O dia amanheceu baço e humido. Chovera pela madrugada.
Meu tio, em candidos linhos, estirado num pliant de lona, com um jornal
sobre os joelhos, olhava da varanda os rosaes ainda gottejantes.
Saudando-me, interessou-se pela minha noite, indagando se não me
assustara com os tremendos trovões da madrugada e, dizendo-lhe eu que
nem os ouvira, lançou-me os olhos, admirado da valentia do meu somno
de chumbo, affirmando--que o céu viera abaixo em raios e em agua.
Sahimos ao jardim para ver os descalabros da tempestade nas roseiras
e nas moutas de cravos e compungimo-nos, mais de uma vez, diante das
esfolhadas de petalas ou á vista de um canteiro que a torrente da chuva
escavacára. Mas já o jardineiro andava a recompor, pondo esteios,
fincando espeques, ligando galhos, ajustando ramos, e meu tio, como se
visitasse uma enfermaria de desastre, ia de arbusto em arbusto, sempre
com uma phrase terna e cheia de condolencia, lastimando o botão que os
ventos haviam arrancado ou a begonia pendida para a terra encharcada,
quasi a morrer dos embates fataes da noite tempestuosa.
Almoçámos tristemente--repasto funebre de exequias, sem palestra, com
poucos vinhos. Os canarios, como se participassem da agonia das rosas,
estavam encolhidos nos poleiros, mudos. Sahimos logo depois do almoço,
porque meu tio não queria demorar-se mais a olhar a devastação do seu
jardim, mas como o Jeronymo lhe promettesse «arranjar tudo», recompoz a
physionomia e, quando entrámos para a victoria, já elle levava o rosto
transfigurado e dizia a rir «que as almondegas estavam coriaceas»,
cravando nos dentes um resto de palito.
Em caminho falámos do Dr. Gomes.
--A proposito, meu tio, de que vive elle?
--Tem uns predios, ganhou alguma coisa na praça á minha custa,
accrescentou com superioridade. Deve possuir uns trezentos contos. Mas
gasta muito, é um dissipador: o dinheiro foge-lhe das mãos como entrou.
--É solteiro?
--Solteiro. Vive com uma italiana bailarina, uma Denzi, Emilia Denzi.
Bella mulher, boa voz, mas... E meu tio, num gesto eloquente,
derreando a cabeça, entornou o polegar na guela e, com lastima, os
olhos em branco: É uma pena!
--E elle?
--Tem theorias. Diz que é nevrose, que a culpa não é della, que
aquillo é um mal hereditario e dá-lhe coisas a cheirar, e deita-a. É
preciso vel-o. Já uma vez, lá em casa, foi um trabalho para conter a
italiana. Entrou a beber e deu, a principio, para cantar ao piano,
elle acompanhava-a tremulo, já desconfiado prevendo o desfecho. Cantou
a _Traviata_ e uma barcarola; mas, de repente, poz-se a achincalhar
a musica e, sem mais, apanhou as saias e saltou para o meio da sala
atirando as pernas ao ar num can-can furioso. Por fim tomou de uma
peanha a mais linda estatueta que eu possuia, partiu-a e atirou-me os
cacos á cara; elle, porém, com um heroismo generoso, poz-se á minha
frente, recebendo no peito o que a furia me arrojara. É um perigo! Um
perigo, mas mulher bella e de carnes.
Chegaramos ao largo, ao mesmo ponto em que, na vespera, haviamos
estacionado, e meu tio impelliu-me para a rua, dizendo ao imperturbavel
Edgar: Ás cinco!
Iamos caminhando em direcção á rua do Ouvidor quando meu tio, parando
repentinamente, perguntou-me:
--Ó Anselmo, dize-me cá: tens dinheiro? Machinalmente levei a mão
ao bolso, mas recolhi o gesto a tempo, respondendo, entre vexado e
cubiçoso:
--Pouco, meu tio, creio que duzentos ao todo... tenho ainda umas
compras a fazer: lan e talagarça para Marocas, uma Senhora de Lourdes
para a _velha_ e as obras do Casimiro para o Simão Carreira. Sem dizer
palavra, meu tio sacou do bolso a enorme carteira empanturrada e tirou
um macinho nitido, de notas largas, dobrou-o e deu-m’o sorrateiramente.
Nem me preoccupei com a carteira, foi mesmo no bolso da calça que as
guardei profundamente, acariciando-as.
--Precisas conhecer o Rio... tens ahi a chave de todos os mysterios.
Acolhi com respeito a peroração sentenciosa do meu generoso parente,
e do mais intimo de minha alma elevou-se, como num suspiro subtil e
estremecido, toda a minha gratidão: Obrigado, meu tio. Elle, porém, ou
porque não ouvisse, ou para affectar indifferença á dadiva, estendeu-me
a mão liberal com estas palavras: Deixo-te aqui. Tenho ás 3 horas
assembléa geral da _Companhia Fomento Agricola_. Não te vás perder, vê
lá! Anda como quizeres, mas não saias da rua do Ouvidor e, ás cinco, no
Paschoal. Sabes onde é?
--Pois não; sei.
--Vê lá!
--Vá descançado: Ás cinco horas no Paschoal.
Separámo-nos.
Fiquei algum tempo indeciso, sentindo-me mal na liberdade, receioso,
timido, sem animo de atravessar sósinho a rua do Ouvidor. Parecia-me
que toda aquella gente, que subia e descia, mirava-me achando-me
desageitado e ridiculo, o ar tolo, os modos desalinhados. Meu terno
tão perfeito, tres vezes provado e retocado por mestre Thomé Caminha,
parecia-me largo e fofo, sem gosto, fazendo dobras nas costas, curto
de mangas, curto de pernas, todo elle curto e largo, sem geito.
Sentia-me mal e estive para correr ao alcance de meu tio, pedindo-lhe
que me levasse á assembléa do _Fomento_, tal era o desanimo que de
mim se apoderava ao ter de atravessar, sem companheiro, a rua que eu
via diante dos olhos, atulhada de gente, apezar da ameaça sombria das
nuvens que rolavam no céu, turgidas e tumidas de aguaceiros. Diante de
uma vitrina lancei um rapido olhar de analyse e achei-me escorreito
e liso, apenas o chapéu havia tombado para a esquerda; puxei-o e,
estacando, a enrolar um cigarro, o olhar errante como se procurasse
alguem, deixei-me estar algum tempo a invocar coragem para vencer a
cobardia do meu espirito acanhado. Por fim atrevi os primeiros passos
e fui caminhando vagarosamente, cauteloso, para não ir de encontro
aos que vinham azafamados, indifferentes, abrindo caminho á força de
hombros e cotovellos.
A minha idéa era o Paschoal. Ali, ao menos, sentado a uma das mesas,
ninguem daria por mim e poderia ficar até ás cinco á espera de meu tio,
livre daquelles olhos que me pareciam despir, livre daquelles sorrisos
que pareciam criticar os meus gestos selvagens e o meu lento e medroso
caminhar de rustico. Mas, subitamente, como se despertasse dentro em
mim uma nova energia, senti-me desembaraçado e altivo. Parti, pisando
forte, a olhar d’alto a gente; mas ao cabo de alguns passos, um grupo
de senhoras garrulas colheu-me num encontro amigo, no enleio expansivo
de uma intimidade affectuosa, o fiquei collado á parede a ouvir beijos
chochos trocados com precipitação e risinhos, emquanto um pequeno,
vestido á maruja, mettia-se pelas minhas pernas empurrado pelas
amistosas damas.
Atroz menino! atrozes senhoras! Uf!
Esbaforido e suado consegui desentalar-me do aperto intimo, maldizendo
as minhas patricias que andam pelas ruas, como as formigas pelos
trilhos da roça, esbarrando os labios em beijinhos. Afastei-me da
calçada para evitar nova collisão e segui lançando os olhos adiante na
esperança de descobrir o doutor que, segundo a affirmação peremptoria
do meu tio, devia andar pela rua do Ouvidor digerindo o almoço e
commentando os nossos erros politicos e os ultimos livros de França.
Infelizmente, porém, cheguei ao Paschoal sem ter sequer divisado a
sua sombra e conjecturei que se deixara ficar em casa amarrotando as
housses dos divans em longos espreguiçamentos de tedio, com os seus
poetas, em solidão ou tendo a seu lado a italiana, em toilette tenue de
cambraia e rendas, mexendo grogs de cognacs, com um romance de Tosti
nos joelhos.
Um homem como o doutor não abandonaria o lar num dia como esse de
spleen e de nevoa. Que viria fazer á rua senão chapinhar na lama e
ouvir as queixas indignadas dos politicos, que presagiavam, com grande
cópia de argumentos, um futuro tragico de assassinios e de roubos,
de violencias e crimes barbaros? Que viria fazer á rua quando podia
estar no tepido aconchego do seu «home» arrulhando nesse doce toscano,
que foi o idioma dos amores, no tempo em que a humanidade, menos
civilisada, amava? Não, meu tio errara na sua affirmação: o doutor não
andava pela rua do Ouvidor, devia estar nas Laranjeiras, a reler poemas
para distrahir a paixão bacchica da italiana iconoclasta, ou a traduzir
os sabios conselhos de Martial sobre a felicidade, onde o poeta
escreveu este hemistichio sobrio que, de per si, constitue um elemento
de paz e de ventura: _nox non ebria..._ talvez nunca experimentado pela
bailarina.
Apezar de pensamentos taes, não me abandonava a esperança de o ver
surgir de repente, muito correcto na sua toilette justa, espalhando em
sorrisos o seu bom humor e a sua graça.
Da porta do Paschoal estive longo tempo a contemplar o meio corpo de um
homem que ficara á esquina, parado. Via-lhe apenas um lado: meia aba
do frack, uma perna, metade do chapéu. Tive impetos de partir para
reconhecel-o; mas, evitando-me os passos em vão, o homem voltou-se--era
um sujeito moreno, abaçanado, com grandes bochechas molles picadas de
bexigas--um bigodinho ralo descia-lhe pelos cantos da boca em duas
gotteiras. Cançado, resolvi entrar. Havia uma mesa junto á porta,
encostada a uma das columnas. Tomei-a.
Pouca gente. Rapazes, o ar entediado, bebiam. O que eu vira no primeiro
dia, lá estava abancado a ler a mesma tira, creio, a um pequenote de
olhos espertos que bebia, sedentamente, a grandes goles, uma agua
effervescente dando com a cabeça loura em signal de approvação. O da
tira levantava gestos que deviam exprimir coisas de subido alcance ou
guindava, com os dedos em feixe, tremulamente, numa ascensão olympica,
a imagem ou a estrophe, e o outro, radiante, como um auditor romano dos
que ouviam Estacio, sorria, acompanhando com um olhar ineffavel os
dedos, que já iam pelo ar subindo, subindo sempre, á proporção que a
voz se ia tornando cava e profunda com um rumor longinquo de trovões de
estio.
Quando o caixeiro veiu ter commigo, ouvi distinctamente o ultimo ronco
e logo em seguida a voz infantil e clara do auditorio.
--Bonito! Bonito! Delicioso, Mendes! Delicioso! e docemente, numa
lisonja amavel, repetiu o verso final:
Neste cymbio de prata...
O resto do verso, que devia ser divino, perdeu-se no estouro de uma
nova garrafa d’agua aberta para o pequeno enthusiastico e sedento. O da
tira dobrou-a com indifferença e guardou-a no bolso interno do casaco
atirando para cima da mesa uma nota.
Na mesa contigua uma virago de luto mastigava gulosamente com um
triturar famelico de mandibulas, diante de um velhote casmurro,
que meditava levando, de vez em vez, á boca, escondida por trás
da barba curta e amarellada, o copo de cerveja. A mulher devorava
atabalhoadamente e elle, taciturno, parecia muito longe d’ali, com os
olhinhos fitos no vago, em algum sonho de saudade, talvez na imagem
sempre viva de quem se fôra e por quem elle trazia a cartola enrolada
em crepe e a mulher insaciavel o merinó de luto. O caixeiro acudiu
ao meu appello. Encommendei um grog. E voltei o olhar para os dois
rapazes. O da tira tomara uma attitude de abandono, as pernas cruzadas,
cahido sobre a bengala, cujo castão perdia-se-lhe na axilla; o pequeno
accendera um cigarro e baforava, farto.
Trouxeram-me o grog.
Um tlim-tlim ao lado attrahiu-me a attenção. O caixeiro acudiu num
salto. O velhote, sempre triste, passou a mão por sobre os destroços,
responsabilisando-se por tudo, e empinou-se para sacar o dinheiro
do bolso. A virago chupava os dentes com estrepito endireitando a
capota ao espelho. Levantaram-se os dois. O velho dava pelos hombros
da mulher e, magrinho, engelhadinho, fazia dó vel-o humilhado pela
abundancia daquella Eva formidavel, de seios enormes, que o arrastava
soberanamente como a cauda do seu vestido arrastava os palitos do
chão. Fazia dó ver aquelle homem diminuto e franzino ao lado daquella
fartura--e foram-se, ella adiante chupando os dentes, elle seguindo-a,
com o guarda-chuva debaixo do braço, contando as notas do troco.
Acompanhando com o olhar o pobre velho, que desapparecia no rasto da
poderosa Cybele, passou-me pelo espirito este pensamento estranho:
Esse homem apanha da mulher.
E ri, ri francamente, imaginando o homunculo, em camisa de dormir,
descalço, a saltar, a correr perseguido pela mulher possante que lhe
atirava varadas ás pernas seccas e guedelhudas.
Enfastiado de estar ali sósinho, resolvi tomar rumo, e como o caixeiro
passasse, atirei-lhe dinheiro. Elle inclinou-se esfregando a mesa com
um guardanapo e indagou:
--Foi um grog?
--Sim, um grog, disse-lhe e, lembrando-me de que era assiduo na casa,
tive a feliz inspiração de interrogal-o:
--Não esteve por aqui o Dr. Gomes de Almeida?
--Sim, senhor; esteve aqui, mais um outro, um de barbas louras, e puxou
das bochechas duas suissas imaginarias.
--Ha muito tempo?
--Ás onze e meia, mais ou menos.
Retirou-se depois de perguntar-me se queria mais alguma coisa.
Levantei-me para sahir: não havia, porém, chegado á porta quando alguem
poz-se a bradar:
--Ó senhor! Ó senhor! Voltei-me; era o caixeiro que me perseguia
sorridente e apressado:
--Olhe ali em baixo o Sr. doutor Gomes...
--Onde? indaguei ancioso.
--Acolá, ao fundo.
Ainda não conseguira descobrir o paradeiro do illustre moço e já a sua
voz clamava por mim de longe, festivamente:
--Bemvindo seja o meu amigo!
Avancei pressuroso e radiante, esgueirando-me por entre as cadeiras
para cahir nos braços do meu recente amigo. Apertámo-nos e, em poucas
palavras rapidas, contei a minha peregrinação pela rua nesse dia
obscuro e inerte. O doutor, com um gesto vago, lançou apodos ao clima
e, arrebatando-me para a mesa, apresentou-me a uma formosa mulher
loura, em cujo rosto reconheci promptamente as pupillas azues mais
claras do que a celagem, que tanto me haviam seduzido quando, pela
primeira vez, palmilhei o lagedo da rua do Ouvidor.
--Mlle. Marie, ou simplesmente Marion, a divina Marion... E á loura,
com distincção: Dr. Anselmo Ribas, meu amigo. Curvei-me ao peso do
titulo e diante da belleza. A divina Marion desabrochou um sorriso
adoravel, todo doçura e graça, á flor dos labios finos e offereceu-me
a pequenina mão apertada em uma luva côr de perola que lhe subia ao
cotovello, enrugada e cheia de pulseiras. Commovido e tremulo tomei a
mão leve de mademoiselle e que de esforços empreguei para não a levar
aos labios!
--_Mettez-vous ici..._ disse-me ella afastando-se com um rumor de
sedas, comparavel ao que fazem os bandos de pombos bravos quando
levantam o vôo das margens dos rios, na minha terra.