XI

--Vamos refocilar na devassidão, disse o doutor quando nos apeamos.

Infelizmente a besta que trazemos em nós exige esse mergulho de quando

em quando. Os hygienistas não se aperceberam desta grande verdade: o

homem espoja-se. O corpo exige, com a mesma tenacidade, o exercicio

e a insania, a tensão dos musculos e o enervamento, como o espirito

requer o real e o ideal. O vicio mantem em silencio a carne: é um

repasto material. É preciso satisfazer o animal. Estudei profundamente

o organismo do homem e cheguei á convicção de que a vida serena é um

absurdo impraticavel. A vida deve sujeitar-se ás leis do movimento--a

variedade é um facto. Confesso ao meu amigo que sou avesso ao deboche,

detesto a vida de _noceur_; mas sinto, de longe em longe, necessidade

de atravessar uma noite desfolhando rosas em champagne, no fundo de

um gabinete discreto, com uma grisette que me recite a léria do amor,

trincando lascas de fiambre e queimando cigarrilhas. Acho prazer,

prazer perverso, porque sou um detestavel instincto. Estacou e disse-me

de novo: um detestavel instincto.

Se pudesse viver como me inspira o temperamento, garanto-lhe, meu

amigo, que as chronicas terriveis de Gilles de Rais desappareceriam

como banaes e pueris. Depravar a humanidade!... deve ser um prazer

magnifico. Ver todo um mundo no vicio, numa orgia sardanapalesca, ao

sol, cantando. O vinho a correr pelo leito dos rios. Em vez de barcas,

grandes cantaros fluctuando; e gente a beber, a cambalear, a cahir,

besuntada e tropega, crianças e velhos, virgens, monjas, tudo, a babel

terrivel do satyrismo, num diluvio roxo escoado de todas as torneiras e

de todas as vinhas... que delicia! E calmo: O vicio é uma necessidade,

affirmo-lhe.

Jogo e depravo-me como empanturro o estomago, como ingiro a medicina.

Para mim a pilula e a esphera da roleta pertencem á mesma therapeutica,

operam diversamente, mas operam. Para os males do figado calomelanos,

para o tedio uma parada commovedora. As mulheres interessam-me pela

estranheza do typo: adoro a mulher de amor, não pelo seu beijo, mas

pelo seu estudo, porque é curioso ver como esses animaesinhos sabem

attrahir. Algumas, pobres camponias, ainda com as mãos grossas do

cajado com que andaram a pastorear nos campos, conhecem melhor a

arte de agradar, as delicadas minudencias do amor que interessam,

que prendem, que sensualisam, do que as eruditas educadas em finos

_boudoirs_, lendo brochuras ardentes. Acho adoravel a cocotte--é um

sexo neutro--alguma coisa de homem, a tactica commercial, alguma coisa

de mulher, a hypocrisia. De resto, é uma valvula de segurança social.

Um contemporaneo da academia, rapaz de finissimo espirito e talento não

vulgar, dizia-me sempre: que sentia, de tempos a tempos, necessidade de

embriagar-se. Encerrava-se e bebia. Era uma medicina.

Aventurei citando Simão Carreira, que, nos momentos em que a musa lhe

foge, vai ao pucarinho e derreia bebedo acordando, no dia seguinte,

dyspeptico e amarrotado, mas com a imaginação fulgurante e provida

para um novo canto do seu poema ou para meia duzia de sonetos, que

immediatamente registra para o _Correio da Serra_, orgão superiormente

litterario para as alturas em que vê a luz.

--Mas é assim, meu amigo. A castidade atrophia, deprime, suffoca

o espirito. O amor é um derivativo. Não o amor sentimento: o amor

sensação. Afinal, que vamos nós buscar no fundo de um theatro, prazer?

distracção? arte? não absolutamente: vamos cevar o animal. No meu

programma de educação, inaplicavel, porque não tenciono perpetuar a

minha crise de spleen, dando ao mundo um representante de meu tedio e

das minhas desillusões, entraria, como curso fundamental--o vicio. O

vicio, pois não. O epigono constitue o seu caracter com mais vigor nos

camarins e nas tascas do que nas escolas. Que diabo ensina o mestre?

ensina a evitar o vicio, o que vale dizer--mostra outro vicio. É uma

verdade o que Comte deixou escripto: «Não se destroe senão o que se

substitue.» Afinal a vida é uma constante marcha e a natureza tem as

suas leis. Para seguir é preciso tomar rumo. O mestre diz que não se

vá pela direita; então o caminho da moral é o da esquerda e ahi vai

o pimpolho arrebatado pelo temperamento e induzido pela logica do

pedagogo para peior deveza. E por fim a educação inutilisa um homem que

podia ser perfeitamente aproveitado. Meu amigo, os primeiros ciumes

fazem os futuros bravos, os primeiros amores fazem os futuros poetas. A

moral é uma palavra van; toda a gente a pronuncia e poucos a praticam.

Qual moral, qual nada!... o corpo exige. Emmudeceu de repente.

Haviamos chegado a um largo, e na parte fronteira á rua por onde

seguiramos, uma grande cauda de luz electrica alastrava o passeio

argentando as arvores e, ás vezes, ganhando o céu como uma esteira de

luar.

--Variedades, disse-me o doutor. Mas se fossemos ao Sant’Anna?

--Como quizer...

E seguimos. O doutor, depois de um silencio, avisou-me: Mas não se

illuda--olhe que a caixa de um theatro é um pouco peior que a caixa de

Pandora...

--E a esperança, doutor?

--Fica á entrada, como no distico do Dante. Vai ver de perto a illusão,

que é uma triste realidade. E voltando a rua: Eis-nos chegados, disse.

Á porta do theatro formigava uma multidão impaciente. Logo que

nos aproximámos, dois sujeitos avançaram pressurosos, offerecendo

bilhetes:--que eram os melhores, que na casa só havia da ultima fila

e perseguiam-nos tomando-nos o caminho, embaraçando-nos o passo,

sofregos, afflictos. Safámo-nos briosamente e ganhámos a bilheteria.

Tomei a frente ao doutor e, enfiando a mão pelo guichet, bradei:

--Duas cadeiras!

--Uma! Uma só, disse elle.

--E o senhor?

--Não preciso; tenho entrada.

--Uma, emendei; uma cadeira. E, recebendo o papelucho das mãos do

bilheteiro, examinei-o: Lettra L... que tal?

--No inferno...! Mas como não tencionamos assistir, qualquer coisa

serve. Vamos.

O doutor encaminhou-se vaidosamente e confesso que, pela primeira

vez em minha vida, senti picar-me a inveja vendo-o passar entre os

porteiros grave, sem uma palavra, como se entrasse por sua casa. A mim

tomaram o papelucho e rasgaram uma nesga entregando-me o resto; ao

doutor disseram com respeito: Boa noite!

Achei-me num estreito pateo de terra humida. Para um lado, um

correr de portas verdes com um oculo ao alto; para outro lado, mais

adiante, um balcão de bebidas--na mesma direcção um tablado coberto,

cheio de mesas de zinco entre as quaes passavam atarefados caixeiros

carregados de copos. Mulheres subiam e desciam opulentamente vestidas,

saracoteando, com grandes leques de plumas, deitando olhares, franzindo

sorrisos; outras tagarelavam em grandes rodas de rapazes, com

gargalhadas estridentes; e uma velhusca, de preto, com uma barbicha

no queixo, como as feiticeiras de Macbeth, estremecia, mostrando as

gengivas desertas, rindo estridulamente aos galanteios de um meninote

de chapéu de palha e terno de flanella branca.

--Vê este seculo, meu amigo?

--É a propria velhice...

--É Venus ancestral. Essa mulher é o centro do mundo equivoco--é

ella quem dirige as neophytas e dizem que tem um curso admiravel

de sciencia. Dá lições diarias ás que pretendem fazer carreira pelo

caminho que Laïs trilhou arrastando poetas e o tonel de Diogenes. É uma

mulher digna de consideração: sem ella não haveria novos encantos, nem

os languores imprevistos. A sabedoria está com os velhos, meu amigo.

E, baixinho, soprou-me: Olhe a Marion, evitemol-a. Era, em verdade,

a loura, a formosa loura ciumenta e aspera, que acariciara os meus

sapatos com o pésinho minusculo.

--Se a convidassemos para a ceia, doutor?

--Não... não... Excede-se e dá para chorar a sua infelicidade, porque

essa divina mulher tem saudades da patria e da honestidade e, quando

bebe vinhos de França, lamenta não ter um filho e fica de tal modo

nostalgica que, ao cabo da lamentação saudosa, é sempre necessario que

venham tres homens para leval-a ao carro. Não... não...! Evitemol-a.

Marion bebia e tão entretida estava com a sua garrafa de Apollinaris

que não deu por nós.

--É sobria, entretanto: bebe agua, á grega.

--Sobria? quem...? Marion...?! porque está bebendo Apollinaris? Conheço

muito essas medidas preventivas: é que ella conta ceiar, meu amigo, e

está recompondo o estomago para um diluvio de Bourgogne. Mas vamos.

Tomámos por uma das alas do theatro e, justamente quando voltei os

olhos para a scena, entrava um grande diabo, brandindo um facho, a

bradar coisas terriveis, ao clarão purpureo de fogos de bengala. A

orchestra ia num crescendo infernal--quasi se não ouvia a declamação

do maldito quando surgiu uma legião de diabos vermelhos, truculentos,

dançando em torno do rei a berrar, a bramar, á proporção que os

musicos, num delirio satanico, sopravam com furia, batiam com gana,

dando ao espectador pasmado a idéa aproximada do que deve ser a musica

nesse reino negregado de chammas, onde as almas penam torrando-se em

labaredas inextinguiveis, sob abobadas de granito em brasa. Felizmente,

porém, houve uma pancada vibrante e os demonios sumiram.

Cahiu um novo panno: Uma aldeia risonha sob um ceu de azul, com uma

igrejinha branca a um alto e na eira da herdade, no primeiro plano,

entre médas de palha e instrumentos agrarios, camponios a espadellarem

linho, cantando um villancico meigo.

--Vê aquella velhota que ali vem por entre arvores...? É a Jesuina.

--Por Deus! mas é uma antigualha!

--Engana-se. É uma bella mulher. Vai convencer-se...

Os homens, que se apertavam á minha frente, pouco me deixavam ver.

Puz-me nas pontas dos pés, já interessado pela velhota quando,

subitamente, vi surgir o demonio, sem archote, os braços cruzados, numa

attitude hostil, e berrar:

--Fada... não sei que... e uma infinidade de palavras que deviam ser de

insulto, porque a velha poz-se tambem de entono e avançou hysterica,

vociferando:

--Ainda não!... Cahiram-lhe os andrajos, o cajado transformou-se em

sceptro enramado de folhas de ouro e eu vi uma esplendida mulher, de

fórmas admiraveis, resplandecente na sua toilette feerica.

--Linda, com effeito, doutor! disse maravilhado.

--Ah! é esplendida! E languido, com os olhos em alvo, trincando o

beiço: E que mulher! A scena atroou aos berros dos camponios, que

deitaram a correr espavoridos. Ficaram sós, desafiando-se--o diabo

negro e a fada. Houve uma troca de palavras e novo _tchaan_! Pannos

cruzaram-se acima e abaixo. Nova scena. Jardim florido, entre grutas.

Mulheres: nymphas, disse-me o doutor, tangendo lyras e cantando.

Cahiam do céu, como na lenda de Danae, palhetas de ouro. O diabo,

estortegando, vencido, urrava com os joelhos em terra, e a fada, com

um gesto cheio de magestade, mantinha-o subjugado e immovel. Romperam

palmas e o panno veiu descendo lentamente.

--Vamos falar á Jesuina.

--Pois não, doutor. Pois não... E partimos atravéz da multidão que

recuava.

O doutor bateu á porta da caixa, e appareceu ao postigo uma cara ossea,

macilenta, hispida de pellos, indagando soturnamente: Quem é?

--Abre, Amaro.

O cérbero sumiu-se batendo o postigo e logo abriu meia porta, por onde

nos esgueirámos rapidamente. Ambiente de estufa--mal se podia respirar.

Não haviamos ainda caminhado dois passos quando vi surgir a uma porta o

truculento diabo, abanando-se, com um charuto nos beiços, muito ancho.

O doutor acenou com os dedos um cumprimento intimo. Entre os bastidores

torvelinhava a gente do movimento arrastando peças accessorias, içando

nuvens, pregando sarrafos. Dois homens, agachados junto de uma rocha

sarapintada, ajustavam cordeis, e um moreno, de sobrecasaca, a cara

rapada, berrava para as bambolinas:

--Ó Candido! ó Candido! desce mais essa vista! mais! mais, homem! Que

diabo... mais! e bateu uma patada formidavel.

--Mais á frente...! ordenava um outro, alto, de cavaignac, aos homens

que collocavam a rocha... ahi...

Um soldado, com o capacete atirado para o sinciput, passeava de um

para outro lado, cantarolando. Um pequenote passou por mim esbaforido,

arrastando uma carapaça de saurio com grandes escamas.

Era difficil atravessar-se, porque de toda a parte surgiam genios,

demonios, soldados, mulheres, atropelando-se, azafamados, lançando

appellos, a correr, empurrando-se.

O doutor avançou e, mostrando-me uma escada larga por onde desciam

coristas trauteando, disse:

--Vamos subir... Isto aqui em baixo é impossivel. E galgámos os

degráus, ganhando um passadiço por onde andavam actores, refrescando-se

com ventarolas. Um, em trajo de principe, vociferava no camarim,

sacudindo uma gaforinha loura:

--Que aquilo era uma vergonha, um nojo! E sahiu bradando: Ó Ferreira! ó

Ferreira! Vocês não viram por ahi o Ferreira! Ah! grandissima besta!...

--Mas que é? indagou um escudeiro acaçapado e ventrudo, arrastando a

durindana ferrugenta.

--Olha p’ra isto... e tomou a cabelleira nas pontas dos dedos. Isto é

decente? Pois eu hei de entrar em scena com esta peruca?! Não entro,

nem que me rachem! E berrou de novo: ó Ferreira! ó Ferreira! Outro

assomou á porta de um camarim, em ceroulas, todo sarapintado:

--Ó Ferreira! Onde é que se mette esse pedaço d’asno, não me dirão? Ó

Ferreira!

Passámos atravéz do alarido e, como olhasse por uma porta entreaberta,

surprendi um lindo braço nú, de esbelto contorno e avisei o doutor.

--Ahi? é uma certa Clotilde... detesta-me; de resto não vale um olhar:

é mulher de banhas fofas. Vamos á nossa Jesuina. É aqui. Parou diante

de uma porta e bateu:

--Quem é.

--Eu, Jesuina.

--Eu, quem? Estou occupada.

--O Gomes...

--Ah! Espera... E a voz, mais proxima, indagou: Estás só?

--Não, mas é como se estivesse: trago commigo o Amor que tem os olhos

vendados.

--Oh! filhinho... não estou em estado de receber. Mas a chave rangeu na

fechadura, a porta descerrou-se e eu vi o rosto adoravel da fada.

--Como vais? indagou lançando para o meu lado um olhar obliquo, e

baixinho: Espera um momento, abro já, sim?

Recolheu-se e voltámos a passear. Ainda gritavam pelo Ferreira.

Debruçámo-nos á balaustrada: em baixo andavam soldados antigos, com

grandes escudos rutilantes, jacarés arrastando caudas enormes, monos,

demonios e camponezes, uma promiscuidade mirabolante, gente e animaes,

em intimidade só comparavel á que existiu entre esse troço de salvados

que andou pelas aguas do diluvio dentro da arca, para perpetuar as

especies. Fios de luzes tremeluziam ao alto, por trás dos pannos.

Subiam vistas, arrastavam-se bastidores--havia um grande rumor de

faina. De repente uma voz fanha entoou

A capital federal (impressões de um sertanejo) · 第 14 / 18 题