IX

O dia amanheceu baço e humido. Chovera pela madrugada.

Meu tio, em candidos linhos, estirado num pliant de lona, com um jornal

sobre os joelhos, olhava da varanda os rosaes ainda gottejantes.

Saudando-me, interessou-se pela minha noite, indagando se não me

assustara com os tremendos trovões da madrugada e, dizendo-lhe eu que

nem os ouvira, lançou-me os olhos, admirado da valentia do meu somno

de chumbo, affirmando--que o céu viera abaixo em raios e em agua.

Sahimos ao jardim para ver os descalabros da tempestade nas roseiras

e nas moutas de cravos e compungimo-nos, mais de uma vez, diante das

esfolhadas de petalas ou á vista de um canteiro que a torrente da chuva

escavacára. Mas já o jardineiro andava a recompor, pondo esteios,

fincando espeques, ligando galhos, ajustando ramos, e meu tio, como se

visitasse uma enfermaria de desastre, ia de arbusto em arbusto, sempre

com uma phrase terna e cheia de condolencia, lastimando o botão que os

ventos haviam arrancado ou a begonia pendida para a terra encharcada,

quasi a morrer dos embates fataes da noite tempestuosa.

Almoçámos tristemente--repasto funebre de exequias, sem palestra, com

poucos vinhos. Os canarios, como se participassem da agonia das rosas,

estavam encolhidos nos poleiros, mudos. Sahimos logo depois do almoço,

porque meu tio não queria demorar-se mais a olhar a devastação do seu

jardim, mas como o Jeronymo lhe promettesse «arranjar tudo», recompoz a

physionomia e, quando entrámos para a victoria, já elle levava o rosto

transfigurado e dizia a rir «que as almondegas estavam coriaceas»,

cravando nos dentes um resto de palito.

Em caminho falámos do Dr. Gomes.

--A proposito, meu tio, de que vive elle?

--Tem uns predios, ganhou alguma coisa na praça á minha custa,

accrescentou com superioridade. Deve possuir uns trezentos contos. Mas

gasta muito, é um dissipador: o dinheiro foge-lhe das mãos como entrou.

--É solteiro?

--Solteiro. Vive com uma italiana bailarina, uma Denzi, Emilia Denzi.

Bella mulher, boa voz, mas... E meu tio, num gesto eloquente,

derreando a cabeça, entornou o polegar na guela e, com lastima, os

olhos em branco: É uma pena!

--E elle?

--Tem theorias. Diz que é nevrose, que a culpa não é della, que

aquillo é um mal hereditario e dá-lhe coisas a cheirar, e deita-a. É

preciso vel-o. Já uma vez, lá em casa, foi um trabalho para conter a

italiana. Entrou a beber e deu, a principio, para cantar ao piano,

elle acompanhava-a tremulo, já desconfiado prevendo o desfecho. Cantou

a _Traviata_ e uma barcarola; mas, de repente, poz-se a achincalhar

a musica e, sem mais, apanhou as saias e saltou para o meio da sala

atirando as pernas ao ar num can-can furioso. Por fim tomou de uma

peanha a mais linda estatueta que eu possuia, partiu-a e atirou-me os

cacos á cara; elle, porém, com um heroismo generoso, poz-se á minha

frente, recebendo no peito o que a furia me arrojara. É um perigo! Um

perigo, mas mulher bella e de carnes.

Chegaramos ao largo, ao mesmo ponto em que, na vespera, haviamos

estacionado, e meu tio impelliu-me para a rua, dizendo ao imperturbavel

Edgar: Ás cinco!

Iamos caminhando em direcção á rua do Ouvidor quando meu tio, parando

repentinamente, perguntou-me:

--Ó Anselmo, dize-me cá: tens dinheiro? Machinalmente levei a mão

ao bolso, mas recolhi o gesto a tempo, respondendo, entre vexado e

cubiçoso:

--Pouco, meu tio, creio que duzentos ao todo... tenho ainda umas

compras a fazer: lan e talagarça para Marocas, uma Senhora de Lourdes

para a _velha_ e as obras do Casimiro para o Simão Carreira. Sem dizer

palavra, meu tio sacou do bolso a enorme carteira empanturrada e tirou

um macinho nitido, de notas largas, dobrou-o e deu-m’o sorrateiramente.

Nem me preoccupei com a carteira, foi mesmo no bolso da calça que as

guardei profundamente, acariciando-as.

--Precisas conhecer o Rio... tens ahi a chave de todos os mysterios.

Acolhi com respeito a peroração sentenciosa do meu generoso parente,

e do mais intimo de minha alma elevou-se, como num suspiro subtil e

estremecido, toda a minha gratidão: Obrigado, meu tio. Elle, porém, ou

porque não ouvisse, ou para affectar indifferença á dadiva, estendeu-me

a mão liberal com estas palavras: Deixo-te aqui. Tenho ás 3 horas

assembléa geral da _Companhia Fomento Agricola_. Não te vás perder, vê

lá! Anda como quizeres, mas não saias da rua do Ouvidor e, ás cinco, no

Paschoal. Sabes onde é?

--Pois não; sei.

--Vê lá!

--Vá descançado: Ás cinco horas no Paschoal.

Separámo-nos.

Fiquei algum tempo indeciso, sentindo-me mal na liberdade, receioso,

timido, sem animo de atravessar sósinho a rua do Ouvidor. Parecia-me

que toda aquella gente, que subia e descia, mirava-me achando-me

desageitado e ridiculo, o ar tolo, os modos desalinhados. Meu terno

tão perfeito, tres vezes provado e retocado por mestre Thomé Caminha,

parecia-me largo e fofo, sem gosto, fazendo dobras nas costas, curto

de mangas, curto de pernas, todo elle curto e largo, sem geito.

Sentia-me mal e estive para correr ao alcance de meu tio, pedindo-lhe

que me levasse á assembléa do _Fomento_, tal era o desanimo que de

mim se apoderava ao ter de atravessar, sem companheiro, a rua que eu

via diante dos olhos, atulhada de gente, apezar da ameaça sombria das

nuvens que rolavam no céu, turgidas e tumidas de aguaceiros. Diante de

uma vitrina lancei um rapido olhar de analyse e achei-me escorreito

e liso, apenas o chapéu havia tombado para a esquerda; puxei-o e,

estacando, a enrolar um cigarro, o olhar errante como se procurasse

alguem, deixei-me estar algum tempo a invocar coragem para vencer a

cobardia do meu espirito acanhado. Por fim atrevi os primeiros passos

e fui caminhando vagarosamente, cauteloso, para não ir de encontro

aos que vinham azafamados, indifferentes, abrindo caminho á força de

hombros e cotovellos.

A minha idéa era o Paschoal. Ali, ao menos, sentado a uma das mesas,

ninguem daria por mim e poderia ficar até ás cinco á espera de meu tio,

livre daquelles olhos que me pareciam despir, livre daquelles sorrisos

que pareciam criticar os meus gestos selvagens e o meu lento e medroso

caminhar de rustico. Mas, subitamente, como se despertasse dentro em

mim uma nova energia, senti-me desembaraçado e altivo. Parti, pisando

forte, a olhar d’alto a gente; mas ao cabo de alguns passos, um grupo

de senhoras garrulas colheu-me num encontro amigo, no enleio expansivo

de uma intimidade affectuosa, o fiquei collado á parede a ouvir beijos

chochos trocados com precipitação e risinhos, emquanto um pequeno,

vestido á maruja, mettia-se pelas minhas pernas empurrado pelas

amistosas damas.

Atroz menino! atrozes senhoras! Uf!

Esbaforido e suado consegui desentalar-me do aperto intimo, maldizendo

as minhas patricias que andam pelas ruas, como as formigas pelos

trilhos da roça, esbarrando os labios em beijinhos. Afastei-me da

calçada para evitar nova collisão e segui lançando os olhos adiante na

esperança de descobrir o doutor que, segundo a affirmação peremptoria

do meu tio, devia andar pela rua do Ouvidor digerindo o almoço e

commentando os nossos erros politicos e os ultimos livros de França.

Infelizmente, porém, cheguei ao Paschoal sem ter sequer divisado a

sua sombra e conjecturei que se deixara ficar em casa amarrotando as

housses dos divans em longos espreguiçamentos de tedio, com os seus

poetas, em solidão ou tendo a seu lado a italiana, em toilette tenue de

cambraia e rendas, mexendo grogs de cognacs, com um romance de Tosti

nos joelhos.

Um homem como o doutor não abandonaria o lar num dia como esse de

spleen e de nevoa. Que viria fazer á rua senão chapinhar na lama e

ouvir as queixas indignadas dos politicos, que presagiavam, com grande

cópia de argumentos, um futuro tragico de assassinios e de roubos,

de violencias e crimes barbaros? Que viria fazer á rua quando podia

estar no tepido aconchego do seu «home» arrulhando nesse doce toscano,

que foi o idioma dos amores, no tempo em que a humanidade, menos

civilisada, amava? Não, meu tio errara na sua affirmação: o doutor não

andava pela rua do Ouvidor, devia estar nas Laranjeiras, a reler poemas

para distrahir a paixão bacchica da italiana iconoclasta, ou a traduzir

os sabios conselhos de Martial sobre a felicidade, onde o poeta

escreveu este hemistichio sobrio que, de per si, constitue um elemento

de paz e de ventura: _nox non ebria..._ talvez nunca experimentado pela

bailarina.

Apezar de pensamentos taes, não me abandonava a esperança de o ver

surgir de repente, muito correcto na sua toilette justa, espalhando em

sorrisos o seu bom humor e a sua graça.

Da porta do Paschoal estive longo tempo a contemplar o meio corpo de um

homem que ficara á esquina, parado. Via-lhe apenas um lado: meia aba

do frack, uma perna, metade do chapéu. Tive impetos de partir para

reconhecel-o; mas, evitando-me os passos em vão, o homem voltou-se--era

um sujeito moreno, abaçanado, com grandes bochechas molles picadas de

bexigas--um bigodinho ralo descia-lhe pelos cantos da boca em duas

gotteiras. Cançado, resolvi entrar. Havia uma mesa junto á porta,

encostada a uma das columnas. Tomei-a.

Pouca gente. Rapazes, o ar entediado, bebiam. O que eu vira no primeiro

dia, lá estava abancado a ler a mesma tira, creio, a um pequenote de

olhos espertos que bebia, sedentamente, a grandes goles, uma agua

effervescente dando com a cabeça loura em signal de approvação. O da

tira levantava gestos que deviam exprimir coisas de subido alcance ou

guindava, com os dedos em feixe, tremulamente, numa ascensão olympica,

a imagem ou a estrophe, e o outro, radiante, como um auditor romano dos

que ouviam Estacio, sorria, acompanhando com um olhar ineffavel os

dedos, que já iam pelo ar subindo, subindo sempre, á proporção que a

voz se ia tornando cava e profunda com um rumor longinquo de trovões de

estio.

Quando o caixeiro veiu ter commigo, ouvi distinctamente o ultimo ronco

e logo em seguida a voz infantil e clara do auditorio.

--Bonito! Bonito! Delicioso, Mendes! Delicioso! e docemente, numa

lisonja amavel, repetiu o verso final:

Neste cymbio de prata...

O resto do verso, que devia ser divino, perdeu-se no estouro de uma

nova garrafa d’agua aberta para o pequeno enthusiastico e sedento. O da

tira dobrou-a com indifferença e guardou-a no bolso interno do casaco

atirando para cima da mesa uma nota.

Na mesa contigua uma virago de luto mastigava gulosamente com um

triturar famelico de mandibulas, diante de um velhote casmurro,

que meditava levando, de vez em vez, á boca, escondida por trás

da barba curta e amarellada, o copo de cerveja. A mulher devorava

atabalhoadamente e elle, taciturno, parecia muito longe d’ali, com os

olhinhos fitos no vago, em algum sonho de saudade, talvez na imagem

sempre viva de quem se fôra e por quem elle trazia a cartola enrolada

em crepe e a mulher insaciavel o merinó de luto. O caixeiro acudiu

ao meu appello. Encommendei um grog. E voltei o olhar para os dois

rapazes. O da tira tomara uma attitude de abandono, as pernas cruzadas,

cahido sobre a bengala, cujo castão perdia-se-lhe na axilla; o pequeno

accendera um cigarro e baforava, farto.

Trouxeram-me o grog.

Um tlim-tlim ao lado attrahiu-me a attenção. O caixeiro acudiu num

salto. O velhote, sempre triste, passou a mão por sobre os destroços,

responsabilisando-se por tudo, e empinou-se para sacar o dinheiro

do bolso. A virago chupava os dentes com estrepito endireitando a

capota ao espelho. Levantaram-se os dois. O velho dava pelos hombros

da mulher e, magrinho, engelhadinho, fazia dó vel-o humilhado pela

abundancia daquella Eva formidavel, de seios enormes, que o arrastava

soberanamente como a cauda do seu vestido arrastava os palitos do

chão. Fazia dó ver aquelle homem diminuto e franzino ao lado daquella

fartura--e foram-se, ella adiante chupando os dentes, elle seguindo-a,

com o guarda-chuva debaixo do braço, contando as notas do troco.

Acompanhando com o olhar o pobre velho, que desapparecia no rasto da

poderosa Cybele, passou-me pelo espirito este pensamento estranho:

Esse homem apanha da mulher.

E ri, ri francamente, imaginando o homunculo, em camisa de dormir,

descalço, a saltar, a correr perseguido pela mulher possante que lhe

atirava varadas ás pernas seccas e guedelhudas.

Enfastiado de estar ali sósinho, resolvi tomar rumo, e como o caixeiro

passasse, atirei-lhe dinheiro. Elle inclinou-se esfregando a mesa com

um guardanapo e indagou:

--Foi um grog?

--Sim, um grog, disse-lhe e, lembrando-me de que era assiduo na casa,

tive a feliz inspiração de interrogal-o:

--Não esteve por aqui o Dr. Gomes de Almeida?

--Sim, senhor; esteve aqui, mais um outro, um de barbas louras, e puxou

das bochechas duas suissas imaginarias.

--Ha muito tempo?

--Ás onze e meia, mais ou menos.

Retirou-se depois de perguntar-me se queria mais alguma coisa.

Levantei-me para sahir: não havia, porém, chegado á porta quando alguem

poz-se a bradar:

--Ó senhor! Ó senhor! Voltei-me; era o caixeiro que me perseguia

sorridente e apressado:

--Olhe ali em baixo o Sr. doutor Gomes...

--Onde? indaguei ancioso.

--Acolá, ao fundo.

Ainda não conseguira descobrir o paradeiro do illustre moço e já a sua

voz clamava por mim de longe, festivamente:

--Bemvindo seja o meu amigo!

Avancei pressuroso e radiante, esgueirando-me por entre as cadeiras

para cahir nos braços do meu recente amigo. Apertámo-nos e, em poucas

palavras rapidas, contei a minha peregrinação pela rua nesse dia

obscuro e inerte. O doutor, com um gesto vago, lançou apodos ao clima

e, arrebatando-me para a mesa, apresentou-me a uma formosa mulher

loura, em cujo rosto reconheci promptamente as pupillas azues mais

claras do que a celagem, que tanto me haviam seduzido quando, pela

primeira vez, palmilhei o lagedo da rua do Ouvidor.

--Mlle. Marie, ou simplesmente Marion, a divina Marion... E á loura,

com distincção: Dr. Anselmo Ribas, meu amigo. Curvei-me ao peso do

titulo e diante da belleza. A divina Marion desabrochou um sorriso

adoravel, todo doçura e graça, á flor dos labios finos e offereceu-me

a pequenina mão apertada em uma luva côr de perola que lhe subia ao

cotovello, enrugada e cheia de pulseiras. Commovido e tremulo tomei a

mão leve de mademoiselle e que de esforços empreguei para não a levar

aos labios!

--_Mettez-vous ici..._ disse-me ella afastando-se com um rumor de

sedas, comparavel ao que fazem os bandos de pombos bravos quando

levantam o vôo das margens dos rios, na minha terra.

A capital federal (impressões de um sertanejo) · 第 11 / 18 题