Oh meu tio!
Esta exclamação quasi infantil escapou-me dos labios quando penetrei o
santuario da limpeza. Que asseio e que fausto! As thermas da cidade por
excellencia deviam resplandecer assim.
Quem te dera, Lucano, um tanque como este para nelle abrires as veias!
Quem te dera, altivo poeta, um interior assim, de tanta claridade e
tão sonora acustica, para reboar com os versos da Pharsalia com que
recebeste a Morte! Infelizmente a Arte não alcançara o requinte que
hoje possue. Á vista do tanque de meu tio--onde podia nadar, folgada e
livremente, uma familia de nereidas, se ainda as houvesse--que figura
faria a banheira do teu suicidio, ó victima da tyrannia, ó voluptuoso e
languido patricio...!
A sala vasta é toda de mosaico miudo, talhado em triangulos brancos e
vermelhos; o tanque, de bordas altas, tem tres metros de comprido e
dois de largo, e a gente afunda em um metro e 25 d’agua. O chuveiro é
uma grande cupola de zinco, pintada de branco, com duas correntes de
metal que imitam prata. A agua jorra copiosamente das guelas de dois
leões de nickel--uma entorna agua fria, outra vomita agua a ferver. As
paredes, forradas de marmore italiano, completamente núas. A um canto,
um cabide de bronze para as toalhas felpudas e o jupon, e, em frente,
numa prateleira, tambem de marmore, negro e fosco, a bateria d’oleos
e de perfumes; os sabonetes, as esponjas, escovas e essencias tonicas
para hygiene da pelle e lavagem das gorduras do couro cabelludo. Ao
centro um espelho de nitido crystal, alto e grosso, onde se pode
admirar a nudez das fórmas.
Para um canto, recatado por um biombo japonez, uma especie de ádyto,
com um divan de couro, repousando em um encerado onde a gente estira
longamente os membros emquanto os leões inundam o tanque. Para aquecer
ha uma mesinha com um serviço de crystal: whisky, cognac, old-brandy e
curaçáu. Um mono de bronze carregando ás costas um cesto atochado de
charutos e brochuras de um frescor irritante (a mais pudica que meus
olhos viram abria com uma esplendida mulher núa, de costas para quem
olhava, os braços roliços passados por cima da cabeça farta e negra de
cabellos) na capa um distico: _Le nu au salon._
Ao fundo, num retiro velado por um panno de linho escuro, que
corria num varão de ferro, uma caixa envernizada. Abri e pasmei
silenciosamente--era tambem um objecto indispensavel ao asseio. Ao
lado, numa caixa menor, um maço de papeis finos. Aclarava esse interior
de gozo um lustre de seis globos côr de rosa.
Feita a visita fechei-me por dentro e, ouvindo o rumor d’agua que
cahia, levantando um vapor fino como o orvalho, fui despindo a fatiota,
lenta e preguiçosamente, ante-gozando a delicia da immersão tépida
depois da fadiga de todo um dia em wagon.
Safando a camisa lembrei-me do ribeiro poetico da minha villa onde
todos nós da familia, do mais velho ao mais novo, um depois do outro,
por decencia, vamos, todas as manhans, limpar o corpo e endurecer os
musculos sob a folhagem viçosa dos cajueiros em flôr.
Nú, como um grego do tempo juvenil da graça olympica, mirei-me ao
grande espelho que, indecorosamente, me reflectiu da cabeça aos pés--e
achei-me perfeito e forte e masculo, um modelo rijo e gracioso de Marte
desnudado, um inteiriço e reforçado exemplar de homem, digno herdeiro
dos Ribas. Sorri com vaidade para o crystal que começava a empanar-se
com o vapor das fauces do leão fervente.
A sala estava como uma estufa--era um banho russo. Corri a refugiar-me
atráz do biombo e estirei-me no divan fresco e macio servindo-me, em um
calice, da garrafa vermelha que trazia, pendente do gargalo, uma chapa
denunciando: cognac. Bebi e regalei-me esticando as pernas núas no
couro frio.
De papo para o ar comecei a pensar na delicia da vida e achei mesquinha
a casa paterna, taciturna e calada, entre arvores murmurantes,
invadida pelas moscas e pelos gafanhotos, com os corredores sombrios,
atravancados de sellins, ás vezes visitada pelos bacorinhos que vêm
familiarmente grunhir em baixo da mesa de jantar, catando os restos
do almoço. Pareceu-me triste e acanhada a existencia que eu levara
nesse valle melancolico sem agitação e sem conforto, ignorante de
tudo, longe de imaginar que o mundo podia proporcionar delicias
de tal ordem--delicias como aquella sala de jantar, delicias como
aquelle banheiro, onde meu tio tonificava as suas banhas e onde eu ia,
emfim, lavar-me para entrar limpo e lepido na vida nova, buliciosa e
surprehendente, que eu sentia rumorejar ao longe, nessa grande cidade
atravessada, amollecida e somnolentamente, nas almofadas fôfas do
carro do ruivo. Ia emfim ver o mundo.
Aquelle banheiro que ali estava era a pia onde o mais novo, o mais
esperançoso rebento dos Ribas ia, contricto e nú, receber o baptismo da
civilisação, deixando nagua morna a poeira dos caminhos e a barbarie da
sua alma ignorante e insaciada.
Confesso que tive inveja da sorte de meu tio e lastimei profundamente
os meus que lá haviam ficado chocando pintos e debulhando o grão.
Que vale uma ninhada diante de uma mesa como esta que meus olhos
contemplam, carregada de crystaes rutilantes? Que valem as colheitas
comparadas ao gozo de um mergulho nesta piscina de marmore que me
espera? Decididamente a grande sciencia do viver não consiste em saber
accumular fortuna, mas em saber dissipal-a. O ideal do homem moderno
é o filho prodigo. Estou certo de que a moral não condemna Harpagon
senão porque o miseravel não tinha noção da sciencia elegante e fina de
dissipar.
Para que ser rico sem um banheiro assim?...
Serapião, meu prospero tio, ronca, deslisa para baixo da mesa farta do
teu salão de abundancia, porque estás dando ao mundo, e especialmente
ao teu sobrinho e herdeiro, uma lição de _savoir vivre_!
Enchi de novo o calice e bebi, mas engolindo o sorvo, percebi que
me enganara na garrafa: não era a vermelha, eu havia tomado a azul:
old-brandy.
Desde, porém, que havia quatro, porque insistir na vermelha? O acaso
dirigira o meu braço e o acaso algumas vezes opéra sabiamente e governa
como uma bussola. Repentinamente lembrei-me do banho e não foi sem
pena que deixei a minha posição em decubito, a mais propria do homem,
segundo ouvi dizer a um sybarita das minhas relações campestres.
Puz-me de pé e, estirando os braços, todo retorcido como o Laocoonte,
afastei-me do ádyto das libações. Na sala era tão espesso o vapor,
que meus olhos nada distinguiram a principio--movia-me, como um deus,
dentro de nuvens tenues. Por fim, sentindo nos pés uma humidade
tépida, notei que a agua transbordava alagando o mosaico do santuario.
Desci precipitadamente as alças fechando as copiosas guelas leoninas,
mergulhei o braço, puxei pela corrente do escoadouro e a agua, que me
escaldara, começou a baixar silenciosamente até que ficou em nivel para
que eu pudesse molhar-me todo regaladamente, mergulhando e nadando.
A fauce fria jorrou ainda alguns litros para abrandar a temperatura
e o nevoeiro diluiu-se. Apanhei sobre o marmore negro um sabonete
de Corydalis, uma grande esponja macia e saltei no tanque. A agua
abriu-se para receber-me e fechou-se ficando apenas a flux a minha
cabeça, fluctuando como uma boia.
Que delicia! Como senti, nesse momento suave da minha vida, não possuir
os dotes de Simão Carreira, que tudo canta, que tudo rima: os olhos
castanhos da Bemvinda e os repolhos planturosos da horta do Segurado.
Elle, de certo, em meu lugar, acharia uma estrophe sonorosa e nova
para louvar e divinisar a agua benigna desse tanque; elle, o sempre
inspirado, saberia pagar com um punhado de heroicos a lixivia e o
conforto.
Eu, porém, sem estro, incapaz da mais insignificante imagem poetica,
limitei-me a esfregar a cabeça, não para acordar a inspiração
adormecida, mas simplesmente para tirar a poeira... e mergulhei. Quando
vim á tona trepei á borda do tanque e, á falta de quem me esfregasse,
resolvi fazer eu mesmo a operação e vesti-me todo de espuma. Tive
impetos extravagantes de correr ao espelho para admirar-me sob esse
aspecto _mousseux_, mas recuei porque, Ribas anadyomay, comprehendi que
não me seria facil abrir os olhos--a espuma escorria em floccos pelo
meu rosto.
Atirei-me, de novo, ao banheiro e refocilei voluptuosamente. A
temperatura baixara sensivelmente quando sahi gottejante para o pequeno
estrado. Enfiei o jupon, calcei as chinelas de feltro e arrastei-me
até junto da mesinha, onde experimentei a garrafa verde--whisky. Ia
deitar-me quando bateram á porta. Acudi com pressa lembrando-me de meu
tio que ficara na imminencia de uma apoplexia. Indaguei, e uma voz
disse-me de fóra--que a ceia estava servida, ajuntando:
--Aqui tem vosmecê o robe de chambre para sahir.
Abri devagarinho a porta e estiquei o braço, que derreou ao peso da
investidura com que eu me devia apresentar á mesa. Era uma especie de
cabaia de seda, debruada a cairel de prata, com bordados extravagantes
e alamares; mangas immensas e uma gola almofadada, com forro de setim
côr de perola. Admirei-a e com ella recolhi-me ao biombo para vestir os
primeiros linhos indispensaveis e calçar os sapatos.
Sobre a camisa e as ceroulas abotoei a cabaia que, sentindo a falta
das protuberancias do meu tio, cahiu em dobras molles ao longo do meu
corpo, menos fornido e mais baixo. Por compostura apertei a cinta com
o cordão de seda. Dividi o cabello, alisei os bigodes e, derramando na
palma da mão algumas gottas de Cherry Blossom, plantei-me diante do
espelho, revendo-me sob esse trajo que me dava a figura classica de um
veneziano, como os que eu vira em gravuras, dentre os quaes me ficara
eterno na memoria o typo veneravel de Brabantio, pai da incomparavel e
abnegada Desdemona, tão cruelmente immolada pelo mouro negro.
Cheiroso e fresco sahi para o corredor, onde me esperava o criado.
Seguimos.
A sala de jantar estava de novo illuminada... mas sem meu tio.
Recolhera-se de certo. Sentei-me só e em silencio.
Havia no ar um cheiro apetitoso de frituras e de flôres. Dos pratos
cobertos sahia um fumego tenue rescendendo a temperos. Toda a porcelana
florejada tinha o monogramma do proprietario--S. R. em ouro fosco.
O criado serviu-me a sôpa e verteu em um calice de crystal verde um
vinho claro, que bebi com avidez antes da primeira colherada; e comecei
a jantar desordenadamente, servindo-me de um lombo, com petits-pois, no
momento justo em que o criado me apresentava um badejete, que repudiei
com desprezo.
Mas o meu ataque mais sério foi á garrafeira.
Não sei dar a razão desse delirio bacchico, tão singular, tão novo
em meus habitos de sobriedade. Os vinhos attrahiam-me. Depois de uma
aza de frango, que apenas trinquei, fui sedentamente ao Bourgogne e
enxuguei dois copos. Mas quando appareceu o Champagne, uma meia garrafa
deitada sobre crystaes de neve em uma geladeira de prata, tive impetos
de fazer ali assim, para o criado impassivel, um improviso sobre esse
precioso vinho, que é a alma do festim, o remate requintado do gozo, o
companheiro do amor. Vinho alambreado que parece cantar nas taças um
dithyrambo de ouro, vinho impaciente que ferve e espuma, vinho que tem
as coleras do oceano--ambrosia da nova éra, vinho vivo e intelligente,
vinho que tem alma... e que eu jámais provara. Bebi sofrego.
Subitamente notei que me sentara na cadeira abbacial do meu tio. Estava
explicada a minha sêde insaciavel. Os moveis adquirem os vicios de quem
os possue. Aquella cadeira estava inveterada. Era repousado em seus
braços que meu tio dormia o seu primeiro somno digestivo.
E foi esse confortavel movel que fez com que eu sómente readquirisse
as minhas faculdades de ser ás 10 horas da manhan seguinte, quando me
vieram trazer ao quarto o café e os jornaes.