[Illustração]
PORTO
Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
editores--Rua das Carmelitas, 144
1915
_DO MESMO AUCTOR_
Esphynge, 1 vol. 6$0
Sertão, 1 vol. $60
Agua de Juventa, 1 vol. $70
A bico de penna, 1 vol. $70
Romanceiro, 1 vol. $50
Jardim das Oliveiras, 1 vol. $50
Fabulario, 1 vol. $50
Miragem, romance, 1 vol. $60
Theatro, vol. 1.ᵒ, 1 vol. $80
Theatro, vol. 2.ᵒ $40
Quebranto (Theatro), vol. 4.ᵒ $50
Theatro, vol. 5.ᵒ no prélo
Apologos, 1 vol. $50
Mysterio do Natal, 1 vol. $50
Inverno em flor $70
O Morto, 1 vol. $60
Banzo, 1 vol. $50
A Conquista $70
Rei Negro $80
A Tormenta no prélo
No prélo, a seguir em novas edições:
O Rei Phantasma 1 vol.
O Paraiso 1 vol.
O Turbilhão 1 vol.
A propriedade litteraria e artistica está garantida em todos os paizes
que adheriram á convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de
março de 1911. No Brasil pela lei n.ᵒ 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)
_Ao Revm. padre Ambrosio Coriolano d’Annunciação Louzada, vigario em
Tamanduá, como humilde testemunho de gratidão, pelos severos conselhos
com que fortaleceu o meu espirito e pelos cascudos com que me abriu a
cabeça para que nella entrassem as regras de concordancia e os versos
de Virgilio, offereço este livro._
_Tamanduá, em Minas--Janeiro, 93._
Meu tio,
_Ha neste livro paginas que vos pertencem, porque eu nunca as teria
escripto se a minha Bôa Sorte me não tivesse guiado para o retiro de
ascetismo voluptuoso onde viveis, em beato socego, praticando a moral
divina de Epicuro e cuidando flores; outras ha, e profusas, derivadas
da sabedoria fecunda do dr. Gomes, de quem guardo saudades e conceitos;
outras, finalmente, que seriam dedicadas á Jesuina se o escrupulo não
existisse na moral privada._
_Offereço, porém, as minhas primeiras letras ao padre Coriolano,
porque, sem elle, meu tio amado, eu seria ainda hoje tão bronco como o
Venancio Dias, do rancho de Santa Engracia, ou como o José Taborda, da
cordoaria._
_Outros livros virão, nitidos e pensados; e, dentre elles, escolherei
o mais digno dos vossos merecimentos._
_Não alastro as paginas com dedicatorias: a meu pai, á minha mãi,
nos meus parentes e amigos, vivos e finados, para que se não diga
de mim o que por aqui se propalou a respeito do Brites, que encheu
quatorze folhas da sua these sobre o «cryptococus xantogenico», com
offerecimentos, envois e uma reclame a certa modista da rua d’Ajuda._
_Outros livros virão, meu tio amado._
_Affectuoso_,
Anselmo.
I
Para estar de acôrdo com o horario dos trens deviamos chegar ás oito
horas e alguns minutos á estação, e estou certo de que assim teria
acontecido se não fosse o folgado e paciente atrazo de duas horas e
meia, que tivemos de aturar dentro dos compridos wagons de primeira
classe, nada inferiores ao _carcere duro_.
Desde as quatro da manhan, quando deixei o tecto paterno, sahindo
para a nevoa dos campos frios, até áquella hora, andava meu pobre
corpo aos solavancos, primeiro no dorso nédio da ruana, mais tarde
nos bancos do expresso, tendo por fronteiros dois homens terriveis,
de idéas contrarias--um rotundo, conservador e catholico, saudoso do
monarcha, bramando contra a indifferença do povo, que deixara partir
para o exilio o velho soberano, sem um protesto, sem um tiro ao menos;
o outro, de pêra, esgalgado e nervoso, livre pensador, formidavel
em theorias republicanas, contando que, nos muros da sua casa, na
Januaria, havia despojos de escaramuças contra sebastianistas: chuços,
arcabuzes, facas, fazendo panoplias e cercaduras em volta dos retratos
dos martyres mineiros: e discorria sobre as revoluções, reclamando um
baptismo de sangue, como o de 89, em França, sem o que a republica
nunca chegaria á consolidação perfeita.
O conservador pacato, abrandando o diapasão, atacava o procedimento
dos revolucionarios de Novembro, que haviam banido os altares,
rechassando os santos--a Virgem, a consoladora, a misericordiosissima
Conceição, Mãi de Deus e Amparo dos Afflictos. Podiam ter feito tudo,
mas deixassem a crença de cada um.
--A crença é a republica. A Conceição é a Patria. Qual Deus! Qual
Igreja, meu caro... o tempo dessas coisas passou. Havendo Constituição
e Justiça, para que diabo queremos nós santos? Deixemo-nos de
sentimentalismos piégas!
Veiu á questão o militarismo. O conservador impugnava a farda, queria o
civil. O esgalgado investiu.
--Mas onde encontral-o? Mostre-me um homem capaz de tomar a
responsabilidade do governo... Mostre-me, entre os casacas, um
cidadão á altura de exercer esse cargo. E, escancarando os braços,
escancellando a boca, os olhos esbogalhados: Não ha! Vamos muito bem
assim, não acha o senhor? Era commigo. Encolhi os hombros para fugir á
discussão. Elle tomou de uma botelha e offereceu.
O conservador, com um gesto nobre, rejeitou; eu rejeitei; e uma mocinha
triste, que vinha derreada, a olhar melancolicamente a paisagem, como
se por ali lhe ficassem pedaços do coração, teve um sorriso adoravel,
rejeitando, por sua vez. Seus olhos castanhos, entre grandes cilios,
alumiaram-me, e travámos palestra, em tom subtil e discreto, vindo eu
a saber, pelo cicio dos seus labios, que era professora em Sabará,
na fazenda de um tal Souza Gordo. E disse-me a sua patria--a Italia,
e o seu nome, já celebre no idyllio--Graziella. E eu, a ouvir-lhe as
suaves palavras, via as arvores passarem vertiginosamente, como se
os campos e os montes assustados fugissem diante do comboio rapido.
Emquanto andámos, não lhe percebi um movimento, um olhar que não
fossem do mais candido recato. Lia--um livrinho minusculo, capa de
percaline roxa e letras de ouro. Em Juiz de Fóra, offerecendo-lhe uma
corbelha de figos, aproveitei a sua distracção para surprender o nome
do poeta favorito--Leopardi. Era pessimista com tão angelico sorriso!
Amargo seculo em que as deusas trazem philtros no bolso e seguem a
seita sombria dos desesperados. Era, de certo, a idéa da morte que
lhe punha nos serenos olhos tanta melancolia. Na Barra, porém, tive
uma surpresa--voltando ao wagon, encontrei-a sem luvas, o véusinho
levantado, trincando, com voracidade, uma côxa de frango. Corou ao
ver-me, mas a fome venceu-a; e, até Mendes, fartou-se regaladamente,
escorropichando, por uma calha de papel, a farofia de manteiga e ovo.
Trevas de tunneis, verduras de campos, rampas, viaductos,
desfiladeiros, tudo vencemos em corrida vertiginosa, aos trancos, ás
vezes beirando abysmos, ou rolando sobre pontilhões, por cima d’aguas
encachoeiradas. Passavamos pelas estações num ápice; mal se podiam
ver as luzes dos lampiões e os vultos na platafórma. Quando, atravéz
da tela lucida dum aguaceiro copioso, avistámos os primeiros fogos
da cidade, bonds, carros, todos se puzeram de pé, arranjando malas,
espanando chapéus. O esgalgado respirou, safando o guarda-pó. O
conservador dormia beatamente e foi preciso que o sacudissem para que
despertasse.
--Chegámos, senhor barão.
Empoados, como nos tempos galantes dos Luizes, puzemos pé na platafórma
da estação, claramente alumiada pelas grandes lampadas foscas que
dão ao sitio uma luz de luar, pallida e triste. Dizem que os cães
que ali vão errar, á noite, estacam, levantam o focinho e uivam
lamentosamente. Pierrot seria capaz de enganar-se se não tivesse,
como eu, prevenido o espirito com uma leitura sobre a cidade e as
suas maravilhas. Entretanto, deixando o meu wagon, assoalhado de
cascas de frutas e de queijo, copiosamente cuspinhado, uma variedade
infinita de pontas de cigarros, algumas estripadas pelos pés barbaros e
entorpecidos dos viajantes que sapateavam, despindo o guarda-pó, senti
deslumbramento tal, que tive de fechar os olhos. Se eu sahia de uma
sombra propicia e somnolenta para esse plenilunio de Jabloskoff! Quando
abri os olhos, assombrado, estava entre homens de blusa parda e boné
branco, marcados no peito com algarismos negros, que me empolgavam,
que me berravam numeros e nomes, procurando arrebatar-me das mãos a
bengala e a maleta. Tive um assomo de energia e repelli com um murro um
«12» que se aferrara a mim, teimosamente, propondo-se. O repellão e o
socco valeram-me algumas palavras más, que resolvi deixar sem resposta
para tranquillidade de todos. Os homens abalaram em tumulto, correram
a outro ponto. Quando vi perdidas na multidão as blusas pardas,
resfolguei e, corajosamente, deitei a caminho, á luz lactescente
das lampadas, bem melhores do que as da minha villa, pobre terra de
barbaros, alumiada ainda pelas estrellas de Deus e pelas candeias de
colza que a intendencia manda pendurar em postes, para que as estradas
tranquillas não fiquem de todo abandonadas á treva, propicia aos
duendes e aos ladrões de gallinhas.
Quasi á porta alguem, debruçando-se amorosamente sobre o meu
hombro, segredou-me palavras doces, mas tão intimas, tão leves,
que me passaram, ficando-me apenas, no lobulo da orelha, o calor
acariciante do sopro que as trouxera. O que pensei em um segundo!...
Quantos sonhos idyllicos passaram pelo meu espirito!... Que vasta e
interessante aventura imaginou minh’alma nesse tempo rapido!... «a
mocinha de Italia a dar-me o seu endereço, ou outra linda mulher...»
Mas uma idéa feriu-me violentamente--o conto do vigario. Levei a mão
ao relogio e voltei-me rapidamente. Era um latagão de barba ruiva e
oculos: tinha a cabeça núa, uma grande fronte tostada, com um calombo
ao meio, purpureo e estriado. Curvou-se com a cartola nos joelhos, um
sorriso affavel no grande rosto picado de bexigas, e balbuciou, com
enternecimento, como se effectivamente dissesse coisas ternas:
--Quer o patrão um carro fechado?
Tive impetos de o repellir, mas lembrei-me de que, para chegar ao meu
destino, era mais prudente confiar-me ás bestas de um cocheiro do que á
providencia do acaso em horas tão adiantadas.
E, aqui na intimidade inviolavel deste canhenho, confesso que admirei
o homem vigilante que sahira ao meu encontro com tanta affabilidade,
offerecendo-se para conduzir-me á casa. Calculei que toda a gente
devia estar enfronhada no morno leito, gozando a delicia incomparavel
do somno, nessa noite fresca e de chuva. Além, nesse eremiterio onde
repousa o meu umbigo, ás dez horas, a não ser em casa de Marianno
Gomes, onde se cartêa impudentemente o lansquenet, com pequenos
intervallos de maledicencia e gole, toda a povoação, beatamente ceiada
e rezada, dorme. De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no
pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa--é algum jogador, que
se recolhe despojado e tropego, ou o sanctissimo padre Coriolano,
que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo
arrependimento do peccado, que é uma chaga terrivel que a gente cura
com as drogas da philosophia ou com a boa e sadia camponia, que, mais
do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraiso, por um caminho
bem differente desse que a igreja conspicua e austera manda que se
trilhe--ninguem mais.
Ás dez horas o somno parece cahir do céu sobre todas as cabeças justas.
E não é só o homem que dorme no leito antigo, largo e raso, de columnas
torcidas, com flores e folhagens classicas, forrado d’alvos lençóes,
que trescalam como moutas de hervas de cheiro ou na palha secca e
crepitante, entre os milhos, com o cão aos pés e os grillos cantando
perto; é o gado forte e é a ovelha mansa, é a ave meiga, é a mesma
arvore, é a mesma agua, é a mesma estrella, é o mesmo luar porque, se a
agua murmura e se as folhas sussurram, bem se póde dizer que são vozes
do sonho das coisas. Velam apenas o caboré piando no tronco secco
ou cruzando os ermos e as feras bravas que descem para velar, ou a
farandulagem que assalta gallinheiros ou outros sitios de maior recato
e perigo.
Imaginem o meu espanto, a minha surpresa quando o cocheiro, fazendo
uma zumbaia e rastejando um gesto para que eu passasse, deixou-me ver
uma fila de carros molhados, reluzentes, e, em todas as boléas, sob
guardas-chuva lustrosos, braços que acenavam para mim, num delirio, e
gente, gente a valer, como eu jámais vira na villa onde passei o grosso
da minha vida, nem mesmo nos dias de feira. Imaginem o pasmo que me
tomou!
Deixei-me levar pelo cocheiro, que correu a abrir a portinhola, vindo
buscar-me debaixo do seu guarda-chuva, amplo como uma tenda. Quando
afundei nas almofadas atirando ao homem o numero da casa de meu tio,
na praia do Russell, sahiu-me dos labios tremulos esta exclamação
profana, mas que exprime admiravel e eloquentemente o assombro dos meus
olhos, diante de tanto guarda-chuva, de tanta luz, sem falar no rumor
que me ensurdecia:
--Com seiscentos diabos! isto é que é terra! E com força puxei a
portinhola. O ruivo cacarejou ás bestas e rodámos.
No toldo a chuva torrencial rufava.