A casa de Serapião Ribas, meu tio, melancolica e discreta, sem vizinhos
lateraes, porque a isola um florido jardim de rosas e, em frente, o mar
espumeja rolando e chofrando por entre pedras negras, é um confortavel
chalet suisso, de boa construcção--pedra e cal, com lambrequins e
agulhas, pintado de verde. Penetra-se esse retiro, socegado e pudico,
seguindo as sinuosidades de um caminho de saibro, onde os passos
crepitam, por entre o perfume sensual das roseiras, que fazem ao meio
um bosque ameno em torno de uma casinhola rustica, feita de troncos
entrelaçados, com um tecto afunilado, de colmo, onde meu tio, á tarde,
bebe o seu aperitivo, lendo os jornaes, com as pernas esticadas sobre o
banco de pedra.
Dá accesso á varanda uma pequena escada de marmore--tres degráus,
polidos e claros como pedras de um movel fino, porque a gente, antes
de pisal-os, raspa as solas dos sapatos na lamina de um apparelho, que
arranca tudo quanto se levar collado á palma do calçado. Além disso
estira-se em cima, no limiar, um capacho de coco, cerdoso e duro, para
completar o asseio. Raspado e brunido, o hospede atravessa os umbraes
da sala nobre onde os passos afôfam-se sobre um tapete amplo, ainda
carregado de lans e de pelles de feras que, d’olho acceso e guela
escancarada, esparrimam-se ao peso dos moveis em inercia voluptuosa.
O interior, obscuro e abafado, cheira a verniz e a fardos novos.
Entretanto o asseio accusa-se immediatamente pela disposição e pelo
luzimento das molduras dos quadros, porque a mobilia, que deve ser
faustosa, está fresca e claramente vestida de housses brancas. Despido
só um tamborete de setim azul, com um bordado de ouro, representando um
corvo marinho, pensativo, num pé só, com um peixe no bico.
Enriquecido de um dia para outro em transacções felizes, meu tio que,
em moço, curtiu a mais faminta miseria, regala-se gozando pacatamente
as delicias da fortuna. Aferrolhou mil e tantos contos em apolices,
comprou varios predios, e, estirado agora, resfolga na sua voltaire
ampla, esperando, com um sorriso, o amanhan e o depois, sem a dura
preoccupação do fim do mez e do caderno das compras. Tem o pão e
o tecto garantido podendo, de vez em quando, extraviar-se por um
extraordinario de bombance, sem risco para os dias da sua velhice
amparada e serena.
É solteiro, não porque deteste o casamento--aconselha-o a toda a gente
como um meio honesto e digno de aperfeiçoar a especie e consolar o
espirito. É solteiro porque, no seu entender, no «seu modo de ver»
o casamento é uma loteria, e, infeliz como sempre foi nos kiosques,
receia que a sorte o persiga até junto do pretor e do sacerdote. Vive
com dois criados de serviço, mais um cozinheiro.
Recebeu-me na sua grande sala de jantar de carvalho, forrada de
encerado inglez--um lugar de gosto pelos ornatos dos moveis carregados
de corymbos e de cachos de frutas, entalhados nos espaldares das
cadeiras, nos florões do enorme guarda-prata, dos bofétes e dos
trinchadores de marmore escuro. Pratos raros pelas paredes, naturezas
mortas, iguarias a oleo e faianças de Delft e de Caldas--lagostas, uma
enfiada de perdizes, uma penca de frutas, e, venerando e respeitavel,
entre o luzir da louça, um relogio escuro, monotono, moroso que, de vez
em vez, range e profundamente bate uma pancada soturna.
Serapião, meu tio, nessa noite da minha inesperada apparição, vestia um
radiante robe de chambre de seda. A calva, nua e polida, resplandecia
ao fulgor do gaz. Tinha diante do papo guloso um copo cheio de morangos
e um calice de Madeira secco.
Ao ver-me, com a mala e o guarda-pó, parado no solar da sala, recuou a
cadeira e, com as bochechas tremulas, como um bolo de creme, roxo de
vinho e de gozo, avançou para receber-me nos braços protectores, com
tal effusão, que desfez todo o meu vexame, pondo-me logo á vontade
junto a um peito largo e generoso solidamente reconstituido pelos
debentures.
Houve uma corrente de phrases sympathicas. Por fim, arrastando-me para
a mesa, carregada de porcellanas e soante de crystaes, que echoavam ao
minimo balanço do soalho, disse: que não contava commigo; e estranhou
que eu não lhe houvesse telegraphado da Barra ou de Belém, para que
elle mandasse á estação, receber-me, o seu landau. Dei um salto por
dentro. Pois o tio Serapião... tinha um landau!
Diante de mim, um rigido criado collocou vagarosamente uma garrafa de
cognac e um calice. Bebi.
O tio arregalava os olhos immensos; de vez em quando chupava o labio
inferior, soprava espalmando as mãos ambas na alva toalha da mesa. Os
crystaes tremiam. E eu falava da roça, da viagem, dos companheiros, da
paisagem accidentada de serra abaixo.
O mesmo criado que me servira o cognac trouxe uma chavena de café, que
o tio tremulamente recebeu. O servidor prudente aparou com a salva, por
baixo do queixo triplice do meu obeso parente, as gottas que escorriam.
Sorvido o ultimo gole, meu tio roncou de fartura e escorregou na
cadeira, para baixo da mesa, deixando apenas, para contemplação dos
meus olhos, o seu busto de Vitellio, apopletico e gordo.
Tentou dizer algumas palavras, mas os seus labios purpureos tremiam,
deixando apenas fugir um sopro flebil. Cravei os olhos nelle, quiz
sacudil-o, a pouco e pouco, porém, o sopro foi crescendo e já era um
rosnar--a boca descerrou-se, a cabeça enorme tombou para o peito e um
ronco sonoro, que encheu toda a sala, apaziguou o meu espirito. Não
era a apoplexia fulminante, não, não era... Meu tio dormia o somno
cibarico.
O criado do cognac, com um guardanapo ao hombro, andando na ponta
dos pés, veiu annunciar-me em segredo que o banho estava prompto.
Procurei a mala: havia desapparecido. Quiz interrogar, mas já o
homem, arrepanhando um reposteiro, mostrava-me um corredor claramente
alumiado, de paredes luzidas, pintadas a oleo, com medalhões
representando idyllios.
--Por aqui, senhor.
Baixei a cabeça, e, voltando-me para falar ao criado, notei que todo
luxo da sala de jantar desapparecera sob uma treva brusca, onde apenas
restavam dois pingos de luz, e vi um vulto que se esgueirava como uma
visão. O criado soprou-me:
--É ao fundo, senhor.
Agradeci com um gesto, para evitar o rumor das palavras.
Da sala escura vinha, num diapasão formidavel, o ronco do meu generoso
tio que o vinho adormecera.