VIII

O mundo é dos epicuristas, disse o doutor, ao fim do jantar, trincando

uma amendoa para melhor saborear o kirsch. A vida psychologica tem a

sua preoccupação: o ideal; a vida physiologica tem a sua avidez: a

fome. O ideal é a ancia pelo absoluto--fome insaciavel, por isso os

gastronomos são mais felizes do que os poetas.

Meu tio, affectando conhecimentos, deu com a cabeça meio toldada, em

signal de affirmação.

--Eu comprehendo a sumptuosa antiguidade com os seus banquetes

colossaes em que eram servidas rezes inteiras e grandes javalis com

os colmilhos vinham ornar o centro da mesa illuminada a candelabros

de ouro. Esses homens que nós outros, em assomos pueris de vaidade,

chamamos barbaros, conheciam e praticavam com mais requinte a sciencia

delicada do gozo fino. Nós hoje comemos para manter em equilibrio as

funcções da vida, raramente sentimos prazer, tratamos de encher o vacuo

materialmente, azafamadamente. As nossas refeições não têm solemnidade,

não têm apparato, são feitas, como todos os outros actos da vida

material, com tédio, com tristeza, funebremente.

Ah! os antepassados magnificos!... Para elles a mesa era um altar onde

se celebrava, com dignidade e volupia, o rito do estomago. Comprehendo

o orgulho de Lucullo e as extravagancias excentricas de Apicius

mandando apparelhar um navio para buscar ostras nas costas africanas.

O triclinio era o aediculo do supremo gosto, o ádito do regalo. A

civilisação rudimentar desses tempos era dictada pela esthetica. A

propria politica, sempre avessa aos retoques esmerilhados da Arte,

tinha a sua feição sympathica, tinha o seu cerimonial, exigindo

para a primeira ala de representação a velhice sensorial e grave

dos senadores, tão augustos na magestade impassivel da ancianidade,

tão veneraveis na hieratica e silenciosa attitude de pais da patria

que os barbaros da Gallia recuaram atemorisados, vendo-os immoveis

e alvadios, sentados nas curúes do Capitolio. A cozinha tinha a sua

esthetica especial. O cozinheiro romano era um artista. Para merecer

os applausos de um patricio não era bastante saber temperar o môlho

ou córar o peixe, era necessario conhecer o segredo de manter, para

que não se evolasse, o perfume da vianda ou do pescado e mais ainda,

commendador, era indispensavel saber vestir os pratos. Todas as peças

tinham a sua toilette caracteristica, variando de tempos a tempos,

conforme os caprichos da moda ou a imaginação do chefe das cozinhas.

Uma ave exotica trazida, entre os despojos de uma conquista, de

remotas paragens da Asia, era servida com a propria plumagem para

que, antes da satisfação do paladar, a vista se regalasse; um cabrito

montez vinha do forno entre folhagens frescas e verdoengas; havia

pratos perfumados, outros que primavam pelo luxo maravilhoso e vario

da verdura ornamental. Entre nós esse luxo, conservado por alguns

retrogrados, não vai além das espetadas de rosas e de limões no costado

dos bacoros de forno, as azeitonas que vão morar nas orbitas vasias e

o classico ovo cozido cravado na dentuça. É verdade que os francezes

pretendem resuscitar esse fausto elegante, mas como, commendador?

montando _gateaux_ de gelatina diaphana, refolhando massas, facetando

tortas de foie gras... Mas isso é infimo. Sabe, meu amigo, tenho uma

nostalgia estranha--a nostalgia do passado. Quanto eu daria para ser

commensal de um chefe barbaro, mesmo um bruto, como o huno que andou a

murchar a herva dos campos com as patas do seu cavallo da steppe...!

Quanto eu daria para estar no acampamento, depois da batalha, á hora do

rancho, para ver cahirem ao peso das clavas, ainda molhadas de sangue

inimigo, as rezes pacientes que vinham acompanhando o exercito; e com

que delirio eu cercaria as fogueiras colossaes em que ellas fossem

lançadas! Quanto eu daria, commendador! Trinchar um boi! Cravar-lhe no

ventre uma faca, grande como uma espada de guerra e comer no concavo

de um escudo! Estou enfarado da mesquinharia subtil do vol-au-vent. Um

bom pedaço de carne sangrenta a rechinar na ponta de uma lança, hein,

commendador?

--Não temos estomago para taes coisas, doutor.

--Isto sei eu. A humanidade vai degenerando miseravelmente. Não é

sómente á mesa que ella confessa o seu abastardamento--é em tudo.

Veja a Arte de hoje... Quem ha por ahi que ouse tentar um poema

epico? Ninguem! A poesia moderna é effeminada e languida--vai pelas

minuciosidades porque lhe falta a suprema força victoriosa dos antigos

vates que punham num canto de epopéa exercitos de homens e legiões

de deuses, todo o furor ardido das pelejas e toda a sensualidade: os

troantes armistrondos das catapultas e as doces palavras meigas dos

namorados.

Vêde na Iliada os contrastes--Achilles e Agamenão invectivando-se,

Diomedes rompendo as hostes troyanas com a sua lança formidavel,

Thersyto giboso, a injuriar e a rir como uma satyra errante; Ulysses,

a enredar traças, os deuses esvoaçando, uns pelos gregos, outros

pelos priamides e, mais que tudo, esse episodio de um tão original e

inaudito sensualismo: Paris salvo da lança aguda e bruta de Meneláu

por Aphrodite que o retira do campo de duello, levando-o aconchegado

ao seio ardente para dar-lhe repouso nos braços claros de Helena.

Isto sim! isto é poesia! Hoje a preoccupação do poeta é o rhythmo,

a sonoridade. São os discipulos de Apelles, commendador, são os

discipulos de Apelles: fazem-na rica por absoluta impossibilidade de a

fazerem bella. Os grandes deslocaram a montanha e a geração de hoje,

anemica e enfezada, anda a respigar destroços para brunir bibelots

que, ao mais leve contacto, quebram-se e desapparecem. Commendador,

nós, os contemporaneos, polidos por dezenove seculos de civilisação,

não valemos os errantes que sahiram dos valles acceitosos da India

cantando, ao sol, pelas margens das aguas claras, os doces versos

mysticos dos aryas. Virou o resto do licor que havia no calice e

continuou no silencio attencioso:

--Á nossa litteratura falta o caracter de originalidade. Não é

propriamente uma litteratura nacional porque, por infelicidade,

ninguem se preoccupa com a terra. Os olhos dos nossos poetas vêem as

constellações de outros céus, as aguas de outros rios, a verdura de

outras selvas. Quando trazem para o descante uma mulher, de preferencia

rustica, porque a Poesia, por um resto de bucolismo, só comprehende

o amor fiel na deveza campestre, vestem-a á moda da aldeia européa,

como uma pastora de Alsacia, como uma montezina dos Alpes, porque

a Musa indigena não se atreve a apresentar na estrophe a sertaneja

patricia, mais linda do que a Amaryllida das eglogas de Virgilio, mais

casta, se é possível, do que Miranda ou do que Agnés. Se é um homem,

desce das montanhas frias da Suissa tocando a _ranz_ das vaccas dos

companheiros de Winkelried. A paizagem é inverosimil, as aves que nella

desferem são todas exoticas e muitas vezes até encontram-se no fundo

de um parque, á luz da lua de maio, o rouxinol que canta e o cormoran

que sonha. O cormoran... ora, francamente! A causa de tal aberração

não é a ausencia do ideal plastico, porque ahi temos a natureza sempre

nova e cheia de imprevistos; não é tambem a ausencia do ideal poetico

porque, a meu ver, não ha paizagem mais suggestiva do que a nossa,

cheia ainda do rumor da vida priméva, selvas, valles e montes, onde

a lenda põe um mysterio em cada talisca, uma yara em cada regato,

uma balada em todas as corollas, uma pastoral em todos os valles, um

idyllio de amor em toda gruta, ardencia nos corações e inspiração nas

almas. A causa é outra--é a difficuldade, porque é incomparavelmente

mais difficil descrever a verdade do que colorir fantasias e sobretudo

porque o nosso genio artistico é um producto immigrante: trabalha em

nosso espirito como um colono labora nos campos e podemos dizer que as

messes do sólo e da intelligencia nesta terra pauperrima são devidas ao

elemento adventicio. Basta uma simples analyse da vida litteraria. Veja

o commendador--somos ainda um povo em formação, começamos a encarar a

vida e, na idade em que a Grecia foi lyrica, na idade juvenil em que

todos os homens trataram de compôr poemas de religião e de esperança

para abrigo da alma, nós desesperamos, somos pessimistas... Por

convicção? por soffrimento? absolutamente não, por imitação apenas.

Praguejamos no berço e pedimos a morte, o Nirvana. Começamos a ler pelo

poema de Job. Mostre-me o periodo romantico, que é, por assim dizer,

a adolescencia da Arte, na sua segunda phase, depois do renascimento?

não tivemos. Saltámos para o naturalismo, que é a analyse, a rabugice

caduca da litteratura e já vamos caminhando para a cachexia do

decadismo, arrastados, inconscientemente, pelo habito inveterado

da irresponsabilidade. Vamos no tropel dos allucinados escabujar

na _charogne_, profanar tumulos para evocar procissões macabras,

depravando o coração, depravando a benção. Peladan institue o erotismo,

os eroticos emergem. Huysmans entra pela Idade-Média folheando as

chronicas poentes dos archivos, apparecem aqui os satanicos; o mahatma

apregôa as excellencias do budhismo, toda gente é budhista, como foi

hypnotista na phase mais irritante das experiencias de Charcot, como

foi cumberlandista quando aqui esteve Pedro Vals.

Somos um povo incaracteristico; defeito de origem--não tivemos lutas,

não conseguimos formar um periodo historico, habituámo-nos a receber

o que nos davam, dahi a passividade desidiosa do nosso temperamento.

Nossa alma varia de instante a instante, é por isso que somos tão

faceis de adaptação. Forçaram o nosso altar, deixaram-nos sem crença

e sem Deus, aluiram todo o passado meigo das tradições christans, que

foram o conforto dos nossos pais e o incentivo que nos trouxe pelo

caminho da Moral, abateram a cruz e mostraram á Virgem a Via Dolorosa

para que ella partisse, e que fizemos nós, os christãos? assistimos

impassiveis á hegira, vimos sahir dos altares os santos venerados

pelas nossas mãis e sorrimos. Chamam a isso evolução... é possivel--eu

chamo-lhe indifferença. E é assim em tudo. Em politica dizem que

fazemos revoluções sem sangue. Ora, commendador... francamente, chega a

ser ridiculo!

--Mas é a verdade, doutor.

--Uma triste verdade. Para mim a politica do brasileiro não vai além

da urna. Dêem-lhe todas as fórmas de governo com a urna e elle estará

contente. E essa dedicação ao vaso do suffragio, só comparavel á dos

hebreus pela arca, não significa a confiança que o povo deposita no

voto, porque toda a gente sabe que o voto, entre nós, é uma palavra.

Mas a eleição é uma tradição de motim, por isso é que ella perdura;

tanto é verdade que tenho certeza de que o Brasil politico cessará de

existir no dia em que morrer o ultimo cabalista. Outro facto ainda,

que attesta eloquentemente a nossa tendencia imitativa--é a mania

que temos da applicação de meios administrativos, economicos e ainda

politicos usados em casos normaes em outros paizes de condições bem

differentes das nossas, de systema de organisação diverso, á anomalia

da situação que atravessamos. É querer curar uma febre eruptiva com um

sedativo que fez cessar a cephaléa do vizinho. Ridiculo, commendador,

ridiculo e triste. E vertendo mais algumas gottas de kirsch:

--Que me diz o senhor da moda? a moda por exemplo, esse supplicio

imposto á mulher brasileira pela elegancia parisiense?

--Eu acho-a divina... Gosto immenso da variedade, affirmou meu tio.

--Tambem eu. Mas refiro-me aos disparates da mania vestiosa. Quando

o inverno inteiriça Paris, nós aqui, nesta fornalha dos tropicos,

desfazemo-nos em suor, estalamos, e as nossas mulheres, que se vestem

pelos moldes da _Saison_ e do _Coquet_, embrulham-se em pelles,

revestem-se de _arminhos_, trazem pesadas cachemiras e capas com que

um groenlandez zombaria do mais duro inverno, na sua toca de neve.

E nós outros apertamo-nos em cheviots felpudos, torrados, suando,

simplesmente porque seria ridiculo para a senhora apresentar-se na

calçada da rua do Ouvidor com uma toilette clara, de um panno fresco

e leve e um simples chapéu de palha cercado de flores, e nós seriamos

corridos a apupo se ousassemos affrontar o povo com um terno de

linho e um chapéu panamá. Ha de convir, commendador, é ridiculo, é

soberanamente ridiculo!

Gravemente, com a repercussão profunda de um sino longinquo, o

veneravel relogio interrompeu a facundia do doutor soando as dez horas.

--Dez horas! exclamou elle sacando do bolso o seu chronometro.

Perdôe-me, commendador, mas não acredito nas palavras da pendula

domestica--e baixou os olhos para consultar: É estranho! dois relogios

de accordo: dez horas justas! E, pondo-se de pé, a passar as mãos pelas

pernas para alisar as calças: Vou deixal-os, disse.

--Ainda é cedo, doutor. Vamos tomar um punch de champagne.

--Oh! Acha então que tenho bebido pouco? Mas meu tio já havia acenado

ao criado indicando um vaso bojudo, de crystal ceruleo, a cratéra, como

lhe chamara o doutor, descobrindo-o entre os pesados jarrões da China,

carregados de rosas.

--Dê treguas ao theatro por uma noite, doutor.

--Treguas! Mas eu não faço outra coisa. Ha mais de quatro mezes que não

ponho os pés em theatro. Desde que d’aqui partiu a companhia lyrica,

a não ser um ou outro concerto, uma ou outra soirée, passo as noites

a ler ou a jogar o pocker. Oh! o theatro! exclamou com um risinho,

passeiando ao longo da sala.

--Não gosta? indaguei.

--Adoro! mas o theatro, meu amigo, o theatro... não isto que por

aqui ha com esse nome. Porque, afinal, penso eu, Arte não é a chufa

banal que faz estourar a braguilha, nem a nudez de maillots que aguça

o apetite erotico. O fim da Arte é mais nobre do que o da chalaça.

Não foi com auxilio de rondós obscenos que Sophocles foi coroado

vinte e tantas vezes. Shakespeare não teve necessidade de sumptuosas

scenographias para vencer em Blackfriars--a lua era feita por um homem

que atravessava a scena com uma lanterna. Molière não mantinha a seu

serviço córos femininos convenientemente cevados para embasbacarem a

volupia. Ah! meu amigo, as mulheres que iam ouvir Eschylo abortariam

de novo visitando os nossos theatros... mas abortariam de tanto rir,

as pobres mulheres, de tanto rir! E sentando-se: Sinceramente, vale

a pena emparedar-se um homem entre dois desconhecidos em uma platéa

asphyxiante para ouvir cantarolas e admirar meneios sensuaes de alméas

sarapintadas? Vale a pena deixar-se o canto do gabinete e a companhia

de um bom livro para ir ouvir as imprecações de um fidalgo furibundo,

que vem á scena, com uma grande capa, alongando as pernas, evocar os

manes dos avós e reconhecer um filho? Em geral esse homem, que durante

cinco longos actos estropêa inimigos, é de tão perverso instincto

que nem a syntaxe consegue, na maioria das vezes, escapar á sua

furia. Que é que nos offerecem os theatros? o vaudeville que nos vem

trazer, desnaturado pela traducção, o espirito de Paris e o dramalhão

pretencioso e bufo, onde ha invariavelmente a luta das paixões--o filho

reconhecido ou... outro disparate qualquer. De Arte nacional, que

temos? absolutamente nada.

--De quem a culpa? dos poetas, doutor, dos poetas que não trabalham.

--Perdão; nem dos poetas nem dos emprezarios, commendador--a culpa

é da Fatalidade, falo agora como Seneca, disse a rir, a culpa é da

Fatalidade. Nisard, se bem me lembro, diz que Roma não teve drama

porque não teve povo, o verdadeiro povo, porque o drama é a obra

litteraria mais indigena e mais original de um paiz--não póde ser

feita sem o concurso directo da massa popular, porque é ella que

a consagra no theatro. E para que exista o drama é necessario que

existam factos, que haja uma historia, subsidio que, infelizmente, não

possuimos. Demais, o nosso povo, na sua collectiva densidade, é uma

massa heterogenea, na qual o elemento adventicio faz desapparecer o

elemento autochtone, absorvendo-o como uma cellula mais forte absorve

a mais fraca. Somos victimas de uma conquista organica--talvez não me

exprima bem, mas a phrase parece-me exacta e perfeita. Os factores que

nos parecem revigorar debilitam-nos, tirando-nos toda a autonomia e

repulsando-nos lentamente... Somos nós os estrangeiros na patria. Essa

massa forasteira é que impõe o theatro, é que concorre ás casas de

espectaculo para rever os seus costumes, para recordar trechos das suas

primitivas glorias.

Vêde os dramas--ou são portugueses, para o elemento que é, por assim

dizer, a grande força activa do paiz, ou traduzidos do francês e

agradam pela universalidade do assumpto, porque são as paixões modernas

que existem em toda a parte; ou as operetas que são a nota viva e

saltitante, que acarretam a nudez, o saracoteio, a bambochata e acendem

a sensualidade... do Brasil nada. As poucas tentativas fallecem porque

quem as podia levantar esquece-as e a razão é simples, commendador: é

que nestes dramas não ha um fundo que impressione a collectividade: o

povo, que é a patria na sua mais completa manifestação. É que o drama

no Brasil não é fundado em uma these nacional, em um caso historico

desses que exprimem uma gloria commum e que são a recordação de

um momento ou de um facto. Não temos um heroe que encha com o seu

prestigio todo o corpo de uma tragedia. E d’onde viemos nós? que

epopéas demarcam a nossa victoria inicial? que altares relembram a

religião primitiva? em que meandro ficam os tumulos dos que lutaram

pela nossa liberdade e pela nossa crença? ha algum campo semeado

de ossos do bravos que tivessem sahido em defesa da patria? não ha

nada... não conhecemos a nossa origem, somos um povo do acaso com tres

periodos de servidão--a servidão de colonia, a servidão do eito e a

servidão do espirito.

Só póde ter theatro um povo livre. Como havemos de rir se somos por

temperamento tristes e melancolicos? E nem chorar podemos. Os antigos

choravam pelos seus heroes, eram lagrimas que recordavam glorias

épicas, e nós havemos de chorar! porque?... de que?... de vergonha? mas

para isso ainda é preciso que appareça um audaz que escreva o drama dos

pusillanimes.

Não ha assumpto, commendador, não póde haver poetas. Ha um povo

promiscuo, é para esse povo que os emprezarios trabalham, porque o

brasileiro, como o romano da decadencia, contenta-se com os ursos

sabios e com os saltimbancos.

O criado, que chegava com a cratéra, poz remate á imprecação

patriotica, e meu tio, servindo uma taça, passou-a delicadamente ao

doutor exclamando:

--Parece estar divino!

Tocámos as taças e sorvemos demoradamente o punch que, em verdade,

estava delicioso, porque o criado, perito em segredos de buvette,

perfumara o champagne com alguma coisa que rescendia como a

baunilha. Por fim, pousando a taça, interrompi o silencio com uma

objecção subtil, não tanto para refutar os conselhos do doutor, como

principalmente para arrancal-o á mudez em que se reservara, bambaleando

a perna, a tamborilar com os dedos no bojo da cratéra.

--Doutor se, como affirma, a causa da miseria litteraria em que jazemos

vem da ausencia absoluta de factos, da esterilidade historica, somos um

povo fadado ao silencio e á immobilidade: nem Arte escripta, nem Arte

cinzelada. Jámais teremos a consolação suprema de rasgar um horizonte

para que nelle possa refulgir um vulto de marmore ou para que nelle

fique, eterna como a Odysséa, a constellação de um poema patrio.

--É um engano. Isso que o meu amigo préga é o desalento, doutrina do

desespero, propria das raças nullas. Somos um povo que começa, não

temos um só periodo, um só estadio ainda, mas isso não quer dizer que

sejamos um povo morto. Ainda não começámos a viver, esta é a verdade;

ainda não começámos a viver. Temos elementos para vir a ser um povo

artistico como foram os gregos: o meio, o caracter, o sentimento e

até a providencia dos mares que nos distanciam do resto do mundo,

isolando-nos no equador como para obrigar-nos a agir exclusivamente

por influxo directo da zona que creia, ao mesmo tempo, a temperatura

physica e a temperatura moral. O brasileiro não é um povo rudimentar

sob o ponto de vista psychologico, não é. E, a proposito, permitta-me

que faça aqui, muito á puridade, a minha profissão de fé. Tenho uma

extravagante doutrina sobre a psychologia, que, em verdade, já me

tem valido apupos. Retrahi-me e hoje apenas deixo presentir alguma

coisa, assim em intimidade como estamos, por que não quero que vejam

mais em minhas palavras pretenções a dogmas: são ligeiras idéas que

desapparecem com a palestra.

--Fale, doutor! Pedi com interesse.

--Ah! meu caro, sou um «solitario». Vai achar ridiculas as minhas

palavras... Em todo caso...

Tomou uma attitude severa e falou.

--Creio profunda e convencidamente nas phases de dynamisação

psychica--a alma é um fluido perenne e immortal, activo e autonomo,

que circula mysteriosamente pousando de corpo em corpo, como a abelha

circula, pousando de flor em flor. Como uma suga o mel das flores,

a outra absorve o mel da intelligencia, que é um producto complexo

de funcções do cerebro isolado: a imaginação; cerebro-cardiacas: o

sentimento; do instincto: a avidez; e da vontade: a ambição que é a

tenacidade do desejo. Essas funcções só se manifestam na materia com

o contacto da Alma, como as forças magneticas apenas se desenvolvem

com a incidencia dos dois polos extremos. De longe em longe, colhendo

em differentes vidas qualidades de um e qualidades do outro, a

Alma encerra-se em um ser, immensamente farta, immensamente cheia,

produzindo os genios, que são como grandes colmeias que reunem toda

a essencia de multiplas variedades, todo o mel colhido atravéz

de multiplas e variadas metempsychoses. É uma doutrina de louco,

decididamente, e eu sou o primeiro a convir nisso, mas actualmente

todas as doutrinas têm um fundo de insania, não é muito que surja

uma inteira e completamente louca. Mas creia o amigo que é só assim

que consigo comprehender e explicar o apparecimento dos homens

cyclicos--Homero, que é a synthese de todo o drama épico desde o

periodo pelasgico; Hesiodo, que é o mytho, a theogonia; Eschylo e

Sophocles, que são a tragedia; Dante, que é o astro neutro posto

no céu sombrio da Idade-Média, terrivel e tragico como Saturno,

alumiando entretanto a manhan triumphal do renascimento; Shakespeare,

que é o ponto de encontro das paixões humanas. Homens-collectivos

que apparecem em uma éra determinada quando ha um espirito perfeito.

Commendador, o futuro não contará a idade do homem pela data do seu

nascimento, mas pelo numero de éras que tiver atravessado o espirito

que o escolher e a lenda de Mathusalem será ridicula, porque haverá

homens dez, vinte vezes millenares. Não é hoje uma verdade scientifica

o atavismo? A humanidade é uma redundancia: evolução é um synonimo de

substituição--progresso quer dizer: aperfeiçoamento. O povo tem uma

expressão que define admiravelmente o principio cerebrino da minha

psychologia: «As crianças de hoje nascem velhas.» É uma verdade: a vida

repete-se. Demais, sendo a Alma uma essencia perfeita, virgem, original

e fecunda e sendo ella a força concurrente para a vida do ser, era

justo que nós outros fossemos produzindo constantemente idéas novas,

novos principios, entretanto ahi está, de longo tempo, o aphorismo do

Ecclesiaste como uma verdade: «_Nil novum sub sole._» Razão formidavel

em favor da minha escola exclusiva--não póde produzir actos novos o

que é de natureza antiga: repete, varia ampliando ou aperfeiçoando.

Sendo _uma_ a causa, os effeitos serão invariavelmente os mesmos, mais

ou menos aperfeiçoados pela combinação dualista: materia, espirito,

impulso e meditação, acção e reacção.

--O doutor é spirita? indagou meu tio com um leve tremor na voz.

--Não, commendador... Spirita, eu! Sorriu com desdem, tomou um charuto

da caixa, acendeu-o e continuou reclinado, com as pernas estendidas:

--Mas, dizia eu, o brasileiro não é um povo rudimentar. Sem recorrer ás

idéas expostas tenho uma observação que, posto não seja muito original,

presta-se magnificamente. A nostalgia, que é o avesso da esperança, é

a saudade na sua expressão mais nobre, porque é a saudade do absoluto,

quasi que posso dizer assim, saudade da terra, do céu, dos rios, da

selva, do homem, do ar, do rumor, de tudo que se amou, de tudo que se

viu e sentiu além. Ora, commendador, para que exista a nostalgia, que

é um effeito, é necessario que tenha existido uma causa.

--Forçosamente, corroborou meu tio.

--E qual é ella? Entretanto o brasileiro é nostalgico. Nostalgico de

que? porque? pergunto. Que vida no Aquem viveu elle para que tenha

saudade tão intensa? que outros astros o alumiaram? que outras selvas

trilhou senão as do seu paiz? Meu tio deu de hombros. E o doutor, num

impeto, pondo-se de pé como inspirado, disse:

--Tenho, para mim, que Colombo conhecia a America antes de a ter

visto--conhecia-a inconscientemente, porque nella vivera a Alma que o

animava. A fé que elle tinha nos mares immensos era certeza, e essa

doce melancolia que o acabrunhava quando avistava o oceano, póde ser

que fosse um resultado de desanimo, porque era forçado a sopitar a sua

paixão aventureira, mas no fundo, penso eu, era nostalgia da terra que

era Ideal para a sua imaginação, que era verdade para a sua Alma.

Meu tio escutava boquiaberto, com ligeiros fremitos, como se o doutor

lhe estivesse revelando coisas de um mysterio absconso; arfava cançado,

como se as phrases, que jorravam copiosas num catadupejar sonoro, dos

labios facundos desse erudito moço, não lhe dessem tempo para respirar.

A cabeça approvava machinalmente e os olhos, que traduziam profundo

abalo de crenças e de convicções, abriam-se, cerravam-se, parecendo,

ás vezes, querer saltar das orbitas onde rolavam arregaladamente,

desatinados e aturdidos.

--Realmente, doutor, disse cabeceando com enthusiasmo, realmente...

e tomou a taça de punch engulindo gulosamente um sorvo. A sua

philosophia, deixe lá, tem alguma coisa de verdade. Commigo tem-se

dado o facto que citou. Ha occasiões em que parece que me recordo de

uma outra existencia.

--E ha de ter reconstituido pequenos episodios, commendador.

--Pois não... Pois não...

--E os casos de sympathia e de antipathia? bem querer a alguem que se

vê pela primeira vez, detestar uma creatura que se encontra, ao acaso

da travessia e que nos vem receber affavel e meigamente, toda bondade

e blandicias? Que é isso senão uma prova evidente e cabal de que houve

relações entre os espiritos encerrados em nosso corpo e no corpo da

pessoa que se nos depara--relações de amor e de amizade, de despeito ou

de odio, no impenetravel e nebuloso Aquem? Causas estranhas, phenomenos

do incognoscivel.

Luciano, o ironico, fartou-se de rir da doutrina de Pythagoras, mas

deixem lá... deixem lá. Sacudiu um gesto como para afugentar idéas

e disse: Mas deixemos divagações que não têm fundamento senão em

conjecturas. O Mysterio seduz, mas o Mysterio é a Sphinge. Deixemos

o caminho de Thebas, deixemos o enigma, vamos pelo terreno firme. E

tocando-me delicadamente no hombro: Voltemos ao nosso thema. Dizia eu

que possuimos elementos para vir a ser um povo artista como os gregos.

É uma verdade, posto que desmentida diariamente pela improductividade

e pela inercia esteril. Porque? porque não temos educação de ordem

alguma. Physicamente, somos um povo hybrido, sem raça discriminada,

sem antecedentes firmes; nascemos da amalgama, somos os epigonos de

Babel. Essa miseria de origem reflecte-se no organismo. Dizem que o

brasileiro é preguiçoso, languido e contemplativo. Ha quem lance esses

vicios congenitos á conta do clima, é verdade, em parte, mas esquecem

inteiramente a etiologia--que é a origem.

O sangue que circula em nossas veias é uma mistura heterogenea de

globulos que se destroem reciprocamente para que um sobrepuje e vença:

o globulo africano dá-nos o banzo; o que herdámos dos navegadores

dá-nos a actividade, a tenacidade arguta e trefega de investigação e

o egoismo, que é um euphemismo de avareza; e, finalmente, o globulo

virginal do sangue indigena. Em uns vence a saudade--é a vida do

coração, são os sentimentaes; em outros supera o germen europeu

e são os activos: homens de sciencia e de commercio, bem raros,

infelizmente; nos ultimos, a força indigena prevalece e são os bravos

e os sonhadores. Ha, entretanto, casos excepcionaes de fusão--a

luta constante dos tres globulos: são os desorientados, homens

indecisos, dubios, de existencia incerta, de vontade vária, sem

idéa firme, sem iniciativa. Sobram-nos, por desgraça, esses casos de

excepção--a maioria do nosso povo é constituida de anomalias. Não

nos nacionalisaremos emquanto o tempo não fizer a differenciação

necessaria. Além disso o clima torrido amollece, entibia, tornando

o povo languido e nostalgico. Ha, todavia, um meio de combater essa

teratologia organica--é a educação. Educação physica, o sabio artificio

de que lança mão a Humanidade para aperfeiçoar a obra natural,

enrijando os musculos, reforçando os ossos e concorrendo para vitalisar

a intelligencia, garantindo a saude e o bom humor. Educação moral,

que é a confortavel armadura do espirito que o premune e defende

contra as ciladas constantes da vida de sociedade, porquanto fornece

ao homem os conhecimentos praticos do bem e do util, creia o amor

altruista estabelecendo a unidade entre os seres--um por todos, todos

por um--formúla noções geraes sobre o destino na vida, mostrando as

relações que devem existir entre os individuos e os fins de todos para

o bem da communidade; estabelece as bases irreductiveis da familia e da

sociedade dando a mais o vasto appendice da crença, que é a caixa de

Pandora de onde a sciencia póde arrancar todos os dogmas, porque ha de

sempre ficar no fundo, immarcessivel e consoladora, a Esperança.

A educação moral, para mim, deve comprehender a educação civica--o

culto dos maiores e o respeito pelos factos da tradição que levam

o homem ao absoluto amor, o amor da Patria. Não temos. Nas escolas

desconhecem de todo essa hygiene de espirito. Educação intellectual...

O nosso povo, na sua maioria, é ignorante. Ha uma pequena parte de

selecção que lê, outra parte que ouve e outra que não lê, nem ouve: o

patricio, o plebeu e o servus, eis as tres castas. A primeira impõe,

a segunda transmitte, a terceira executa--d’ahi a inconsciencia de

todas as nossas manifestações collectivas. O povo, propriamente dito, é

uma massa rude que serve de instrumento aos privilegiados. Essa casta

superior, que podia impôr as letras e as Artes, é indifferente, porque

não se educa na patria, educa-se no estrangeiro ou nas suas doutrinas,

é lida em livros de fóra, visita museus na Europa, fala sobre exotismo

e sente e pensa atravéz do sentimento e do pensamento dos seus

educadores--são automatos do Occidente; d’ahi a impossibilidade de

dilatação litteraria e artistica.

Se se cuidasse da educação da Patria com elementos proprios,

tratando-se de formar espiritos nacionaes, genuinamente nacionaes,

dentro em breve teriamos Arte, porque o povo, ligando-se á terra pelo

espirito, sentiria necessidade de conhecer-lhe os segredos e viria

disso, talvez, a noção de patriotismo que ainda não existe entre nós.

Antes de fazer Arte tratemos de fazer povo, eis o principio. Somos

um grande coração... já alguem disse. Oh! a caridade proverbial do

brasileiro, a sua hospitalidade só comparavel á dos arabes... Somos

um grande coração, mas sem systole: recebemos a vida no que nos

transmittem, mas não transmittimos absolutamente nada. Somos um coração

sem systole, empanturrado de sangue como um odre, mas na analyse de um

coagulo das nossas arterias um sabio paciente descobriria atomos de

todo o sangue universal. Germens de todas as raças do mundo circulam

dentro em nós e é justamente por isso que não somos nada, porque não

temos identidade. Só ha um meio de tirar dessa miscellanea um povo--é

educal-o, mas educal-o na escola austera do amor da Patria de modo que

elle se converta a nacional, vivendo para sua terra, que bem merece

que por ella vivam. Alma antiga em corpo antigo, eis o brasileiro--um

povo macrobio no berço. Poz-se de pé d’um impeto e voltou-se para o

relogio:

--Como! onze horas! É estranho! Sacudiu-se todo, deu um puxão á

sobrecasaca e, accendendo novo charuto: Até amanhan, commendador...

--Já?! disse meu tio, com a voz cançada, suffocando um bocejo.

--É muito tarde. E rindo: e o senhor está a cahir de somno. Até

amanhan! Até amanhan! disse interrompendo meu tio, que ia provar que

não estava absolutamente a cahir de somno.

O criado entregou-lhe a cartola e a bengala. Levantámo-nos para

acompanhal-o. Á porta, despedindo-se, vedou-nos a passagem para que não

apanhassemos o sereno da noite e, apertando-me valentemente a mão:

--Perdoe-me e não guarde resentimentos das minhas doutrinas--são

inoffensivas. Rimos ambos e quando elle partiu ficámos a olhar e a

vel-o seguir pelo jardim calado, alvissimo do luar, girando a bengala e

cantarolando:

_La gondola nera fuggiva..._

De longe atirou-nos o ultimo adeus:

--Até amanhan...

--Boa noite, doutor! dissemos ambos. E meu tio ajuntou atravéz de um

bocejo sonoro:

--Conversa bem, mas é meio doido... é meio doido...

E, arrastando os passos, foi cahir mollemente na cadeira abbacial das

refeições e do primeiro somno.

A capital federal (impressões de um sertanejo) · 第 10 / 18 题