--Mademoiselle! correspondi; e os crystaes tiniram. Mas (e aqui
faço a confissão da perfidia covarde de que me tornei culpado) não
foi só isso, por baixo da mesa senti que um pésinho roçava pelo meu
carinhosamente e, num movimento allucinado, calquei tambem, com toda
a violencia do meu amor e com todo o peso dos sapatos inglezes.
Mademoiselle, sem um protesto, impassivel, bebia; e eu, num delirio
indomavel, baixava os olhos attrahidos pela alvura do seu collo
esgargalado, de uma tez fina onde passavam fremitos dourados.
--Demora-se no Rio? indagou a divina Marion, rilhando as palavras.
--Pouco, mademoiselle.
--De onde é?
--De Minas.
--Ah! de Minas... Recolheu-se um instante e, pouco depois, perguntou-me
com a sua voz mysteriosa, a encantadora voz de que falara o doutor:
--Conhece em Juiz de Fóra, Amancio...?
--Amancio! Amancio de que, mademoiselle? E os nossos pés trucidaram-se
cruelmente.
--Amancio de... Tocou os labios com o leque, elevou as pupillas num
olhar extatico e nervosa: não sei de que... É um gordo, tem uma fazenda
com muitos bois, faz queijo...
--Não, mademoiselle, não conheço.
Calámo-nos. O doutor, pensativo, desfazia os crystaes de gelo no
champagne, balançando a taça. Mademoiselle tornou-se de novo extatica.
De improviso o doutor chamou-me.
--Tem algum compromisso para amanhan, Sr. Anselmo?
--Nenhum, doutor.
--Quer vir almoçar commigo?
--Com todo gosto.
--Podemos fazer uma ascensão ao Corcovado? Ainda não conhece o
Corcovado?
--Ainda não.
--É bello! E dá-se commigo um caso estranho--sinto, de vez em quando, a
necessidade da altura, tenho a mania satanica de contemplar da montanha
as coisas inferiores. Já experimentou a delicia vaidosa de ver toda uma
cidade a seus pés em nivel humilde? É delicioso, meu amigo. Demais,
recebe-se o ar em primeira mão, fresco e puro, sem os toxicos da vida
rasteira e certos de que a golfada que respiramos não andou pelas
cavernas de pulmões enfermos.
--Aceito com prazer, doutor...
--Queres ser do bando, Marion?
--Não é possivel, disse com lentidão mademoiselle trincando os labios.
O doutor encarou-a e por fim sacudiu a cabeça resignado:
--Pois iremos nós...
Calquei o pésinho para ver se por meio delle conseguia vencer a
caprichosa, mas com surpreza senti que me fugia esquivo. Insisti
amoravel:
--Então porque não vem comnosco, mademoiselle?
--_Pas possible..._ disse com um momo abrindo e fechando com
estardalhaço o leque. E pondo-se de pé, num impeto:
--_Eh! bien... j’m’en vais..._
O doutor mirou-a. Mademoiselle estendeu-me a mãosinha:--_M’sieur..._ e
friamente, dando as pontas dos dedos ao doutor:--_Au revoir!..._
--_Au revoir, Marie_; disse com lentidão cruzando as pernas e, quando
a viu sahir, passando nervosamente a mão pelos cabellos, exclamou
entediado. Idiota!
--Zangou-se? indaguei com interesse.
--Ciumes... Que quer o meu amigo? não ha um ser perfeito. Veja essa
mulher divina... é ciumenta. Ciumenta a ponto de fazer tolices.
Bolas...! E casmurro: Eu sei como tudo isto acaba: vão ambas para a
rua! não ha que ver. Vão ambas para a rua... E recuperando o natural:
Então está combinado?
--Perfeitamente.
Trincou um charuto e irrompeu assomado:
--Um dia magnifico, não ha duvida... magnifico! enguliu um pouco de
champagne e continuou: Não sei se o meu amigo cultiva a volupia do
somno matinal, o somno das seis ás dez? É uma delicia! O somno da noite
dorme-o todo o ser--o operario e o poeta, a agua gemente e a flor, mas
o _extra_ languido, o somno tepido da indolencia, esse é exclusivo dos
privilegiados que conhecem a vigilia--esse é incomparavel, porque,
não sendo um acto normal, é um vicio e, como todo vicio, encanta. Eu
penso assim. Difficilmente deixo os lençoes antes das dez. Acho que
um homem de gosto deve encontrar o dia pleno, em viva luz, passaros
cantando e tudo em ordem para recebel-o porque, sahir pela manhan, á
hora em que a natureza se arranja, quando o sol nasce e os passaros
acordam, produz em mim a mesma sensação de desgosto que experimento
quando entro em uma sala de jantar no momento em que o copeiro estende
a toalha. É odioso! Sou um commodista extremado--gosto de achar tudo
prompto, limpo e nitido--o céu todo em sol, a mesa já florida. Haverá
coisa mais ridicula para os olhos de um homem do que surprender a
mulher amada diante do espelho, em penteador, sem meias, amaciando
a cutis ou trançando os cabellos, ainda com os olhos empapuçados de
somno? É desolador! Levanto-me tarde, desço para a ducha, visto-me--uma
grande hora de trabalho lento, mirado e caprichoso--e ganho a frescura
do jardim, uns metros de terra onde brotam cravos e bogaris, sob
a copa frondosa de uma amendoeira amiga. Ahi leio pausadamente os
jornaes e bebo o café e o cognac, ouvindo os meus canarios. Sem essas
minudencias sou um homem inutil. Recolhi-me tarde, muito tarde, e sem
somno. Reli uns capitulos de psychologia experimental e confesso que
fiquei impressionado. Eram talvez quatro horas da manhan, cantavam
gallos pela visinhança, quando consegui conciliar o somno. Pois ás seis
fui violentamente acordado, porque um intimo carecia do meu auxilio
para resolver uma questão magna. Note o meu amigo que sempre tive uma
decidida vocação para a gynecologia, recuei diante do forceps e dos
outros apparelhos de viabilidade fetal simplesmente porque as senhoras
preferem dar á luz á noite... Se não fosse a hora incommoda preferida
pela genese, eu seria hoje um parteiro notavel. Sou advogado,
homem de leis e de rhetorica. Desci desesperado. Borrifei-me com um
pouco d’agua, sorvi, ás pressas, um gole de café e, ainda em jupon,
bocejando, recebi o intimo na minha sala de estudo. Quer saber o
motivo da visita do meu illustre despertador? a crise de transportes.
Baniu-me do leito para pedir-me um artigo violento contra a Central.
Escrevi, deve sahir amanhan. É um horror! resente-se terrivelmente do
meu estado de espirito. O intimo collaborou dando-me a assignatura,
que é um mysterio de que elle faz segredo: _A alma de Frei Góes._ Não
sei que quer dizer, mas presumo que ha dentro disso coisas de subido
alcance. Mas agora, entre nós, que diabo tenho eu com a crise de
transportes? Cruzou os braços e encarou-me. Que tenho eu com tudo isso?
As cargas que apodreçam ao sol, pouco se me dá que haja ou não sal em
Matto Grosso e sapatos em Goyaz. Que se arranjem, deixem-me em paz,
deixem-me dormir. Que tenho eu com a crise? Houve uma pausa curta e o
doutor tornou: Depois do artigo uma scena de ciumes. Uma mulher idiota
que se revoltou porque um intrigante qualquer lhe foi dizer que andei
seguindo os passos de uma hespanhola, no Polytheama. Virou o resto do
champagne. Eu sentia-me meio atordoado--ardiam-me os olhos amortecidos
de somno.
--Mas, meu amigo, voltando á minha leitura da noite: confesso que estou
deveras impressionado. Tem lido os modernos estudos psychicos?
--Alguns.
--E... que pensa da alma? indagou.
--É uma hypothese, aventurei.
--Como! uma hypothese? Não crê?
Sorri, e entrei a falar como se dictasse: As minhas idéas sobre
psychologia estacam diante dos tumulos: depois da lapide mais nada. Não
posso comprehender essa verdade suprema dos philosophos romanticos--a
vida posthuma. Alma é o atomo, alma é a monéra, alma é a cellula,
alma é o sangue. Das causas puras, doutor, só podem derivar iguaes
effeitos, entretanto o odio germina dentro em nós, o ciume, a aversão,
a antipathia, abjecções proprias da materia, naturalmente affecta
á podridão pela sua propria essencia--o verme. O nosso corpo é um
thermometro, de que o sangue é o mercurio. Nos periodos pacificos
e normaes marcamos os gráus baixos da tranquillidade; um pouco que
o sangue ascenda ao cerebro, como o mercurio sobe, ao calor dos
fortes estios ou das febres, temos a exaltação, o delirio, todos os
horrores do desequilibrio mental, todas as concepções extravagantes
e allucinadas. Creio no Nirvana porque adoro o silencio. Ao céu, ao
promettido paraiso, falta a primeira condição: variedade. A vida
eterna deve ser monotona. O meu ideal é o fim absoluto. Isto de vida,
doutor, é um phenomeno de attracção de moleculas. O homem vem ao mundo
pela mesma razão porque vem á arvore o fruto, o fio d’agua á rocha:
fatalidade, sympathia, cohesão, tudo quanto quizerem, da vida physica,
da vida material; mas de alma, espirito invariavel e eterno, sopro
de Deus, etc., etc.... não percebo. Alma como conjunto dos sentidos,
admitto. O beijo é uma premissa do amor, o amor é uma manifestação da
alma.
Doutor, estude a psychologia em uma criança: é um brutinho, incapaz de
pensar, incapaz de outra coisa que não seja vagir e chupar tetas. A
primeira manifestação é toda material: o choro, manifestação positiva
do soffrimento ou do tedio, que é innato, e a fome manifestação do
instincto--a alma mysteriosa não dá signal de si. Com o correr dos
annos chegam os sentimentos, isto é, o aperfeiçoamento das sensações.
É por meio delles que as fibras delicadas do cerebro e do coração
vibram; essas vibrações formam a vida complexa do amor, do ciume,
do desespero, do pensamento, etc. Para a velhice, com o declinio do
corpo, todo o organismo definha e a alma, immortal e forte, em vez de
sustar a queda da carne, auxilia-a porque os sentimentos affluem todos
para a saudade, que é a velhice das paixões; ella é que vive até á
caducidade, até á bestialisação, até á regressão ao primitivo estado
de inconsciencia. Alma é a vibração da mocidade, alma é a ardencia do
sangue. Infelizmente nós outros oscillamos entre dois crepusculos--a
ignorancia da primeira idade e o pavor do fim dos annos. Não creio,
doutor; em alma, não creio.
--Mas, pelo amor de Deus, meu amigo... acudiu elle, vejo, pela
prelecção que acaba de fazer, que é um materialista intransigente;
isso, porém, não impede uma observação singela. Abriu um parenthesis
para propôr mais champagne; recusei e elle continuou firmando-se nas
minhas palavras: Vivemos entre dois crepusculos, disse o meu amigo,
mas os crepusculos succedem-se numa eterna continuidade--as almas
têm o occaso em um corpo, mas resurgem em outro. A alma existe como
existe a luz e ha de existir até á ultima dynamisação. O corpo é um
casulo. Como já lhe disse, creio firmemente na vida eterna das almas.
A civilisação é o resultado da longa pratica do espirito humano: a
carne é uma especie de alambique, mediador plastico entre a concepção
e o movimento. Os homens que fizeram as primeiras obras, os donos das
idéas iniciaes, são esses mesmos que as continuam. A morte é apenas uma
solução de continuidade.
Nós não fazemos outra coisa senão aperfeiçoar o que dantes fizemos. As
idéas tem o seu alpha na antiga era. Ha uma estranha connexão entre o
pensamento moderno e o modo de ver dos antigos--a synthese de hoje vem
da analyse de hontem. Nós, a civilisação, estamos continuando a nossa
obra barbara. Somos os mesmos. A alma de Lucrecio resurgiu em Virgilio
e a de Pythagoras, antes de metter-se no corpo do sophista, animou
Euphorbio, filho de Panthous. Quem sabe se dentro do meu amigo não vive
a alma sceptica de Zenon?
--Não, doutor, a alma que se aloja em meu corpo nunca perscrutou
mysterios transcendentes--é a mais ingenua das almas, contenta-se com
um pouco de sonho e com um pouco de amor. Como disse, as minhas idéas
estacam diante dos tumulos. Depois da morte mais nada.
--Mas, meu caro amigo, note que já os egypcios pensavam que «a morte é
um meio e não um fim»--um meio de perpetuar a vida. A sciencia moderna
vai desbravando o mysterio da immortalidade: o zaimph de Isis cahiu
deixando a grande deusa descoberta, e são tão fortes e peremptorios os
argumentos em favor da existencia perenne, que é hoje quasi um absurdo
a negação da Eternidade da Alma.
--É possivel, doutor.
--É de uma arvore que murcha que se colhe a semente para as
florescencias futuras. As suas idéas estacam á beira do tumulo, porque
encontram o silencio completo? não; porque encontram a realização
perfeita do absoluto? não; um cadaver, posto que vasio, existe. Nada se
perde, nada é inutil. O espaço é o nada e o espaço existe. Que tem o
espaço? constellações; a morte tem tambem os seus astros, o fogo fatuo,
por exemplo, é uma estrella funeral.
Demais se, como diz, as suas idéas estacam diante dos tumulos, devem
igualmente estacar diante dos leitos.
--O doutor maneja adoravelmente o paradoxo.
--Perdão, não é o paradoxo, é a analogia. Diante de um dormitorio
tem-se o exemplo perfeito, o symbolo, devo dizer, de uma pequena
necropole: o leito é um esquife. Reza-se para dormir e reza-se para
morrer; a lampada serve tanto para os mortos como para os que dormem.
Uns e outros têm a mortalha...
--Doutor, mas isto é francamente o que nós outros, pobres rusticos,
chamamos Poesia.
--Perdão, todo mysterio tem um fundo poetico. Mostre-me uma religião
sem prophetas e os prophetas são os poetas esotericos. Mas continuando:
o sonho não será a iniciação de uma outra existencia? O sonho não será
uma previdencia?
O corpo adormecido roja-se; parece que tem a nostalgia da terra; e a
alma? paira, fica de vigilia como ficava, segundo o pensamento dos
padres de Osiris, de guarda á mumia em que havia habitado. O somno é o
tunnel por onde a alma atravessa. Meu caro amigo, não ha morte: Sisypho
é o symbolo da vida.
--Confesso, meu caro doutor, que apezar da belleza da sua doutrina, o
meu espirito repelle-a. Escreva um poema com essas idéas, um poema de
mysterio no gosto dos _Versos Dourados_.
--Pudesse eu, meu caro! Sacou o relogio e poz-se de pé: Vamos sahir?
Isto está funebre.
--Tenho um encontro para as cinco.
--Feminino?
--Não, meu tio.
--Ah! Então demoro-me mais alguns minutos. É cruel deixar um amigo
abandonado nesta triste sala em um dia como o de hoje. E de repente: E
se jantassemos juntos...?!
--Onde? indaguei.
--Por ahi, em uma baiúca qualquer. Pretexto para conversarmos. Temos a
ameaça de uma noite terrivel, podemos atravessal-a queimando _punchs_
em algum gabinete, em companhia de alguem que nos ajude a arrastar o
tedio até a madrugada.
--Aceito, mas com a condição de impôr alguma coisa: iremos a um
theatro, não para o espectaculo, pouco me preoccupo com o que se canta
em palcos, mas confesso, em intimidade, que tenho um desejo louco de
ver a caixa de um theatro... Dizem-se tantas coisas...
--É horrivel, meu amigo, mas não pense que me recuso, póde dispôr de
mim. E mais ainda, sei que não conhece o Rio á noite, proponho-me a
mostrar-lhe, em uma noite, todos os mysterios desta cidade que começa a
ter vicios. Joga?
--Pouco.
--Conhece a roleta?
--Conheço. E o doutor percebeu pela expressão dos meus olhos que eu não
era de todo indifferente á tavola.
--Pois ha um meio de conciliarmos tudo; vamos jantar ao club.
Voltando-se, o doutor deu com os olhos em meu tio, que assomára á
porta, sempre jocundo, já acenando para o nosso lado. Levantámo-nos
para recebel-o.
--Meu caro doutor... e logo, dirigindo-se a mim: Então? como te
arranjaste?
--Perfeitamente.
--Bem... e de improviso: Vem jantar comnosco, doutor?
--Hoje não é possivel, e indicando-me: Vou mostrar ao amigo Anselmo o
Rio de Janeiro, á noite.
--Então, até amanhan.
--Até amanhan, meu tio.
--E não te cances muito, ajuntou com um sorriso: amanhan á noite temos
a festa do Bessa, em Botafogo. E ao doutor: Lá nos encontraremos.
--Não garanto.
--E cuidado, Sr. Anselmo, cuidado! O Rio, á noite, é um perigo para os
que vêem pouco.
--Descance, commendador: eu vejo admiravelmente.
X
Em caminho o doutor, compenetrado da minha ignorancia das coisas do
mundo, disse-me algumas palavras de conselho, expondo-me, em claros
periodos, cheios de sinceridade, os riscos da afouteza quando não se
está de sorte, e a profunda sciencia da roleta, que se resume em saber
acompanhar a banca. Propoz-me um sector sempre feliz que, uma noite,
em casa de certa Elisabeth Blayn, uma escosseza, lhe dera cinco contos
e tanto. Falou-me da roda que frequentava o club--gente da melhor
escolha: alto commercio, a magistratura, as letras, medicos. Podia-se
estar á vontade e o banqueiro, um homem de moral intransigente,
correcto e austero--tão digno a dar a bola como um juiz presidindo um
conselho.
Tomámos o bond. A tarde triste escurecia e o céu, pluvioso e grosso,
pulverisava uma neblina tenue, finissima, como a garôa de Junho nos
campos. Durante a viagem falámos rapidamente da _Débâcle_ e de uma
loura franzina, de waterproof, que se acolhera a um canto e cruzara
modestamente as mãos no collo sobre uma brochura ingleza. Iamos em
corrida suave, por um leve declive, em frente ao mar, quando o doutor
fez signal para que parassem. Descemos e eu, numa attracção amorosa,
volvi os olhos mandando adeuses tristes á loura, que parecia embebida
num sonho, tão distrahido tinha o doce e azulado olhar.
--É ali! segredou-me o doutor, mostrando-me, num gesto subtil, uma
larga porta, alta e nobre, onde rondava melancolicamente, com as mãos
para as costas, um severo criado de casaca. Quando nos viu curvou-se
gravemente. Subimos por uma escada de volta e, em cima, num vasto
salão, forrado por um tapete fôfo, semeado de moveis, numa desordem
encantadora, um moço magro, de oculos verdes, tirava tristonhamente de
um Gaveau accordes melancolicos.
--Guedes! O do piano voltou-se inopinado; mas, como o doutor
desapparecera numa saleta cercada de cabides, mirou-me fazendo um leve
cumprimento e baixou a cabeça terna, correndo os dedos pelo teclado
numa escala sentimental.
--Venha guardar o chapéu, amigo Anselmo. E na saleta o doutor
preveniu-me: Esse typo que ahi está tirando gemidos ao piano é um
famoso cábula. Teve uma charutaria e hoje vive a executar trechos de
sentimento e valsas nas batotas e nos saráus dos bairros. Inculca um
eterno palpite: o 9. Muito cuidado! Sahimos para a sala. O doutor,
esfregando as mãos, aproximou-se do piano.
--Chopin...? O dos oculos ergueu a cabeça exclamando:
--Oh! doutor, bons olhos o vejam. Sacudiu-se todo como para espanar a
tristeza d’alma e estendeu a mão affectuosamente.
--Dr. Anselmo Ribas, meu amigo, apresentou o doutor e intimamente: O
nosso Guedes.
--Muito prazer, doutor, e estendeu-me a mão dos accordes, humida e
molle e, logo, apressado, traquinando: Vamos para a sala, vamos... Já
devem estar á mesa. Tomou-nos a frente, abriu uma porta e meus olhos
cahiram sobre uma calva polida que reluzia, balançando, de leve, muito
regular, como certas pendulas de relogios iconicos.
Entrámos. Jantavam.
O doutor, muito conhecido na casa, foi recebido com um extenso oh! de
todos que cercavam a mesa ampla, de carvalho, arranjada como para um
banquete, com grandes ramos de flores e puddings tremulos em pratos de
porcelana.
A mobilia, toda de carvalho, dava uma feição distincta e séria á sala,
forrada de encerado inglez, com grandes reposteiros que pareciam descer
do tecto. Creados celeres passavam sem rumor, de um lado para outro.
O homem da calva agitava-se, com um guardanapo ao pescoço, esticando
os braços para apanhar pedaços de pão numa corbelha de christofle,
sempre a mastigar. Mirou-nos e sorriu para o doutor com a boca cheia.
Sentámo-nos e logo foi-nos servida a sôpa.
--Que tem feito, doutor? Por onde tem andado? indagou um homemzinho
engelhado.
--Negocios, meu caro.
--Não imagina como tem sido lamentada a sua ausencia. Um gordo soprou
ao doutor: «O 7 deu hontem tres vezes seguidas. O Monteiro lembrou-se
logo do amigo.» E voltando-se para a esquerda: Hein, Monteiro?
Uma voz balofa indagou: Que é?
--O 7, hontem...
--Homem, é exacto: tres vezes! E derreando-se sobre a mesa: Tres vezes,
Gomes.
--Sim, justamente porque eu não estava. E o 29?
--Não foi mal, disse com circumspecção o gordo; creio que repetiu.
Espere lá... Sacou do bolso uma tira crivada de numeros e, acavallando
o pince-nez, consultou--13, 22... ahn... ahn... 29! disse com voz
forte... ahn... 29! e... 29! Tres vezes! Dobrou discretamente as notas
e guardou-as.
--Vamos ver hoje.
Da ponta da mesa uma voz esganiçada pediu vinho. E travou-se uma
palestra viva, cruzada, em que os numeros entravam ás porções,
atropelando-se. Discutia-se e, mais uma vez, ficou provado que á
roleta não se podia applicar principio algum, porque não havia uma
lei que se pudesse dizer exacta,--tudo dependia do acaso. Um rapazola
citou Pascal, afiançando que o methodo do illustre autor das _Cartas
provinciaes_ era de incontestavel merecimento. Entreolharam-se pasmados
e o gordo, cuspindo o palito, indagou:
--E você porque não segue os conselhos do tal Pascal?
--Mas sigo, como não?
--Ah! Então percebo: Pascal tem um methodo excellente para ensinar a
ficar limpo. Houve uma gargalhada estrepitosa e o rapazola, corrido,
procurou desculpar-se com o temperamento:--Que era um precipitado, sem
paciencia, sem calma.
--Qual, menino: só ha uma sciencia--é a sorte. Manda-me para cá a
Escola Polytechnica em peso e quero ver se ella arranja alguma coisa
com os calculos.
--Esta é a verdade, disseram.
--Qual Pascal, qual carapuça! Olha o Monteiro: tem horror ás
mathematicas, é incapaz de sommar duas fracções...
--Incapaz! affirmou o Monteiro sacudindo a mão diante dos olhos como
para afugentar a visão da sciencia exacta.
--Entretanto, perorou o gordo, é o que se vê--os numeros procuram-no. O
jogo é como a mulher: quanto mais perseguido mais esquivo. Qual Pascal
nem meio Pascal--a bola é que regula.
--Está quente aqui, soprou uma voz.
--Horrivel! ajuntou outra, esbaforida.
--Vamos subir, convidou o calvo, e todos, concordando, já anciosos pelo
primeiro golpe, accederam.
--Sim, vamos subir. Ha pelo menos ar lá em cima.
O doutor accendeu um charuto e, emquanto os grupos desappareciam por
uma porta baixa, que abria sobre um largo patamar de cimento, entre
duas escadas, uma que descia para o jardim, outra que subia para um
novo corpo do edificio, estabelecemos as condições restrictas do jogo.
--Nunca mais de duzentos mil réis...
--Nunca mais! affirmei.
E caminhámos por onde haviam desapparecido os grupos, ganhámos uma
larga escada que levava a um terraço, ao fundo do qual havia a sala
occupada exclusivamente pela comprida banca da roleta, já cercada
de pontos anciosos. Justamente na ocasião em que assomámos a uma
das portas, o calvo, sentado numa alta cadeira, ao centro da mesa,
annunciava com solemnidade:
--Cincoenta golpes, meus senhores.
O Guedes já havia tomado posto junto ao rapazola que citara Pascal.
O seu olhar cúpido atravessava a espessa bruma das lentes verdes
e cravava-se no monte de fixas que o neophyto acariciava cheio de
esperança, recapitulando baixinho os sabios principios do mestre. O
gordo passeiava semeando fixas com calculo; ás vezes demorava sobre um
numero, trincando o grosso beiço rubro, com as sobrancelhas repuxadas
por uma meditação profunda e retirava-as, num accesso de palpite,
recuando ou avançando para outro numero.
Aproximámo-nos. O doutor, sempre supersticioso, não quiz entrar na
primeira parada para jogar com segurança na sorte do banqueiro. O calvo
atirou a bola que começou a gyrar, num silencio de anciedade--ouvia-se
apenas o leve rumor que ella fazia circulando á borda da roleta,
como um satellite minimo em torno de um grande astro, por fim foi
amortecendo, amortecendo. O gordo, que acompanhava com ancia o gyro da
bola, exclamou:
--Está dormindo! e inspirado: é o 19! disse e precipitadamente atirou
sobre o numero tres fixas.
--É o 13, disse o Monteiro, carregando, com a cara á banda, um olho
pisco, para evitar o fumo do cigarro.
--Feito o jogo! annunciou o banqueiro. Recolheram-se todos e o calvo,
gravemente, espalhando pelo tapete um olhar de exame, cantou. Duplo
zero.
Houve uma exclamação desabrida: o numero estava livre. O _rateau_
recolheu todas as fixas e já outras cahiam atabalhoadamente, algumas
rolavam. Cruzavam-se braços afflictos. Os de uma ponta pediam
obsequiosamente que lhes puzessem duas fixas no 3 ou no 8 e entregavam
espichando-se; outros consultavam o _mostrador_ compenetrados, sisudos.
O Guedes escrevia numa tira de papel.
--100 fixas! exclamou o doutor e eu, sacando do bolso o dinheiro que me
dera meu tio, dei a troco de outras tantas fixas uma nota de duzentos
mil réis.
--Quer o troco em cartões ou em dinheiro?
--Em dinheiro, soprou-me o doutor. E eu, immediatamente:
--Em dinheiro...
Deram-me fixas brancas e ao doutor _sangue de boi_ e começámos a cobrir
os numeros: elle seguindo o sector sempre feliz, eu indifferentemente,
á discrição do acaso, atirando como quem semeia num campo, confiado
na terra fertil. Já a bola gyrava quando o Guedes segredou-me em
confidencia:
--Olhe o 9, doutor; está vasio.
--Sim, o 9, e atirei para o numero tres fixas. A minha largueza fez
pasmar o Guedes. Olhou-me com enternecimento e gratidão como se me
quizesse dizer na sua linguagem humilde: «que me agradecia a confiança
depositada no seu palpite tão desconceituado, já ridiculo entre os
pontos.» E sahiu da melancolia com palavras confortativas:
--O doutor fez um jogo admiravel, vai ver. Mas já o banqueiro
annunciava, com a sua gravidade de magistrado, oppondo embargos ao
rapazola, que despejava fixas ás tontas: em pleno, nos esguichos, a
cavallo, no grande, na terceira duzia, como se quizesse, de uma só vez,
chamar ao seu bolso os cinco massos de notas que ali estavam accendendo
a cobiça:
--Jogo feito.
--Prompto! Prompto... disse o retardatario, sem arredar os olhos do
tapete.
--18, cantou o calvo e o homem do _rateau_ começou a contagem: 35
amarellas.
--Minhas, disse o rapazola coçando a nuca frenetico.
--35 azues...
O gordo, com a voz cheia, accusou: Do dégas.
--105 brancas... eram minhas. O resto foi raspado. O Guedes, corrido,
não disse palavra, limitou-se a molhar o lapis nos beiços para annotar
e o rapazola, enxugando o suor da fronte, já sulcada de rugas,
lastimava: «que sahira justamente o numero em que menos jogara.»
O doutor, vendo-me carregado de fixas, felicitou-me, ajuntando em tom
discreto--que não me precipitasse.
--Descance...
--Deve ser agora o 36, disse o Guedes timido.
--Como o 36? porque?
--É a somma de 18.
--Vá lá o 36... Jogo por sua conta, e atirei sorrindo.
O gordo, engasgado, a tossir, seguiu o meu palpite dizendo--que os
estreantes são sempre felizes e atirou duas fixas sobre o 36. Tive
impetos de declarar que jámais pensara em tal numero, que o palpite
era do Guedes, mas o pobresinho voltara para o meu rosto os oculos
verdes e, atravéz das lentes, pareceu-me que os seus olhinhos tristes
imploravam. Calei-me. Deu o 15.
--Apre! bradou o de Pascal. Que sorte!
--15...! é do sector! disse o Monteiro sentenciosamente recolhendo
140 fixas--e com ironia, puxando o rapazola pela manga do veston:
Applique-lhe os principios, homem. Applique-lhe os principios.
--Qual! E agitando uma nota: Mais vinte fixas! Entrara um novo
ponto--um velho moreno, magro, de cavaignac. Deu uma volta distribuindo
apertos de mão e acercou-se do Guedes.
--Que numeros têm dado? O Guedes entregou-lhe o papel.
--Jogo feito! annunciou o banqueiro. Prompto! Prompto! disseram vozes
e, grave, como sempre, o calvo annunciou: 33. Foi a minha sorte--280
fixas. O Monteiro felicitou-me:
--Lindo golpe!
O rapazola sorria batendo as mãos e, sem que eu lhe perguntasse,
disse-me esticando o beiço:
--Estou limpo!...
--Nove horas, meu amigo; avisou-me o doutor.
--Sim, sim; vamos já. É a minha ultima parada. E espalhei a esmo um
punhado de fixas afastando-me, em seguida, para dar lugar ao novo
ponto, que acompanhava todas as peripecias do jogo com vivissimo
interesse. A roleta girou mais uma vez e o calvo, com a gravidade
habitual, cantou: 18.
--Em branco, disse o doutor puxando-me pelo braço. Os outros,
arrebatados, iam arrumando novas camadas, atulhando as casas, com
uma gana que seria para receiar se ali não estivesse, na presidencia
fatal, o calvo com a sua serena impassibilidade. O rapazola, sacando do
collete uma nota amarfanhada, berrou:
--Jogam duas fixas no 17, e acamou a cedula sobre o numero com um murro.
Quando me apresentei ao calvo para receber o valor das fixas, elle
sorriu com ar augusto e dignou-se dirigir-me a palavra:
--Então já?
--Tenho compromissos...
--Appareça, disse entregando-me o bolo. E o Guedes, solicito, sahindo
ao meu encontro: Appareça, doutor. Venha jantar comnosco.
--Pois sim, pois sim. Mas o doutor do terraço acenou-me, bradando
sonoramente: «Boa noite, meus senhores!» Descemos.
Quando passámos a volta do patamar, entrando na passagem que
communicava com a sala, alguem, que se balançava numa cadeira, na
penumbra humida de um socavão, indagou com um timbre feminino: se não
queriamos tomar alguma coisa--cerveja, cognac?
--Obrigado, agradeceu o doutor, e como eu lhe perguntasse quem era:
--Hebe, disse elle sorrindo maliciosamente.
Atravessámos a sala deserta, tomámos os chapéus e sahimos. A noite
estava radiosamente estrellada. A chuva cessara de todo, deixando no
ar uma frescura humida. No mar tranquillo estendia-se tremulamente
o rastro diaphano do luar e sobre o muro do caes um grupo de homens
cantava em vozeirada um rondó de opereta.
--Apre! respira-se finalmente.
--É verdade! Que forno esta casa!
--Para mim principalmente: queima-me todo o dinheiro. E num tom
convincente: Mas a gente é de escolha.
--Pois não: roda magnifica. O proprio Guedes é excellente rapaz.
--Excellente. Um admiravel companheiro, meio desconfiado... Vai
ás nuvens quando alguem o chama de cábula. Sinto que não tivesse
visto o Balduino, o _Pai_ 13, como é conhecido nas batotas. Jogador
incorrigivel. Affirma que desde os 14 annos faz ronda ao _tapis vert_.
Com 15 annos perdeu a legitima materna e anda agora a transviar o fruto
amargo da labuta caseira--magros mil réis que a mulher e as filhas
retiram da loja para onde cosem calças e colletes de brim. Mas é um
excellente pai de familia, o Balduino! adora a sua gente, é tão amigo
dos filhos como da roleta, é tão fiel á mulher como ao seu numero. Se
consegue fazer uma feriasinha razoavel, que lhe dê para um mez, entra
pela casa carregado de embrulhos, enche á farta a dispensa, paga as
contas, resgata as joias, veste o rancho e accende uma vela de libra
aos pés da Conceição para que lhe dê um pleno volumoso. Ao jantar
levanta um brinde commovido ao magnifico numero, e toda a familia
acompanha-o com religiosidade, tocam-se as taças e Balduino desenrola
mais uma vez o seu grande plano de felicidade que elle mesmo, uma
noite, contou-me ceiando commigo num gabinete do Bragança: «Entra com
20$, atira-os em pleno sobre o numero e ganha; deixa todo o lucro...
e repete. Affronta a sorte, num accesso de coragem louca, e ganha
ainda... é uma fortuna--não ousa arriscar mais, retira o bolo e, no dia
seguinte, entra em ajuste de compra com um fazendeiro--fica-lhe com as
terras e estabelece uma criação de gallinhas em grande escala. Novos
calculos: tantas gallinhas, tantas posturas e faz-se exportador de
frangos e de ovos, conseguindo accumular em 10 annos quantia superior
a 5 mil contos. Apparecem então as ambições politicas--é outro jogo,
porque Balduino, apezar de retirado, não póde esquecer, por gratidão,
o seu inicio. Apresenta-se candidato, ganha a eleição, entra na camara
com o diploma, faz o diabo, até que um dia, inopinadamente, cahe-lhe em
casa uma pasta. Mas Balduino, sempre fiel, não entra em exercicio senão
num dia 13--vai protelando, ha tantos meios de protelar: enfermidade,
arranjos, coisas, até que chegue o dia... Ah! então o Brasil viverá
em regalada paz com a sua administração cabulosa». Eis o seu romance.
O certo é que Balduino tem feito Africas: teve camarote no Lyrico e
apresentou-se com dignidade. Dizem que, em certos dias, passa como
Lucullo.
--Dava alguma coisa para ver esse typo.
--Ora espere... hoje é...?
--8.
--Então podemos partir descançados--não vem cá.
--Como sabe?
--É que elle só joga nos dias impares: tem a superstição ás avessas.
Caminhamos lentamente, em silencio; por fim observei ao meu amigo:
--O senhor joga friamente.
--É um engano, meu amigo; apparento.
--Mas não se distrae. Parece que não acha prazer...
--No jogo? muito! Penso com os modernos que dizem que o jogo
é um prazer esthetico. O gozo do jogador, pela tenacidade da
emoção prolongada e forte, pela ausencia do sentimento, porque é
um phenomeno todo material de sensação, excede o do artista que
contempla embevecido, por longo tempo, uma obra de genio. Os
sentidos, no jogador enfebrecido, atrophiam-se e tornam-se uma
especie de abstracção, algumas vezes excessiva, a ponto de o deixar
em immobilidade de hypnotico, emquanto corre o azar da bola ou
das cartas. O jogo opera como a morphina--excitando e abatendo: é
um estupefaciente. A emoção é cruel sem deixar, por isso, de ser
agradavel. Se não educa o gosto, educa as paixões: a luta com o acaso
torna o homem indifferente, quasi stoico. Habituado ás contrariedades
não soffre com os revezes, acha-os naturaes, aceita-os sem protesto,
passivamente, como aceita as sortes da banca. Alguem descobriu que o
jogo era uma manifestação da hysteria, foi talvez por isso que a sabia
Europa instituiu para os hystericos dessa mania, o grande hospital de
Monte-Carlo. Mas olhe o bond... vamos!
E deitamos a correr em direcção ao bond.