IV

Lembra-me ter visto em um livro erudito este conceito:--«A embriaguez

é a poesia da vida digestiva» e, se ainda me é fiel a memoria, o sabio

que assim se exprime é Letourneau. Penso que tem razão o philosopho,

porque Simão Carreira, que cultiva, com tanto esmero, a Arte divina

de Apollo, não despreza as garrafas e os seus melhores heroicos, os

versos intrepidos do seu poema _Os Pincaros da Mantiqueira_ foram

escriptos emquanto durou um quinto de Cartaxo com que o brindou o

padre Coriolano. Eu, porém, de imaginação escassa e tão perro para a

cadencia, soffri profundamente os effeitos da poesia estonteante, que

me poz no espirito uma nuvem densa e na lingua uma saburra espessa.

Confesso que senti o pudor subir-me ás faces quando dei com o ar sisudo

e grave do criado, que me apresentava cerimoniosamente um taboleiro

de xarão. Puxei o lençol até o queixo e, de olhos baixos, tomei a

chicara e, a pequeninos goles, fui chuchurreando até á ultima gotta.

Por fim, no intuito de quebrar aquella serenidade fleugmatica do homem,

aventurei sorridente:

--Bem bom café! Decididamente não ha bebida como esta.

Mas o bruto, impassivel e frio, recebendo a chicara que eu lhe

entregava, sempre sisudo e grave como um preceptor, perguntou

seccamente se eu queria o banho morno ou de chuva?

--De chuva, respondi humilhado e corrido. Que vergonha tive! Parecia-me

que aquelle imperturbavel servidor viera ao quarto apenas para

exprobrar, com o seu silencio inquebrantavel, o meu procedimento da

vespera. E tinha justas razões esse criado, porque afinal... que

indecencia para um homem da minha casta, herdeiro de uma tradição

sem mancha, principalmente de vinhos, porque na familia o unico que

bebe é meu tio, os mais, desde o meu intemerato bisavô, implicado nas

conspirações patrioticas do Xavier, até meu pai, nunca foram além do

côco do pote ou da calha da nascente. A adega dos Ribas, inesgotavel

e pura, foi sempre a limpida fonte dos «Suspiros» numa chanfradura

de rocha, velada por um bosquesinho de tayobas, fonte cujas aguas

historicas mataram, em tempos, a sêde do grande Dirceu quando a paixão

e a politica o arrebatavam para os ermos. E ha ainda hoje fanaticos

do poeta que affirmam distinguir no murmurio da agua o nome suave de

Marilia.

Cheio de vergonha saltei da cama, enfiei a cabaia e, sem olhar para a

alcova faustosa, desci acompanhando o criado que me deixou á porta do

banheiro.

Lavado e vestido, apresentei-me na sala de jantar, clara de sol e

cheia de um festivo canto de passarinhos. Accendi um charuto e, de

mãos enfiadas nos bolsos, comecei a passear de um lado para outro,

assobiando uma aria rustica.

Ia admirar tranquillamente um quadro de frutas, quando o criado veiu

dizer-me, muito teso, estendendo um gesto nobre para o exterior:--que

meu tio estava á minha espera no jardim.

Respirei alliviado! Ia emfim fugir aos olhos daquelle Argos da

moralidade. Atirei fóra o charuto e desci.

Meu tio, todo de branco, com um gorro de seda á cabeça, agachado,

examinava os canteiros. Sentindo o rumor dos meus passos no saibro, que

scintillava ao sol, voltou o rosto purpureo e nas suas bochechas nedias

perpassou um sorriso fugitivo. Ergueu-se resfolgando, com as mãos

papudas cheias de terra, de sorte que não me atrevi a beijal-as para

não macular os meus bigodes lustrosos e rescendentes.

--Meu tio passou bem a noite?

--Como um abbade. E tu?

--Maravilhosamente...

Elle mirou-me dos pés á cabeça e pareceu satisfeito com o meu terno de

brim pardo, não desdenhando os sapatos amarellos, que eu trouxera para

«surrar em casa», como dizia pittorescamente minha santa mãi quando

prégava sobre economia domestica.

--Que tal o alojamento, Anselmo?

Gabei sem reservas a belleza e o conforto do tecto hospitaleiro,

creio até que o teria comparado aos palacios maravilhosos de

Aladino e á soberba vivenda de Sindbad se um homem, com dois enormes

regadores vermelhos, não viesse interromper o nosso colloquio. Era

o Jeronymo, jardineiro. Parou um momento para dar a meu tio a boa

nova do desabrochamento das camelias e, radiante, limpando com o

braço o suor da testa, disse que já havia dois botões das rajadas.

Meu tio felicitou-o e, como o Jeronymo retomasse os regadores,

accrescentou--que as violetas estavam encharcadas.

--Não ha duvida... não ha duvida, senhor; ahi vem o sol, disse o homem.

Quem dirá que hontem choveu como choveu...? A terra está secca e a

planta carece d’agua. Olhe, se eu fosse outro, deixava as _purpuras_

sem agua... mas vá Vossoria ver... a terra está mirrada, parece que a

seccaram ao fogo. É verdade que ali não chove por causa do telheiro.

--E de cravos, como vamos?

--Ainda não os ha, disse o Jeronymo, consternado, e derreando-se ao

peso dos regadores, foi-se, bradando a um gato que raspava a terra fofa

de um taboleiro.

--Gostas de flores, Anselmo?

--Loucamente, meu tio.

E fomos caminhando para a casinhola rustica. Sobre o colmo cantava uma

cigarra.

--Bom tempo, presagiou meu tio.

Haviamos chegado ao retiro do aperitivo, onde nos esperava o alcool

matutino, a gotta confortavel que aquecia o estomago preparando-o para

receber o almoço. Meu tio subiu pesadamente a elevação que dava accesso

ao retiro, e achatou-se no comprido banco de pedra, que imitava um

tronco d’arvore... e d’ahi, como Satan na montanha mostrando a Jesus as

riquezas da terra, disse-me--que ali assim estavam enterrados para mais

de tresentos contos.

Eu sacudi a cabeça admirado e murmurei:

--Bem empregado dinheiro!

--Não bebes? Acenei--que bebia e elle serviu-me. Virámos.

O vasto mar azul, em frente, resplandecia ao sol. Velas de barcos

fugiam, muito brancas, afflorando a vaga que, ás vezes, se desfazia

numa fita de espuma que vinha rolando, rolando e desmanchava-se. Aves

pairavam e, subitamente, como se tivessem sido fulminadas, cahiam

nagua serena. O céu limpido, de uma côr fina e translucida, estava

radiosamente claro. A aragem fresca vinha cheirando á salsugem e

balouçava as roseiras, perfumando-se de um novo aroma de jardins,

mais delicado do que a maresia da costa. Dois pequenotes nús, muito

luzidios, iam garrulamente rompendo o mar, atirando os braços; subiam

na vaga inchada e alterosa, desciam no cavamento d’agua e riam como

dois jovens tritões que se andassem adestrando no seio glauco do

mar perfido. E, mais longe, varios cavallos, quasi afundados nagua,

de cabeça alta e inquieta, eram esfregados por moços que riam ás

gargalhadas; um mesmo, montado, como um centauro aquatico, obrigava a

alimaria a fazer voltas, nadando, a lembrar o hippocampo das antigas

lendas. Ao fundo o recorte accidentado e escuro das montanhas.

A cigarra, na grande luz tepida que dourava o colmo da casinhola,

entrou a cantar e meu tio, encolhendo as pernas e servindo novos

cognacs, enternecido e lyrico, disse poeticamente para attrahir a minha

attenção, toda entregue ao mar infinito:

--Ouve, Anselmo, a cigarra... está chamando o sol. E eu, para dar mais

força ao lyrismo, ajuntei, voltando os olhos para o alto:

--Sim, meu tio: é a cigarra que chama a primavera.

Ali ficámos muito tempo, num farniente aprazivel, beberricando, até que

o criado nos veiu annunciar o almoço. Descemos lentamente. Eu vinha

alquebrado de preguiça e sem apetite, sedento. A agua de um repuxo,

que esguichava, iriada e cantante, excitou ainda mais a sêde do meu

estomago abrasado. Parei um momento para admirar a elegancia de um

cysne que circulava com garbo, abrindo, de vez em quando, ao borrifo

fresco, as grandes azas alvadias, iguaes ás que, outr’ora, Jupiter

lascivamente tomou, em uma das suas metamorphoses, para cingir o corpo

esplendido de Leda. Atravéz da agua limpida viam-se as palmouras

rosadas remando com lentidão.

Meu tio, que havia chegado á varanda, chamou-me. Não quiz partir sem

acariciar a ave airosa e adiantei-me estendendo a mão para amaciar-lhe

o pescoço formoso; o cysne, porém, selvagem e arisco, entrou a

espadanar com as azas e, escancarando o bico, a grasnar, poz-se em

attitude ostensiva, atirando-me bicadas. Deixei-o. Vendo-me partir

veiu precipitadamente até a borda da bacia e, a grasnar, parecia

desafiar-me. Longe, no fundo do jardim, levantou-se um alarido terrivel.

--São os gansos! disse-me o tio Serapião... e deixando a balaustrada da

varanda:

--Anda dahi que o almoço esfria.

A sala rescendia. A mesa pantagruelica, alva, nitida e farta

encantou-me pela profusão de flores em jarrões, por entre os finissimos

copos de mussellina, espalhadas pela toalha e de um aroma tão intenso

que mal deixava sentir o cheiro dos acepipes. Sentei-me á direita do

meu tio e começamos por um prato que me pareceu feito de ouro liquido.

O criado que m’o serviu nomeou baixinho:--Mayonnaise. Fartei-me.

Meu tio, com a boca cheia, olhou-me de certo modo e percebi que o seu

olhar de epicurista, humedecido e languido, queria dizer alguma coisa;

fitei-o até que engolisse o bolo que rolava na sua boca de gastronomo,

inchando-lhe as bochechas:

--Um petisco, hein, Anselmo? e passou o guardanapo pelos beiços

reluzentes. Eu, sem dizer palavra, arregalei os olhos, sacudi a cabeça

e enchi de novo a boca. Quando bebi o vinho, que rutilava num calice

diante de mim, pronunciei-me francamente:

--Com effeito, meu tio... é um prato! e elle, attrahindo uma lata de

sardinhas, tambem arregalando os olhos, concordou: É um prato! A um

gesto seu o criado içou os transparentes; o sol inundou a sala de uma

grande claridade--crystaes e faianças scintillaram. Os canarios,

deslumbrados, entraram a voar tontos, agarrando-se ás grades das

gaiolas, mas a pouco e pouco, habituando-se, voltaram á tranquillidade

e foi bastante que um cantasse para que o chilreio irrompesse

estridulo. Pedi agua e o criado, inclinando-se, indagou baixinho se eu

preferia Vichy ou Apollinaris.

--Do pote, tornei ao solicito.

--Experimenta Apollinaris. Apollinaris com um pouco de Bordéus,

aconselhou meu tio e, voltando-se para o criado, com o garfo erguido e

cheio de sardinhas: Abre Apollinaris...

Resignei-me. Momentos depois um estampido atroou e logo um jorro

fervido inundou meu copo.

--Bebe! Bebe emquanto está quente. Levei o copo á boca e bebi...

mas com que ancias...! Um effluvio de thermas subia-me ao nariz.

Subitamente acudi com um guardanapo á boca, mas não tão rapido que

pudesse evitar um escandalo.

--Perdão, meu tio! murmurei corado.

--Não sou inglez. Eu cá não faço cerimonias. Havias de engulil-o? disse

a rir.

As carnes não me tentaram, mas fui forçado a mastigar uma febra de

roast-beef e uma fatia de presunto. O tio devorava tranquillamente, sem

levantar os olhos do prato.

Ao fim do almoço, saciado d’agua, afastei-me para a varanda. Fazia

calor--as folhas murchavam á luz caustica e ouvia-se a voz fina do

Jeronymo, que cantava aparando a grama.

Debruçado para o jardim, olhando vagamente, numa abstracção de todo o

meu ser, comecei a sentir-me invadido por uma tristeza que me cahia

nalma, suave e melancolica como um crepusculo.

Uma sombra interior velava a radiosa alegria do meu espirito e sem

causa visivel, porque diante de mim havia a vívida e resplandecente

claridade do sol, o immaculado azul e todo o verdor viçoso dos arbustos

que as borboletas corriam, sentia como a aproximação de uma tormenta,

as primeiras ancias da lagrima.

Indecifravel phenomeno o da visão da ausencia!...

Um véu espesso passou-me pelos olhos. Tudo que a minha vista alcançava

desappareceu num momento e vi, como em scenario, num longinquo

horizonte nebuloso, aereo, a paisagem silenciosa da minha terra, no

valle fresco e verde, no fundo do qual escorre, quasi sem bulha, o

corrego das Almas, que vai de sitio em sitio, abeberando as hortas e os

rebanhos, sempre manso e sempre claro, que não o toldam senão as flores

dos espinheiros que o margeiam, e essas, pobresinhas! com um leve

fremito d’agua, desfazem-se, desapparecem e passam quasi invisiveis

como um pollen subtil.

E a minha casa, além! bem visivel, branca no verdejante pomar, e

gente na eira e gente pelos caminhos, os meus com as suas feições tão

nitidas, tão perfeitamente accentuadas, que eu os fui reconhecendo a

um e um, como se os visse, não atravéz da miragem meiga de minh’alma,

mas na verdade fiel da vida que além vivem. Repentinamente a visão

diluiu-se. Alguem chamava-me baixinho--voltei-me. Era o criado:

--O senhor seu tio pergunta se não quer ir á cidade?

--Dize-lhe que vou... e, dissimulando, passei rapidamente o lenço pelos

olhos.

V

Quando desci, aprumado e airoso no meu terno de cheviot claro, meu tio

roncava na casinhota do jardim, com a cabeça descahida sobre o recosto

do banco, o papo em evidencia, todo molhado de suor e rubro, a boca

aberta, os braços pendentes num abandono flaccido. A cartola repousava

sobre a mesa e o precioso unicornio, encastoado de ouro, jazia aos seus

pés como um cajado vulgar.

A impaciencia e a temperatura da hora tepida, macia e somnolenta

haviam, por assim dizer, narcotisado o pobre homem. Da janella do meu

quarto para onde, de instante a instante, elle levantava os olhos

anciosos, eu o via caminhar ao sol, com enormes bocejos, riscando

a areia com a ponta da bengala. Subiu e desceu lentamente as áleas

do jardim, por fim perdeu-se e só o vi depois nessa posição pacata,

refestelado, a dormir á sésta como as roseiras dormiam no silencio

canicular desse meio-dia abrasado, murchas, enlanguecidas, emquanto

a terra incançavel infundia-lhes a seiva vivificante para que, mais

tarde, ao frescor vesperal do crepusculo, os botões despertassem e

distendessem as petalas, abrindo-se.

Á porta estacionava uma victoria. O alto cavallo, negro e luzidio,

escarvava fogosamente, picado pelo sol. Meu tio grugrulejou como se

sorvesse uma golfada quente e esfregou os olhos.

--Boa sésta, meu tio. Elle ergueu-se molle, com os braços abertos em

cruz, o ventre empinado e falou espremendo-se:

--Boa estafa é que foi. Que diabo estiveste fazendo até agora? Sacou o

relogio e mostrou-me: Uma hora da tarde.

--Um trabalho para descobrir a roupa, meu tio. Arranjaram-me de tal

modo a mala que, para encontrar um par de meias, tive de despejal-a.

Meu tio mirou-me detidamente e, com satisfação e vaidade, li no seu

olhar--que me achara digno. Tomou a cartola e eu apanhei o unicornio

para poupar-lhe o sacrificio de abaixar-se.

--Está quente! disse limpando a fronte.

--Um dia de fogo, mas lindo!

--Lindissimo! Deu um puxão ás calças olhando o céu.

--Vamos, Anselmo.

Durante o caminho parou diante de todos os canteiros examinando

carinhosamente as flores, decepando galhos seccos, com uma solicitude

bondosa. O criado correra a abrir o portão. Sahimos.

Ah!

As interjeições são pequeninas syntheses. Como em um atomo o olho

do sabio descobre todo um mundo de complexidades, nas interjeições

o arguto espirito de um grammatico descobriria todo um romance,

se quizesse, e facilmente o reconstituiria. As grandes emoções

manifestam-se pelo laconismo monosyllabico dos oh! e dos ah! Concisas,

como são, dizem mais do que os periodos e supprem, com vantagem, o

complicado artificio de que lançam mão os escriptores, artificio

que nem sempre é bastante para exprimir o que sentem e raras vezes

auxilia a externar o que pensam. Ah! e Oh! hiatos insignificantes, mas

analysai-os, profundos mestres.

Diante de um quadro de Rubens--ah! e nada mais, alguns manifestam

deste modo o seu pasmo; diante de uma mulher formosa oh!--oh! soturno

e commovido, que o agudo só tem applicação nos momentos de terror.

A tragedia do panico tem a sua clave: uh! Othello: oh! Macbeth: uh!

Ophelia... ah! suspiroso; os Sete Infantes: ôooh! Mesmo no amor

encontrareis um ah! tremulo e doce. O suspiro é um ah! isolado e,

como dizem os pessimistas que o riso é ainda uma fórma da tristeza, a

gargalhada é um rosario de suspiros.

Ah! e nada mais foi o que me fugiu da garganta quando me sentei nas

almofadas de damasco côr de vinho da victoria de meu tio. Que regalo!

E, em verdade, que podia eu dizer que désse exactamente a impressão

de aconchego que senti quando me aprofundei mollemente no macio

assento? Que podia eu dizer que traduzisse o gozo, quasi sensual, que

experimentei senão o que veiu espontaneamente aos meus labios: ah! um

doce e demorado ah! que me ficou muito tempo a brincar na boca e que eu

acompanhei com uma mimica fantastica--olhos arregalados, braços abertos

como se me balouçasse em ondas... Ah!

E meu tio comprehendeu porque voltou-se immediatamente dizendo:

--Molas excellentes, hein?

--Excellentes, concordei hilariante e baboso; excellentes, meu tio, e,

sem que elle percebesse, levantei-me um poucochinho e deixei-me cahir

para ter o gosto de afundar como afundei.

O cocheiro, um inglez, magro, raspado, retezou-se na boléa tenteando as

redeas para soffrear o cavallo negro que pinoteava.

--S. Francisco, disse seccamente meu tio e logo rodámos.

Estiquei as pernas mergulhando os pés no pellego felpudo.

--Não fumas, Anselmo? E as mãos papudas offereciam-me charutos.

Esgazeado e hirto de espanto entalei-me no fundo do carro. Pois meu

tio... a offerecer-me charutos...! É uma cilada, disse commigo. Meu

pai, com a sua moral primitiva, entende que fumar é um vicio execrando

para os moços, principalmente em presença dos mais velhos. Em casa,

quando me tenta o desejo de tragar uma fumaça, corro ao meu quarto

e fecho-me ou desço ao pomar para não ir de encontro ao preceito

paterno, que é uma herança dos maiores. Educado em principios de tanta

austeridade, agradeci os charutos. Meu tio, porém, insistiu:

--Fuma, homem; já não és criança, disse num tom cheio de sinceridade

que varreu do meu espirito o resto de escrupulos. Fuma--e entregou-me

um charuto. Ainda assim, senti certo vexame, elle, porém, insistiu

novamente, animando-me.

--Não tens phosphoros?

--Sim, meu tio; tenho aqui. Accendi o charuto e baforei para o mar a

primeira fumaça dando as primicias do meu havana ao respeito, como os

antigos pastores offereciam a Deus as primicias dos seus rebanhos,

depois recostei-me, fumando ante as barbas grisalhas do irmão de meu

pai.

O Rio começava a apparecer-me. A victoria corria cruzando-se com

outros carros elegantes, onde iam senhoras faustosamente vestidas.

Dos bonds espiavam-nos com interesse curioso. Eu encolhia-me para que

me não vissem, ia ali assim como um deus num nicho, apenas visivel

para os que, como eu, passavam luxuosamente em carruagens e que nos

procuravam reconhecer. Meu tio, habituado ao luxo, ia indifferente,

todo preoccupado com o seu charuto; eu não, mostrava-me, queria que

as mulheres olhassem para o meu rosto rosado e fresco, para os meus

olhos femininos, para os meus labios purpureos e carnudos, para os meus

bigodes sedosos, para o meu largo peito forte, e que reconhecessem

em mim um modelo de homem, um remanescente da idade morta, quando a

força era divinisada e o musculo merecia poemas; um solido e masculo

exemplar de sertanejo capaz de amal-as com mais ardencia e com mais

impetuosidade do que esses rapazes pallidos, de olhos tristes, que

passavam acabrunhados e exhaustos, sem viço, sem enthusiasmo, frouxos e

melancolicos, sugados pelo vampiro da anemia, derreados pelas vigilias

devassas.

A victoria parou. Saltámos e eu, curioso de vêr e de admirar

maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara,

murada pelos edificios que reverberavam á luz radiante do sol. Ao

meio, sobre um pedestal negro, a estatua tosca de um homem, numa

attitude cheia de solemnidade, a mão estendida num gesto classico de

tribuna, como a allegoria iconica do meeting que é, em nossos dias

cultos e morigerados, o escoadouro da inoffensiva indignação das

massas. Meu tio, indicando-me a effigie escura, disse:

--José Bonifacio, o patriarcha da nossa independencia e da tribuna dos

comicios.

Admirei reverente o patriarcha, rijo, inflexivel, immovel no seu molde

perpetuo de bronze, como a imagem do patriotismo isolada na vasta

ágora, para exemplo das gerações. Meu tio, descrevendo com o seu

unicornio um hemicyclo no ar, falou para despertar o meu civismo:

--Olha, Anselmo, de um lado a religião, Deus e o mysterio. É a ala

santa do perimetro do nosso patriota--e levantou a bengala. Meus olhos

seguiram a sua indicação e viram no alto da torre um gallo rutilante.

Tive impetos de pedir a significação da emblematica... Seria, por

acaso, a figuração do bicho que cantou tres vezes despertando a

consciencia de Pedro na grande noite triste de Gethsemani? Mas meu tio

já havia baixado a bengala.

--Aquillo que ali vês ao fundo, Anselmo, é a sciencia.

Um casarão alvadio com um terraço á frente. Mal tive tempo de admirar

porque a voz grave do cicerone já pronunciava:

--Á esquerda, o commercio, a industria, o movimento... Com effeito a

vida parecia decorrer do ponto indicado--bonds chegavam despejando

gente, partiam cheios; carros cruzavam-se: era um vozear confuso,

indistincto--pregões, appellos, silvos, tilintar de campainhas,

brados. Olhei atordoado. Meu tio voltara-se para a estatua e

contemplava-a extatico.

--Grande homem! disse eu.

--Grande patriota! accrescentou meu tio e voltou-se com a bengala em

riste, risonho, mostrando-me uma rua em frente:

--Conheces?

--Não, meu tio, mas noto que está cheia de gente--parece que vem por

ahi abaixo um oceano popular para revindictas.

--É sempre assim, disse e, com lentidão, abriu a sobrecasaca e tirou

do bolso profundo um maço de papeis. O sol abrasava pondo-me pruritos

na carne e meu tio, calmo e tranquillamente, suando e resfolgando,

consultava os papeis. Por fim atafulhou com o maço no bolso e,

vagarosamente, desdobrou diante de meus olhos uma folha de papel azul

e, indicando-me uma phrase com o dedo grosso, sorriu mirando-me.

Era uma carta minha e o que ali estava debaixo do pesado e humido

indicador, era apenas isto--«ver a rua do Ouvidor». Sem ler mais,

estremecendo, cravei os olhos na rua... e, sem uma palavra, mudo,

abatido, como se me tivessem dado uma noticia de morte, suspirei.

--Uma surpresa, hein?

--Uma desillusão, meu tio, disse eu, murcho. Mas o sol ardia. Quasi

torrados fomos caminhando para a desillusão, porque ali, ao menos,

havia sombra e fresco. Eu ia consternado.

--Mas então... que te parece?

--A mim?

--Sim...?!

--Ah! meu tio... Póde ser que esta rua seja uma maravilha, mas

infelizmente, antes de vel-a, antes de pisal-a, eu a sonhara... e o

sonho, que é uma visão do mysterio, vai sempre além da realidade.

--Então... que esperavas tu?

--Eu? uma avenida como as que tenho admirado em gravuras, como as

que tenho visto descriptas: com grandes casas apalaçadas, ruas

cuidadosamente calçadas de marmore... architectura e gosto, arte e

elegancia, e largueza sobretudo, meu tio; largueza, muita largueza...

Um velhinho magro, esgrouviado, com um amplo casaco côr de castanha,

surrado, tomou a frente a meu tio estendendo-lhe ambas as mãos,

pallidas como as de um cadaver. Encostaram-se a uma vitrina. O

velho sacou do bolso uma enorme carteira e foi desdobrando papeis,

cochichando, com risinhos. Meu tio approvava com ar digno, coçando

o papo. Parado em meio da rua, olhando, eu sentia cahirem dentro em

mim, um a um, todos os meus sonhos ingenuos de roceiro. A multidão

cruzava-se num formigamento activo; grupos chocavam-se. Havia

constantemente um chapinhar de solas, fru-fru de sedas e, de longe,

como um hausto perenne e sofrego, vinha um aáah surdo... De vez em

vez parecia-me ouvir o rumor cadenciado e longinquo do desfilar de um

exercito.

Sentia-me attrahido pelo luxo dos mostradores. Meus olhos esmerilhavam,

rebuscavam, examinando as casas, da soleira á cimalha, penetrando-as,

varejando-as indiscretamente com uma ganancia de imprevistos, com

uma avidez de novidades... mas desciam desenganados porque a rua que

eu antevira, a rua que eu sonhara... Ó divinos jardins suspensos! ó

avenidas de loureiros e de anemonas! como estais longe da esplendida

passagem que meus olhos viam em arroubos, quando me punha a pensar

nesta viagem ao Rio e realizava, embevecido, de olhos fechados, deitado

na relva, tamborinando no ventre, o meu passeio elegante pela calçada

de marmore branco, refrescada, duas vezes ao dia, com esguichos d’agua

de rosas. Não, decididamente eu não tinha razão--o que eu estranhava

não era a rua do Ouvidor... todo esse pungitivo sentimento que me

opprimia vinha da morte de uma illusão. Para os que não viram, para os

que não sonharam coisa melhor, a rua é admiravel; mas para os que podem

estabelecer confrontos, perdoa-me, arteria da civilisação patricia,

perdoa-me, avenida da elegancia e do espirito fluminense, não passas de

uma viela atarracada e sordida. O velhinho inclinou-se de novo com as

mãos estendidas e meu tio voltou a occupar junto a mim o seu posto de

elucidario.

--Então, Anselmo?

--Estou procurando o encanto, meu tio.

--Descança, descança, disse tomando-me o braço, elle é que ha de

procurar-te. E estacando mostrou-me a rua com o mesmo gesto com que,

em casa, do alto da casinhola, me havia mostrado o seu jardim: Então

_isto_ não te impressiona?

--Não, meu tio... e digo com sentimento.

--Esperavas alguma coisa como o boulevard des Italiens, como a calle

Florida? acudiu Serapião, versado em guias.

--Coisa melhor! muito melhor!

O elucidario lançou-me um olhar carregado de pasmo.

--Contaram-me tantas maravilhas desta rua que não é muito que eu me

confesse desilludido, porque o sentimento que, em verdade, subjugo

é de indignação, a mais justa indignação contra todos quantos me

atordoaram o espirito com exageradas fantasias e soberbas descripções

de um fastigio incomparavel. Em casa de Marianno Gomes, o Dr.

Gusmão, promotor, que parava, de vez em quando, alguns nickeis, no

seu feminino palpite--a sota, durante uma longa noite de azar e de

chuva, encurralando-me no vão de uma janella, falou-me, com a sua

eloquencia de jury, longamente, calorosamente, ácerca da rua do

Ouvidor, contando-me aventuras que havia gozado em companhia de um

desembargador, homem culto e de gosto. Foi quem mais alarmou o meu

espirito ingenuo, foi esse orgão da justiça publica o mais perverso e

cruel dos mystificadores. O padre Coriolano que, de longe em longe, vem

gozar no Rio um mez de inverno, disse-me, uma vez, em casa da Maria

Balbina, que _isto_ era como a Suburra de que fala Horacio: um lugar de

vicios. Marianno Gomes, mais franco, explicou-me numa phrase sobria e

devassa: «Que para a pandega não havia igual...!»

Mentiram todos: a lei, a religião e a batota. Isto é uma miseria! Nem

aventuras, nem Suburra, nem pandega!

--Espera, attende, acalma a furia, Anselmo. Se ainda não a conheces!

disse meu tio com um sorriso malicioso. A rua do Ouvidor tem o seu

segredo de attracção e de enlevo como certas mulheres que, apezar

de feias e avelhantadas, vivem perseguidas pelos adoradores. Has de

concordar: ha mulheres taes; a razão? o motivo? dize... Dei de hombros

e meu tio explicou com arreganho--um encanto particular, Anselmo,

coisas... Depois, recompondo-se, voltou a falar com gravidade,

fitando a rua: Não é bella, concordo. Vê-se que não foi traçada por

um Haussmann, mas lá encantos isso tem ella... É preciso viver,

conhecel-a, penetrar-lhe o segredo. Não estou longe de pensar comtigo.

Isto é um becco.

--Um becco! corroborei com desprezo.

--Mas queres saber a razão principal da sua nomeada? inclinou-se

olhando-me vesgo. É que ella é o centro da vida nacional. Descolámo-nos

para respirar, elle, porém, puxou-me de novo: Todos os grandes

factos da nossa politica e da nossa litteratura derivam da rua do

Ouvidor--ella é o estuario que recebe todas as correntes, o centro para

onde convergem todas as forças activas da nação e donde se escoa a

seiva intellectual...

--A seiva intellectual!... exclamei recuando, e meu tio, impassivel,

acastellado na sua convicção, repetiu abanando com a cabeça:

--Pois não... pois não, seiva intellectual. E continuou: Tens ali a

imprensa, e levantou a bengala para uma sacada onde havia uma comprida

taboleta negra com grandes letras brancas--e, passeiando a bengala como

um ponteiro, proseguiu: o commercio, a industria. Firmou-se passando o

lenço pela fronte gottejante: O cambio, as leis, tudo quanto orienta e

desorienta o Brasil sahe daqui...

--É o laboratorio, commentei com ironia, e meu tio aceitou:

--O laboratorio, pois não. Mais ainda, vou mais longe. A meu ver a

nossa fórma de governo é a rua do Ouvidor, a nossa religião é a rua

do Ouvidor--as constituições, os figurinos e os actos de fé sahem

deste becco. Isto é a pia lustral que consagra os factos e os homens.

Esta rua echôa todos os successos do mundo como na vida physiologica

o cerebro, por um phenomeno de repercussão nervosa, reflecte todas as

sensações do corpo. Meu tio, cançado do rasgo scientifico, aspirou

largamente e tossiu, mas a facundia voltou: As mulheres, para imporem

a sua formosura, descem e sobem a rua varias vezes. Ha um talento

prodigioso por ahi além... quem o conhece? Ninguem! Quantos poetas

vivem ignorados por esses recantos, sem jámais alcançarem a gloria da

publicidade?

--O Simão Carreira...

--Sim, o Simão... Ha por acaso alguem que conheça o Simão?

--Eu, meu tio. Conheço-o e admiro a sua inspiração, sempre nova e

fertil.

--Mas... tu és uma parcella insignificante. Para immortalisar um

homem só o suffragio collectivo, e a urna aqui está. Tenho certeza de

que o Simão, com um dia de rua do Ouvidor, faria mais pela gloria do

seu estro do que tem feito com 28 annos de trabalho modesto no canto

obscuro de Tamanduá, entre os milhos. Bastava que recitasse dois ou

tres sonetos. E meu tio alongou o braço: O caminho da gloria é este,

Anselmo.

--Não é feito de rosas, meu tio.

Davam tres horas e o calor escaldava. Meu tio propoz um _grog_ gelado,

no Paschoal. Iamos caminhando lentamente quando dei com os olhos em

uma esplendida mulher loura, alva e rosada, de preto. Nos cabellos

dourados uma especie de diadema régio, com duas cristas de pennas

vermelhas, como no gorro do Mephistopheles, que eu vira, em tempos,

numa illustração de Natal.

--Linda mulher, meu tio!

--Divina! concordou elle estacando para admirar. A loura aproximava-se

coleando por entre a multidão, attrahindo os olhos lubricos, altiva,

indifferente, com um andar soberbo de rainha, o collo farto escondido

por um grande leque de plumas escuras, que ella agitava com languidez,

como uma grande aza. Passou por nós e tive apenas o tempo de vêr a

côr innocente e doce das suas pupillas azues, mais claras do que a

celagem da altura e ainda mais suaves, a boca, pequenina e vermelha,

uma curva sanguinea e humida. E o aroma que ficou á sua passagem, que

delicioso!... Linda mulher! tornei voltando-me para admirar o airoso

passo cheio de magestade e graça.

--É uma esculptura...

--Uma esculptura, meu tio. E, trincando o beiço, nervoso, tornei á

phrase: Linda mulher! com effeito... Mas meu tio, que adiantara alguns

passos, vendo-me parado a olhar, absorvido no vulto que desapparecia,

chamou-me:

--Vem dahi. Vamos ao _grog_, que está quente a valer.

A capital federal (impressões de um sertanejo) · 第 7 / 18 题