Produced by Pedro Saborano
BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA
A CASA DO SALTIMBANCO
[Ilustração pág. 2. A Casa do Saltimbanco.]
A CASA
DO
SALTIMBANCO
POR
MADAME DE STOLZ
Obra ornada com gravuras
PARIS
GUILLARD, AILLAUD & C.ia
Livreiros de Suas Magestades O Imperador do Brasil e El-Rei de Portugal.
47, RUA DE SAINT-ANDRÉ-DES-ARTS.
BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA
*Que amor de criança!* pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.
*Os Desastres de Sophia*, pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.
*As Ferias*, pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.
*Infancias celebres*, por Mme LUIZA COLET, traducção de MANOEL PINHEIRO
CHAGAS 3 fr.
*As Meninas exemplares*, continuação dos Desastres de Sophia 3 fr.
*Thesouro da mocidade portugueza*, ou a Moral em acção, escolha de
factos memoraveis e anecdotas interessantes, proprias para inspirar o
amor da virtude, e para formar o coração e o espirito 2 fr. 70
*Thesouro das meninas*, ou Lições d'uma mãe á sua filha ácerca dos bons
costumes e da religião 3 fr.
*Thesouro de meninos*, obra dividida em tres partes: moral, virtude,
civilidade! fr. 50
Paris.--Typ. GUILLARD, AILLAUD & Cia.--1886.
CAPITULO I
Adalberto era feliz.
Seria difficil imaginar uma vivenda mais linda do que aquella em que
corriam os primeiros annos de Adalberto; era o campo da Normandia com
seus vallados, seus arbustos, extensos prados, campos dourados, com
todos os seus perfumes e flôres. D'estes thesouros participava Adalberto
com todas as outras crianças do logar, porque para todos tinha Deus dado
aquellas felicidades; mas, do que só aquelle rapazinho gozava, com seus
irmãos e sua irmã, era d'uma bonita e grande casa, cujas janellas
deitavam para um lindissimo jardim, onde se podiam admirar as mais
formosas rosas.
Por todos os lados arvores verdes, alamos, sobreiros, carvalhos,
ormeiros, por entre as quaes se viam ora ruas caprichosas, ora limpidas
aguas onde viviam lindos peixes. No fim do parque havia um labyrintho
formado por lilazes e clematites onde a gente se perdia; tantas voltas
elle dava. Esse labyrintho parecia feito de proposito para jogar as
escondidas; e era um dos grandes divertimentos de Adalberto andar
procurando seus irmãos Eugenio e Frederico, e sua irmã Camilla.
A cincoenta passos do castello via-se n'um grande lago um barco pintado
com as mais vivas côres. Este barco era o encanto de todos os pequenos.
Um passeio sobre a agua, ao luar, era o mais desejado de todos os
divertimentos de Valneige, talvez porque este favor só se obtinha quando
se era premiado, e a troco dos _muito bem_ e _optimamente_. É que não ha
maior prazer do que aquelle que alcançamos pelo cumprimento do dever.
Perto do lago havia um bonito casal pertencente aos paes de Adalberto, e
alli, uma duzia de vaccas em uma grande arribana, e mais um toiro que
mettia medo, apesar do seu olhar bem meigo. Mais longe, n'uma grande
estrebaria, sete ou oito cavallos de lavoura, grandes e robustos.
Defronte quatrocentos carneiros chegando-se uns para os outros, vivendo
felizes e tranquillos. No pateo, na estrebaria, nas mangedouras, na
estrumeira, sob os telheiros, por toda a parte gallinhas, frangãos,
gallos, gansos, patos, uma multidão de pequenos seres esvoaçando,
banhando-se, brigando e escarnecendo de todos com uma incrivel sem
ceremonia.
A tia Barru era a rainha d'este pacato imperio, ou por outra era a
caseira; sendo muito razoavel, só perdia o seu bom humor em duas
occasiões: quando um criado se embriagava, ou quando uma gallinha ia
esconder longe os ovos. N'estes casos, que ella reputava merecedores da
forca, ralhava do criado e da gallinha durante muito tempo; se não
tinham emenda; punha-se o criado na rua e a gallinha na panella.
Pode imaginar-se quanto eram agradaveis os primeiros annos de Adalberto
passados entre brinquedos e estudos nada difficeis, sob as vistas de
paes extremosos. Eugenio e Frederico, ambos mais velhos do que elle, iam
entrar no collegio com grande desgosto de Adalberto, que muito gostava
d'elles, apesar das suas continuadas questões. _Os grandes_, como diziam
em Valneige, sabiam que se não deve abusar da força, e como teriam de
certo vencido Adalberto, tão pequeno e delicado, estes bons rapazinhos
consentiam, seguindo os conselhos de sua excellente mãe, em ceder nas
questões de todos os dias a proposito d'uma pella ou d'um peão.
Camilla era toda doçura, e, ainda que tivesse perto de quatorze annos,
entretinha-se a jogar as damas com o seu manosinho, a quem os oito annos
faziam muitas vezes confundir as suas tabulas com as do adversario. Era
dotada de toda a paciencia de sua mãe e da seriedade de caracter de seu
pae. Os senhores de Valneige tinham-lhe dado uma grande prova de
confiança, permittindo-lhe que cuidasse da primeira educação de
Adalberto, que lhe chamava _mamãsinha_. A querida menina, graças aos
verbos e aos themas, tratava-o ás vezes por _meu filho_, tomando um ar
serio, que fazia rir immenso o senhor de Valneige.
Tudo estava regulado no campo; as horas da comida, as do estudo e as do
recreio. Como a regularidade é, em tudo, uma excellente coisa, havia no
palacio dois relogios; um de _dar horas_ outro _vivo_. O primeiro estava
dependurado no vestibulo; o segundo subia e descia a escada trinta ou
quarenta vezes por dia, entrava nos quartos, ia, vinha, girava, ralhava,
sabia tudo, via tudo. Ah! que relogio! chamava-se Rosinha; tinha-lhe a
madrinha posto este lindo nome julgando que a afilhada nunca
envelheceria; mas como havia já setenta annos, a afilhada tinha rugas,
as mãos magras, e as faces encovadas.
[Ilustração pág. 9. Meu filho! (Pag. 8.)]
Era uma boa mulhersinha, bem activa, um pouco impertigada, mas muito
bondosa e inteiramente dedicada á familia, e á casa. Estava alli havia
tanto tempo que ninguem fazia idea do que seria Valneige sem Rosinha,
nem Rosinha sem Valneige.
A boa da velha tinha conservado as saias curtas d'outro tempo, as toucas
chatas com folhos encanudados, o lenço do pescoço branco com flôres
vermelhas, emfim o que ella chamava o _trajo da sua terra_. Rosinha era
de uma tal exactidão que chegava a ser minuciosa; conhecia a hora pelo
cantar do gallo, pela sombra das arvores, pelo grito das aves, pelas
fraquesas de estomago que tinha em certos momentos, e pelas caimbras nas
pernas, que sentia um pouco mais tarde: era, por consequencia, d'uma
inexcedivel exactidão no cumprimento de toda a regra estabelecida. Se
Rosinha governasse o mundo, os que se queixam por elle andar torto
tambem se queixariam; tão direito elle andaria!
Graças a este espirito de exactidão chamavam-lhe o _relogio vivo_ de
Valneige, e na realidade ter-se-hia bem dispensado o outro, que só sabia
dar horas, como uma machina que era. Um olhar de Rosinha mandava para o
trabalho os pequenos preguiçosos, que se entretinham na escada ás horas
da lição; um gesto seu chamava do fim do parque os mais traquinas;
emfim, nas circumstancias importantes, a sua voz imperiosa obrigava cada
um a entrar no seu dever, fosse qual fosse a distracção presente.
Em vez de se dizer; o relogio vae dar horas; dizia-se, Rosinha vae
passar, e o regimento desfilava em boa ordem sem dar palavra. Os
senhores de Valneige approvavam muito esta vigilancia que tornava mais
facil a sua, e as proprias crianças, temendo um pouco os ares sérios que
a velha sabia tomar, gostavam comtudo d'ella porque era justa, porque
fazia os dôces, e porque era sempre ella quem da melhor vontade se
prestava aos seus caprichos, comtanto que esses caprichos não se
lembrassem de vir uma hora mais tarde ou mais cedo do que devia ser. O
relogio primeiro do que tudo.
CAPITULO II
Adalberto tinha um grande defeito.
Adalberto era um bom rapazinho, d'olhos vivos, sorriso fino, corpinho
bem feito, delgado como uma gazella, habil, agil e capaz de todas as
galanterias. Era dotado d'uma physionomia feliz, quer dizer, tinha,
quando não era mau, aquella expressão de frescura e de amabilidade, que
previne os estranhos a favor d'uma criança.
Todos eram bons com elle, todos tinham empenho em lhe dar gosto, e
comtudo, quando se conhecia bem, via-se que tinha um grande defeito, um
muito grande defeito... Era desobediente!
Em vez de se lembrar que todas as pessoas que o rodeavam sabiam mais do
que elle, tomava ares de sabichão, e suppunha que podia sem
inconveniente fazer isto ou aquillo, tendo-lhe sido prohibido.
Enganava-se com certeza, porque, mesmo quando não resulte nenhum
prejuiso apparente, o mal da desobediencia é real, e vale a pena
evital-o por causa dos grandes desgostos a que ordinariamente dá logar.
Já se viu um rapazinho que foge das vistas de seus paes? que vae
justamente para onde não deve ir? que mexe n'uma e n'outra coisa,
unicamente porque lh'o prohibiram? que só parece divertir-se bem nas
horas destinadas para o trabalho? Se alguem viu um rapazinho, que se
pareça com este retrato, pode dizer:--Era assim Adalberto.--Pobre
Adalberto! Eu vou contar as suas terriveis aventuras; terriveis, sim,
porque os cabellos se me põem em pé, quando penso nos perigos, que esta
criança correu por se ter habituado a desobedecer.
[Ilustração pág. 15. Havia um gymnasio. (Pag. 14)]
E comtudo, dirão, havia muitos divertimentos em Valneige? Sim, havia
muitos, sem se alcançarem pela desobediencia. Podia-se correr de roda
das casas, das alamedas adjacentes e no pequeno bosque. Quando as
crianças se mettiam nisso andavam bem uma legua. Havia um gymnasio, onde
o corpo se exercitava a ser agil e desembaraçado; subiam á escada de
corda, balouçavam-se, divertiam-se; emfim Adalberto tinha um gosto
particular por este genero de entretenimento.
Mas, sobretudo, aquando se lhes juntavam os seus amiguinhos, era então
que os pequenos se divertiam. Todos nós conhecemos estes divertimentos:
põem-se em commum o bom humor, as invenções, as espertezas; faz-se
d'isto um grande lote, e cada um participa d'elle sem prejudicar
ninguem. Chega-se por este meio a novos resultados.
Em Valneige gostavam d'estas reuniões de crianças, e, como a visinhança
o permittia, viam-se chegar na quinta feira de tarde tres ou quatro
diabretes, que só queriam divertir-se. Davam-se então mil saltos,
fazia-se um barulho de ensurdecer, e toda a especie de coisas muito
innocentes, mas muito aborrecidas para o publico. Á quinta feira Rosinha
tinha saudades da sua terra, da sua aldeia e até do seu berço, porque
passava os seus ultimos annos a lamentar a desgraça de se ter dedicado
com todas as véras da sua alma a estes travessos pequenos, dizia ella,
que a faziam enraivecer, e que ella não deixaria por um imperio. Rosinha
experimentava, como muitas vezes nos succede, duas sensações oppostas;
por um lado a necessidade de se dedicar; por outro, a de lamentar, desde
pela manhã até á noite, a sua dedicação. Quando qualquer d'aquelles
queridos pequenos tinha algum desgosto, se cahia, por exemplo, e
esfollava o nariz, a velha chorava e curava-o o melhor que sabia, mas
depois, zangava-se com aquelle mesmo nariz por se ter feito mal, porque
era fazer-lhe tambem mal a ella.
«Ai! repetia ella muitas vezes, que desgraça ter eu conhecido estas
crianças! Que precisão tinha eu quando morreu meu amo de ficar com o
filho, para me fazer de fel e vinagre? Podia bem, com o que tinha, ir
socegadamente para a minha terra, ter a minha pequena casa, o meu
jardimsinho, as minhas gallinhas, o meu gato e as minhas commodidades. E
em vez d'isto fico aqui! Mas para que? pergunto eu. Ah! é de mais; já é
tempo de descançar; tenho parentes que me querem; a minha resolução está
tomada, já o disse ao senhor, e, logo que a neve se derreta, metto-me na
diligencia e vou-me embora.»
Isto dizia ella no inverno, mas quando a neve se derretia, se algum dos
pequenos lhe perguntava: Então, Rosinha, quando parte? Respondia segundo
as circumstancias: «Ora! o que quer? Frederico tem muitas dôres de
dentes! é preciso que eu lhe ponha todas as noites no ouvido algodão com
oleo de amendoas dôces. Pobre-pequeno!... ou:--Socegue, que me não faria
rogar para me ir embora, se os dois mais velhos estivessem n'um
collegio; mas emquanto estiverem em casa... ou:--Ah! logo que eu veja
que a menina Camilla anda bem direita, farei a minha trouxa; mas tenho
tanto medo que fique defeituosa... ou então:--Assim que este marotinho
d'Adalberto deixar de ser desobediente, vou-me embora; mas d'aqui até
lá, preciso tomar conta d'elle como se fosse leite ao lume.»
Respondia assim a pobre velha, e a neve derretia-se, as arvores
rebentavam, as folhas amarelleciam, cahiam, e Rosinha ficava, presa pelo
laço mais forte que ha no mundo: uma antiga e verdadeira affeição.
Na quinta feira, isto succedia cincoenta e duas vezes por anno, Rosinha
julgava mesmo que já não gostava de Valneige, nada, nada. Porque? Porque
as horas não eram destinadas como de costume, e estava convencionado
brincar-se desde o meio dia até ao jantar. Ora as brincadeiras são uma
excellente occasião para se rasgar as calças e tudo mais, para se
quebrar todas as coisas, até a cabeça.
Eis a razão porque a boa mulher passava toda a quarta feira a dizer:
«Que pena que ámanhã seja quinta feira!»
Nós, que não andamos atraz das crianças, podemos achar que taes
brincadeiras são muito divertidas. A senhora de Valneige punha á
disposição de todos raquetas, volantes, peões, ballões, pellas, arcos, e
não sei que mais ainda!
Começava-se ao meio dia este alegre regabofe, e a boa mãe apparecia de
vez em quando como um poder protector, que faz todo o bem possivel e
evita todo o mal, e dizia com a sua voz grave e meiga:
«Vamos, divirtam-se, façam, o que quizerem, só lhes peço uma coisa,
obedeçam, meus queridos filhos.»
«Não tenha receio, querida mamã, dizia rindo o bom Eugenio, de cara
esperta, faces rosadas, sorriso franco; veja, nós divertimo-nos tanto
que nem tempo temos para desobedecer.»
Dito isto Eugenio tomava o freio nos dentes, se fazia de cavallo, ou
dava estalos com o chicote, se fazia de cocheiro.
Apenas sua mãe tinha tempo de lhe deitar um olhar de confiança e já elle
estava longe. Quanto a Frederico, a seriedade, que lhe era natural,
mesmo quando brincava, socegava a senhora de Valneige. Mas havia um
sujeitinho, loirinho e muito galante que nunca respondia á doce
admoestação de sua mãe; chamava-se Adalberto, está entendido, e tinha
por alcunha _o desobediente_. Quando uma palavra atacava o seu defeito
capital, tomava um ar distrahido, tratava de apanhar uma mosca,
arranjava as coisas de modo que ouvisse o menos possivel o que se dizia,
e, comtudo, percebia-o muito bem.
«Obedecei, meus filhos.» Isto queria dizer; Não vão brincar para ao pé
da agua, sobretudo não mexam no bote. Não quero que vão á estrebaria sem
serem acompanhados por Felippe, nem que passem por detraz dos cavallos,
que podem atirar algum coice; que nenhum se lembre de querer montar a
cavallo, a não ser que Filippe tenha tempo e condescendencia para se
prestar a essa brincadeira. Não se debrucem do poço, nem saiam fóra da
grade que separa o pateo da estrada, não corram para longe durante o
passeio, nem se aproximem muito do moinho de vento, etc.
Adalberto sabia de cór estas prohibições e muitas outras. Quando ouvia
sua mãe resumir tudo n'estas simples palavras: «Obedecei, meus filhos»,
quizera tapar os ouvidos com medo de perceber mais uma vez tudo o que se
não devia fazer, pois era justamente do que elle tinha vontade, e
veremos bem depressa o que em consequencia d'isso lhe aconteceu.
CAPITULO III
Adalberto havia desobedecido
Quaesquer que sejam os encantos da vida quotidiana, dá sempre gosto
quebrar a monotonia mesmo nos nossos prazeres. É facil imaginar os
transportes de alegria, que houve na familia, quando o senhor de
Valneige declarou um bello dia, ao almoço, que ia pôr em pratica um
lindo projecto, formado havia muito tempo, e tão depressa aceito como
combatido e adiado.
Esse plano reunia todas as condições para agradar, não só por ser
encantador, mas porque era esperado com anciedade; havia um anno que os
pequenos perguntavam uns aos outros em voz alta ou em segredo: quando
será a grande viagem, quando veremos Paris, Strasbourgo, Vienna, Praga?
lagos, montanhas?... Bastava esta idéa para fazer dar um pulo na
cadeira, mesmo quando se estava acabando uma pagina de escripta, o que
dava em resultado um grande borrão.
Estava, finalmente, decidido; ia-se partir para a Allemanha; ia-se
viajar com socego, sem fadiga, sem outro fim mais de que a instrucção
sem livros e o divertimento. É verdade que a senhora de Valneige, que
desejava particularmente esta viagem, tinha uma outra razão que não
dizia; dava-lhe cuidado a saude de seu marido, e os medicos julgavam que
o melhor remedio seria a mudança d'ar e da maneira de viver; esperavam
combater assim uma especie de melancolia nervosa, de que soffria o
senhor de Valneige, e que de tempos a tempos era acompanhada de
crescimentos.
Sua extremosa esposa disfarçava, cuidadosamente, para não aggravar o
mal, todas as suas inquietações. Quanto ás crianças, como seu pae não
estava de cama e se vestia como toda a gente, achavam-no optimamente.
Quando se soube da decisão deram-se palmas ás palavras do querido pae, e
quando elle disse:
Partimos d'aqui a oito dias; saltaram-lhe ao pescoço...
Oito dias depois estava a caminho toda a familia; o fiel Gervasio,
criado de confiança, acompanhava os viajantes e todos estavam
contentissimos, excepto a velha Rosinha que tinha chorado boas lagrimas
vendo partir os seus queridos filhos, como ella lhes chamava. Em os não
vendo, julgava-os perdidos... pobre velha! se ella podesse adevinhar...
mas não, não digamos nada.
Demoraram-se dez dias em Paris. As crianças admiraram sobretudo os
passeios. A differença das idades e de instrucção fazia-se sentir na
diversidade das apreciações. Por exemplo, em frente do palacio das
Tulherias, Adalberto quasi que não olhava para o monumento historico,
mas não se cansava de vêr os peixinhos encarnados que nadavam nos
tanques, e os magestosos cysnes, cuja raça viu passar tantos
acontecimentos, sem que por isso saiba a historia de França.
Surprehendeu-o tambem muito o comprimento dos Campos Elysios, a
multidão, as carruagens; mas o que sobretudo o impressionava, e d'uma
maneira desagradavel, era a ordem, que lhe tinham dado, de não passear
sem ir pela mão d'alguem. Isto pareceu-lhe insupportavel, e fez
desmerecer consideravelmente, na sua opinião, os esplendores da capital.
Pois elle tão independente em Valneige não teria vindo a Paris senão
para ser tratado como uma pequenita? Que vergonha! um homem! Coitado!
pobre pequeno! Se elle podesse imaginar... mas não, ainda não é tempo.
Depois de ter visto em Paris o que mais podia agradar ás crianças, o
senhor de Valneige tomou o caminho de ferro de Leste, e, parando sempre
nas principaes estações, chegaram a Strasbourgo, onde admiraram a
cathedral, esse grandioso monumento que attesta o desenvolvimento
successivo da architectura gothica, desde a sua origem derivada dos
cimbres até ao acabado que se nota na nave principal.
O grande relogio astronomico, cujas horas são marcadas por figuras, que
apparecem e desapparecem; espantou e maravilhou os nossos viajantes
muito mais do que o cruzeiro e a fachada. Quanto ao pequeno Adalberto, a
despeito dos famosos architectos, e até de Vauban e da sua cidadella em
pentagono, só viu em Strasbourgo uma unica coisa, o gallo que canta
sobre a torrinha lateral, no momento em que o maravilhoso relogio dá
meiodia e em que todos os apostolos apparecem juntos. Um gallo fingido e
que canta como se fosse verdadeiro! é incrivel!
O pequeno ficou pois espantado, não propriamente de Strasbourgo, mas do
gallo que para elle era tudo em Strasbourgo. Comtudo, esta bonita e
magestosa cidade tinha tambem um grande inconveniente... era preciso
andar pela mão!
Partiu-se para Vienna, parou-se pelo caminho, como se tinha feito de
Paris a Strasbourgo. O senhor de Valneige tendo resolvido demorar-se
pelo menos oito dias na capital da Austria, houve tempo de vêr muitas
coisas e de passear com vagar na grande alameda do Prater e n'outras
mais. As crianças não se cansavam de admirar o que se chama o Prater
selvagem, parte do qual é uma antiga floresta, onde pastam veados e
cabritos montezes. Estes, lindos animaes, juntando as vantagens da vida
domestica aos encantos da liberdade, ouvem, todas as noites o som da
buzina, e dirigem-se para junto da casa de campo, onde os espera uma
distribuição de ração.
Eugenio e Frederico achavam isto uma bella idéa, e tinham razão.
O chefe da familia levou seus filhos ao arsenal e fel-os visitar as
differentes officinas, onde se fabricam armas. Passaram alli tres horas
e decidiram depois seguir para S. Cyro.
A senhora de Valneige tendo mostrado desejo de conhecer os arredores de
Vienna, seguindo em caminho de ferro a margem direita do Danubio, todo o
rancho se pôz a caminho. Viu-se primeiro Schonbrunn, castello imperial,
acabado no tempo de Maria Theresa. N'este castello nota-se o quarto onde
Napoleão assignou o tratado de Schonbrunn em 1809, e onde vinte e tres
annos depois, pela instabilidade das coisas humanas, morreu seu filho o
duque de Reichstadt. Adalberto, pela sua pouca idade, reparou menos
n'este contraste historico do que nas trinta e duas estatuas de marmore,
que ornam a linda fonte, que dá o nome ao castello, e sobretudo no leão
e nos outros animaes que se vêem nas jaulas.
Visitaram tambem o castello de Luxembourgo. De todas as recordações
austriacas, as que mais prenderam a attenção de Adalberto, foram as
velhas carpas doiradas, que viu no lago, quando voltaram do castello
para a estação do caminho de ferro; deu-lhes pão, que ellas se dignaram
aceitar, como tinham feito os peixinhos encarnados das Tulherias. Vê-se
que Adalberto era bem recebido não só em França mas na Austria.
Passaram-se rapidamente estes oito dias e os viajantes emcaminharam-se
para Praga, parando sempre nas grandes estações. Adalberto deixou Vienna
sem saudade; achava que havia na capital da Austria uma coisa muito
aborrecida, um verdadeiro e muito grande inconveniente--era preciso
andar pela mão. Não se pode fazer idéa do espirito de independencia
d'este sujeitinho. Obedecer era para elle um supplicio. Pobre, pobre
Adalberto!
Estavam todos muito contentes por entrar na Bohemia. Este nome, dizia
Camilla, tinha seu que de extraordinario, de interessante e mesmo um
pouco de assustador; parecia-lhe que n'este paiz só devia haver gente,
que lêsse a sina e deitasse _as cartas_.
O senhor de Valneige, que não perdia occasião de instruir seus filhos,
contou-lhes em poucas palavras a historia d'aquelle terreno elevado, que
está como fechado por uma cinta de montanhas e cortado pelas
ramificações das mesmas montanhas.
Ensinou-lhes a não confundir os Ciganos com os Bohemios. Estes são os
habitantes do paiz, que vivem como todos nós; os Ciganos, aos quaes
tambem algumas vezes se chama Bohemios, formam um povo á parte, que
conserva os traços caracteristicos de uma nação errante, que no seculo
quinze se espalhou pela Europa, e principalmente na Hungria, na Italia,
em França, e em Hespanha. Ha d'estas tribus nomadas em todas as nações;
o nome muda, mas os costumes não. Em França chamam-lhes _Bohemios_; em
Hespanha _Gitanos_; em Italia _Zingari_; em Inglaterra _Gypsies_; em
Portugal _Ciganos_.
Este povo offerece um espectaculo muito singular no nosso velho mundo:
desprezado, perseguido durante trezentos annos, e, apezar d'isso, sempre
de pé, sempre errante, roubando por onde passa e lendo o futuro.
Percebe-se que justamente pelos seus exquisitos costumes casem entre si,
e assim se prepetua esta raça independente, temida não sem razão, e
vivendo no meio do povo sem nunca se misturar com elle, a não ser para
lhe recitar as suas loucuras e embustes, divertil-o um momento e tirar
d'elle o pouco de que precisa para prover as suas mui limitadas
necessidades. Comtudo, em certos paizes, os Ciganos não são errantes; os
de Hespanha, os Gitanos, habitam em Cordova e Sevilha bairros separados;
mas fallam em toda a parte a mesma lingua; esta lingua é doce e
harmoniosa, e deriva do slavo.
É notavel o profundo respeito que estes homens independentes teem ao seu
proprio chefe. A sua teima, a sua obstinação cede ante a authoridade
d'aquelle que os governa, e é preciso convir que, ao menos n'isto, são
melhores do que nós.
Julga-se que a sua origem remonta aos antigos Persas, que vieram
estabelecer-se no Egypto, quando Cambyses, o indigno filho de Cyrus, se
apoderou d'aquelle lindo paiz; sabe-se que o conseguio servindo-se de
cães e gatos, que pôz na frente do seu exercito, e sobre os quaes os
Egypcios não ousaram lançar frechas, porque, a seus olhos, estes animaes
eram sagrados. É a favor d'essa opinião, sobre a origem d'este povo, a
physionomia bella e expressiva da maior parte dos Ciganos, que faz
lembrar o typo persa. Certos cantos antigos, que se teem conservado
n'esta raça, fazem tambem suppôr, que o Egypto os viu antigamente; entre
outros uma especie de cantiga em que celebram as bellezas do Nilo e lhe
enviam saudosos queixumes.
Os ciganos são geralmente fortes e bem feitos e dotados d'uma grande
flexibilidade de corpo. As mulheres teem a cintura delgada, flexivel, os
movimentos graciosos, e, devemos dizel-o em seu louvor, tem persistido
entre ellas, apesar de serem semi-selvagens, um respeito admiravel pela
sua honra: são notaveis, sobretudo em Hespanha, pela severidade de seus
costumes.
Eil-os pois na Bohemia, os nossos viajantes.
Praga encantou-os pelas suas casas todas com terraços; tanto nas
planicies como nas collinas, pelo seu palacio real, torres, mirantes,
campanarios, e pelas alturas que dominam as duas margens do Moldau.
Esta vista é realmente d'um effeito surprehendente, e, quando nos
achamos em frente d'estas bellezas, sentimos quanto se está longe do
Sena, o que sempre agrada aos francezes que viajam, apezar de
regressarem ao seu paiz com verdadeira alegria.
Adalberto estava sobretudo enlevado por não perceber nada da conversa
dos passeantes quando passava por elles. Mais de metade fallava bohemio
e os outros allemão.
«Estou contente, dizia este homemsinho, meio a sério, meio a rir, estou
contente porque viajo em paiz estrangeiro.»
Mais uma razão para andar pela mão,--respondia Camilla que, por
instincto feminino, participava da constante inquietação de sua mãe a
respeito do pequeno desobediente. Mas, por mais que dissesse, elle não
fazia caso, e era preciso uma ordem bem positiva de seu pae ou de sua
mãe para o obrigar a dar a mão; mesmo assim escapava-se muitas vezes
para vêr isto ou aquillo, e estas maldades causavam uma especie de
pequena guerra, na qual as armas nem sempre eram cortezes.
A vista da ponte dos dezeseis arcos lançada sobre o Moldau chamou a
attenção dos nossos viajantes. Com effeito, com as suas torres antigas,
suas estatuas de pedra e as suas sanguinolentas recordações, parece um
velho guerreiro, que defendeu bem a sua bandeira. Como se poderia deixar
de prestar homenagem á estatua de bronze d'aquelle nobre padroeiro da
Bohemia, generoso martyr do segredo inviolavel da confissão? Tomou-se
cuidado em indicar a todos os seculos o lugar exacto onde o padre, para
não perder a alma, antes quiz perder o corpo do que faltar ao segredo do
sacramento. Foi afogado no Moldau pela barbara ordem do Imperador
Wencesláu. Os christãos do seu tempo admiraram-n'o e os de hoje vão
ainda todos os annos aos milhares, no dia do anniversario do seu
supplicio, vêr este sitio do Moldau, que recordará sempre S. João
Nepomuceno.
Visitaram o bairro occupado pela nobreza bohemia, e toda a parte da
cidade que limita ao norte o palacio archiepiscopal. Depois foi-se vêr a
cathedral. O senhor de Valneige, que tinha visitado alguns annos antes a
de Colonia, achou grande analogia entre estes dois monumentos, que datam
um e outro do seculo decimo quarto. A cathedral de Praga é muito mais
vasta; por isso o senhor de Valneige dizia rindo que os dois templos lhe
faziam o effeito de dois gemeos, dos quaes um tivesse crescido mais do
que o outro. Foi com grande devoção que a senhora de Valneige fez
ajoelhar seu filho mais novo deante das reliquias de Santo Adalberto,
que estão na pequena capella octogona da entrada. Pobre mulher! emquanto
que o pequeno distrahido, como se é n'aquella idade, olhava para a
direita e para a esquerda, ella, inclinada sobre a sua cabeça loira,
orava commovida, como se presentisse a desgraça que ia ferir-la...
Na nave da cathedral, admiraram o mausoleo real, de marmore e alabastro,
que data do fim do seculo dezeseis, e sob o qual teem vindo por sua vez
repousar os grandes da terra.
Uma bala de artilheria suspensa por uma cadêa a um pilar e cahida n'esta
Igreja durante a guerra dos sete annos, excitou a attenção de Eugenio e
de Frederico, e mesmo a do seu atrevido e pequeno irmão. Camilla
aproveitou a occasião para dizer mais uma vez que detestava a guerra,
que era uma coisa abominavel; e o terno olhar de sua mãe encontrou o
d'ella.
Em presença de taes recordações bellicosas é natural ao homem pensar na
gloria, mas a mulher pensa no soffrimento; é que a sua missão não é a
mesma: a um cabe-lhe defender; á outra consolar.
Desde o primeiro dia, a familia percorreu a cidade de Praga, para ter
d'ella uma idea geral, fazendo comtudo tenção de se demorar ao menos uma
semana, depois da qual se pensaria na volta. A estação ia adiantada,
fazia já frio, os dias eram pequenos, era preciso regressar ao seu paiz
e ao seu lar, thesouro do rico e do pobre.
Á noitinha, o senhor de Valneige, só com seus filhos (porque as senhoras
estavam cançadissimas), fez uma excursão ao bairro de Carolinenthal, ao
nordeste de Praga. Este sitio é o centro d'uma grande actividade
industrial. Era a hora em que uma multidão de operarios sahia das
fabricas: o espectaculo d'esta população laboriosa enchendo as ruas
direitas e bem construidas era curioso d'observar; o senhor de Valneige
fazia-o notar aos dois mais velhos, e Adalberto, durante este tempo,
reparava, como fazem todas as crianças, para os incidentes do caminho:
um cavallo que cahe, um cão em que batem. Quando sua mãe e sua irmã não
estavam presentes tinha um pouco mais de liberdade; seu pae não pensava
sempre em lhe fazer dar a mão, ainda que esta recommendação tivesse sido
terminante desde que andavam viajando. Quanto a seus irmãos, confessavam
baixinho que esta ordem, cheia de razão, devia ser muito aborrecida, e,
por consequencia, eram muito desleixados sobre este artigo da lei.
Adalberto, n'essa tarde, estava mais do que nunca tentado a desobedecer;
cedeu á tentação e ficou de proposito para traz, emquanto seu pae estava
distrahido, e mostrava a seus filhos um vasto quartel, onde cabe um
regimento completo.
Havia n'este sitio um homem que vendia passaros; era muito mais
divertido do que o quartel; Adalberto parou:
«Como são bonitos! oh! este encarnado! E este verde! oh! que bonitas
pennas!»
Infelizmente dois lindissimos passarinhos acabavam de declarar guerra um
ao outro; o nosso futuro militar, sem ter estudado a questão politica do
momento, tomou o mais vivo interesse no combate. Um tinha uma pôupa, o
outro não; pareciam de força, eguaes, e, como nenhuma potencia
estrangeira intervinha, o negocio podia durar muito tempo e custar a
vida a um dos combatentes, talvez a ambos. Não era preciso mais para
encantar o nosso pequeno official; declarou-se inteiramente pelo de
pôupa, e poz-se a julgar gravemente as bicadas que choviam sobre o campo
da batalha. A pôupa foi por um momento victoriosa, mas, não tendo sabido
conservar a defensiva, tornou-se victima d'uma retirada simulada e ficou
litteralmente vencida, porque cahiu, coitadinha! sobre a areia fina da
gaiola, e Adalberto, lembrando-se de repente, em vista d'esta gloria
decahida, que tinha ficado sósinho, afastou-se precipitadamente do lugar
da tentação.
O vendedor, porém, occupava a entrada d'uma encruzilhada; qual das ruas
tomar? O pequeno seguiu pela da direita, e, não avistando logo seu pae e
seus irmãos, voltou para traz e entrou n'uma rua proxima, sem comtudo
ter melhor exito. Quiz então dirigir-se aos que passavam para lhes
perguntar o caminho... Mas como? Chegado n'aquella manhã nada notou e
não se lembrava mesmo do nome difficil, que tinha o seu hotel. N'este
embaraço interrogava os operarios das fabricas que, mais felizes do que
elle, voltavam para suas casas; esta boa gente não o comprehendia.
Lembra-se com verdadeira inquietação, que está n'um paiz estrangeiro,
perfeitamente estrangeiro! Aperta-se-lhe o coração, tem vontade de
chorar e não póde; anda, anda até que emfim, morto de cansaço, encontra
um homem d'uma estatura elevada, que repara muito n'elle, se aproxima e
lhe falla baixo em mau francez. Este homem ouve a sua resposta, e vê-se
a criança olhar para elle com confiança e dar a mão ao desconhecido, que
o leva depressa, depressa, depressa.
Durante este tempo o senhor de Valneige, victima d'uma horrivel
inquietação, percorria as ruas adjacentes; teria logo achado Adalberto,
se este não tivesse tomado uma direcção completamente opposta. O
desgraçado pae ia, vinha, procurava. Seus filhos ajudavam-no com uma
anciedade facil de comprehender. O senhor de Valneige sabia pouco
allemão, apenas o necessario para as necessidades previstas de qualquer
viagem; mas que difficuldade para fallar doutra coisa e sobretudo para
trocar com rapidez estas meias palavras, que podem fazer encontrar uma
criança perdida! Á força de inquietação quiz acreditar que seu filho
teria sabido fazer com que o conduzissem ao hotel, onde estaria
tranquillamente sentado entre sua mãe e sua irmã. Encaminharam-se para o
hotel a passos largos e em silencio.
Uma vez chegados o senhor de Valneige não ousou subir a escada; não
sabia como havia de apresentar-se diante de sua mulher... Ella
levantou-se quando seu marido, pallido e transtornado, abriu a porta do
quarto, e, comprehendendo a pergunta antes de lhe ter sido feita,
respondeu com a expressão d'um desespero subito; «Perdeu-se!»
Ha momentos na vida, que não podem descrever-se. É preciso ser pae, é
preciso ser mãe, para se fazer idéa da dôr profunda, immensa, causada
pela desapparição d'um filho, quando não foi Deus que o arrebatou do lar
paterno. Ao menos aquelles que o vêem morrer, sabem onde devem
procural-o pela lembrança; todo o desgosto é para os que ficam, mas elle
não póde soffrer; seus paes sabem-no bem e as suas lagrimas não são sem
consolação; mas perdido, e perdido sobre a terra! sobre a terra onde ha
o mal e os malvados... oh! é horroroso.
[Ilustração pág. 37. Dá a mão ao desconhecido que o leva depressa. (pag.
35.)]
Sem se deixar succumbir um só instante, o senhor de Valneige,
acompanhado de Gervasio, tornou a percorrer a cidade; apoderou-se d'elle
uma especie de febre, que o impedia de sentir o cansaço, e o bom
Gervasio suspirava, pensando no pobre pequeno, que vira nascer.
O senhor de Valneige apressou-se a recorrer ás authoridades.
Ah! como aquelle desgraçado pae sentia o coração afflicto, quando
descrevia os signaes exteriores, que podiam fazer reconhecer seu filho;
era loiro, a pelle branca e rosada, uma covinha por baixo da face
esquerda, a barba um poucachinho dividida, os olhos castanhos e vivos,
uma voz argentina como a de uma rapariga, o que contrastava com os
movimentos d'uma bravura inteiramente masculina. A sua figura era,
quando muito, d'uma criança de sete annos, apesar d'elle ter perto de
oito.
Trajava um fato de panno azul escuro e um collarinho liso, que no
momento de sahir tinha sujado de tinta, um pequeno borrão apenas visivel
na parte de diante do lado esquerdo. Ao pescoço tinha suspensa, desde o
baptismo, uma medalha de oiro, representando a Santa Virgem, com os
braços abertos e a cabeça inclinada. Tinha-lh'a dado sua mãe, pedindo á
Rainha do Céo que o livrasse do peccado e da morte, em quanto ella fosse
viva. Pobre mulher! tinha perdido o seu filho querido, o seu filho mais
novo! Pode ser, oh! pode ser que fosse levado por homens crueis, que o
fariam participar d'um viver miseravel, que maltratariam o seu corpinho,
e que tentariam perverter sua alma innocente com maus exemplos e
blasphemias. A esta idéa, que não a deixava, a mãe sentia-se
desfallecer. Teria preferido antes vel-o morrer sob as suas vistas do
que entregue a gente infame, que faria da sua infancia um longo
martyrio, e que talvez o encaminhasse na senda do vicio.
O Senhor de Valneige, completamente desanimado, voltou para o hotel;
ninguem tinha visto a criança; nenhuns esclarecimentos se tinham obtido;
continuava o mysterio mais profundo sem se saber o que se havia de dizer
nem pensar a tal respeito. Iam empregar-se todos os meios possiveis para
descobrir Adalberto: mas para os desgraçados paes só restava esperar.
Esperar quando se ama um filho mais do que a si mesmo, esperar sem saber
se elle ainda respira, se soffre, se chama, esperar n'estas condições, é
morrer todos os dias! Passou-se uma semana, uma outra, ainda outra; um
mez, dois mezes, tres mezes, nada... Nenhum indicio, nenhuma esperança
proxima. Foi preciso voltar para França, depois de se ter estabelecido
todos os meios possiveis de correspondencia com Praga; mas toda a gente
estava convencida de que o pequeno tinha sido levado para longe, e que
só um acaso providencial o poderia fazer achar.
A primavera voltou, Valneige readquiriu a sua belleza, frescura; os
passaros cantavam, tudo se reanimára no campo, e só tres corações bem
infelizes não quizeram tomar parte n'esta felicidade. Uma velha
agitava-se, inquieta, perturbada, irascivel, accusando todos de
negligencia, e accusando-se a si mesma de não ter sabido prever e
impedir o mal; era a pobre Rosinha, que tinha emmagrecido por causa
d'isto! Um homem tinha-se tornado grave e sombrio; já não tinha
animação; a melancolia da doença, a que era sujeito, tinha-se tornado o
seu estado habitual; os seus negocios estavam descurados, os seus planos
futuros abandonados, temia-se que a sua saude, já muito melindrosa, se
alterasse profundamente; era o pae. Uma mulher ia e vinha vagarosamente,
tratava de seu marido, de seus filhos, da sua casa e dos pobres; mas no
seu coração não entrava alegria; tudo n'ella era triste, até o bondoso
sorriso com que acompanhava as suas acções para esconder a sua pena; uma
energia verdadeiramente christã era o que fazia com que essa mulher não
descurasse o mais pequeno dever. A sua vida era uma continua oração.
Pensando, girando, andando, chamava! Chamava seu pobre filho por todas
as aspirações do seu coração, pela sua coragem, pela sua dedicação, pela
sua caridade para com os desgraçados, com todas as véras da sua alma. E
á noite, chamava ainda mais por elle, e as suas lagrimas corriam com uma
amarga esperança; e ao pé do altar, quando estava só com Deus, não
podendo abafar os soluços, dizia unicamente, sabendo que o Senhor a
comprehenderia:
«Meu Deus! Adalberto!»
CAPITULO IV
Adalberto estava bem longe.
Na aldeia tudo é um acontecimento, até a gallinha que canta como o
gallo, e que logo é condemnada á morte porque isso se toma por agouro.
Póde imaginar-se o effeito, que produziu em Valneige o desapparecimento
do pequeno Adalberto.
Não se fallava d'outra coisa e não tinham fim as conjecturas, nas quaes
havia uma parte maravilhosa, devida á credulidade e superstição
d'aquella boa gente. Um dia veio uma mulher ter com Rosinha e disse-lhe:
«Ouça, senhora Rosinha, olhe que o seu pequeno não está perdido.»
A estas palavras, a velha criada levantou os oculos até ao meio da
testa, o que para ella era uma maneira de vêr melhor. Se lhe tivessem
dado o conselho de os fechar n'uma gaveta não teria querido. Havia
quinze annos, pelo menos, que usava oculos, e punha-os no nariz logo de
manhã. Pelo dia adiante, servia-se d'elles para ir ao jardim, para subir
e descer a escada; mas quando se tratava de dar attenção, de distinguir
as côres ou as physionomias, bem depressa os oculos subiam para o meio
da testa. A pobre mulher queria-lhes tanto como aos seus proprios olhos.
A Tia Godinette puxou uma cadeira porque o discurso promettia durar.
--Pois é verdade, senhora Rosinha, vou dizer-lhe uma coisa, que ainda
não disse a ninguem.
Todos os discursos de Godinette, que fallava muito vagarosamente,
começavam do mesmo modo, e sabia-se até que ponto se podia contar com a
sua discrição. Quando a boa da mulher não dizia os seus negocios a toda
a gente, era porque estava só.
--Ouça, senhora Rosinha, aqui tem o que me succedeu, a mim que lhe estou
fallando. Sonhei a noite passada... Primeiro devo dizer-lhe que me doíam
as pernas, mas doíam-me como nunca. Olhe, era exactamente nas barrigas
das pernas, como uns canitos que me mordessem. Eu dava voltas na cama,
como um frito na frigideira, e esfregava, esfregava... é necessario
sempre esfregar quando doem as pernas; ás vezes é o sangue que para.
Diga-me uma coisa, senhora Rosinha, o que faz quando lhe doem as pernas?
[Ilustração pág. 45. O seu pequeno não está perdido. (pag. 43.)]
--Ora essa! esfrego. Mas vamos, vamos á historia.
--Eil-a; emquanto eu estava ás voltas na cama, disse commigo: que horas
serão? Deve ser tarde, com certeza. Estou convencida que é mais de meia
noite; não sabia as horas, eu, e quem não sabe, a senhora Rosinha ha de
ter ouvido dizer, é como quem não vê. N'isto ouço dar horas na
freguezia. Ponho-me a contar pelos dedos, uma duas, tres, quatro, cinco,
seis, sete, oito, nove, dez...
--Onze, doze, accrescentou precipitadamente Rosinha que estava sobre
espinhos.
--Justamente, dez, onze, doze. Olhem como adivinhou! É fina como um
coral.
--Vamos lá, dizia que o nosso pequeno...
--Espere, senhora Rosinha, isto não vai a matar.
--É que assim temos para peras.
--Então, quando eu vi que era meia noite, disse commigo: ora esta!
julguei que era mais tarde. A noite foi feita para dormir, toca a
dormir. Tanto peior para as minhas pernas! Custou-me a pegar outra vez
no somno; muito me custou! Abria os olhos, fechava-os, tornava a
abril-os, tossia, assoava-me, cuspia, esfregava-me, era um nunca acabar!
--E depois!
--Acabei por adormecer, e sonhei que passeava n'um lindo jardim, onde
havia um grande tanque, mas grande, grande, como não é possivel, como ás
vezes a gente sonha; a tia Rosinha sabe.
--Sim, sim, e depois tia Godinette?
--Depois? era comprido o tal tanque, mas comprido como d'aqui á cruz da
estrada. Que digo eu?... Como d'aqui ao... ao...
--Ao fim do mundo. Ande lá tia Godinette.
--Justamente! sempre tem idéas! Vi então do outro lado do tanque uma
raposa. É verdade, uma raposa e ao mesmo tempo o seu menino, que tinha á
cabeça um cesto, _vossemecê_ bem sabe, d'estes cestos em que se põe...
--Sim, sim, estou a vêl-o.
--Está mesmo a vêl-o, não é assim? Mette-se nos taes cestos, mette-se...
--Mette-se tudo o que se quer.
--Tem _vossemecê_ rasão. Com effeito, sendo um cesto, mette-se-lhe o
que se quer. De mais no fim de contas, isto não faz nada para a minha
historia.
--N'esse caso saltemos isso, quer?
--Depois, elle vê a raposa, tem medo, deixa cahir o cesto, e prega
comsigo no tanque de cabeça para baixo.
--Coitado do pequeno!
--Qual pequeno? Foi o cesto.
--Ah! bom! mas _vossemecê_ dizia de cabeça para baixo.
--Era a brincar. Eis que a raposa vem ter commigo com uma pata no ar.
Pobre animal! Foi talvez ferida por algum caçador... ah! a proposito de
caçador, _vossemecê_ sabe?
--O que?
--Dizem que ha dois caçadores, que vinham no outro dia pelo matto e
encontraram um cão vadio, que mordeu os cães que os acompanharam.
--Pobres animaes!
--Que está a dizer senhora Rosinha? Dos homens é que eu fallo.
--Ah! então pobres homens!
--Mas tambem mordeu os cães.
--Pois sim, pobres homens e pobres cães. E o pequeno?
--Espere ahi. Viu-se então na escuridão uma grande bola amarella como
uma pequena lua, que corria o mais que podia no céo; chamam-lhe um
_metaloro_... um _metoro_... não sei bem o nome, mas isso nada faz ao
caso.
--Felizmente; mas o que tem a bola com o nosso pequeno?
--O que tem? Está bem claro. Uma bola amarella que corre no céo, não é
qualquer coisa. E depois, ouça mais esta, ainda não acabei: como elle
andava para traz, a raposa...
--O que! ainda a raposa! Tornamos outra vez ao sonho?
--Mas com certeza; a raposa é brincadeira.
--E o cão damnado?
--Esse é sério.
--Ah! peior é essa.
--Então a raposa...
--Olhe, faça-me o favor de deixar a raposa aonde está; fallemos antes do
nosso pequeno loirinho. Diga-me o que sabe d'elle.
--D'elle? Ora essa! não sei nada d'elle. Que quer _vossemecê_ que eu
saiba d'elle? Não o perderam na Allemanha?! Mas é o mesmo; podem dizer
que está longe; quando se vêem signaes no céo, pode-se estar certo que o
pequeno não está perdido.
Estava-se n'este ponto de tão insipida conversa, quando o senhor de
Valneige passou, sempre pensativo e inquieto; reparou no ar azafamado da
tia Godinette, e a fiel Rosinha, notando a sua preoccupação, julgou
dever repetir-lhe as palavras da boa mulher, saltando a parte da
insomnia, do relogio, das pernas e da raposa. O amo respondeu com
tristeza que não havia, infelizmente, relação alguma entre este meteoro
e a pobre criança; que o facto de que se tratava nada tinha de
prodigioso, sendo devido a um phenomeno atmospherico muito conhecido, e
sobre o qual eram desarrazoadas as suas superstições. Godinette um pouco
despeitada, mas nem por sombras convencida, fez a sua mesura e foi
contar a outros o seu sonho e a sua bola amarella.
Quanto á boa Rosinha, vendo terminada a conversa, desceu tranquillamente
os seus queridos oculos sobre o nariz e continuou a fazer meia.
CAPITULO V
Adalberto sabe emfim até onde pode levar a desobediencia.
Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto
se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o
querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura
que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, não
podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraça áquella
criança. No dia em que desapparecêra, havia desobedecido oito vezes! e
como ninguem tinha dado por isso, não fôra castigado. Deus vê tudo que
os paes e as mães não vêem; foi Elle quem se encarregou de castigar por
uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o
rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle
tido intelligencia.
Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no
momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de
lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é
verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco
francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma
traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as
suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga,
pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou
a chorar.
«Tu choras?» disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e,
repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar,
o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme
cabeça, fêl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que
esperasse um instante. A criança estava morta de fome e de sede; o
desconhecido fêl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas
do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso
extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, já não tinha medo; uma especie
de indifferença e quasi de bem estar succedêra a toda a emoção triste...
emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande,
tinha preparado; e tomando nos braços a sua innocente victima,
dirigiu-se precipitadamente para a estação do caminho de ferro, deixando
a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de
lã, afim de o fazer passar por uma criança doente.