O que tudo junto queria dizer _sim_, tanto quanto era possivel, porque o

senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um

cantão da Normandia, onde as tradições se tinham conservado intactas

desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos

freguezes mais alguma coisa do que _huns_. Usava então de rodeios

engenhosos, de interjeições expressivas, mas nunca chegava o _sim_

compromettedor.

Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque não?... o que

pensa?... vamos!...

O FREGUEZ.

Os seus arenques são frescos?

O VENDEDOR.

Ainda o pergunta!

O FREGUEZ.

São os que lhe trouxeram esta manhã?

O VENDEDOR.

Então quaes haviam de ser?

O FREGUEZ.

São os mais frescos que tem? não é assim?

O VENDEDOR.

Julga que eu era capaz de lhe mostrar má fazenda? Diga lá.

O FREGUEZ.

Está bom, dê-me seis.

O VENDEDOR.

Aqui estão e dos bons. Agora ha de querer queijo, não é verdade?

O FREGUEZ.

Não pense n'isso.

O VENDEDOR.

Pois é bom e estomacal. Quem não come queijo sente peso no estomago.

O FREGUEZ.

Parece-lhe?

O VENDEDOR.

A prova é que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me

conheço; portanto...

O FREGUEZ.

Pois sim, dê-me um pouco, não muito.

O VENDEDOR.

O que quizer.

O FREGUEZ.

D'esse não; está muito duro, não está?

O VENDEDOR.

Excellente!

O FREGUEZ.

Este deve ser melhor.

O VENDEDOR.

Optimo!

O FREGUEZ.

De qual ha de ser.

O VENDEDOR.

Leve d'ambos.

O FREGUEZ.

Oh! não, basta-me um, e já é de mais.

O VENDEDOR.

Corta-se em dois, o que faz com que só se veja metade.

O FREGUEZ.

Este parece-me menos sêcco.

O VENDEDOR.

Com certeza.

O FREGUEZ.

E o outro?

O VENDEDOR.

O outro tambem.

O FREGUEZ.

Conservar-se-ha?

O VENDEDOR.

Depois me dirá.

O FREGUEZ.

Responde por isso?

O VENDEDOR.

Se o não achar bom torne a trazel-o.

D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez,

cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos

dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer

é que cheirem bastante.

Tal era o senhor Baptista, não fallando por sua vontade senão para os

seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella

resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, não era facil

escapar-lhe; por isso continuava com viva emoção e no interesse da

moral:

--Pois é verdade, já não ha crianças! quem tal havia de imaginar? Um

pequenote que não responde quando a gente lhe quer fazer um serviço? Ah!

se o papá tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. É

preciso ser bem creado e não voltar as costas quando alguem falla.

Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha

dado meia volta á direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a

polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fêl-o

parar, sem querer, no limiar da porta.

--Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que não sabe o

caminho devia estimar muito que eu deixasse as maçãs para lhe dar

attenção. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que enfia

pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos

filhos como se elles fossem de pedra e isto não os prende em casa. As

crianças basta só castigal-as, não se devem espancar. Este pobre pequeno

é talvez muito infeliz. Ainda agora estava á porta do carvoeiro com sua

irmã mais velha e duas outras crianças, um rapaz e uma pequenita. Viu-os

senhor Baptista?

Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda

d'ella com o tal _hum!_ que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres

signaes com a cabeça d'alto a baixo, o que equivalia a _sim_, _sim_,

_sim_.

--Ah! _vossemecê_ viu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço

grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de

fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é

que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é

bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia

curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança

furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah!

se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns

pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que

teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é

preciso chamal-o.

--Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma

fita doirada no cabello?

O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira,

emquanto esta continuava:

--Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas

qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle

corre. Mas é preciso que _vossemecê_ o ache. Escute, se o rapaz quer

fazer das suas, vou ensinar-lhe a _vossemecê_ o meio de o apanhar.

Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um

commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda

e para a direita; eu vou conduzil-o lá, _vossemecê_ diz-lhe o seu

negocio e elle lhe fará achar o pequeno.

Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até

então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo

affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja,

deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.

Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços

cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos

penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque

ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe

eram familiares.

Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para

lhe dizer:

--Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do

diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no

commissario de policia?

--Hum!

--Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e

vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A

prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei

o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse

medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza,

e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista, _vossemecê_

que teve um filho, o seu pobre Augusto?

Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu

á tia Tourtebonne;

--Penso como _vossemecê_, que é uma criança roubada.

O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das

coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do

seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça

infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer

na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca se invocava

em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista

sahia sempre do seu adormecimento.

--Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro

do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar

que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que

lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para

que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos,

infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu

os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os

dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.

A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto,

pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que

nunca tinha visto.

Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou

os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as

impressões succediam-se rapidamente.

--Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma

declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista?

_vossemecê_ que gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o

tivessem roubado?

--Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da

vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente;

deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.

Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro

da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu

cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe

chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo

conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta

annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas

maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se

basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir

alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias,

necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha;

e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha,

rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma

amiga de infancia.

Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande

gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a

pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia:

--Toma lá, meu pequeno, péga n'esta maçã, está meia podre; se eu fosse

rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.

E quando a pobre criança dizia obrigado, respondia:

--Não por isso, meu canito; dá-me gosto vêr-t'a roer.

Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito

tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro

palavras e alguns _huns_!

O senhor commisario registou a declaração e disse que estes depoimentos

poderiam mais tarde ou mais cedo ajudar a infeliz criança a achar a sua

familia.

O senhor Baptista e a tia Tourtebonne retiraram-se de braço dado, como

tinham vindo, e para acabar esta tarde de emoções o carrinho poz-se a

caminho até á habitação da excellente mulher, que morava exactamente

n'uma das ultimas casas da cidade, do lado pelo qual Adalberto tinha

fugido para a planicie.

Como ella não só tinha bom coração, mas tambem o espirito inventivo, não

adormeceu senão muito tarde, bem decidida a não perder de vista este

negocio, e a empregar toda a sua finura e toda a sua perspicacia no

serviço da criança perdida. Durante este tempo, o nosso amiguinho

estava, como nós vimos, em um subterraneo e contava bem tristemente as

horas do seu captiveiro.

[Ilustração pág. 111. Offereceu cortezmente o braço. (Pag. 109.)]

CAPITULO IX

Adalberto tinha fome

Deixámos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitação no

seu tenebroso isolamento.

Esta solidão durou muitas horas. Tão depressa julgava que a ratazana

estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A

sua imaginação criava mil soffrimentos que não existiam.

Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupação que,

livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.

Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira.

Assimilhava-se a um marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta.

Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se

effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente,

descançando apparentemente; mas então a immobilidade era absoluta, o

silencio completo, nem respirar se ouvia.

Quando Adalberto poz na idéa, que estava um homem do outro lado da porta

e na escuridão, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem

seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado,

via-se á mercê de um estranho que podia ser outro malvado, um ladrão de

crianças!

Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bôcca para

dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as

vezes faltava-lhe a voz como em um sonho máu. Graças a esta

extraordinaria inquietação, tinha esquecido o rato, lembrando-se só do

operario.

Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que

muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem

differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois,

este individuo trabalhava ás escuras mais outra coisa para admirar!

Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que é uma grande vergonha quando

se está destinado a ser um homem, a conduzir, a governar, é provavel que

adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe

mesmo provado, que, as bulhas que se não podem explicar logo, são quasi

sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige

tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que

elles tinham, começado a mostrar algum discernimento.

Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lições

praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso.

Valia-lhe isto na sua cruel posição, porque, no meio das suas

afflicções, não deixava de ser o mais razoavel que a sua idade

permittia.

Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse

porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra

singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma

pessoa que se affastasse.

A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria

agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no

espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao

momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha

adormecido.

O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar

poderosamente os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante

que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam,

que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios

para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre,

como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações,

penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e

n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação;

mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.

Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas

ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas

recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir

sempre.

Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes.

Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das

outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e

pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que

tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe

mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre

uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular

que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente,

havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer gravar na parte de

dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.

Quando Adalberto era pequeno, se havia sido _bonito_, obtinha da sua

mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que

representava o seu nome.

Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o

famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:

--Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto

é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!

Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se

assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã

beijava-o; acabava sempre assim.

Este annel representava um grande papel na educação maternal do

pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer,

que tinha dito um _não_ pensando _sim_, que tinha, n'uma palavra,

_mentido_, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito

severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder,

mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno

não tinha mentido mais desde esse dia.

Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na

sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de receio. O

resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E

depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador

mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma

porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o

balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.

Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que

medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes

mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com

esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a

impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus

nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela

feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria

talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse

tão devagarinho:

--Pequeno, estas tu ahi?

Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente

levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules

ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia,

não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus

olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso

no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.

Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para

saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle,

sósinho, e longe dos seus bons paes?

Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da

sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça

transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um

sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada

malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter

cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a

casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um

subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que

elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa

de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida

dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as

taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um

unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha,

de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se

costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns

centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de

prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas,

um tonel, uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que

tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns

bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr

n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho

estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó;

devia parecer exactamente um limpa-chaminés.

--Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau

homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.

N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias

o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas

sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de

ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na

cabeça.

Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado,

nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a

senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o

seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!

Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu

vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta

que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.

[Ilustração pág. 121. Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)]

Se elle tivesse podido arrastar o tonel para debaixo da fresta e pôr-lhe

em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande

custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel;

Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia

agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em

mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança

de resultado.

Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia

pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados

havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a

supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de

lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a

chorar, porque homens não choram por tolices.»

O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para

restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o

calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.

Sósinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o

trabalhador não dava signal de vida, Adalberto experimentou um

sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos

aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo.

Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. «Ah! se

eu tivesse sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?»

Graças a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer,

Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por

este lado não teve mais inquietação. Este socego deu-lhe vagar para

pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou não alli?

O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da

chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fóra, e a

criança apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a

claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico

intermedio entre elle e o mundo.

Comtudo, o solitario conseguira vêr assim distinctamente o que o

rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de

forma semi-circular, e sobre o chão uma poeira amarellada que não era

mais do que a madeira reduzida a pó por um trabalho perseverante. A

criança, que tinha uma imaginação viva, sabia aproveitar as suas

recordações. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha

fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar

alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos

dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado:

«Ai! que ruins bichos! pois não parece que isto foi feito por um

marceneiro?»

E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo

andar tinha accrescentado: «Na verdade, se eu esta noite não soubesse

que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que

eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.»

Adalberto applicou á circumstancia estas diversas lembranças, e,

comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto

marceneiro tinha passado a noite no canto da adêga, e não era outro

senão o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de

começar a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma

verdadeira consolação; mas esta mesma consolação permittiu-lhe pensar

mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes

mais ameaçador. O que era?

A criança bocejava a cada instante; não era o somno que causava estes

bocejos repetidos.

Sentia um incommodo desconhecido; parecia que lhe apertavam a cabeça

carregando-lhe nas fontes, e o seu estomago, que tinha tido tempo para

esquecer a ordinaria sopa dos Ciganos, pedia imperiosamente alimento.

A Casa do Saltimbanco · 第 4 / 11 段