Não sei ao certo quanto tempo nos demorámos abancados junto do grande
espelho, ao fundo do Paschoal, bebendo grogs e ouvindo a palavra
pittoresca do Dr. Gomes, mas quando sahimos, a rua tinha outro
aspecto--via-se-lhe toda a sordidez do lagedo e, quasi deserta,
sem a densa multidão que a cobria quando a deixámos, mostrava-se
impudicamente a meus olhos esboroada e suja.
Eram outros os grupos que subiam--homens em mangas de camisa,
tisnados, arrastando, com estardalhaço, solidos tamancos; alguns
traziam, além da marmita de lata, pequenos feixes de lenha miúda.
Poucas senhoras e, correndo de um para outro lado sobraçando maços
de jornaes, meninos que apregoavam a revolução em Matto Grosso e um
assassinato barbaro. Em uma esquina era tal a profusão de flores
que o ar rescendia. Meu tio escolheu tres ramilhetes de violetas e
offereceu-nos. O doutor immediatamente cravou a unha na botoeira da
sobrecasaca florindo-se e eu, emquanto arranjava a malva sobre a
lapella, communiquei-lhe a minha impressão:
--Parece-me outra a rua do Ouvidor...
--Exactamente, fez elle; é que ella tem varios aspectos--este é
um delles, o mais interessante, talvez. Caminhámos e o doutor,
para falar com mais intimidade, tomou-me o braço. É a hora dos
operarios. As modificações desta rua accusam-se pelos seus typos;
são elles, por assim dizer, que lhe formam a physionomia e, o que é
mais notavel--a cada um dos aspectos corresponde um cheiro especial.
Olhei-o... e elle affirmou: Sim, meu amigo, um cheiro. Talvez não
tenha observado que todos os homens, como todas as coisas, têm o seu
aroma caracteristico... Pode-se perfeitamente distinguir as raças
pelo cheiro, como um conhecedor distingue facilmente, apenas pelo
olfacto, um genuino Xerez de uma falsificação. Chego a levar a minha
mania a ponto de emprestar aroma ás coisas abstractas--á côr, ao som,
ao sentimento. O branco é inodoro como a camelia; o vermelho cheira
a cravo, o azul é o heliotropo. Ha trechos na _Aida_ de uma tal
intensidade suggestiva que, ouvindo-os, não só nos remontamos á vida
sensual do Egypto pharaonico, como sentimos (note que me refiro aos
temperamentos puros, faço excepção do imbecil, que não tem o olfacto
esthetico) sentimos um fugitivo aroma de chrysanthemas. Não conheço
a chrysanthema, mas o que senti, uma vez, ouvindo a Borghi cantar _O
fresche valli..._ devia ser forçosamente o aroma da flor do Oriente. A
saudade tem o aroma da violeta, que tanto dura. A innocencia trescala
a bogari, que é o lirio do monte, o crime tresanda á mandragora, que
amedronta, atordôa e mata. Mas o povo, insisto, tem o seu cheiro
especial--_odor populi_--e a rua do Ouvidor varia de aspecto e de aroma
conforme a hora, conforme a gente. Ás quatro da manhan, com as ultimas
estrellas, descem por este esophago, que vai dar ao estomago do Rio,
que é a Praia do Peixe, grandes carroças atulhadas de verduras e de
frutas, a lenha, os ovos, o pão e, algumas vezes, não raras, rebanhos.
Uma manhan tive de refugiar-me em um vão de porta para evitar a furia
de um garrote que tresmalhara. Passam carrocinhas levando pilhas de
jornaes--é o pão da curiosidade que se vai espalhar pelo interior
socegado levando á simpleza e á ingenuidade das cidades pacatas a bilis
dos articulistas salvadores da Patria. Cheira a curraes e a hortas, a
pão quente e a artigos de fundo.
Ás seis começa a vida do mercado--bandos de cozinheiros passam
chalrando, com samburás empanturrados; cestos carregados de viveres,
carros de mão cheios de legumes--tudo quanto sacía a fome fluminense,
desde o ramo tenro de salsa até o quarto de vacca sangrento, que
vai bambo, flaccido e gottejante, á cabeça dos carregadores. Cheira
acremente a matadouro e a salsugem.
Mais tarde fede a lixo quando os grandes carroções da limpeza começam a
asseiar as casas e a sujar as ruas. Ás seis e meia atrôam os pregões
dos jornaes e apparecem as primeiras caras femininas--menagères
economicas que vêm ao mercado, costureiras a caminho das officinas e as
desgrenhadas e pallidas anemicas que vêm das aguas do mar exhaustas da
caminhada, queixando-se das ondas que lhes maceraram o corpo delicado;
passam tristes, somnolentas e molles, com uma cestinha, os cabellos
soltos espalhados por cima de uma toalha, que trazem forrando as costas
para resguardal-as da friagem perfida d’agua salgada. Ha um cheiro
estranho de maresia, de sabonete Windsor e de bocejos.
Começa a descer o commercio: caixeiros apressados, em grupos,
commentando as bambochatas da vespera, com grandes ares. O primitivo
cheiro vai desapparecendo e espalha-se um apetitoso aroma de acepipes,
um almiscar suave de molhos.
Ás dez os patrões, pesados do almoço, arrotando, empanzinados
e fartos, descem; em seguida os capitalistas e as dyspepsias
melancolicas. Vem subindo o cheiro caracteristico, o cheiro «meridies»,
como já alguem lhe chamou--mixto de fumo, de essencias e de
guarda-roupa: sedas novas e camphora.
Ao meio-dia a primeira vaga polychromica, desde a elegante impaciente,
que vem estrear um chapéu, até o mendigo que surge lentamente, com
um realejo ao peito, gemendo palavras de piedade por elle e pelos
filhos, em nome do Senhor. Começa o rumor e o cheiro mixto vai subindo.
As portas ficam entulhadas, vão-se formando grupos e o commentario
principia até gerar o primeiro boato que corre rapido augmentando
sempre, de porta em porta, de circulo em circulo, como outr’ora
passavam, nos campos gaulezes, as noticias de guerra, de trigal em
trigal, de leira em leira.
Das tres ás cinco é a desfilada--a elegancia, o espirito, o trabalho,
o vicio, a miseria: o Rio manda a sua embaixada diurna que passa
numa promiscuidade fantastica de roda concentrica de lanterna magica
baralhando-se, confundindo-se.
É nessa onda que passa lento e cabisbaixo, admirando a lealdade dos
sapatos, que vão resistindo á marcha sem destino, o bohemio dessa
familia eterna de Gringoire, com a alma cheia de sonhos, os labios
borbulhantes de rimas, relembrando enternecidamente uns olhos azues
que o fitaram na vespera, casta e santamente, mas estacando subito
para reflectir na miseravel condição da materia que não vive, como o
espirito, da contemplação do ideal, mas sordidamente, gulosamente do
bife. Ás cinco essa onda vai desapparecendo.
--E o cheiro caracteristico, doutor? interrompi curioso.
--O cheiro?... sim--alguma coisa que se pode imaginar entre estes dois
pólos: Guerlain e a Sapucaia. Só ás cinco, dizia eu, essa onda vai
desapparecendo para dar passagem ao operario que vem dos arsenaes e das
fabricas: tresanda a suor e a resina.
--A resina... porque?
--Francamente, não sei. E começou a farejar. Experimente, ha ainda um
cheiro leve. Não sente? Não quiz entristecel-o, disse que sentia.
Elle, então, continuando: Demais, a hora é das flores. Ao crepusculo a
rua do Ouvidor perfuma-se: toda a gente cheira bem. Á noite é insipida:
cheira á comida como uma casa de pasto. Á meia-noite cheira á poeira e
ás cinco recomeça.
--Hesiodo não subiu tanto no seu livro ambrosiaco, disse eu,
lisonjeando-o e mostrando que tambem possuia os meus conhecimentos e
elle sorriu vaidoso, encolhendo os hombros.
Chegaramos ao fim da rua. Escurecia. O céu, de um doce azul fino e
nitido como o das porcelanas, tinha algumas estrellas; rodavam carros
e um pelotão de soldados marchava pesadamente ao toque de uma corneta
fanha. Voltámo-nos; no outro extremo da rua, apparecia uma nesga de céu
abrasado como em chammas--uma boca de forja.
--Lindo crepusculo! E ficamos um momento contemplando. De repente o
doutor sacudiu-me:
--E o commendador?...
--É verdade! meu tio...
Rindo ambos e de braço, como antigos camaradas, subimos a rua a grandes
passos. Uma harpa gemia ao fundo de um café sombrio.
--O café e a musica, as duas forças vitaes deste paiz, disse o doutor
com ironia. E curvámo-nos para marchar á cata de meu tio. Em menos
de cinco minutos de marcha esbaforida chegámos ao Largo. A estatua
do patriota, á luz mortiça do crepusculo, resplandecia com uns tons
vivos de ouro polido. Havia um ajuntamento em volta de uma bandeirola
vermelha; aproximámo-nos. Um homem barbado, de blusa, com uma casquete
de lontra, apregoava panacéas exaltando as excellencias de um sabonete
maravilhoso contra nodoas e tomando em dois dedos um pacotinho berrava:
que até as manchas da reputação desappareciam com algumas fricções do
invento mais notavel do seculo.
Grave e religiosamente soou na alta torre o primeiro dobre vesperal
da Ave Maria. Algumas cabeças descobriram-se e o homem abaixou a
voz. Houve um doce silencio mystico, rapido como um voto d’alma em
desespero e casto como uma oração. Pequenos, de mãos ás costas, pernas
abertas, levantavam os olhos para a torre onde o grande sino emborcava
lentamente, de espaço a espaço, soturno. De longe, na aragem da tarde,
vinham toques militares, finos, estridentes, com uma vaga saudade,
fazendo pensar em acampamentos guerreiros, á hora santa do baixar
da noite, congregando para a reza todos os regimentos exhaustos das
batalhas. O doutor, que sahira do grupo limpando o rosto, falou-me:
--Não sei se deva attribuir ao meu temperamento ou se a um resto de
crença que guardo na alma, esse estranho sentimento de religião que
em mim despertam os sinos. Não ouço sem commoção o toque da tarde:
Parece-me sempre que é uma voz antiga que vem do fim dos seculos
atravéz dos espaços evangelisar na terra. A igreja quiz conservar o
diapasão da palavra tremenda dos prophetas e creou o sino, que é, ao
mesmo tempo, meigo e terrivel, consolador e implacavel. Agora, por
exemplo, nesta meiga tranquillidade, este sino a soar não é bem uma
oração do templo pela humanidade, em doces threnos sonoros que vão
ondulando, ondulando, de lar em lar, de nuvem em nuvem a todas as almas
e a Deus...? Não é uma doce elegia sobre a morte da luz? A mim, e
desconto todo o meu romantismo, parece sempre que as estrellas esperam
a voz da atalaia santa para sahir. Ha muezzin em minarete que valha
um sino em campanario? Deixe lá falar, a nossa religião é divinamente
poetica, divinamente humana, porque é a que mais se dirige ao coração.
O _Dies irae..._ ah! _O Dies irae..._ o dobre a finados... _o tocsin_
de alvoroto, o rebate em tempo de calamidade... É divino sinceramente,
é divino!... Para as bocas de pedra das cathedraes só mesmo essas
poderosas linguas de bronze.
Outro dobre cahiu e o echo foi rolando demoradamente.
--Conhece o _La bàs_ de Huysmans?
--Não, doutor.
--Deve ler. É um livro interessantissimo. Livro de nevrotico, obra
de enfermo, mas de excellente factura, arte magnifica. Ha lá umas
doutrinas admiraveis sobre o sino, pregadas em um cubiculo, no
alto da torre de Saint-Sulpice, pelo sineiro Carhaix, um catholico
intelligente, profundamente versado em doutrinario antigo, de uma
erudição de velharias que pasma. Esse homem obscuro reserva em um canto
da sua lura volumes preciosos sobre a arte difficilima de tanger os
sinos: «De Tintinabulis» «Essai sur le symbolisme de la cloche» e prova
irrefutavelmente que é necessario, não sómente um perfeito conhecimento
da arte, como muita alma para que se consiga tirar do metal sons
symbolicos, se assim ouso exprimir-me:--para as cerimonias gloriosas
do rito, para as duas horas extremas da luz, para o gloria meridiano,
para os que nascem, para os que morrem, porque, infelizmente, o
sentimento artistico vai desapparecendo--a democracia reduziu tudo a
comesinho, a vulgar. Não ha muito, ouvimos no fundo de um café uma
triste harpa gemendo sambas. Creia que me faz pena, são como pedaços
de puro classicismo espesinhados pela multidão ignara. A harpa que
David tangia! a harpa que foi o kinnor levitico; a harpa que vem
embalando por essas idades remotas os sentimentos e as paixões, desde
a ira de Saul até ás tristezas de Ossian, é isto hoje: um chamariz de
bodega, que os dedos grossos de um maltrapilho ferem, não docemente,
não enamoradamente, com os olhos no céu como Wolfram, mas abjecta e
indignamente com um pires ao lado, pensando na colheita e indifferente
á corda que estala, ao compasso que se precipita!
Dá-se o mesmo com os sinos. Não ha mais sineiros... isso foi para
o tempo das cathedraes, quando o _Dies irae_ era cantado por
populações de crentes. Isso foi para o tempo em que se ia á Roma
pedir misericordia cantando por todo o caminho louvores ao Deus
Vivo, acordando aldeias ao som dos gloriosos choraes santissimos.
Isso foi para o tempo em que se acreditava em Deus; hoje não... não
ha mais nada--a civilisação vai estabelecendo mecanismo para tudo
e a philosophia abafa com uma analyse o que era mysterio, pondo um
principio onde havia um dogma, pondo a razão a patrulhar o sentimento
para que não aconteça perder-se de novo a humanidade em extases.
Para que sineiros, se temos o carrilhão, que é o piano das torres? Hoje
os poucos sineiros que restam são bimbalhadores, moleques apanhados no
meio da rua e içados ao campanario por cinco tostões para soar a aria
pastoral de reunir ovelhas. Ahi tem o amigo o que nos resta. Eu ainda
hei de ver o orgão em saráus, e é justo, porque as bandas militares
já invadiram os córos ecclesiasticos. Não temos mais nada, mais nada.
A civilisação vai extinguindo tudo. Espero ler ainda nos jornaes que
um sujeito qualquer pediu privilegio para illuminar as igrejas a luz
electrica ou para fazer santos mecanicos: um Christo que diga do
alto da cruz, deixando pender a cabeça meiga: _Consummatum est!_ e
em verdade estará tudo consummado. Estacou e olhando em frente disse
sorrindo:
--Olhe, ahi vem o commendador.
Era meu tio, com effeito, que vinha dando com os braços e a sacudir a
cabeça.
--Onde se metteram vocês?
--Na rua do Ouvidor, commendador, á sua procura.
--Á minha procura!... É boa!
--Á sua procura, meu tio, affirmei.
--Então foi de tanto procurar que não nos achámos. E, sem mais dizer,
foi impellindo o doutor para a victoria:
--Vamos, vamos...
--Mas, commendador...
--Perdão... Hoje temos que conversar. Entrámos. Sentei-me num banquinho
baixo em frente aos dois. Edgar fez estalar o chicote e partimos.
Começavam a acender os lampiões das ruas.