou então morrer á fome.

Á medida que o dia ia passando a cabeça do prisioneiro enfraquecia-se,

e, sem querer, a coragem abandonava-o.

Não se atrevia a andar, tendo notado que a sua dôr de estomago se

tornava insupportavel quando se mexia. Encolhido ao pé do tonel contra o

qual encostava a sua pobre cabeça, e olhando para a fresta, esperava

ainda, porque sabia que não estava completamente abandonado. Deus via-o,

e, para responder ás suas innocentes supplicas, enviava-lhe de tempos a

tempos pensamentos dôces e beneficos, como tudo quanto nos vem do céo.

O cativo lembrava-se de ter aprendido de cór a linda historia de José,

que a Providencia tinha retirado de uma cisterna, onde seus maus irmãos,

o tinham deitado; e disse comsigo:

--José era quasi tão infeliz como eu, e pensava em Jacob como eu penso

no papá; mas elle ao menos não tinha deixado Rachel!... Devia ter tido

grande medo, e, comtudo, sahiu da cisterna. E eu tambem hei de sahir

d'este subterraneo. Não é assim, meu Deus, vós me enviareis alguem! eu

sou um outro pequeno José, tende compaixão de mim!

D'este modo a esperança renascia no seu coração, e um quarto d'hora

depois uma tristeza profunda o acabrunhava.

Voltavam então todas as recordações de Valneige; estas recordações

despedaçavam-no. Parecia-lhe que tudo estava perdido, e chorando

lagrimas amargas sobre a sua desobediencia, dizia baixinho, como se o

podessem ouvir!

--Perdão papá! perdão mamã! perdão todos!

Uma idéa pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraça; lembrou-se que

n'aquelle mesmo dia, ás nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia

3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasiões,

havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criança que nascia era

mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de

ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um

festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha

juntava alguns pasteis feitos pela sua mão. O senhor de Valneige estava

n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus filhos,

fechando os olhos ás ligeiras infracções do regulamento. Se por desgraça

dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para

não ser obrigado a castigar.

Em quanto á doce e paciente Adilia bastava não sahir dos seus habitos

quotidianos para a sua presença tornar todos felizes; e não ha duvida

que se ella faltasse á reunião todos exclamariam: «Onde está então a

festa? falta a mamã aqui.»

--Que farão lá em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando.

Ninguem dirá em voz alta: é hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente

o pensará. Não haverá festa; o papá ficará na sua poltrona a ler o

jornal, e póde ser que ao jantar diga: «Então, Adilia, tu não comes?»

Mas não perguntará porque á mamã. Saberá que é por causa do seu

filhinho. Oh! que desgraça! meu Deus, que desgraça!

A pobre criança era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma

d'estas inquietações pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam.

Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande

quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em

pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de

revez, tendo tanto horror de os vêr como de os esborrachar. Uma enorme

aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade

no seu officio de tecedeira, que o pequeno não lhe dava grande attenção;

eram os bichos pretos que o atormentavam.

Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os

soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas,

porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio

tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz

pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperança

que o sol dá aos desgraçados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus

pezares as vagas tristezas da escuridão.

Então a pobre criança pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que

o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As

suas forças diminuiam, sentia a cabeça pesada, todo o seu corpo se

tornava molle e perguiçoso, como se fosse dormir o seu ultimo somno.

Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta.

Adalberto via o dia acabar, e não julgava tornal-o a ver mais.

Por um profundo sentimento de ternura, teve a idéa de pegar n'um bocado

de carvão e de escrever na parede os nomes de todos aquelles que amava.

Levantou-se com custo, e com a mão que a fraqueza e a ternura fazia

tremula escreveu: Papá, mamã, Camilla; e as lagrimas saltavam-lhe a cada

palavra que lhe lembrava a sua familia. Arrependia-se do fundo do seu

coração, não só da sua ultima desobediencia, mas de todas aquellas que

tinha commettido durante annos; não só das que seus paes tinham

castigado, mas tambem d'aquellas, mais numerosas, que só Deus tinha

visto.

No seu arrependimento, o desgraçado pequeno, pôz-se de joelhos, e, com o

coração despedaçado pelo desgosto, escreveu com grandes lettras:

«Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!»

O dia acabou de todo, e Adalberto foi de novo encolher-se sobre a sua

taboa com as costas para o tonel. Um silencio de morte deixava-lhe ouvir

a sua respiração desigual, e até os seus menores movimentos.

Um pouco mais tarde, a chuva começou a cahir fóra e o vento fez gemer as

faias que guarneciam o caminho deserto. A criança quasi desfallecida de

fome, de pena e de miseria, fechou os olhos, e, julgando que se chamava

morrer ao que sentia, abaixou a sua cabecinha e disse baixinho: Mamã!

CAPITULO X

Adalberto hesitava.

Havia muito tempo que o filho da senhora de Valneige não se mexia, e que

julgava realmente as suas forças esgotadas. O relogio acabava de dar

oito horas. Como o céo estava escuro e a tempestade agitava a natureza,

a estrella não appareceu, aquella estrella a que na vespera tinha

chamado Adilia; estava pois alli sem consolação, esperando, sem saber

mesmo o que esperava.

De repente, sentiu passos, depois a bulha de um vestido sobre o varão de

ferro que atravessava a fresta, e uma voz muito doce que dizia baixinho:

--Pequeno, estás ahi?

Bateu-lhe com força o coração; levantou-se de uma vez, espantado da

força que a emoção lhe dava; mas bem depressa julgou sonhar porque não

ouviu mais nada.

Cheio de anxiedade, escuta... Repetem baixinho:

--Pequeno, estás ahi?

--Sim, sim, estou, gritou Adalberto, tira-me d'aqui! tira-me d'aqui!

O prisioneiro acabava de reconhecer a voz de Gella, voz boa e doce

quando ella fallava baixo e amigavelmente. A rapariga tinha-se inclinado

sobre a fresta; uma luz fraca deixava vêr debaixo a sua cabeça, sem que

se podesse distinguir mais do que um vulto negro.

--Escuta, diz ella, eu trouxe uma escada de corda; vou atal-a ao varão

de ferro e tu vais subir. Uma vez cá em cima eu te ajudarei a sahir.

Ao mesmo tempo Gella punha em pratica o que dizia; e Adalberto via

vagamente uma coisa que descia pela parede. Não se assustou muito d'este

meio de salvação porque em Valneige mais de uma vez tinha feito esse

exercicio gymnastico.

Os seus dedos apalpando podiam já apanhar a escada de corda, quando

começou entre elle e a filha do Saltimbanco, um dialogo que pintava a

luta horrorosa, do espirito contra as aspirações da vida e da esperança.

--Menina Gella, se eu subir, vai levar-me para a casa do saltimbanco?

--Sim.

--Antes quero ficar.

--Mas, meu pobre pequeno, tu vais morrer de fome.

--Custa muito?

--Oh! se custa! muito!

--Não importa, antes quero morrer.

Respondendo antes quero morrer, o desgraçado tocava instinctivamente na

escada de corda, unica ligação entre elle e o mundo. Comtudo, por outro

lado, tinha tão grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um

ultimo esforço, foi pôr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde

a rapariga podesse talvez vêl-o, e, estendendo-lhe os braços, como se

ella fosse a Providencia, disse-lhe:

--Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que

me tomem por um ladrão e que me mettam n'uma prisão, e então terei de

comer. Mas, rogo-lhe, não me leve! Oh! não me leve! deixe-me fugir!

--É impossivel, meu pobre pequeno!

--É sim! verá que é possivel! Oh! não diga que não; supplico-lhe pelo

amor Deus!

Adalberto lembrou-se que não conheciam Deus na casa do saltimbanco.

Disse-lhe então com ternura.

--Tenha dó de mim, pelo amor d'aquelles que estima.

E, como ella não respondia, perguntou-lhe:

--Nunca gostou de ninguem?

--Palavra que não, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma

voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno,

e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te não

fariam mal.

--Gosta de mim?

Immediatamente a criança cessou de chorar; pondo o pé sobre o degrau da

escada subiu, e, quando sentiu as mãos fortes de Gella tocar-lhe na

cabeça, respirou mais livremente, porque tambem gostava da rapariga.

Ella, com o maior geito, ajudou os movimentos da criança, que, apoiando

as mãos no varão de ferro e os pés na escada de corda, conseguiu, não

sem custo, sahir do subterraneo.

Quando se viu em pé no chão, o seu primeiro pensamento foi lançar-se nos

braços d'essa rapariga esfarrapada que acabava de lhe salvar a vida.

--Então, disse-lhe ella, já não tens medo de mim?

--Oh! não.

--Porque tinhas tu medo?

--É que eu não sabia se tinhas coração, disse ingenuamente Adalberto.

Gella, depois de um grande suspiro, respondeu:

--Ai, filho! no nosso modo de vida quasi não se sabe se o temos ou não.

O officio assim o quer; mas nada temas. Tomemos por este atalho. Podes

tu andar depressa?

--Oh! não! tenho muita fome!

--É verdade, já não me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu pão que

guardei para ti; come.

Adalberto precipitou-se sobre o pão que lhe davam. O filho do senhor de

Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre

dançarina de feira. De mais, este pão não era o pão da miseria, era o

pão da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de

Adalberto fraquejavam.

A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixão;

pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era

pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no

estado de fraqueza em que elle se achava.

N'esse momento, o vento abrandou, o céo aclarou-se, e Gella viu que o

pequeno estava todo preto.

--Que tens tu, Mustaphá?

Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella não se admirou; fôra o desejo

de escapar a seu pae, a sua avó, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem

natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos

pés por baixo dos seus robustos braços, encaminhou-se para um grupo de

carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era

grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com

aquelle abandono que nasce de repente das situações extremas.

--Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adêga. Porque não me

respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me então muito má?

--Não sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchès, não dizias

nada.

--Podéra! isso succede tantas vezes, que já não se faz caso. E depois, é

tão tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia

evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que não é feliz. Mas, vês tu,

quando se é creado com pancadas não se faz caso das que levam os outros.

--Tem ar de bom, Natchès.

--Dize antes que tem ar de tolo. Não comprehende, nada, a não ser uma

cambalhota. Quanto mais cresce mais tolo se torna.

--Menina Gella, é talvez porque ninguem gosta d'elle.

--É possivel; nunca tinha pensado n'isso.

--Tu, ouve, chama-me só Gella; não sabes que eu gosto de ti?

--Oh! sim! visto que lhe deram pancada por minha causa! que bondade! Mas

diga-me o que se passou quando viram que eu tinha fugido.

--Digo: o pae entrou furioso e disse-me que eu respondia por ti,

Mustaphá.

--Oh! Gella, quer fazer-me um favor?

--Sim, mas qual?

--Não me trate nunca por esse feio nome quando estivermos sós; diga como

diziam lá em casa: Adalberto.

--Oh! meu filho, o que me pedes tu? é impossivel.

--Está bem, chame-me como ainda agora quando me dizia baixinho:

_Pequeno_, estás ahi?

--Pois sim. Dizia eu que o pae estava furioso. Poz-se a procurar pela

cidade; uma mulher fel-o parar e fallou-lhe do commissario de policia.

Elle então disse que te avistava e safou-se. Quando nos juntámos, elle e

eu, sem te havermos achado, cahiu sobre mim e deu-me pancada! oh! mas

que pancadas! a tal ponto que eu, que tive sempre medo d'elle,

zanguei-me e resisti-lhe.

--Como! teve animo?

--É verdade, sentia-me fóra de mim. Disse-lhe que estava bem contente de

te haver perdido, porque se era muito infeliz com elle, e accrescentei:

«Sei onde elle está, mas não irei buscal-o com medo que o espanques. Se

elle fallar, tanto peior para ti.» Elle tornou a praguejar e a

bater-me...

--Pobre Gella, tudo por amor de mim!

--E acabei por lhe gritar: «Pois olha não has de tel-o, só se

prometteres não lhe bater se eu o trouxer.» Ainda não sei como esta

palavra o acalmou; deixou de me maltratar e disse-me: «Vai buscal-o, que

lhe não tocarei, e prohibo a mãe de o castigar.»

--Oh! boa Gella! quanto lhe agradeço! Mas sabia então que eu estava

n'aquella adêga?

--Estava certa d'isso. Tive pena, mas pena como nunca tive de ninguem!

Dizia commigo: se o deixo ali dentro, que triste morte! e se o levo, que

triste vida!

--Gella, visto gostar de mim, porque me não deixa fugir?

--Oh! meu pobre pequeno! Toda a cidade está álerta por se ter perdido uma

criança. Se te escapas, far-te-hão perguntas, prenderão meu pae, mas

antes de o levarem matar-me-ha elle, e serás o culpado. Queres fazer-me

mal?

--Não, não, minha boa Gella, prommetto-lhe que hei de ter juizo,

respondeu affectuosamente Adalberto, que o reconhecimento já prendia á

sua protectora.

Não disse mais nada; mas olhava de longe para uma lanterna, que dava uma

luz baça sobre os carvalhos. Era a da carruagem.

A uns cem passos de distancia, Gella poz o pequeno no chão e deu-lhe a

mão.

Elle não pensou mais em fugir. Que o Hercules fosse preso, e que elle,

Adalberto, fosse a causa, parecia-lhe uma desgraça bem pequena; mas

excitar a vingança de um homem como aquelle, e entregar á sua terrivel

colera Gella, que o salvára... que ingratidão! Caminhava devagar ao pé

d'ella dando dois passos em quanto ella dava um.

Quando chegaram poz-se a tremer; a boa rapariga apertou-lhe a mão e

socegou-o. Gella, era uma authoridade.

Tornando a tomar por natureza e tambem por calculo os seus modos

asperos, disse bruscamente:

--Aqui o tens, elle aqui está, o teu _pequenote_. Vamos, Mustaphá, sobe,

avia-te.

Todos dormiam, excepto o homem de ferro que não disse palavra. A criança

morria de medo por tornar a entrar na carruagem; Gella seguio-a e a

porta da casa do saltimbanco fechou-se sobre elles.

Adalberto ousava apenas respirar.

Teve então logar uma scena horrorosa, que se não pode descrever. A

colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha

crescido de hora para hora; fez explosão. Tinha promettido não bater no

fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a

filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de

itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os

boatos que não deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e

entrecortadas sahiram primeiro dos seus beiços contrahidos pela raiva,

depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e

que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas palavras

imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre

a desgraçada espancou-a!

Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo,

pedindo perdão!... Inutil! o pae, fóra-de-si, parecia ter-se esquecido

de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.

O pobre pequeno, estendia os braços para a sua victima, recebia algumas

vezes sôcos e pontapés, que eram destinados para ella, e ninguem se

mexia na casa do saltimbanco, a não ser a pobre Tilly que, apenas

coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mãos postas, como um

anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio.

Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a

Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.

O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella

envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e

foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou

tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do

saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.

[Ilustração pág. 141. Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag.

140.)]

Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a

pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a

obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito:

«Gosto de ti,» e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria,

pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.

--Tu vês, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te

fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!

N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraçado pequeno esqueceu

o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu só o sangue que corria por

amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoção profunda e

de um igual reconhecimento, deitou-se aos pés da pobre rapariga e fez

este juramento:

--Ó Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu

cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!

Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas

que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno

de Valneige e respondeu apenas:

--Acredito-te.

A criança viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os

cabellos ensanguentados; não sabia o que havia de imaginar para lhe

fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: «Coragem! porque ha um

céo!»

No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como

esmagado pelo seu juramento: era não só o prisioneiro d'esse homem

barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.

CAPITULO XI

Adalberto tinha escripto o seu nome na parede.

Com a volta da primavera tinham-se aberto as taboinhas d'aquella casa

branca: e que singela e bonita ella era!

Vêde como está feliz a familia que a habita, por tornar a achar-se

n'ella! Longe do bulicio das cidades parece um ninho entre as folhas.

Não é a riqueza; não é tambem a pobreza. Pode viver-se alli socegado,

sem custar muito parecel-o. Felizes aquelles que se contentam com pouco!

D'este numero eram os tranquillos donos d'aquella pequena casa. Tinham

sido novos como toda a gente, mas já o não eram. N'elles o gosto pelo

campo era natural. O senhor e a senhora Deschamps tinham passado os seus

primeiros annos dizendo, a passear, mau grado seu, nas ruas de uma

grande cidade: «quando os nossos filhos casarem iremos plantar as nossas

couves.»

Ora, as crianças apenas começavam a comer e ainda usavam touca. Foi

preciso esperar trinta annos.

Nunca se viu esposos que melhor se combinassem. O reciproco desejo da

felicidade tinha apagado as pequenas differenças, de modo que o senhor,

que detestava o créme de chocolate, tinha acabado por comer d'elle.

Ainda mais, a senhora, que antipathisava com os cães, supportava de boa

vontade o valente Tom, de que seu marido gostava.

O senhor e a senhora Deschamps dedicavam o inverno ás suas filhas

casadas, vivendo como ellas e ajudando-as com os seus cuidados, os seus

conselhos e o seu amor. Chegado o verão, faziam dez leguas em diligencia

para o irem passar socegado na casa que um parente lhes tinha legado,

com um pequeno bosque cheio de sombra, um jardim cheio de flôres, um

pequeno lago abundante de peixes, e por toda a parte sol, perfumes, o

campo, emfim, como elles d'antes sonhavam. O isolamento d'aquelle logar

era o seu maior encanto. Seria preciso dar duzentos passos, pelo menos,

para ouvir dizer mal d'alguem.

Todos se estimavam n'essa casa, a começar pelos donos d'ella. Eram

servidos por uma estimavel criada chamada Sophia, que justificava o seu

nome pela prudencia, ordem e economia que tinha em todas as coisas. Não

se podia dizer se ella era cosinheira, criada de quarto, encarregada da

capoeira ou da dispensa. Dependia tudo das horas e das circumstancias.

Para simplificar chamavam-lhe a _governanta_ Seu marido, o honrado

Julião, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado,

n'uma palavra _factotum_. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bons

_casaes_ em tudo.

Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais coração do que

cabeça; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma

moderação!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de

acordo; Tom, não vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha

acabado, á falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era

recommendavel por muitas razões, bem criado, não arranhando, tendo o

roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim,

parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava á querida

senhora um enternecimento quasi perpetuo.

Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido

possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha

um pardal sem pretenção, mas bom _rapaz_, o qual lhe fazia cortezias.

Comtudo, tendo-se notado que tomava ares de aborrecido, contra os usos

da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo

pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.

No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitação. Todas as

manhãs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de

chá. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o

achava bom.

Uma grande preocupação, era o cuidado no lago. O nome, é preciso convir,

era pomposo, mas emfim supportava-se para não se dizer o charco... Havia

n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido

Raymundo tinha uma paixão, a menos buliçosa de todas as paixões, mas

tambem a mais perseverante.

Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse;

não que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de

seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!

Era preciso vêl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os pés na

herva molhada o braço estendido como uma taboleta de loja, com a linha

de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino

peixe para frigir.

--Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps, que elle tem o seu capote

forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortiça nos sapatos, e

que tem tamancos. Bem sei que se lhe não vêem os olhos, nem as orelhas,

mas só um bocadinho do nariz; não importa; eu preferia, quando chove,

saber que está em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:

E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos

sem fim da escripturação, entretinha-se com diversas obras de

marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher

apressou-se a pôr-lhe cortinas verdes para que a claridade não fosse

forte, e um pequeno fogão para quando a estação ia adiantada. Gostava de

ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete não o incommodava

nem o sol, que poderia fazer-lhe mal á cabeça, nem a humidade tão

perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o á

chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem

fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas

nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.

A Casa do Saltimbanco · 第 5 / 11 段