--Vamos refocilar na devassidão, disse o doutor quando nos apeamos.
Infelizmente a besta que trazemos em nós exige esse mergulho de quando
em quando. Os hygienistas não se aperceberam desta grande verdade: o
homem espoja-se. O corpo exige, com a mesma tenacidade, o exercicio
e a insania, a tensão dos musculos e o enervamento, como o espirito
requer o real e o ideal. O vicio mantem em silencio a carne: é um
repasto material. É preciso satisfazer o animal. Estudei profundamente
o organismo do homem e cheguei á convicção de que a vida serena é um
absurdo impraticavel. A vida deve sujeitar-se ás leis do movimento--a
variedade é um facto. Confesso ao meu amigo que sou avesso ao deboche,
detesto a vida de _noceur_; mas sinto, de longe em longe, necessidade
de atravessar uma noite desfolhando rosas em champagne, no fundo de
um gabinete discreto, com uma grisette que me recite a léria do amor,
trincando lascas de fiambre e queimando cigarrilhas. Acho prazer,
prazer perverso, porque sou um detestavel instincto. Estacou e disse-me
de novo: um detestavel instincto.
Se pudesse viver como me inspira o temperamento, garanto-lhe, meu
amigo, que as chronicas terriveis de Gilles de Rais desappareceriam
como banaes e pueris. Depravar a humanidade!... deve ser um prazer
magnifico. Ver todo um mundo no vicio, numa orgia sardanapalesca, ao
sol, cantando. O vinho a correr pelo leito dos rios. Em vez de barcas,
grandes cantaros fluctuando; e gente a beber, a cambalear, a cahir,
besuntada e tropega, crianças e velhos, virgens, monjas, tudo, a babel
terrivel do satyrismo, num diluvio roxo escoado de todas as torneiras e
de todas as vinhas... que delicia! E calmo: O vicio é uma necessidade,
affirmo-lhe.
Jogo e depravo-me como empanturro o estomago, como ingiro a medicina.
Para mim a pilula e a esphera da roleta pertencem á mesma therapeutica,
operam diversamente, mas operam. Para os males do figado calomelanos,
para o tedio uma parada commovedora. As mulheres interessam-me pela
estranheza do typo: adoro a mulher de amor, não pelo seu beijo, mas
pelo seu estudo, porque é curioso ver como esses animaesinhos sabem
attrahir. Algumas, pobres camponias, ainda com as mãos grossas do
cajado com que andaram a pastorear nos campos, conhecem melhor a
arte de agradar, as delicadas minudencias do amor que interessam,
que prendem, que sensualisam, do que as eruditas educadas em finos
_boudoirs_, lendo brochuras ardentes. Acho adoravel a cocotte--é um
sexo neutro--alguma coisa de homem, a tactica commercial, alguma coisa
de mulher, a hypocrisia. De resto, é uma valvula de segurança social.
Um contemporaneo da academia, rapaz de finissimo espirito e talento não
vulgar, dizia-me sempre: que sentia, de tempos a tempos, necessidade de
embriagar-se. Encerrava-se e bebia. Era uma medicina.
Aventurei citando Simão Carreira, que, nos momentos em que a musa lhe
foge, vai ao pucarinho e derreia bebedo acordando, no dia seguinte,
dyspeptico e amarrotado, mas com a imaginação fulgurante e provida
para um novo canto do seu poema ou para meia duzia de sonetos, que
immediatamente registra para o _Correio da Serra_, orgão superiormente
litterario para as alturas em que vê a luz.
--Mas é assim, meu amigo. A castidade atrophia, deprime, suffoca
o espirito. O amor é um derivativo. Não o amor sentimento: o amor
sensação. Afinal, que vamos nós buscar no fundo de um theatro, prazer?
distracção? arte? não absolutamente: vamos cevar o animal. No meu
programma de educação, inaplicavel, porque não tenciono perpetuar a
minha crise de spleen, dando ao mundo um representante de meu tedio e
das minhas desillusões, entraria, como curso fundamental--o vicio. O
vicio, pois não. O epigono constitue o seu caracter com mais vigor nos
camarins e nas tascas do que nas escolas. Que diabo ensina o mestre?
ensina a evitar o vicio, o que vale dizer--mostra outro vicio. É uma
verdade o que Comte deixou escripto: «Não se destroe senão o que se
substitue.» Afinal a vida é uma constante marcha e a natureza tem as
suas leis. Para seguir é preciso tomar rumo. O mestre diz que não se
vá pela direita; então o caminho da moral é o da esquerda e ahi vai
o pimpolho arrebatado pelo temperamento e induzido pela logica do
pedagogo para peior deveza. E por fim a educação inutilisa um homem que
podia ser perfeitamente aproveitado. Meu amigo, os primeiros ciumes
fazem os futuros bravos, os primeiros amores fazem os futuros poetas. A
moral é uma palavra van; toda a gente a pronuncia e poucos a praticam.
Qual moral, qual nada!... o corpo exige. Emmudeceu de repente.
Haviamos chegado a um largo, e na parte fronteira á rua por onde
seguiramos, uma grande cauda de luz electrica alastrava o passeio
argentando as arvores e, ás vezes, ganhando o céu como uma esteira de
luar.
--Variedades, disse-me o doutor. Mas se fossemos ao Sant’Anna?
--Como quizer...
E seguimos. O doutor, depois de um silencio, avisou-me: Mas não se
illuda--olhe que a caixa de um theatro é um pouco peior que a caixa de
Pandora...
--E a esperança, doutor?
--Fica á entrada, como no distico do Dante. Vai ver de perto a illusão,
que é uma triste realidade. E voltando a rua: Eis-nos chegados, disse.
Á porta do theatro formigava uma multidão impaciente. Logo que
nos aproximámos, dois sujeitos avançaram pressurosos, offerecendo
bilhetes:--que eram os melhores, que na casa só havia da ultima fila
e perseguiam-nos tomando-nos o caminho, embaraçando-nos o passo,
sofregos, afflictos. Safámo-nos briosamente e ganhámos a bilheteria.
Tomei a frente ao doutor e, enfiando a mão pelo guichet, bradei:
--Duas cadeiras!
--Uma! Uma só, disse elle.
--E o senhor?
--Não preciso; tenho entrada.
--Uma, emendei; uma cadeira. E, recebendo o papelucho das mãos do
bilheteiro, examinei-o: Lettra L... que tal?
--No inferno...! Mas como não tencionamos assistir, qualquer coisa
serve. Vamos.
O doutor encaminhou-se vaidosamente e confesso que, pela primeira
vez em minha vida, senti picar-me a inveja vendo-o passar entre os
porteiros grave, sem uma palavra, como se entrasse por sua casa. A mim
tomaram o papelucho e rasgaram uma nesga entregando-me o resto; ao
doutor disseram com respeito: Boa noite!
Achei-me num estreito pateo de terra humida. Para um lado, um
correr de portas verdes com um oculo ao alto; para outro lado, mais
adiante, um balcão de bebidas--na mesma direcção um tablado coberto,
cheio de mesas de zinco entre as quaes passavam atarefados caixeiros
carregados de copos. Mulheres subiam e desciam opulentamente vestidas,
saracoteando, com grandes leques de plumas, deitando olhares, franzindo
sorrisos; outras tagarelavam em grandes rodas de rapazes, com
gargalhadas estridentes; e uma velhusca, de preto, com uma barbicha
no queixo, como as feiticeiras de Macbeth, estremecia, mostrando as
gengivas desertas, rindo estridulamente aos galanteios de um meninote
de chapéu de palha e terno de flanella branca.
--Vê este seculo, meu amigo?
--É a propria velhice...
--É Venus ancestral. Essa mulher é o centro do mundo equivoco--é
ella quem dirige as neophytas e dizem que tem um curso admiravel
de sciencia. Dá lições diarias ás que pretendem fazer carreira pelo
caminho que Laïs trilhou arrastando poetas e o tonel de Diogenes. É uma
mulher digna de consideração: sem ella não haveria novos encantos, nem
os languores imprevistos. A sabedoria está com os velhos, meu amigo.
E, baixinho, soprou-me: Olhe a Marion, evitemol-a. Era, em verdade,
a loura, a formosa loura ciumenta e aspera, que acariciara os meus
sapatos com o pésinho minusculo.
--Se a convidassemos para a ceia, doutor?
--Não... não... Excede-se e dá para chorar a sua infelicidade, porque
essa divina mulher tem saudades da patria e da honestidade e, quando
bebe vinhos de França, lamenta não ter um filho e fica de tal modo
nostalgica que, ao cabo da lamentação saudosa, é sempre necessario que
venham tres homens para leval-a ao carro. Não... não...! Evitemol-a.
Marion bebia e tão entretida estava com a sua garrafa de Apollinaris
que não deu por nós.
--É sobria, entretanto: bebe agua, á grega.
--Sobria? quem...? Marion...?! porque está bebendo Apollinaris? Conheço
muito essas medidas preventivas: é que ella conta ceiar, meu amigo, e
está recompondo o estomago para um diluvio de Bourgogne. Mas vamos.
Tomámos por uma das alas do theatro e, justamente quando voltei os
olhos para a scena, entrava um grande diabo, brandindo um facho, a
bradar coisas terriveis, ao clarão purpureo de fogos de bengala. A
orchestra ia num crescendo infernal--quasi se não ouvia a declamação
do maldito quando surgiu uma legião de diabos vermelhos, truculentos,
dançando em torno do rei a berrar, a bramar, á proporção que os
musicos, num delirio satanico, sopravam com furia, batiam com gana,
dando ao espectador pasmado a idéa aproximada do que deve ser a musica
nesse reino negregado de chammas, onde as almas penam torrando-se em
labaredas inextinguiveis, sob abobadas de granito em brasa. Felizmente,
porém, houve uma pancada vibrante e os demonios sumiram.
Cahiu um novo panno: Uma aldeia risonha sob um ceu de azul, com uma
igrejinha branca a um alto e na eira da herdade, no primeiro plano,
entre médas de palha e instrumentos agrarios, camponios a espadellarem
linho, cantando um villancico meigo.
--Vê aquella velhota que ali vem por entre arvores...? É a Jesuina.
--Por Deus! mas é uma antigualha!
--Engana-se. É uma bella mulher. Vai convencer-se...
Os homens, que se apertavam á minha frente, pouco me deixavam ver.
Puz-me nas pontas dos pés, já interessado pela velhota quando,
subitamente, vi surgir o demonio, sem archote, os braços cruzados, numa
attitude hostil, e berrar:
--Fada... não sei que... e uma infinidade de palavras que deviam ser de
insulto, porque a velha poz-se tambem de entono e avançou hysterica,
vociferando:
--Ainda não!... Cahiram-lhe os andrajos, o cajado transformou-se em
sceptro enramado de folhas de ouro e eu vi uma esplendida mulher, de
fórmas admiraveis, resplandecente na sua toilette feerica.
--Linda, com effeito, doutor! disse maravilhado.
--Ah! é esplendida! E languido, com os olhos em alvo, trincando o
beiço: E que mulher! A scena atroou aos berros dos camponios, que
deitaram a correr espavoridos. Ficaram sós, desafiando-se--o diabo
negro e a fada. Houve uma troca de palavras e novo _tchaan_! Pannos
cruzaram-se acima e abaixo. Nova scena. Jardim florido, entre grutas.
Mulheres: nymphas, disse-me o doutor, tangendo lyras e cantando.
Cahiam do céu, como na lenda de Danae, palhetas de ouro. O diabo,
estortegando, vencido, urrava com os joelhos em terra, e a fada, com
um gesto cheio de magestade, mantinha-o subjugado e immovel. Romperam
palmas e o panno veiu descendo lentamente.
--Vamos falar á Jesuina.
--Pois não, doutor. Pois não... E partimos atravéz da multidão que
recuava.
O doutor bateu á porta da caixa, e appareceu ao postigo uma cara ossea,
macilenta, hispida de pellos, indagando soturnamente: Quem é?
--Abre, Amaro.
O cérbero sumiu-se batendo o postigo e logo abriu meia porta, por onde
nos esgueirámos rapidamente. Ambiente de estufa--mal se podia respirar.
Não haviamos ainda caminhado dois passos quando vi surgir a uma porta o
truculento diabo, abanando-se, com um charuto nos beiços, muito ancho.
O doutor acenou com os dedos um cumprimento intimo. Entre os bastidores
torvelinhava a gente do movimento arrastando peças accessorias, içando
nuvens, pregando sarrafos. Dois homens, agachados junto de uma rocha
sarapintada, ajustavam cordeis, e um moreno, de sobrecasaca, a cara
rapada, berrava para as bambolinas:
--Ó Candido! ó Candido! desce mais essa vista! mais! mais, homem! Que
diabo... mais! e bateu uma patada formidavel.
--Mais á frente...! ordenava um outro, alto, de cavaignac, aos homens
que collocavam a rocha... ahi...
Um soldado, com o capacete atirado para o sinciput, passeava de um
para outro lado, cantarolando. Um pequenote passou por mim esbaforido,
arrastando uma carapaça de saurio com grandes escamas.
Era difficil atravessar-se, porque de toda a parte surgiam genios,
demonios, soldados, mulheres, atropelando-se, azafamados, lançando
appellos, a correr, empurrando-se.
O doutor avançou e, mostrando-me uma escada larga por onde desciam
coristas trauteando, disse:
--Vamos subir... Isto aqui em baixo é impossivel. E galgámos os
degráus, ganhando um passadiço por onde andavam actores, refrescando-se
com ventarolas. Um, em trajo de principe, vociferava no camarim,
sacudindo uma gaforinha loura:
--Que aquilo era uma vergonha, um nojo! E sahiu bradando: Ó Ferreira! ó
Ferreira! Vocês não viram por ahi o Ferreira! Ah! grandissima besta!...
--Mas que é? indagou um escudeiro acaçapado e ventrudo, arrastando a
durindana ferrugenta.
--Olha p’ra isto... e tomou a cabelleira nas pontas dos dedos. Isto é
decente? Pois eu hei de entrar em scena com esta peruca?! Não entro,
nem que me rachem! E berrou de novo: ó Ferreira! ó Ferreira! Outro
assomou á porta de um camarim, em ceroulas, todo sarapintado:
--Ó Ferreira! Onde é que se mette esse pedaço d’asno, não me dirão? Ó
Ferreira!
Passámos atravéz do alarido e, como olhasse por uma porta entreaberta,
surprendi um lindo braço nú, de esbelto contorno e avisei o doutor.
--Ahi? é uma certa Clotilde... detesta-me; de resto não vale um olhar:
é mulher de banhas fofas. Vamos á nossa Jesuina. É aqui. Parou diante
de uma porta e bateu:
--Quem é.
--Eu, Jesuina.
--Eu, quem? Estou occupada.
--O Gomes...
--Ah! Espera... E a voz, mais proxima, indagou: Estás só?
--Não, mas é como se estivesse: trago commigo o Amor que tem os olhos
vendados.
--Oh! filhinho... não estou em estado de receber. Mas a chave rangeu na
fechadura, a porta descerrou-se e eu vi o rosto adoravel da fada.
--Como vais? indagou lançando para o meu lado um olhar obliquo, e
baixinho: Espera um momento, abro já, sim?
Recolheu-se e voltámos a passear. Ainda gritavam pelo Ferreira.
Debruçámo-nos á balaustrada: em baixo andavam soldados antigos, com
grandes escudos rutilantes, jacarés arrastando caudas enormes, monos,
demonios e camponezes, uma promiscuidade mirabolante, gente e animaes,
em intimidade só comparavel á que existiu entre esse troço de salvados
que andou pelas aguas do diluvio dentro da arca, para perpetuar as
especies. Fios de luzes tremeluziam ao alto, por trás dos pannos.
Subiam vistas, arrastavam-se bastidores--havia um grande rumor de
faina. De repente uma voz fanha entoou