saltimbanco? O trabalho era todo o exercicio que póde tornar o corpo
flexivel. O mestre collocava em linha Karik, Natchès e Tilly; faziam
passos de dança, davam pulos e cambalhotas. O Hercules punha sobre os
seus robustos hombros os bonitos pésinhos de Tilly e andava, levando-a
como em triumpho. Era preciso que ella estivesse direita, que a cintura
se conservasse flexivel, e que se ensaiasse a sorrir e a atirar beijos.
Desde muito tempo Tilly não tinha medo, tão forte e dextro era o mestre;
o que lhe parecia difficil n'este exercicio era unicamente sorrir e
mostrar-se feliz.
O bom Natchès tinha chegado ao ideal da flexibilidade e da graça.
Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do
mestre, applicando-se de todo o coração e fazendo maravilhas.
Era uma bella criança cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o
seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal,
parecia-se com o cão de caça que se chega arrastando-se muito humilde, e
felicissimo por lhe não baterem. Adalberto lamentava-o, não tanto pela
sua desgraça como por não sentir a miseria da sua sorte. A natureza
energica do pequeno de Valneige não comprehendia esta natureza fraca e
completamente domada.
Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae
nas posições herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis
juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaças triviaes que
repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.
Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! Não
se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se ás forças.
Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praça publica,
sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o
pescoço inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a
este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.
Para descançar, torcia os membros da maneira mais grotesca, deitando-se
para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras,
comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!
Só tinha, comtudo, um pensamento, vendo trabalhar a companhia; era achar
meio de se evadir. Mas como? Ás vezes pensava em implorar Gella; mas
conhecia-a elle bastante? Se ella mangasse com elle, ou fosse repetir as
suas palavras ao mestre, e redobrar por consequencia a sua desconfiança?
Nada; era impossivel aceitar esta idéa. Todas as vezes que pensava em
fugir, lembrava-se que a fuga era impraticavel e perigosa em um paiz
onde elle não conhecia a lingua. Viu-se forçado a adiar a execução do
seu projecto, porque fallavam de deixar as montanhas e de viajar
lentamente na direcção do Rheno; ora o Rheno era uma esperança para
elle; sabia que mesmo antes de lá chegar encontraria muitos homens que
fallariam francez. A pobre criança tornara-se de repente medrosa,
submissa, e paciente; não fallou a pessoa alguma e resignou-se a
esperar, para não lhe falhar o seu projecto.
CAPITULO VII
Adalberto ouvia nas trevas o bater do relogio.
Quando os Ciganos se pozeram a caminho, depois de terem passado muito
tempo nas montanhas, Adalberto viu com susto, que era objecto de grande
e nunca interrompida vigilancia. O mestre, a velha, Karik, e mesmo a boa
Gella, eis os espiões que dia e noite o rodeavam. Mais terrivel do que
elles todos, o velho cão rosnador olhava-o com olhos chamejantes, e
parecia querer engulil-o se tentasse fugir. Decididamente a occasião
ainda não chegára; e quando chegaria ella? Paravam em toda a parte;
acampavam nos arredores das cidades, a maior parte das vezes sem entrar
n'ellas, a não ser que houvesse alguma festa popular; o pobre pequeno
figurava, coitado! n'estas festas! Quanto á velha cigana, horrenda
creatura, ia por alli fóra lendo a sina a quem queria ouvil-a,
examinando attentamente a palma da mão das pessoas supersticiosas, a
quem pregava absurdas mentiras, que a faziam rir ás gargalhadas, quando
estava em familia. Adalberto, apesar de haver já um anno que via todos
estes manejos, não se habituava a elles, indignava-se d'essa conducta e
tinha horror áquella furia.
Á sua pena juntava-se o receio de nunca achar maneira de pôr em execução
o seu projecto. De que servia atravessar terras onde o prisioneiro podia
fazer-se entender se nunca o perdiam de vista?
Comtudo fallava-se sempre no Rheno, e tratava-se de parar um pouco ao
sul da Alsacia, depois do que se encaminhariam talvez para os lados do
Lyão, onde Gella veria sua tia, respeitavel mulher que, em memoria de
sua irmã, que morrera tão nova e tão desgraçada, gostava da pobre cigana
e lhe queria bem. Estas palavras, que Adalberto apanhava ao acaso e que
Gella lhe repetia de boa vontade, davam coragem ao prisioneiro, e,
guardando só para si o seu segredo, fazia tenção de aproveitar
ávidamente a primeira occasião favoravel.
Depois que passaram o Rheno, o rapazinho respirou um pouco mais
livremente; não duvidava da sua proxima liberdade, e tardava-lhe saber
onde primeiro parariam.
Viu com grande alegria, que pararam logo na primeira noite defronte
d'uma pequena cidade, cujo nome ignorava. Uma cidade, uma multidão,
outras tantas rasões para ter esperança. Fugir d'alli, era o seu unico
pensamento; quanto ao que se seguiria estava convencido que nenhuma
situação podia ser peior do que a sua.
Quando chegou a noite, as mulheres cuidaram em renovar as provisões.
Ordinariamente era Gella que, com o cabaz no braço, ia comprar o pouco
que era preciso, ou pelo menos o pouco que podiam arranjar; porque o
Hercules comia e bebia nas tabernas que encontrava no caminho,
empregando no serviço do seu vigoroso estomago uma boa parte do dinheiro
que ganhava a companhia, e não deixando aos outros senão muito pouco.
Feijões, repolhos, batatas, era a comida ordinaria; um caldo da carne só
por extraordinario.
Como era impossivel queixar-se diante do despotismo do mestre, cada um
se contentava com amaldiçoar em voz baixa a força poderosa, que
governava sem bondade.
N'aquella noite, o Hercules declarou que tinha negocios na cidade, e que
ahi acompanharia Gella e as crianças, emquanto que Praxedes, com o seu
neto e o horrendo Wolf, guardariam a casa.
Adalberto, vendo-se de partida, sentiu redobrar-lhe a esperança. Olhava
de longe para a cidade e para as ruas tortuosas, e pensava na
possibilidade de fugir.
--É tão grande e eu sou tão pequeno! Não me verão. E de mais a mais as
ruas são tão mal illuminadas!
Acostumado á prudencia o Hercules fez signal a Gella para dar a mão ao
recem-chegado; desconfiava que aquelle espirito corajoso e atrevido só
se domaria pela força, e pensaria sempre na fuga. Gella deu pois a mão
ao rapazinho. Quanto ao pacato Natchès, estava tão mortificado, que a
sua escravidão parecia-lhe uma necessidade, e que a idéa de se libertar
não chegára a passar-lhe pela cabeça. Caminhava em perfeita liberdade ao
luar, correndo adiante de Tilly, que nunca corria, tão fraca e doente
era! O seu abatimento e a sua juventude escondiam-lhe sem duvida em
parte a vergonha e a miseria da sua posição; comtudo, quando encontrava
nos seus raros passeios uma pequenita bem vestida, a quem fallavam com
doçura, achava-se de repente bem desgraçada.
Partiram, e, sem que o mestre dissesse uma só palavra pelo caminho,
entraram na cidade. Ali, separaram-se: o Hercules tomou á direita e
Gella, com as tres crianças, tomou á esquerda, emquanto seu pae lhe
dizia n'um tom que, para ella, era a expressão d'um poder absoluto:
--Cuidado com o garoto; tu é que és responsavel por elle; vê o que
fazes!
--Sim, meu pae, disse Gella baixando os olhos. Esta rapariga, meia
selvagem, educada nos theatros das feiras, só baixava os olhos diante de
seu pae. Temia-o, e esse temor conservava entre elles uma especie de
acordo, porque ella obedecia cegamente. Elle sabia-o, e mandava-a com o
gesto. Resultava d'este systema de intimidação que a rapariga nunca se
afastava do que para ella era o dever. Natureza honesta, teria sido
superior, se lhe não faltasse toda a educação. Sem reflexão, sem nenhuns
principios, conduzia-se honestamente temendo sobretudo a colera de seu
pae, que a obediencia passiva conservava inoffensivo e silencioso.
Era por isso que se não via Gella andar vadiando pelas ruas. Trabalhava
sempre, ora na casa, ora na costura, ou nos exercicios que lhe
conservavam a flexibilidade e a ligeireza.
Se o seu coração era frio, não devia isso causar admiração; nunca coisa
alguma o tinha desenvolvido; só via o mal, e sem duvida Deus tinha
grande compaixão da sua ignorancia.
Adalberto, ainda que nada sabia analysar, presentia tudo isto vagamente,
e vendo a sua mãosinha fechada na grande e trigueira mão de Gella, não
experimentou repugnancia alguma, mas antes um sentimento que se parecia
com a confiança misturada com a duvida.
Eis uma padaria; entram, compram dois grandes pães, de que se encarregam
Natchès e Tilly; depois passa-se para a salchicharia, e Gella manda
metter no cesto só coisas baratas; é sempre a condição das suas compras,
porque não conhece a abundancia.
D'ali é preciso ir buscar carvão.
Mettem-se pelas ruas estreitas e tortuosas, e, vendo grande multidão de
homens, de mulheres e de crianças, Adalberto pergunta a si mesmo se não
chegou o momento de fazer uma tentativa? Gella já não lhe dá a mão,
entra em primeiro logar na carvoaria, as crianças seguem-na. O nosso
amiguinho olha furtivamente para a direita, para a esquerda; hesita, o
seu coração bate com força, está decidido, o seu partido está tomado,
vai fugir... que caminho escolher? E se encontrasse o Hercules? Só esta
idéa o faz tremer. E, comtudo, que espera elle? que melhor occasião se
póde apresentar? é uma cidade, a noite, a bulha, a multidão... Fujamos.
Adalberto volta para o lado direito ao acaso, caminhando encostado ás
paredes, e julgando que toda a gente olha para elle; depois animando-se
a si mesmo por este começo de bom exito, vai, vai, sem saber o que faz,
a não ser que escapa ao homem silencioso, á velha Praxedes, ao mau Karik
e ao cão que morde.
[Ilustração pág. 87. Cuidado com o garoto! (Pag. 85.)]
Á força de andar sem outro fim senão fugir, cançam-lhe as pernas e
pergunta com medo: «onde estou? onde vou?» A inquietação junta-se no seu
espirito ao desejo febril de se afastar da ambulante. Oh! miseria!
percebe que na sua carreira insensata, voltou pelo mesmo caminho, e está
outra vez na praça, que atravessou ainda agora para ir ao padeiro! Que
ha de fazer?
Olha para todos os lados com tal anxiedade, que as pessoas que passam,
por mais indifferentes que sejam, lh'a conhecem na cara. Uma boa mulher,
que vendia maçãs, fal-o parar, e diz-lhe com bom modo:
--Ó homemsinho, andas á procura do teu caminho?
--Não.
--Não? Pois parece bem que sim. Onde vais tu?
--Para ali.
--Para ali para onde? para o lado do carvoeiro?
--Nada, não.
--Mas ainda agora estavas lá á porta; dize, anda, falla.
--Sim... Não!
--Como te chamas tu?
--Adalberto, não... não!
--Ah! tu não sabes o que dizes!... Olhe tia Dubois, não vê este pequeno
com um casaco que não foi feito para elle, e a fita doirada no cabello?
Não será este o que andam procurando acolá?
--É possivel. Tem ar de vagabundo; mas seja o que fôr, não me metto
n'isso; eu não me entendo com a canalha.
--Não importa, um cão que fosse, e que se perdesse quereria fazer-lhe
achar o dono; eu cá sou assim...
Ao mesmo tempo, metade por bom coração, metade por gostar de emoções, a
boa vendedeira de maçãs pegou na mão de Adalberto para o levar para o
lado do carvoeiro. A criança resistiu, com grande espanto da boa mulher
que lhe repetia procurando arrastal-o:
--Mas vem d'ahi, tolinho! uma vez que eu te digo que tua irmã mais velha
te procura, e que o teu papá anda em busca de ti por outro lado; olha,
vêl-o? vem para aqui.
Adalberto viu com effeito o Hercules que caminhava a grandes passos,
olhando sombriamente em redor de si; parecia pedir um ponto de apoio
para a sua colera. Um medo inexplicavel se apoderou do desgraçado
pequeno; teve um momento de incerteza, não sabendo se ia cahir ali
paralysado diante do seu perseguidor, ou se tentaria recuperar a
liberdade. A energia da sua natureza venceu. Escapando-se á vendedeira,
mette-se pela rua em frente e corre o mais que póde, até que se sentiu
sem folego.
Depois d'esta rua acha outra, depois ainda outra, e ao longe avista a
planicie, que era a extremidade da pequena cidade; se podesse correr
ainda chegaria ao campo, e esconder-se-ia em qualquer canto.
Adalberto faz um esforço supremo na direcção da planicie... Quem vê elle
aproximar-se por uma rua transversal? Gella, pallida, inquieta e
correndo atraz d'elle. A cabeça da criança perturba-se, passa-lhe pela
idéa deitar-se-lhe aos pés, supplicar-lhe que o deixe fugir... Mas, diz
comsigo, se ella tem com effeito o coração endurecido, estou perdido! E
de mais, ella deve estar muito zangada commigo? É preciso fugir-lhe.
O excesso do desespero dá-lhe forças, parte como uma setta, não vê, não
ouve nada; dir-se-hia que só lhe resta o poder de desapparecer, de se
subtrahir á mais horrivel desgraça.
Gella tambem é agil; vai apanhal-o; os seus ligeiros pés devoram o
espaço.
Mas eis aqui o campo; a criança avista uma casa isolada; baterá á porta,
gritará, terão dó da sua desgraça e escondel-o-hão.
Ghega, arremessa-se á porta, bate, toca, chama, ninguem responde, parece
tudo morto; as portas das janellas estão fechadas, é absoluto o
silencio. O infeliz Adalberto ouve o respirar de Gella, e a bulha dos
seus passos que se aproximam com uma rapidez incrivel. Emfim... eil-a...
Elle dá a volta da casa, e vê diante de si uma fresta; ha pois alli uma
adêga, uma casa de lenha, alguma coisa emfim que não é a casa do
Saltimbanco. E depois, se Gella o leva, prisioneiro fugitivo, não vai
elle levar pancadas do Hercules, ou da velha, ou de Karik, ou de todos
tres, e ser mordido pelo cão? Vale mais a fresta! É o desconhecido, e o
desconhecido é a esperança!
Mette a cabeça, depois os braços, agarra com a mão uma barra de ferro
que separa em duas a abertura, e volta-se com a destreza que dá sempre
uma situação desesperada. N'este momento Gella com passo lento e
cauteloso começa a andar de roda da casa deserta. Elle deixa-se
escorregar, transido de medo, pelo muro abaixo, e vai cahir sobre não
sei que, d'onde, com o peso do seu corpo, faz levantar uma nuvem de
poeira acompanhada de um som desconhecido.
Onde está elle? a pobre criança não sabe, mas ouve o roçar de um vestido
na barra de ferro da fresta; Gella parou, chama, escuta, falla:
--Pequeno, estás ahi? responde-me, dize-me se estás ahi?
Mais morto do que vivo, Adalberto fica mudo, espera mesmo para respirar
que a rapariga esfalfada, arquejante se afaste, perdendo talvez o rasto
do fugitivo.
Quando o silencio se restabelece, a criança conserva-se no mesmo
silencio, e agora, que Gella o não persegue, quereria ouvir ainda a
bulha dos seus passos; mas nenhum som lhe chega aos ouvidos a não serem
oito pancadas vagarosamente dadas por um relogio, a que um homem sem
duvida deu corda antes de deixar a casa.
Foi pois habitada, ou pelo menos visitada, não ha muito tempo esta casa?
Mas quando voltarão para ella? E elle como sahirá d'ali? Não lhe tinha
vindo esta idéa quando Gella estava perto d'elle; agora comprehende a
sua desgraça, e essa desgraça assusta-o.
Victima de novo terror, torna-lhe a idéa de que, com certeza, Gella
seria boa e o seu coração se commoveria, vendo uma criança abandonada.
Não lhe tinha ella dado muitas vezes provas da sua natural bondade? Sim,
deveria ter-se fiado n'ella, e pode ser que ainda seja tempo?
Grita, chama!
--Gella! Gella!
Mas escutando, ouve gritar e repetir duas vezes:
--Gella! Gella!
Esta voz, que diz o que elle disse e parece a sua, fal-o tremer; os
cabellos molham-se-lhe de suor, as pernas vergam, os dentes batem; mas
lembra-se de repente que ha em Valneige um echo no parque, perto da
neveira, e que o seu papá escarnecia d'elle quando tinha medo do echo,
visto não ser um ente invisivel, mas uma bulha repetida por uma causa
muito natural.
Tendo-lhe passado mais o medo, cahe meio deitado e resigna-se a esperar.
--Que oito horas! diz comsigo, quanto tempo será preciso esperar até que
o dia volte! E quando voltar o dia, como sahirei d'este buraco?
Não ousava mover-se, temendo encontrar algum obstaculo no chão, ou
objectos que podessem feril-o. O somno não vinha interromper a sua
inquietação; pelo contrario, estava agitado, abria muito os olhos, e
cruzavam-se-lhe na cabeça, n'aquella noite, mais idéas do que
ordinariamente passavam por ella em todo um dia.
A luz da lua não descia até ao fundo da adêga; um canto só estava
allumiado, e n'este angulo, Adalberto via uma coisa preta, tão comprida,
como duas vezes a sua mão quando muito, mas seguida d'um traço preto
que, collado por assim dizer á parede, se inclinava comtudo algumas
vezes ora para a direita, ora para a esquerda.
«Que é aquillo!» perguntava a si mesmo Adalberto, cujos olhos inquietos
não largavam o objecto mysterioso, sem poder comtudo imaginar o que
havia n'aquelle canto. Esta nova preoccupação juntou-se ás outras. Que
noite! A criança estava sósinha nas trevas, sem ao menos ter medido com
os seus passos a prisão e dizendo comsigo:--Quando eu tiver fome, quem
me dará pão? Algumas vezes pensava que nunca mais teria fome, porque era
muito desgraçado.
Deram nove horas no meio d'esta grande tristeza. Como elle se voltasse
para o outro lado para descansar da sua incommoda posição sobre aquella
especie de cama empoeirada, avistou pela fresta uma linda estrella que
parecia estar ali só para elle. Viu essa estrella com verdadeiro
reconhecimento; era uma coisa consoladora para uma criança abandonada e
como que enterrada viva; e depois esta vista dava-lhe pensamentos mais
socegados do que os pensamentos da terra. Dizia ingenuamente:
--Foi Nosso Senhor sósinho que fez aquella estrella, e como sabe tudo
antes, sabia quando a estava fazendo que um pobre rapazinho a veria por
uma fresta quando tivesse perdido o seu papá, a sua mamã e toda a gente.
Esta lembrança, junta ao enternecimento que lhe causava a bella e
solitaria estrella, fez-lhe chorar lagrimas, cuja doçura elle ainda não
conhecia, e que alliviaram seu peito opprimido. Sentia-se uma creatura
abençoada que, por estar a oito pés debaixo da terra, não estava menos
presente aos olhos do Creador. Derramando, sem querer, lagrimas que o
consolavam realmente, dizia a Deus as palavras mais doces, de maior
confiança; era a sua oração da noite, e quando a acabou, continuou a
olhar para a estrella, e, apezar do frio que começava a sentir, apesar
da tristeza que enchia o seu coração, teria talvez podido adormecer
defronte d'este cantinho de ceo azul, se não fosse como que forçado a
voltar a cada instante os olhos para o canto para vigiar o objecto
negro, que estava sempre ali, e cuja extremidade mexia de vez em quando,
deixando ao prisioneiro uma duvida que lhe era insupportavel.
O relogio deu dez horas. Parecia á criança haver já muito tempo que
vivia n'aquelle subterraneo, e, a dizer a verdade, sem a estrella teria
desanimado; mas lá estava bella e brilhante, como uma joia cahida da mão
do grande Rei, e Adalberto dizia-lhe:
Fica ahi, minha linda estrella, oh! fica não te vás, não me deixes só!
Tu és a minha estrella, bem minha; e, como os sabios dão um nome a tudo
quanto brilha lá em cima, eu, que não sou sabio, dou-te um nome, o
melhor que eu sei, chamo-te como a mamã, _Adilia_, porque me fazes bem.
Emquanto eu te vir, terei coragem; e quando sahir d'aqui e tornar a
encontrar meus paes, procurar-te-hei ainda, e, tu verás, olharei para ti
toda a minha vida!
Fallando á sua nova amiga, volta-se para o canto da parede por um
movimento que se tornou nervoso e o que vê elle?... o objecto mysterioso
tinha mudado de lugar, tinha andado e andava ainda; vinha para o lado do
pequeno. Não havia duvida, era um grande rato preto, um d'aquelles que
Gervasio se esforçava por fazer cahir na ratoeira, dizendo que aquelles
animaes mordiam.
Adalberto não viu mais a sua estrella, nem o céo azul, nem as suas
bellas esperanças, mas unicamente o gordo rato preto, que vinha ás
escuras como um traidor, e sem que o prisioneiro podesse defender-se
visto que não ousava mexer-se, não sabendo de que estava rodeado. Novo
susto!
O pezar do pequeno de Valneige já não era um pezar de enternecimento,
que elevasse a sua alma tão bem formada por bons paes; era um horror
instinctivo por um animal perigoso; era preciso passar assim toda a
noite e a pendula fez soar nas trevas onze horas.
CAPITULO VIII
Adalberto dava que pensar á senhora Tourtebonne.
Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vêem começar. D'este
numero era a honesta vendedeira, que nós ouvimos fazer perguntas a
Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mão, seguindo com
os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.
A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua
necessidade de expansão; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica
occupação era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por
confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem
ou não; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso
acontecia constantemente acabar de contar á mulher do cortador a
historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A
querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era
obsequiadora, como o são em geral as pessoas que gostam de se metter em
tudo. Não temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse
preciso para fazer um serviço fallar tres horas seguidas, teria fallado
quatro.
Como já havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cór as
ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta
folhear para se achar a palavra que se procura com as indicações
desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava,
graças ao seu commercio e á sua perspicacia, que tinha sido chamada
bastantes vezes como testemunha, perante a justiça. Esses dias tinham
sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era tão
fiel, as suas observações tão minuciosas, a sua palavra tão facil, que
na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que
se tratava. Tambem, as pessoas que não andavam pelo bom caminho
evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal,
como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.
Voltando ao que nos interessa; apenas a tia Tourtebonne perdeu o rasto
de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo
Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação.
Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia
n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de
que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má
vontade o que lhe quizesse contar.
--Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o
caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?
O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de
harenques, nem de queijo, fez _hum!_ com voz forte e rouca. Era uma
maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito
ao seu duplo commercio.
O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda
e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal
tranquillidade.
Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias
d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por
isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que
habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero.
A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,
quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella.
Este famoso _hum_ que o bom do homem applicava a tudo não a satisfez
nada, e replicou vivamente:
--Viu-o, não é assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que
olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o?
diga?
Como o _hum_ de Baptista não era um som vão, e que elle não empregasse
muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada
de um signal affirmativo com a cabeça.