Desde então, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu

d'esta especie de lethargo, não obteve resposta alguma ás suas

perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle

que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma

grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com

taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse

algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mão

de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a

porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor

estreito, que dava communicação para miseraveis compartimentos... a que

chamavam quartos.

Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em

mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos cães. Elle não

comprehendeu bem; desejou sómente descer os degraus que acabava de subir

para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno

imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:

--Abra!

--Não, não, não, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe é para

sempre.

--Para sempre? repetiu Adalberto com indignação, e, comprehendendo o

horror d'estas palavras, levantou os braços e começou a gritar!

Uma mão suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em

quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.

A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era

como a destruição completa de toda a sua vida, e, não só por medo como

tambem por surpreza, perdeu os sentidos.

Quando fechou os olhos, a mão suja e má, que o tinha obrigado ao

silencio, despregou-se-lhe dos beiços; mas, aquella mão, como se

estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem

fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou

de roda de si como para procurar sua mãe, e disse lavado em lagrimas e

muito humildemente:

--Senhora, deixe-me voltar para casa da mamã, se faz favor.

Uma gargalhada formidavel acolheu esta supplica de criança, e, juntando

a ironia á crueldade, a velha Praxedes exclamou:

--Vai para casa de tua mamã, vai, corre, anda vai!

O prisioneiro viu bem que tudo estava acabado, que o crime estava

consummado; que o tinham roubado!

A velha furia, que parecia uma bruxa, era a sogra do homem do chapeu

grande, a avó, não de Gella, a filha do amo, mas de seu irmão Karik, e o

chamado Mentor de duas pobres crianças, Natchès e Tilly, um pequeno e

uma pequena, cahidos como Adalberto nas mãos dos ladrões. O desgosto do

captivo foi tão profundo, que cessou de se queixar achando-se

horrivelmente desgraçado.

Dotado de grande força moral, a sua dôr tornou-se em desespero, e

inspirou-lhe a firme vontade de se evadir: mais tarde ou mais cedo.

Tinha uma incrivel energia, e ainda que o seu corpo fosse magro e

pequeno, sentia-se capaz de vencer grandes obstaculos. Por em quanto

nada havia a dizer nem a fazer.

«Se estás doente, deita-te,» disse-lhe bruscamente a velha Praxedes,

mostrando ao recem-chegado um monte de trapos e de fato velho no canto

do seu horroroso quarto. Elle não esperou que lh'o repetissem, julgando,

com rasão, que o melhor era obedecer. Como não lhe deram cobertores não

se despiu; estendeu-se sobre os trapos, tendo o cuidado de puxar para os

pés alguns pedaços de fato velho para evitar o frio, e pôz a mão debaixo

da cara para não se encostar a esses farrapos.

Uma vez deitado, fechou os olhos, não fez movimento algum, e bem

depressa o julgaram a dormir. Não percebeu uma só palavra do que se

dizia, porque os Ciganos entre si só fallam o seu dialecto; comtudo

julgou vêr que Gella mostrava benevolencia para com elle e que tratava

de apaziguar a colera de sua avó. Quando a rapariga fallava alto, tinha

um som de voz que o habito de gritar ao ar livre tornava duro; e em

geral tinha modos d'homem. Adalberto, que de vez em quando abria um

olho, podia vêr aquelle todo atrahente.

Gella tinha vinte annos, era bonita, mesmo com os seus vestidos pobres,

mas d'uma belleza um pouco selvagem; estatura elevada, flexivel como um

vime, os movimentos bonitos, a cara queimada pelo sol, os cabellos

pretos com reflexos azulados; a bocca bastante mal desenhada, mas franca

e com um sorriso de bondade; os olhos doces quando estava socegada,

atrevidos quando se tratava de resistir, muita força de corpo e de

bondade.

Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha

morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os

costumes da sua raça, tinha casado com ella por capricho, apesar de não

ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyão. Achava-se orphã e na

miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na

levado a aceitar esta exquisita união; uma irmã mais velha, não deixando

de a condemnar, interessava-se comtudo pela criança nascida d'aquelle

imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrança a Gella.

Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no

prisioneiro uma impressão de temor e de confiança. A maneira de fallar

depressa, os olhos tão pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o

intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braços deviam ser carinhosos;

era impossivel que uma criança infeliz se lançasse n'elles sem que a

rapariga a apertasse contra o coração, porque, emfim, devia ter um

coração.

Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperança a si

proprio, e disse comsigo:

[Ilustração pág. 59. Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)]

--Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em

me deixar fugir. Se não deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois

lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se

encontra quando se não sabe para onde se deve ir e quando não se falla a

mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se pois n'um

profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle não

quiz comer. Á noite ouviu dizer a velha ás crianças que se deitassem, e

admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que não tinha mais de quatorze

annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou

vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto tão mal creado.

Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente

cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que

nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:

--Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.

--Não, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor; é sem duvida

porque o não conhecem.

Emquanto Natchès e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que

partilhava com Karik, e a outra aos pés da cama de Praxedes, Adalberto

lembrou-se que não tinha rezado a sua oração da noite, elle que conhecia

Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que não ousou pôr-se de joelhos.

No fundo do seu coração teve um grande enternecimento; todo o seu

pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino

protector que véla por nós, e, em vez de começar a sua oração pelas

palavras do costume, o querido pequeno apenas repetiu muito baixo, muito

baixo, para só ser ouvido no Céo:

--Perdão, meu Deus! perdão por ter desobedecido!

Ah! como elle era desgraçado! Sósinho, separado da sua familia, sem

saber o que fariam d'elle; tendo medo do homem brutal, da velha, de

Karik, que tinha má apparencia, e do velho cão, que tinha os dentes

enormes.

A noite adiantava-se; a fadiga e o desgosto fizeram-lhe fechar os olhos;

adormeceu, e sonhou que Filippe, o cocheiro, lhe fazia dar a volta do

parque de Valneige em tilbury, por ter tido muito juizo; que a sua mamã

o tinha abraçado duas vezes, e que Rosinha lhe tinha concertado a redea

do seu cavallo de balouço com um cordel novo; depois a scena mudava

bruscamente; estava sentado a uma meza, bebia e tudo andava de roda; mas

de repente seu pae vinha ter com elle! Como vêem, Adalberto, mesmo

dormindo, tinha ainda esperança.

CAPITULO VI

Adalberto scismava se Gella tinha coração.

No dia seguinte um ar frio e saudavel dava aos habitantes da Bohemia

vigor e animação. Quando Adalberto acordou teve medo; depois,

lembrando-se do que se tinha passado, pensou que este tempo de miseria

não duraria muito, e que depressa sahiria d'aquella maldita casa.

Não era o que se chama uma criança estragada pelo mimo; tinha sido

educado sem pieguice e por isso havia contrahido habitos energicos.

Comia de tudo, supportava o frio sem se queixar, sabia resignar-se,

esperar, e tinha muita coragem. Quando em Valneige lhe acontecia

magoar-se, só chorava por grandes coisas, porque seu pae quando o via

chorar por bagatellas, não deixava de lhe dizer:

--Que tens tu, minha pequenina?

Só esta palavra valia um grande discurso, e lembrava-lhe que era um

_homem_, como elle dizia.

O nosso amiguinho, tendo em si a força de caracter e de energia physica

que dá uma boa educação, não se deixou vencer pela desanimação, que de

nada serve a não ser para tornar os males insupportaveis. De mais, tinha

todas as illusões da juventude e parecia-lhe impossivel que fosse

infeliz por muito tempo. Sendo elle só um estorvo, como dizia a velha

Cigana, deixaram-no socegado; mas tendo acordado cedo, fingiu que estava

dormindo e não se mexeu, ganhando assim tempo, e reparando

disfarçadamente n'algumas scenas intimas.

A velha Praxedes parecia apenas respirar; mas, as poucas forças que lhe

restavam, eram misturadas com uma agitação que a atormentava, e aos

outros tambem.

Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o

verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos.

Embirrava com seu genro a quem chamava _o homem de ferro_, e que ella

detestava; com Gella, que não lhe tinha respeito algum; com seu neto

Karik, que lhe resistia praguejando já como seu pae. Quando todos tinham

gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como

criada do que como mãe, ia embirrar com o cão, o horroroso Wolf.

Wolf costumado ás pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se

deixava intimidar. A cada ameaça da velha, respondia rosnando, e quasi

que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontapé. Respeitava-o até um

certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha

habitação dois entes, que ella não temia, porque não tinham defesa, e

era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre

Tilly era tão pallida e tão fraca, que não ousavam bater-lhe com medo

que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se

de lhe fallar brutalmente, como se não falla a um animal. Exigia, d'esta

criança de oito annos uma attenção constante para obedecer ao menor

gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de

vigilancia ou de promptidão, davam-lhe por castigo menos de comer.

Natchès era uma victima. Esta bonita criança de dez annos, cuja robusta

natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de

compaixão. Praxedes sobretudo não cessava de lhe fazer sentir, que ella

não era mais do que um ganha pão. A sua natural docilidade tornada

inercia pela sujeição, não a desarmava e muitas vezes a irritava.

Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e

batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu

a uma das injustas provocações, que lhe faziam a proposito de tudo.

Na vespera tinha tido a desgraça de quebrar uma gamella rachada, na

qual, havia annos, se dava de comer ao cão. Era mais do que o preciso

para que a velha se enfurecesse, porque queria mais á sua loiça do que a

tudo. Chamou Natchès com voz áspera e disse-lhe:

--Foste tu que quebraste a gamella?

--Sim, disse-lhe o pequeno, que não tinha mesmo a idéa de mentir; fui

eu, mas não o fiz de proposito.

--É o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais

pagar-m'a, mandrião! deixa estar! Canalha! Vibora!

Dito isto uma chuva de bofetões cahiu sobre o pequeno desgraçado.

Praxedes, em vez de forças vitaes, tinha uma força nervosa que o furor

redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mãos. Os

movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a

maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda

para lhe chegar com mais certeza.

Então a pallida e adoentada Tilly deitou-se sobre a pobre criança a quem

chamava irmão, por causa da sua desgraça commum.

--Perdão, perdão! gritou ella, oh! não lhe faça mal.

Mas a velha, como se não ouvisse esta supplica afflictiva, batia á

vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa,

tomando conta da panella do almoço, na especie de cosinha microscopica

armada fóra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga,

não acudia em soccorro de Natchès? Não; estas horrorosas scenas

repetiam-se tantas vezes, que já estava habituada, e só intervinha em

casos excepcionaes. O seu coração tinha-se endurecido vivendo com gente

má, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso

o provava, raras vezes se commovia.

Quem fallará pois em favor de Natchès? O homem da mão de ferro, fuma em

silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella não diz

palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defenderá

a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres

indeleveis as tradições de familia, a justiça e a piedade. Levantou-se

com resolução e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle

algumas pancadas, gritou com todas as suas forças:

--_Você_ não tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a.

Se Adalberto não estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, é

fóra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo

no principio, a intervenção audaz do infeliz pequeno encheu de admiração

aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lançou para o ar uma

baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua

sogra. Á gargalhada seguiram-se graças de Karik e algumas boas palavras

de Gella, que não desgostou de vêr Natchès em liberdade, apesar de não

dar grande importancia a tudo aquillo.

Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha

dito: «Deus a castigará.»

--Onde está o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se

pela primeira vez a Adalberto.

--Está em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige,

excitado pela indignação.

--Sim, senhor, não é mal respondido; querem vêr que tambem está na minha

barraca?

--Está, sim, respondeu o pequeno; está e vê tudo.

Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa

Tilly assentada no chão e olhando compadecida para o pobre Natchès, de

quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso

amiguinho e disse-lhe sem colera:

--Ouve, meu rapaz, por uma vez passa, mas não caias n'outra. Quando a

mãe dá pancada, é preciso deixal-a, isso é com ella.

Estas palavras fizeram pensar a Adalberto que, nos detalhes da vida

ordinaria, aquelle homem era talvez menos mau do que a velha.

O que mais o espantava, era a frieza de Gella, a quem os gritos de dôr

não tinham feito chorar. Lembrava-se das lagrimas de sua irmã Camilla,

por causa d'um cão que julgaram damnado e que fôra preciso matar.

Tinha-se Camilla resignado á ordem do pae, mas n'esse dia, como tinha

ouvido os gritos do cão, não poude jantar!

Lembrava-se ainda que sua mãe, vendo um pequeno camponez ferido por uma

ferramenta de que imprudentemente se servira, tinha curado a criança

como se fosse sua, dizendo, pallida de emoção: «Chego a estar doente!»

Portanto, é natural ter pena de vêr soffrer os outros, quando se tem

coração, pensava Adalberto. Porque seria que Gella não soffria quando

maltratavam Natchès? Porventura o habito de vêr o mal dá cabo do

coração?

Quando lhe passou a furia a avó pensou que era tempo de occupar o

recem-chegado, e de lhe dar nome e fato, isto é, uma alcunha e

miseraveis farrapos. Era com visivel aborrecimento que cuidava d'elle,

não cessando de dizer a seu genro que bem podia tel-o deixado aonde

estava, porque lhe parecia que elle não servia para nada. «Quem sabe?»

respondia o homem de ferro inclinando a cabeça sobre seus largos

hombros. N'aquella posição, que muitas vezes tomava, parecia-se com as

estatuas de Hercules descançando dos seus trabalhos. Como elle raras

vezes fallava, a sua presença não augmentava as questões; parecia pelo

contrario que diante d'elle estavam menos zangados uns com os outros

n'aquella maldita barraca.

O caso é que o Hercules era temido por todos, se não era respeitado;

chamavam-lhe pae, e muitas vezes mestre; a sua palavra fazia a lei,

porque representava uma authoridade absoluta; mas tinha nos detalhes a

longanimidade que acompanha muitas vezes a certeza de ser obedecido. Não

fallava sem necessidade; comtudo a sua vontade impunha-se, assim como

uma barreira; não se podia passar além, nem fazel-a recuar. Sombrio rei

d'aquella triste habitação, ordenava só com a sua presença, e é

provavel, que se alguma vez tivesse empregado a força, redrobada pela

colera, teria esmagado tudo.

Por isso a velha, para não o descontentar, tratou, resmungando como

sempre, de dar ao pobre Adalberto o vestuario que d'ali por diante devia

ser o seu. Procurou no fato velho de Karik e de Natchès, e achou umas

calças muito curtas e um casaco muito comprido, o que para ella era um

vestuario completo.

--Vamos lá, gritou ella muito zangada, anda cá maroto. É verdade, é

preciso, pôr-lhe um nome; ora, como te chamas tu?

--Hei de chamar-me sempre Adalberto de Valneige, disse o pequeno

levantando a cabeça.

--Ta, ta, ta, fazes favor de te calar? Se tornas a repetir esse nome,

corto-te em bocados, piso-te n'um gral, e dou-te a comer ao cão!...

Adalberto sentiu talvez menos o horror d'esta ameaça, do que a maldade

d'aquelles olhos pequenos e pardos, fitos nos seus com uma expressão,

exquisita. Cahiram-lhe os braços, e, em attitude d'uma desanimação

absoluta, ouviu a velha gritar-lhe ao ouvido:

--Hasde chamar-te Mustaphá.

--Sim, senhora, respondeu humildemente Adalberto.

--E a mim, hasde chamar-me avó.

Estas palavras fizeram ferver o sangue ao joven Valneige. Tinha

conhecido sua avó, a mãe de sua mãe, tão boa, tão respeitavel, que uma

tarde tinha adormecido para acordar no Céo, segundo lhe tinham dito, e

teria de dar o seu nome a uma creatura infame?

--Não! exclamou elle com horror.

--Que dizes tu?

--Digo que não.

Immediatamente duas grandes bofetadas estalaram sobre a face do

prisioneiro, que pela força da pancada, perdeu o equilibrio e foi rolar

aos pés de Gella, que lhe disse em voz baixa:

--Aqui nunca se deve dizer que não, meu pequeno.

Quando fallava baixo, a rapariga tinha a voz sympathica. Adalberto

sentiu-o, e começou a ter esperança n'ella, sobretudo quando ella,

levantando-o e cobrindo-lhe a cabeça com as suas trigueiras e lindas

mãos disse sorrindo e graciosa:

--Pois sim, avó, elle não torna mais.

--Melhor para elle, respondeu Praxedes, que começou o horroroso

vestuario da criança, tirando-lhe o fato simples, mas fino e limpo, que

podia fazer conhecer a sua origem.

O desgraçado pequeno olhava para a sua jaqueta de panno azul escuro, e

para as suas calças da mesma côr. Olhava tambem para o collarinho com um

borrão de tinta; fôra a brincar com Eugenio, que tinha feito aquella

maldade. Viu-se despojado de tudo quanto usava; teve de vestir uma das

grossas camizas de Natchès, as feias e curtas calças, e aquelle casaco

sujo e ridiculo, que lhe dava o ar d'um velho que não cresceu.

[Ilustração pág. 73. O mestre fez signal para lhe não cortarem os

cabellos. (Pag. 72).]

Quando acabou este feio vestuario, Praxedes metteu uma grande tesoura no

cabello loiro e fino de que a senhora de Valneige tanto gostava.

Adalberto estremeceu; mas, por um feliz capricho, o mestre fez signal

para lhe não cortarem os cabellos naturalmente annelados e que tanto

contribuiam para dar á criança uma belleza insinuante. Comtudo, como

aquella carinha era muito distincta para o papel que ia representar,

pozeram de roda da cabeça d'Adalberto uma feia fita d'ouro avermelhado,

e logo perdeu aquella graça natural, que tinha por tanto tempo feito o

justo orgulho de sua mãe.

Karik, o filho de Hercules, era mau por instincto e por educação; foi

buscar o espelho diante do qual se enfeitava sua irmã mais velha nos

dias de representação, quando dançava e seu pae a acompanhava, ao mesmo

tempo que Karik batia com força sobre o seu grande tambor e que Natchès

agitava as campainhas.

Adalberto, quando viu o espelho, sentiu dolorosamente o procedimento do

joven saltimbanco. Vendo quanto o captivo soffria com o seu feio trajo,

Karik quizera que elle podesse saborear a humilhação vendo o seu retrato

desfigurado.

Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho

passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer

baço, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta

acção, e olhou amigavelmente para Tilly que não ousava dar palavra nem

mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmão,

arrancou-lhe bruscamente das mãos o espelho e foi pôl-o no seu logar.

Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria

masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperança,

e disse comsigo mais uma vez:

--É ella, sim, ella é que ha de livrar-me!

Uma coisa o affligia; era vêr a velha Praxedes cortar com a grande

tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.

Era sem duvida para que não ficasse na carruagem um unico objecto que

podesse causar suspeitas.

Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio botão cosido pela

Rosinha na algibeira das suas calças de panno azul, no momento de deixar

Valneige; na sua precipitação, não achando um que dissesse bem, a boa

mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha

ficado, como muitas vezes succede ao que não é senão provisorio. Pelo

mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que

tinha deitado o borrão brincando com seu irmão. Na sua dôr infantil,

eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah!

como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a

casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educação. Aqui,

tudo era grosseiro!

Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de

comer a sopa dos ladrões. O prisioneiro morria de fome; como já disse,

não jantára na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe

trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo

tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.

Tomou pois aquella sopa que, na verdade, não era muito má, e que pelo

menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella

ficava em pé.

Emquanto almoçava, parecia-lhe vêr a casa de jantar do castello; quatro

pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau

santo, e Rosinha servindo a sopa ás crianças. A querida mãe, passando

para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia

jovialmente: «Bom appetite!» e riam; e elle, Adalberto, corria para a

abraçar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactidão

gritava-lhe:

--Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem é que se levanta da

meza antes de acabar? Não são horas de dar abraços, são horas de comer.

Em presença d'este quadro que lhe offerecia a sua imaginação, Adalberto

sentia as lagrimas nos olhos, e, comtudo, não queria chorar; mas ser

forte, corajoso, e conseguir fugir, era, o seu unico pensamento.

Tilly vendo que a sua tristeza augmentava julgou que elle não tinha

comido bastante e apresentou-lhe delicadamente o seu prato, dizendo-lhe

familiarmente:

--Se tu quizesses acabar a minha sopa? eu quando não como bastante não

me faz mal.

--O que! disse Adalberto com um gesto de reconhecimento, quando se não

come bastante soffre-se.

--Oh! eu soffro sempre.

--De que?

--De tudo.

Taes foram as primeiras palavras que estas duas crianças trocaram ás

escondidas, e o rapazinho cheio de illusão dizia comsigo:

--Pobre pequena! Que pena não poder eu leval-a commigo quando fugir!

A Casa do Saltimbanco · 第 2 / 11 段