Fomos descendo com vagar por entre a turba, ora collando-nos ás
paredes, ora desviando-nos para o meio da rua para dar passagem ao
feminino. Meu tio, apezar da sua corpulencia anafada, esgueirava-se
sorrateiro e agil, sem perder a linha correcta que lhe dava o ar
distincto de um diplomata em férias. Eu, porém, atordoado e zonzo,
parava de instante a instante, evitando os esbarros e as collisões.
Uma rotunda senhora, de roxo, o rosto placido e sumarento, côr de
goiaba madura, olhos fundos, de um brilho fulvo e máu, estacou diante
de mim, ameaçadora e terrivel, inchando as bochechas molles, suffocada
de ira. Precipitei-me para lhe dar caminho, mas com tal desazo, que nos
encontrámos, frente a frente, numa umbigada tremenda. Foi horrivel!
O vexame tirou-me de todo a calma. Dei um salto para a esquerda e
encontrei a senhora, fugi para a direita, e ella... Assim estivemos
um bom par de segundos num balancé ridiculo, até que fui repellido
para o meio da rua, exhausto e com o chapéu na mão. E a senhora passou
como uma avalanche, resmungando coisas atrozes contra mim. Ó divino De
Maistre, queria que visses esse exemplar nedio e colerico do teu «bello
animal», queria que o tivesses um minuto diante dos olhos para que me
dissesses depois em que casta dos belluinos o classificarias.
Livre, respirei um momento, enxugando o suor que rolava copiosamente
pelo meu rosto e, ancioso, perdido, alonguei os olhos procurando meu
tio.
A multidão... a multidão... a promiscuidade terrivel... todas as
variadas escamas desse camaleão--o povo (como disse uma vez em discurso
o verboso promotor Gusmão, referindo-se ás mutabilidades da opinião
popular, á versatibilidade da alma collectiva)... tonteava-me e meu
tio, a preciosa escama celibataria e farta, sumida, longe da minha
vista... Dei alguns passos attonito, desvairado, julgando-me perdido no
oceano tumultuoso da populaça que me aturdia: os homens, com os seus
cotovellos, as mulheres, com os seus olhos, com os seus cabellos, com
o aroma que deixavam ficar no ambiente, como um pollen invisivel para
fecundar o amor. Por fim, reconheci a voz de meu tio:
--Ó Anselmo!
Voltei-me ancioso e descobri-o á porta de uma casa, acenando-me.
Corri pressuroso e, mal nos encontrámos, desabafei: Que rua, meu tio!
Que garganta! Que inferno!
Elle sorriu, sacudindo com um piparote alguma coisa que trouxera da
multidão na golla do casaco, e, naturalmente, puxando-me pelo braço,
collocou-me junto de umas caixas de biscoutos, ao lado de prateleiras
carregadas de puddings e de frascos bojudos de geléas inglezas.
--Vamos ficar por aqui. Não ha mesa por emquanto. Lancei um olhar
de exame á casa. Era uma sala vasta, dividida ao meio por uma linha
resplandecente de columnas, de quatro faces, forradas de espelhos. O
fundo era um grande espelho corrido do solo á linha branca do estuque,
reflectindo, aprofundando o interior, rumoroso e cheio. As paredes,
de alto a baixo, carregadas de garrafas; por dentro de um balcão
de marmore e nickel, dois homens, em mangas de camisa, sacolejavam
cocktails; ao centro, uma comprida mesa de serviço. A outra parte
da sala era reservada á pastelaria e aos confeitos. Pelas vitrinas,
frascos de compotas, latas de conservas; sobre o balcão pratos de
fios d’ovos, bolos, tortas; nos mostradores semi-abertos alfenins e
doces miudos, loiros: de creme; escuros: de chocolate, polvilhados de
amendoas; pastilhas em bocaes enormes.
As portas estavam entulhadas de queijos, de salames e de linguiças
e nos armarios de exposição os finos bombons em caixas artisticas,
ornadas de chromos e polichinellos empanturrados de amendoas, sacolas e
outras coisas de formas extravagantes--tartarugas, caixas de phosphoros
e um Bismarck pançudo com o nome _Boissier_ no retrospectivo lugar das
palmadas na infancia, dos pontapés na virilidade.
Um grande aquecedor de empadas, rodeado de homens que mastigavam
gulosamente. Do tecto, presas por fios negros, pendiam lampadas
electricas.
Não havia uma mesa--todas cheias. Grupos de rapazes, os cotovellos
fincados no marmore negro, gesticulando, falando alto, riam espremendo
siphons. Senhoras cerimoniosas, com o véu levemente arregaçado,
chuchurreavam sorvetes. Em uma mesa um rapaz loiro, imberbe, inclinado
para o companheiro, pallido, de pince-nez, lia baixinho umas tiras
de papel, levantando o braço direito em gestos supremos, todo
arregaçado--o companheiro tinha os olhos perdidos no fundo do copo.
Caixeiros azafamados passavam com bandejas carregadas, abriam garrafas,
serviam pratos. Havia um rumor confuso e, de quando em quando, um
berro: cognac! um nome: Barroso! e estouros de garrafas desarrolhadas,
estrepito de louça, tinir de talheres...
Meu tio, que se voltara, disse-me confidencialmente:
--Tens aqui o Paschoal!
--É soberbo...!
--É chic.
De repente abandonou-me e foi-se precipitadamente, de esguelha.
--Com licença! Com licença! para a direita, para esquerda, porque era
preciso incommodar os que faziam pacatamente a sua hora de lunch ou de
vermouth, para dar passagem ao seu prodigioso ventre; e foi seguindo
até o fundo da casa, junto ao grande espelho.
--Temos aqui uma! Temos aqui uma! disse, chamando-me. Já havia tomado
duas cadeiras quando um sujeito magro, de cavaignac, avançou com um
petiz ao collo, babujado de creme. Falou com a boca cheia: «Se lhe
podia ceder uma cadeira?» Mas meu tio, com um sorriso, voltou-se,
designando-me ao do cavaignac, como se lhe quizesse significar: «Bem vê
que não é possivel, tenho aqui meu sobrinho.»
O homem agradeceu e foi-se com o petiz que chalrava, pedindo coisas,
com os braços estendidos. Sentámo-nos. Uf!
--Uma estafa, hein, Anselmo?
--Uma estafa, meu tio!
--É sempre assim. E a um caixeiro que passava com uma bandeja de
sorvetes:
--Ó Barros...
--Volto já, senhor commendador. Volto já. Foi-se, equilibrando os copos
e meu tio, descançando o chapéu numa vara de metal que corria ao longo
do espelho, bufou esbaforido:
--Está quente!...
--Um forno!
--Amigo commendador, disseram, e eu, pelo espelho, avistei um rapagão
de fartos bigodes loiros, pince-nez, sobrecasaca e calça clara, que
arriava a cartola cumprimentando meu tio. Falava a umas senhoras dando
palmadinhas de carinho nas bochechas de um pimpolho, que amuava ao
collo de uma negra retinta, com uma touca de seda, donde pendiam até os
pés duas largas fitas cinzentas. Meu tio correspondeu com affabilidade
offerecendo-lhe a mesa, onde, até então, sómente havia as nossas
bengalas cruzadas. Elle espalmou a mão--que esperasse.
--Quem é, meu tio?
--O Dr. Gomes de Almeida, advogado. Moço de talento e rico.
--Bello rapaz.
--Boa prosa. Has de ouvil-o. Voltei-me, porque meu tio afastara a
cadeira e já estava de pé. O Dr. Gomes, radiante e de braços abertos,
apertou-o com intimidade.
--Meu sobrinho Anselmo... O Dr. Gomes de Almeida, meu amigo, apresentou
meu tio. Trocamos um aperto de mão e sentámo-nos. O caixeiro, que
voltava, inclinou-se passando pelo marmore uma toalha felpuda:
--Que ha de ser, Sr. commendador?
--Tres grogs.
--Não, não, acudiu o doutor--para mim, um cocktail. É a minha hora e em
questão de habitos não transijo.
--Dois grogs e um cocktail, repetiu o caixeiro, deixando sobre a
mesa um cartão minusculo. Meu tio, dirigindo-se ao doutor, disse
indicando-me:
--É a primeira vez que vem ao Rio.
--A primeira vez! exclamou elle, cravando em mim os olhos claros.
--Estive aqui em janeiro de 72, cinco dias apenas, em um hotel.
Grassava a febre amarella e meu pai, que viera para matricular-me em um
collegio, ao fim de tres dias, resolveu abalar, aterrado, preferindo
conservar-me ignorante, mas vivo, a seu lado, para governo das suas
terras. Fugimos, e justamente no dia da nossa partida, no quarto
proximo ao que habitaramos, faleceu um jovem americano electricista,
que viera ao Rio por conta de um syndicato, tratar de uma empreza de
campainhas. O correspondente, que nos escreveu, felicitando-nos pela
retirada prudente, falou do pobre forasteiro dizendo que na agonia
entrara a declamar em inglez umas coisas gementes, que mais tarde
soube, pelo Dr. Azambuja, serem versos de Longfellow. Esse americano
agonisando solitario entre os tabiques de um quarto de hotel, revendo
na agonia as paisagens da _Evangelina_, nostalgico na suprema angustia,
nunca mais me deixou o espirito. Apezar de o ter visto apenas uma
vez, á mesa, não esqueci os traços femininos do seu rosto, de uma tez
dourada e rosea, macia e branca como a de uma mulher. E tomei em tal
horror o Rio que, apezar das reiteradas instancias de meu tio, fui-me
deixando ficar entre as minhas arvores, onde não chega a peste.
--E ainda receia? inquiriu o doutor, sorrindo.
--Não tanto, mas na multidão parece-me ver passar, de vez em vez,
o americano pallido, desvairado e hirto. Para mim essa visão de
allucinado é como um presagio de peste e, sempre que me falam de alguma
victima do terrivel mal, vejo immediatamente levantar-se diante dos
meus olhos o desgraçado moço recitando:
In the Acadian land...
--É extravagante, disse o doutor. É um bello caso de
impressionabilidade.
O caixeiro fez deslisar pela mesa uma bandeja carregada de copos.
--Dois grogs e um cocktail...
O doutor sorveu um trago e, depois de chupar os bigodes, perguntou com
interesse:
--E como tem achado a cidade?
--Pouco tenho visto: cheguei hontem... Mas meu tio interrompeu com uma
expressão concludente:
--Não gosta. Sonhara coisa melhor.
--É geralmente o que succede. Deu-se commigo o mesmo facto, disse o
doutor. E voltando-se para mim: Imaginava o Rio uma cidade artistica,
monumental e nobre, com abundancia de marmores, avenidas, longos
passeios abrigados sob toldos, palacios de estylo e o fausto classico.
A cruzarem-se pelas ruas carros, cavalleiros; o luxo incomparavel do
sonho, a sumptuosidade da fantasia, o espirito, a elegancia, a belleza,
e encontrou uma cidade vulgar, sem nada absolutamente do que lhe
emprestara a sua imaginação, não é exacto? Sorri, mexendo lentamente o
meu grog.
--Commigo succedeu exactamente a mesma coisa. Quando daqui parti, em
80, para ter o prazer de pisar o solo trilhado pela humanidade nas
suas marchas atravéz do tempo, desde a éra aryana até o periodo em
que se moveram da terra de França, para as campanhas ambiciosas, as
legiões que seguiam a aguia altiva de Napoleão, fui perdendo illusões a
pouco e pouco. Era já com tristeza que descia a escada do navio quando
chegavamos a algum porto, porque levava de antemão a intima certeza de
que ia ver aluir-se um dos meus sonhos--e era fatal.
Paris, por exemplo--é um assombro, incontestavelmente... um assombro!
Infelizmente, porém, o Paris que eu imaginara era o antigo, que eu
vira descripto nos primeiros romances que me entretiveram as horas de
mocidade--Paris dos duellos, Paris dos lansquenets, Paris das tascas
romanticas, Paris das vielas escusas, onde, á noite, á luz fumarenta
das lanternas, tiniam as finas e flexiveis espadas dos pagens rebatendo
a _rapière_ dos burguezes, Paris de Ponson, Paris de Dumas... É
ridiculo, não é? mas infelizmente é um facto geral.
Essas impressões das primeiras leituras que nos ensinaram a devaneiar,
que nos tomaram pela mão para nos mostrar a estrada azul da fantasia,
não esmorecem facilmente. É debalde que procuramos suffocar esse
residuo de infancia ou de imbecilidade que fica em nossa alma, lendo
solidas e doutas philosophias, espanando os preconceitos com o vasculho
da critica e da analyse, destruindo, com as verdades da historia, as
fabulas que adquirimos na novella e no conto. Esse sedimento subsiste
como germen abafado de onde, longe em longe, espontaneo e violento,
rebenta um broto de sentimentalismo.
A verdade é que nós temos duas divisões--a do mundo real e a do mundo
imaginario, e esta é a primeira que buscamos. É atravéz della que a
Poesia entrevê o céu, ella é que torna o mundo possivel, variando
constantemente a sua face. Porque é que os astros são eternamente
bellos? É porque nós os olhamos com um pouco de imaginação. O
Oriente, por exemplo... que decepção, meu amigo! Quando desembarquei
em Beyrouth, que é, por assim dizer, a porta da Syria, senti tal
aperto d’alma que a minha vontade foi voltar para a cabine, a bordo
do paquete, que ainda se balouçava no porto. Tudo quanto eu julgara
encontrar nessa terra ancestral estava entulhado pela civilisação,
aluido pelo progresso: A industria fincara os obeliscos das chaminés,
que fumegavam como em Londres, como em Bruxellas, como em Amsterdão, a
patria da genebra e dos organistas. O beduino, em vez de traçar, como
nos tempos historicos, o albornoz listrado, encolhia-se sentado a um
canto, fumando um cachimbo Cambier, raspando com as unhas as pernas
magras, vestido com um paletó côr de cinza, de golla de velludo. O
degenerado que me deu cêrco pedindo solicitamente o guarda-sol e o
binoculo vinha assim vestido. É verdade que encontrei um filho do
deserto, authentico, mas apezar do seu trajo pittoresco de scheik,
apezar do yatagan e do cinto vermelho, ruminava um francez duro,
offerecendo umas pedrinhas claras de uma fonte milagrosa citada pelo
Propheta.
A Palestina... uma miseria! Mas o que jámais esquecerei é o que lhe
vou dizer seccamente, em quatro palavras. Quer saber o que encontrei
no alto do Calvario, justamente no sitio santo em que foi crucificado
o Christo? Inclinou-se todo para mim olhando-me, fixando-me como se
quizesse magnetisar-me, por fim disse com um gesto, sacudindo o punho
e deixando cahir palavra por palavra com força e furia:--um grande
mastro com um cartaz annunciando um leilão de jumentos... Um leilão de
jumentos, é exacto! E virou de um trago o cocktail.
Que quer? os homens entendem que podem encerrar todas as tradições
das raças nas vitrinas dos museus, já dispensam os sitios santos da
religião, porque a Luz é a sciencia. Deus começa a ser analysado como o
_bacillo-virgula_.
Meu tio, que se sentia ferido nos seus melindres religiosos, inquiriu
com uma ponta de incredulidade:
--Mas, doutor, era mesmo um leilão de jumentos? Talvez fossem
reliquias...
--De jumentos, vi-os eu no Calvario. Jumentos! E arreganhando os
dedos: Quatro patas, commendador. Quatro patas e orelhas! affirmou.
--Cães! rusgou meu tio mostrando o copo ao caixeiro para que lhe
servisse outro grog.
--Não se incommode, commendador, não se incommode, acudiu
tranquillamente o doutor apaziguando a furia de zelo do meu beato
parente. A religião ha de vencer, apezar de todas as guerras que
contra ella movem obstinadamente os pseudo-reformadores. Isso, longe
de destruir a crença, augmenta-lhe o prestigio. Que era a cruz antes
do martyrio do Homem? um vilissimo instrumento de supplicio e é
hoje um symbolo de misericordia, é a ancora com que nos prendemos á
Esperança. O azorrague, a corôa de espinhos, o sceptro de canna, a
tunica de byssus, tudo quanto foi para Jesus opprobrio, é hoje objecto
de respeito e de veneração. Esse mesmo poste, alçado como um ludibrio,
no santissimo lugar, acabou commovendo-me e não dobrei os joelhos
devotamente, creia o senhor, não ajoelhei, repito, de vergonha, porque
andavam por ali umas mulheres que não tiravam os olhos de mim.
--Ajoelhar-se diante do poste dos jumentos, doutor!
--Pois não, commendador, diante do poste porque elle estava fincado no
Calvario, que é a montanha por excellencia, santificada pelas gottas do
sangue do Cordeiro. O que eu ali via não era um poste de annuncio, era
um mastro espetado no lugar em que estivera a cruz. Ali devia tremular
a bandeira branca da Paz Universal. Tinha um annuncio, isso, porém, não
era bastante para desmerecer o sitio aos olhos de um verdadeiro crente.
O maldito reclamo, inventado pela ambição yankee, é que tem polluido os
legados preciosos dos seculos.
Em Epheso, por exemplo, nas soberbas ruinas do templo de Diana onde,
á noite, ao luar triste, a gente julga ouvir os latidos da matilha
feroz e os gritos das nymphas perseguindo o misero e formoso Endymião,
num fuste de esplendido marmore, entre folhas de acantho, avistei uma
inscripção em letras negras--corri a decifrar e era um annuncio de
capsulas de sandalo.
O commercio affixa em toda parte, escolhendo, de preferencia, os
lugares celebres... O Passado vai desapparecendo sob cartazes de côres.
Não ha mais antiguidades, não ha mais tradições, o que hoje ha é uma
avidez sordida de dinheiro.
É preciso andar para conhecer-se o caracter do homem. Vende-se tudo
nos mercados do mundo: innocencias impuberes e aguas mysteriosas que
fazem voltar a mocidade, consciencias e homens. Em caminho encontrei
de tudo, comprei de tudo para humilhar o semelhante. Em uma aldeia
de Constantinopla, perto de um cemiterio todo em flor, ajustei, por
uma bagatela, uma formosa rapariga que me agradeceu, cantando uma
ballada turca, emquanto eu contava as moedas; em Smyrna abalou com um
caixeiro que negociava em pannos, deixando-me, como lembrança, uma
lata de contas e uma rosa de Jerichó! Tenho em casa, no meu gabinete
de trabalho, reliquias preciosas compradas por ahi além, desde o monte
Athos, onde subi para avistar o celebre convento d’Aghios-Dionysios,
até Paris: o dedo com que S. Thomé tocou a ferida aberta no peito
de Jesus pela lança de Longuinhos, um pouco da palha mastigada pelo
burrico que carregou a Virgem para o Egypto, uma madeixa de João
Baptista, o ciborio de cophen com que polia as unhas Maria de Magdala,
um prego da cruz, uma prova da legenda que foi pregada no tope
do aviltante madeiro e um dos suspiros do Bom Ladrão; e reliquias
profanas--a clava com que Atila aterrou o Occidente, o tinteiro onde
Carlos Magno molhava a penna para escrever os Capitulares, os oculos de
Milton e os famosos sapatos com que o Alighieri andou pelas calçadas
do inferno. Guardo tudo como recordação dos lugares que visitei para
provar a vileza da alma do homem venal e torpe.
--Outro cocktail, doutor, offereceu meu tio.
--Não, obrigado, commendador; basta. E voltou-se de novo para mim
offerecendo-me cigarros turcos:
Depois que vi o mundo estou convencido de que o Rio de Janeiro é
uma bella cidade. E o meu amigo, dentro em pouco, ha de concordar
commigo. Não é tão máu como parece. Demais, para um moço como o senhor,
intelligente e forte, ha sempre uma aventura á espreita. Descahiu um
pouco para o meu lado e disse-me, em tom mysterioso, apinhando os dedos
nos labios para colher um beijo: O Rio tem mulheres esplendidas! e
atirou o beijo com um estalinho. Ainda não as viu, garanto...?
--Pois não. Passou por nós uma loura lindissima!
--Uma...! Mas o Rio tem milhares, meu amigo. É preciso vel-as,
conviver com ellas no meio em que vivem. Não é na rua do Ouvidor,
creia: é nos salões, nos boudoirs... nos boudoirs...! Ah! as mulheres,
as mulheres...! foram a minha perdição em viagem. Antes de ver os
edificios, as bellezas naturaes e artisticas de um paiz, tratava de ver
as mulheres e estou convencido de que é a mais bella coisa da Creação.
--Primeiro as hespanholas! aventurou meu tio com os olhos brilhantes
de volupia, recostando-se no varão de metal que corria ao longo do
espelho.
--Não sei, commendador, não sei. Olhe que as inglezas são
lindissimas...!
Meu tio fez um momo.
--Espere, commendador, eu tambem pensava assim; mas em Londres
convenci-me do contrario. Lembro-me sempre de uma noite em que se
cantou o _Ruy-Blas_, no Covent-Garden... Commendador, não se descreve,
creia, não se descreve. Imagine o senhor uma assembléa de estatuas,
qual mais formosa, alvas de fascinarem, immoveis, numa attitude
hieratica, com grandes aureolas feitas dos proprios cabellos louros. E
os olhos azues, commendador, os olhos azues das miss! quem os cantará
como elles merecem! A impressão que tive em presença dessas donzellas
da antiga nobreza foi a que teria um pobre civilisado de hoje vendo
subitamente abrir-se o céu pagão e apparecerem todas as deusas, todas
as graças num zodiaco como aquelle hemicyclo de camarotes do theatro
inglez. Que sei eu, commendador... Não havia uma mulher feia! Nem uma!
E espetou o dedo com convicção.
--Mas não têm vida, tornou meu tio, cruzando as pernas. São umas
estatuas, como disse o doutor... E depois--que andar!
--Engana-se ainda, commendador. Decididamente o senhor precisa sahir do
Rio. Londres é a patria das mulheres, convença-se, commendador. Não ha
louras como em Londres.
--Não gosto de louras.
--Ah! então italianas: as morenas de olhos abrasados. Ha bellissimas
mulheres em Roma, em Florença, em Veneza... A Zanelli... Meu tio piscou
um olho discretamente; eu, porém, surpreendi-lhe a mimica no espelho
fronteiro. O doutor calou-se um momento e logo continuou: Em Roma...
--Cá para mim não ha como a hespanhola. É a mulher que me agrada. Quem
é que traz com mais graça a mantilha do que uma andaluza? Quem agita
com mais arte um leque? E depois... é outra coisa! Cá para mim não ha
como a hespanhola, insistiu.
--Quer saber onde encontrei bellissimos typos femininos? Na Russia. É
exacto, lindas mulheres.
--E as turcas, doutor?
Fez um momo e balançou a cabeça negativamente:
--Não gosto...
Um caixeiro aproximou-se e disse-lhe alguma coisa em segredo. Voltou-se
de golpe e, apanhando a bengala: Com licença: vou ali á porta ouvir um
amigo. Volto já.
--Pois não, doutor.
Levantou-se e partiu com os dedos na aba da cartola, a sorrir.
--Que tal, Anselmo?
--Intelligente. Lembra-me o padre Coriolano que, por haver decorado o
livro de Ruth, repete, sem omissão de uma virgula, todos os periodos do
idyllio. O doutor, falando, não deixa no espirito a impressão de uma
palestra, mas de uma leitura: tem paginas magnificas. Mas, francamente,
parece-me exagerado.
--Mentiroso, mentiroso é que é... E carrancudo: Ha lá quem acredite na
tal historia dos jumentos? Leilão de jumentos no Calvario... Ora bolas!
Mas recahindo em tom brando e resignado: Dahi, quem sabe! do modo
por que vão as coisas tudo é possivel. E com ar triste e tedio: Que
miseria! Até a religião! e engoliu um sorvo.
Pelo espelho eu seguia todos os movimentos do doutor, que falava a um
rapazola pallido, de olhos miudos talhados á chineza, bigode fino, uma
singular physionomia de mascara de seda com uns toques de imbecilidade.
O assumpto devia ser grave porque, de vez em vez, a fronte do doutor
franzia-se e a sua cabeça douta pendia para o peito, scismadora
e apprehensiva. O rapazola, com gestinhos femininos, enfeixando
os dedos, fazendo beiços, dedilhando no ar, pronunciava baixinho,
precipitadamente, puxando, de vez em quando, o doutor para soprar-lhe
um segredo ou recuando de braços cruzados, a cabeça á banda, mudo e
fito.
Por fim o doutor irrompeu com uma bolachinha entre os dedos, exaltado,
frenetico, agitando o braço com violencia e furia; os labios
tremiam-lhe, os olhos chispavam e o seu bigode fulvo estava arrepiado
de colera.
Encolheu-se e, de improviso, atirando a bolachinha á rua, impoz
gravemente a mão direita sobre o hombro do interlocutor e, meneando
com a cabeça, disse alguma coisa de responsabilidade porque o outro
tomou uma attitude cheia de mysterio para ouvir, mas subitamente,
descahindo, prorompeu em rinchavelhada estridente sacudindo-se.
O doutor recuou um passo sorrindo e cofiando o bigode que amaciara.
Como o pallido estendesse a mão, o doutor disse-lhe alguma coisa em tom
intimo, elle esticou-se um pouco e espiou-nos com ar curioso, mas fez
uma careta de desgosto calcando o ventre, alongando o beiço. O doutor
sacudiu-lhe a mão num shakehand, disse-lhe uma phrase que elle acolheu
com outra rinchavelhada e partiu. O doutor voltou immediatamente com um
resto de sorriso e, sentando-se, disse para meu tio, em confidencia:
--Revolução em Matto-Grosso, commendador.
--Como! Ainda? exclamou meu tio saltando.
--É exacto, disse-me agora o Lyrio.
--Aquelle rapaz?...
--Sim, trabalha num jornal, é o debulhador dos crimes. Viu um
telegramma.
--Isto é o diabo! exclamou meu tio espalmando as mãos nas coxas e
derreando o busto.
--Qual, commendador: revoluções inoffensivas. Nós somos um povo
bem fadado... todas as nossas revoluções são incruentas. Somos
sufficientemente anemicos e é talvez por isso que nos vamos arranjando
a secco. O sangue só escorre no noticiario, a carnificina só existe
na local. Temos dado ao mundo o exemplo mais perfeito da harmonia
dos poderes--as nossas lutas intestinas são uma blague de bom humor
para alimento do artigo de fundo. Toda a nossa evolução social tem
sido feita, não á custa de sangue, mas á custa de foguetes. Para
dar-se ganho de causa a uma ideia basta collocal-a sob a protecção de
uma banda de musica. Só ha dois factores de revolução no Brasil--a
chirinola e o foguete de lagrimas. A semente da arvore genealogica da
brava gente, commendador, é D. Quixote... A sciencia ha de confirmar
mais tarde o que lhe digo hoje em palestra: nós descendemos em linha
directa do heróe manchego. Até na mania das concessões temos o traço
indelevel da alma do cavalleiro errante que promettia a Barataria
quando Sancho, desalentado e moído, pedia para voltar á sua tranquilla
aldeia. Não creia em revoluções, commendador, são moinhos de vento...
moinhos de vento e nada mais.
--Creio bem, creio bem, mas não é pela revolução de Matto-Grosso. Que
tenho eu com Matto-Grosso, não me dirá?
--Nada.
--Nada, certamente, não tenho nada; o que me preoccupa é outra coisa.
Não imagina como essas historias fazem mal á praça. Basta o telegramma
de uma aldeia qualquer, historia de um caudilho que se poz á frente
de um lote de homens, para que o commercio soffra. E escancarando os
braços: Senhor, correu um dia destes que iam depôr a intendencia de
Maxambomba, pois não lhe digo nada: os titulos cahiram. Eu sei bem
que o sangue de Abel, de que falam os jornalistas, é uma figura de
rhetorica.
--Simples figura de rhetorica e já estafada e innocua, accrescentou o
doutor.
--Mas os papeis soffrem, soffre o commercio, soffre o povo. E
indignado, fechando o punho: Que diabo, dêem cabo de tudo, rebentem,
estourem, mas não compromettam o credito do paiz! Isto é que é
patriotismo. Agora estar a gente todo o dia a ouvir: revolução aqui,
e cahiu para a direita; revolução ali, e cahiu para a esquerda;
governador deposto, e apontou o tecto, revolta nos quarteis, fez um
gyro-gyro com ambas as mãos fechadas. É horroroso... é uma vergonha!
Uma voz estrugiu em plena sala stentorosa e indignada.
«Vá ao _Paiz_... Vá ao _Paiz_, lá está o boletim...» Era um homemzarrão
barbado, intonsamente barbado, uma cara terrivel de propheta,
embrulhado numa sobrecasaca enorme, rapada e lustrosa, com um grande
chapéu molle no alto da cabeça calva, côr de marfim antigo.
O doutor encolheu-se e murmurou:
--Fujamos, commendador, antes que o Braz nos venha falar da podridão
moral. Baixámos a cabeça e meu tio fez um aceno ao caixeiro que nos
servira e fomos sahindo sorrateiramente para que não nos visse o homem.
Já haviamos chegado á porta, quando elle berrou indignado, caminhando
para a mesa que deixáramos:
--Menino, dá cá um cognac!
Á porta, em um grupo, um rapaz moreno, de pince-nez, discutia assomado,
aos pinchos para a direita e para a esquerda, avançando e encolhendo os
braços num recúo athletico, a cabeça enterrada nos hombros ou espichado
nas pontas dos pés, olhando por cima das lentes, com rugidos surdos.
Segurando a bengala pelo meio sacudiu-a e, num salto de acrobata, rugiu
numa voz espremida, descrevendo rapidamente um circulo no soalho:
--É o zodiaco do amor, é a escala chromatica do affecto, mas não se
aproximem! ululou, encolhido, com os olhos chammejantes,--não se
aproximem, porque a pomba, muitas vezes, fere como as aguias bravas. E
calmo, calcando sobre a mola do pince-nez: É um mulherão!