e outra violenta e desesperada esbravejou:
--Quem diabo tirou daqui as minhas botas? Isto é uma pocilga! Ah! seu
Alvaro!... Quem diabo tirou daqui as minhas botas?
Foi, foi, foi...
outro cantarolou em tom de troça. Travou-se um dialogo azedo atravéz do
tabique divisorio de dois camarins e riamos dos palavrões, quando uma
velhota nos veiu dizer que--«madama estava prompta».
Fomos immediatamente e, á porta, o doutor, lisonjeiro, indagou com
ternura:
--Dás licença, Titania?
Entrámos. O doutor apresentou-me como «favorecido das musas.» Jesuina
sorriu e mostrou-me um divan forrado de damasco vermelho. A velhota,
que nos acompanhara, tomou de uma prateleira um par de sapatinhos
brancos debruados á sarja, agachou-se e, com os pésinhos de Jesuina ao
collo, calçou-os sem esforço, suavemente. E ella, delicada e meiga,
voltando para o meu rosto os olhos admiraveis:
--Desculpe-me, doutor. Vou concluindo a minha «toilette», porque,
infelizmente, esse maldito contra-regra é de uma impaciencia feroz. A
velhota levantou-se e foi ao canto.
--Agora é que são ellas! disse Jesuina a rir. Vamos ao peior. E,
franzindo a fronte serena: Que calor, hein?
--Muito, disse eu, bufando.
A velha voltou com uma cotta de seda imbrincada de ouro e deu-lh’a
a vestir, primeiro um braço, outro depois, e as duas, a velhota de
joelhos, Jesuina, muito direita, firme, obrigada pela pressão das
barbatanas, começaram a abotoar, uma da fimbria para cima, outra da
gola até á cinta, apressadas, magoando os dedos.
Depois uma tira de filó em diagonal ao peito, cahindo em duas pontas
soltas sobre um dos flancos; duas pulseiras em cada braço e, á cabeça,
comprimindo os cabellos, um diadema altissimo com um brilhante á frente.
--Prompta! exclamou a velhota levantando-se.
--Graças a Deus! suspirou Jesuina sorrindo. E a vara?
--Está aqui...
--Estás divina! disse o doutor abraçando-a e beijando-lhe a nuca.
--Oh! oh! É terrivel este seu amigo, disse-me. E o doutor, tomando a
frente, impoz:
--Hoje vens ceiar comnosco.
--Hoje...?!
--Hoje, e não admitto desculpas.
--Se assim é, disse ella com um momo... que hei de fazer...? Verteu
algumas gottas de perfume na palma da mão e esfregou-as dando-me depois
a aspirar:
--Delicioso! sussurrei, fungando.
--Agradavel, não é? Mas a sineta vibrou e um mulatinho appareceu á
porta:
--D. Jesuina...
--Vou já.
--A que horas acaba esta rigolade? perguntou o doutor.
--Meia-noite.
--Pois até lá. E vai ter com Satanaz, que te espera.
Despedi-me tambem e descemos.
A orchestra executava os primeiros compassos de uma marcha infernal,
quando, de novo, ganhámos a frescura do jardim.
--Então, meu amigo?
--Divina, disse eu. O diabo é que isto demora. Que havemos de fazer...?
--Vamos á cerveja; não ha outro meio de fugir á insipidez.
E abancámos.
--E dizer que toda essa gente goza, ponderou o doutor, num tom
melancolico de lastima. Isto que me enfada, que me provoca bocejos,
faz as delicias de uma multidão. Olhe ali aquelle homem debruçado á
balaustrada... Quanto eu daria para poder rir como elle! Decididamente
esse casal do paraiso levou-nos o melhor da vida--a innocencia,
deixando-nos em troca o tedio. Felizes os simples!
Não imagina como invejo um desses homens que são specimens raros do
animal primario, que se destacam, entre os civilisados, como um grande
cedro num campo raso. Ás vezes, quando passo por uma dessas casas de
pasto, onde o grosso povo de trabalho se ajunta para comer, tenho
impetos de entrar, sentar-me no mesmo banco, acotovellando estivadores
e canteiros, fascinado pela voracidade pantagruelica desses brutos que
devoram pratos enormes, com mais apetite do que um de nós, em dias de
fome, trincaria uma fatia de caça. Nós somos os degenerados. Que mais
pode ambicionar um homem que já experimentou todas as sensações e que
leu os materialistas? Que ideaes pode ter um ser esgotado? Nem riso
nem pranto. Sinto-me vasio e inutil. Já não existem imprevistos para
mim. Tudo dimana de causas naturaes, diz a philosophia, e acham os
evolucionistas que feliz é o homem que conhece todos os phenomenos da
natureza, que sabe dizer, sendo preciso, por que razão a pedra deriva
a gotta d’agua, para onde caminham as correntes dos rios, quantos
millenios tem Syrius, porque é pallida a lua, quaes são as causas
que presidem aos fluxos dos mares, a origem do homem e tudo mais que
a sciencia investigou para esterilisar os productos mais delicados
do espirito que, a meu ver, são--a imaginação e a esperança. Felizes
são esses pobres homens que crêem nas boas fadas dos caminhos e nos
genios dos campos. Felizes são esses que vêem na Via Lactea o caminho
sagrado dos reis magos, attribuindo a pulverisação das nebulosas ás
patas dos dromedarios que vieram do Oriente parar á entrada da lapa em
que Jesus dormia. Felizes são os que podem ainda imaginar mysterios...
Oh! os crentes, os religiosos! esses é que são os bemaventurados, não
no céu, aqui mesmo, na terra, porque esperam, porque não duvidam.
Aquelle homem que ali está desfeito em gargalhadas nunca leu um
aphorismo, desconhece a syntaxe e as causas finaes, nunca atravessou
uma noite acotovellado á banca do jogo, nem de certo poliu os seus
beijos procreadores--é um simples. Trabalha e crê, conhece o _Ave_ e
respeita a Lei, ama e quando chega á casa, estafado e moído, o seu
primeiro cuidado é para o filho mais novo--toma-o nos joelhos e brinca
com elle a rir. E dorme em paz, porque não tem problemas a resolver nem
gazes de dyspepsia. É um animal amoroso e puro... E sinceramente, não
é preferivel levar a vida assim materialmente, em ignorancia beata,
abençoando as estrellas cadentes e commungando, de vez em vez, a andar
pelo mundo empanturrado de pessimismo, repetindo com o «Ecclesiaste»
que tudo é vaidade?
O homem não nasceu para maldizer sómente, creio eu. «A resignação é o
heroismo da desgraça.» Um moralista exprimiu-se mais ou menos nestes
termos, mas eu devo confessar que não tenho absolutamente o sangue
heroico--sou um pusillanime. Dêem-me novidades, imprevistos, qualquer
coisa que me commova: um grande amor, um grande odio. Infelizmente,
porém, o amor adquiro-o como adquiro as luvas e os plastrons, por um
preço, por outro, mas sempre a dinheiro... É sordido! É vil! Não foi
para mealheiro que Deus, ou não sei quem, fez o coração. O amor é uma
permuta de affectos e não um mercado. Mas que quer? comprar um beijo,
pagar um sorriso, subornar uma meiguice... eis em que consiste a
civilisação; isso é requinte, é espirito.
Duas mulheres passaram por nós discutindo em dialecto aspero,
esgrimindo com os leques, frementes, terriveis. As vozes subiam, já da
platéa reclamavam silencio com prolongados «psios».
Os homens, que cercavam a balaustrada, interessados no escandalo,
vieram aproximando-se. Descia gente em tropel e as duas, uma
em frente da outra, ameaçadoras, mirando-se roxas de furia,
vociferavam com grandes gestos. Repentinamente brandiram os leques e
engalfinharam-se--os chapéus rolaram para o chão, as fitas voaram e,
apezar da immediata intervenção de alguns rapazes, as duas lutavam, já
com os leques partidos, numa algazarra bravia. Na platéa havia gente
de pé. Os actores, em scena, emmudeceram e o grande diabo, curioso,
coçando o queixo agúdo, alongava os olhos procurando ver á distancia
as heroinas. Os coristas, amontoados sem ordem, cochichavam. O regente
voltara-se e varios musicos, de pé, olhavam curiosamente; um deixou-se
estar sentado, aproveitando a balburdia para afinar o seu violino.
Trilaram apitos, mas já haviam apartado as belligerantes. Appareceram
praças e o povo foi descendo, em onda compacta, em direcção á porta.
Ouvia-se ainda, de vez em vez, um guincho colerico. Por fim irrompeu
uma assuada tremenda e gargalhadas estrepitosas abafaram as phrases
violentas de uma das mulheres.
Já no palco haviam recomposto a scena, o diabo carregara de novo o
sobr’olho e, quando avançou para o ponto, sustentando uma nota grave,
de novo o povo reclamou silencio e, pouco a pouco, foi recahindo a
tranquillidade.
--Foram presas, doutor?
--Não, fazem-n’as sahir simplesmente. Estalaram palmas estrepitosas,
olhámos: o panno vinha descendo lentamente sobre uma scena flammejante.
--Falta-nos ainda um acto, suspirou o doutor. E não ha infelizmente
duas outras mulheres ciumentas.
Ao fim do espectaculo, depois de uma fulgurante apotheose no
reino das perolas, de grandes pylonos côr de opala, regado d’aguas
lactescentes, floridas de nelumbos por onde andavam cysnes alvadios,
reino administrado pela magia dos olhos de Jesuina e pelos cordeis do
machinista, veiu abaixo o panno ao som abemolado do côro triumphal
das nymphas, que exaltavam o poder da soberana. O diabo, corrido e
humilhado, estarrecido ao fundo, entre columnas gyratorias rugia,
rolando os grandes olhos chammejantes e orlados de malacachetas. O
povo, em delirio, prorompeu em gritos, victoriando a boa fada pelo seu
nome humano, mais doce, talvez, que o da magica:
--Á scena, Jesuina! Bravos a Jesuina! E uma voz isolada accrescentou
num berro agudo:
--Jesuina na ponta!
E tudo desappareceu.
A retirada foi rumorosa e lenta. O povo escoava aos empurrões como
uma grossa e pesada torrente contida muito tempo pela comporta de uma
represa. As luzes minguavam e, pouco a pouco, veiu cahindo a sombra; o
silencio substituiu o rumor. O panno levantou-se de novo sobre um fundo
de andaimes e de sarrafos. Fóra andava um meninote assobiando baixinho,
com a bengala ao hombro, passeiando ao longo da varanda.
--Vamos esperal-a á porta da caixa. E, em segredo, indicando-me o
rapazito solitario, disse-me o doutor:
--Ali está um que não nos perdoará a aventura de hoje. É um terrivel
amoroso. Governa o partido da Jesuina. Só em flôres gasta todas as
noites para mais de cinco mil réis. Já fez tirar uma polyanthéa
glorificando a actriz que, incontestavelmente, tem um lindo collo, mas
que desafina soffrivelmente e no terreno da concordancia é como um
louco diante de um taboleiro de xadrez: baralha tudo. Emfim, como o
fim utilitario da mulher é o amor, Jesuina cumpre admiravelmente o seu
destino na vida, porque, sem encomios, é um bello exemplar do sexo.
Começavam a sahir os actores; alguns com embrulhos debaixo do braço.
Uma mulher, de mantilha, passou por nós ninando um pequerrucho.
Um sujeito magricela, de longas pernas e farto bigode, com agudas
saliencias de ossos, deu-nos boa noite em tom amigo.
--Quem é? indaguei.
--É o diabo; pois não conheceu...? é o diabo. Chama-se Silveira.
Voltei-me para ver ainda uma vez o vencido, elle lá ia, murcho e
sorumbatico, mascando uma ponta de charuto, triste, desmanchado, já
sem os arreganhos terriveis, sem a attitude audaciosa e ostensiva com
que surgira entre os seus sequazes, bradando pelas furias do Averno
e arrancando gritos ás crianças. Ia abatido e não era, de certo, o
poder da vara de Jesuina que o derreava, não, deviam ser preoccupações
communs. Talvez tivesse um filho doente, sogra de perfeita saude ou,
quem sabe se o pobre diabo não estava ameaçado de ser lançado á rua
pelo senhorio feroz...? Fosse o que fosse, achei-o mais sentido dentro
do frak e nas calças de brim do que na farpella purpurina de rei dos
demonios, anniquilado pela magia das pupillas de uma mulher, tres vezes
mais forte com as suas nymphas do que elle com a legião de bruxos
negros e diabretes.
Em seguida um casal, muito aconchegado, cochichando--a mulher, com uma
indignação mal contida, elle calmo, grave, respondendo com pequenas
phrases. Depois uma onda tumultuosa, com alarde, achincalhando
coplas--os coristas.
--Está demorando, disse o doutor impaciente. Mas no mesmo instante a
porta abriu-se e Jesuina appareceu no patamar, seguida da velhota.
--Salve a formosa apsara! saudou o doutor.
--Estão cançados de esperar? indagou sorridente.
--Nem por isso.
Jesuina pareceu-me menos formosa no seu vestido marron e com a cabeça
coberta por uma capota de veludo. Confesso--e vai nisto uma ingenua
franqueza--confesso que a Jesuina que meus olhos aguardavam anciosos
e desinsoffridos era a outra, a que eu vira no palco, entre nymphas,
na nudez artistica do maillot, afoufada em rendas, com os cabellos
soltos e á fronte o diadema régio. Era assim que eu esperava vel-a, de
sorte que tive uma pequena desillusão quando ella assomou á porta, em
toilette vulgar, como todas as mulheres, ella, que para mim não era
outra senão a propria, a verdadeira fada das perolas, que apparecera
em scena, affrontando o Demonio. O doutor sussurrou-lhe:
--Aceita o braço que te offerece o meu amigo, tenho de dar um pulo
á Maison para desfazer um compromisso. É um instante. Comprehendi a
delicadeza do pretexto e adiantei-me pressuroso e ella, voltando para o
meu rosto os olhos incomparaveis, ainda assim menores do que os que me
haviam seduzido, indagou:
--Onde vamos?
--Onde quizer, disse-lhe.
--Ao Bragança, não é?
--Ao Bragança, sim, affirmou o doutor. E venham vindo porque já os
encontro no Rocio. E até já. Partiu como uma frecha.
--Thereza, podes ir, disse Jesuina á velhota.
--Boa noite, meu senhor. Então até logo.
--Adeus! E a velhota partiu compondo o chale. Sahimos. Á porta havia
um homem de gorro, que nos offereceu um carro.
--Sim, vamos, disse eu.
--Oh! não vale a pena. Tomar um carro para ir ao Bragança! Não, vamos
andando. E já intima, maliciosa, apertando-me o braço: É preguiçoso
assim?...
--Não, gosto de andar, faço leguas a pé, mas... E não me atrevi a
dizer-lhe a verdade: eu não sabia onde era o Bragança. Felizmente,
porém, o doutor surgiu a uma porta.
--Oh! pois ainda vêm ahi...? E adiantando-se: Os corações já se fizeram
amigos? E ella, repousando no meu braço, com um languido olhar e um
doce sorriso: Creio que sim.
--Creio que sim, corroborei sorrindo.
Mas o doutor deteve-se para dizer em tom sentencioso:
--Devo observar aos meus amigos que o amor é um sentimento digno, que
deve ser cultivado como uma flor preciosa, mas acima do amor ha alguma
coisa que é preciso não esquecer...
--Deus! disse ella com beatitude.
--Não, filha: o estomago. Temos um gabinete no Bragança á nossa espera.
Depois do champagne gelado os beijos têm mais calor. É a reacção. Cá
por mim, como pretendo passar a noite como Santo Antão, comerei alguma
coisa solida...
--Você só!?
--Sem duvida. Quando se vai á Cythera é perigoso levar farnel.
--Pois sim... E, com um muchocho, Jesuina achegou-se a mim. Senti-lhe
as carnes... Que carnes!