O doutor affixou com habilidade e graça:
--Meu amigo, exprima-se em vernaculo, sem cerimonia. Marion é de Paris,
mas fluminense pelo coração. Mademoiselle asseverou galantemente com a
cabeça loura. Sorri.
--Iamos por um champagne e pela moral de Philetas. Falavamos do amor
na accepção terna do termo, tão vilmente abastardado pelos actos civis
e religiosos do casamento e bebiamos Clicquot frappé. Veja o amigo se
está pelo thema e se aceita a bebida, que nesta casa é detestavel,
valha a verdade.
--Perfeitamente, disse voltando-me logo para os olhos doces de Marion.
O doutor ergueu a garrafa esgotada e impoz ao caixeiro:
--Outra e uma taça. E logo tornou: Para um celibatario de gosto, meu
amigo, não ha actualmente no Rio melhor emprego de capital e, com a
mão aberta, estendida, indicou-me Marion. Fala tres linguas e com uma
voz... Não é esta que o amigo ouve, não, é bem differente--modulada em
bemóes languidos. Ó Marion, dize alguma coisa no tom intimo, fala como
se estivessemos no teu ninho. E mademoiselle, rolando os olhos, pipilou:
--_Mon p’tit’!_ O doutor, em veia alegre, derreou-se perdido.
--Ouviu? e ainda não é tudo! Quando ella diz: _Mon amour!_ e apertou o
proprio peito estremecendo e demorando a exclamação. Ah! meu caro! _Mon
amour!_ hein, Marion? Mademoiselle baixou as palpebras maliciosamente.
E o doutor continuou: Executa Chopin e tem uma estante de classicos. E
mais do que tudo isto--dezoito annos.
--_Dix-neuf_, emendou Marion, dando com o leque uma pancadinha no
hombro do doutor. _Dix-neuf_, Gomes. _Quand j’avais dix-huit ans
j’connaissais pas encór’ l’amour..._ arrulhou endeixosa.
--Pois sim, dezenove; mais um, que não apparece ainda á flor do rosto.
Ah! porque os annos realisam o eterno principio da gotta d’agua, já
citado por Montaigne--accumulam-se, accumulam-se sem que a gente se
aperceba e, ás vezes, basta um dia para que a velhice transborde em
rugas e em cabellos brancos. Não achas, Marion?
O caixeiro serviu o champagne.