Meu amigo, n'outro qualquer paiz, uma academia, cujos membros fossem

capazes de escrever opusculos destes, dissolvia-se para se reconstruir

com outros elementos, aproveitando só, e com grandes cautellas, o pouco

que ahi houvesse de aproveitar. A nossa Academia, especie de congregação

bernarda que come e dorme, acodem-lhe ás vezes á pelle estes tumores

litterarios, estas secreções eruditas, que, longe de a matarem, lhe

fortificam a compleição. Deus lhe dê uma longa vida.

DO ESTADO

DAS

CLASSES SERVAS NA PENINSULA

DESDE O VIII ATÉ O XII SECULO

1858

I

Por mais que a tradição de antigas malquerenças e o ciume da nossa

autonomia nos affaste dos outros povos da Hespanha, dos quaes os eventos

politicos fizeram, mais ou menos forçadamente, uma só nação, é certo

que, apesar de todas as repugnancias entre portugueses e hespanhoes, nas

opiniões, nos costumes, nas tendencias moraes de ambas as nações se está

revelando a cada passo uma origem commum. Postoque cada uma dellas tenha

defeitos especiaes, como os ha de provincia para provincia, dão-se

alguns tão nossos e tão hespanhoes, que de per si, sem outros

adminiculos, provam de sobejo essa communidade de origem.

Esta reflexão occorreu-me naturalmente ao começar um escripto, em que

tenho de dizer poucas palavras ácêrca do homem a quem elle é dirigido.

Ha na Academia da Historia, de Madrid, um modesto empregado, envolvido

na obscuridade da sua situação, sem cargos publicos, sem condecorações,

sem pingues sinecuras, e de que talvez se podesse dizer--sem pão--se a

Academia não o houvera encarregado das suas collecções litterarias. Este

empregado modesto, este homem socialmente obscuro, é todavia um dos

maiores eruditos da Hespanha, um dos que mais profundamente e com mais

san consciencia (dote raro nestes nossos tempos) tem cavado na rica e

tão pouco explorada mina das antigas instituições e costumes da

Peninsula, isto é, do que na historia della ha mais serio, mais

importante e mais difficil d'estudar. Falo de Thomás Muñoz y Romero, do

auctor da _Colleccion de Fueros Municipales_, obra notavel, que, sendo

de um homem só, honraria uma corporação litteraria, que a houvesse

emprehendido e executado. E todavia, esse livro importante foi

interrompido, segundo me affirmam, por falta de protecção; e Muñoz y

Romero ainda nada mais é hoje do que era ha dez annos, quando publicou

aquelle seu primeiro trabalho, o modesto official da bibliotheca da

Academia da Historia!

É o que provavelmente succederia ao livro e ao homem nesta terra, neste

fragmento da Peninsula chamado Portugal, irmão gemeo desse maior

fragmento, que chamam especialmente a Hespanha.

Na _Revista Española de Ambos-Mundos_, nos numeros correspondentes a

novembro de 1854, appareceram successivamente dous artigos, assignados

por Muñoz y Romero, sobre o estado das pessoas nos reinos de Asturias e

Leão nos primeiros seculos posteriores á invasão dos Arabes. Escriptos

como aquelles, manifestações tão brilhantes de verdadeira sciencia, não

são frequentes em publicações periodicas, ainda além dos Pirenéus. Li-os

com avidez e interesse sempre crescentes. Ahi encontrei que aprender, e

sobretudo pude emfim assentar as minhas idéas ácêrca da origem, ou antes

da denominação dos malados e das maladias, ponto em que a propria

opinião que adoptara no terceiro volume da Historia de Portugal não me

satisfazia completamente. Vi, porém, que discordavamos n'uma questão

capital d'historia; no modo de apreciar o estado das classes servis nas

Asturias e Leão durante os seculos immediatos á reacção christan, e tive

o desgosto de não poder, apesar de todas as considerações do sr. Muñoz,

abandonar a propria opinião para adoptar a sua. Ou seja por um modo

errado de interpretar os antigos monumentos, a que o meu espirito se

tenha affeito, ou porque a razão esteja do meu lado, é certo que nenhum

dos muitos documentos que o sr. Muñoz oppõe ás minhas opiniões me

pareceu contrariá-las: alguns, pareceu-me que até serviam para as

corroborar. Desde esse momento entendi que não sería absolutamente

inutil ao progresso dos estudos historicos da Peninsula expôr as duvidas

e reflexões que me occorriam sobre a materia, deixando depois aos homens

competentes comparar os dous systemas e escolher entre elles.

Quando pensava em realisar este designio, sobrevieram acontecimentos que

durante quasi dous annos me forçaram a abster-me dos trabalhos

historicos. Affastado por tão largo tempo dos meus habituaes estudos,

se, á custa de serios desgostos, aprendi muito a respeito dos homens e

das cousas do meu tempo e do meu paiz, esqueci tambem muito do que sabía

ou cria saber ácêrca dos homens e das cousas do passado. Aberto para mim

de novo o caminho dos trabalhos historicos pela força da opinião em

lucta com a immoralidade do poder, renovei esses abandonados estudos,

mas renovei-os como um dever de consciencia, como um serviço que me

exigem, como o cumprimento de um contracto tacito com o publico. O amor,

diria antes a religião ardente, com que cultivava a sciencia da

historia, perdi-o no campo de batalha. Escrever é hoje para mim o mesmo

que ser vereador, jurado, ou membro de um conselho de districto: é um

encargo e mais nada. No horisonte das minhas ambições, e Deus sabe se

falo sincero, só vejo o dia em que possa depôr a penna, e sumir-me em

completa obscuridade. Será esse o melhor da minha vida. Na situação

d'animo em que por tanto tempo me achei, a questão dos servos na

Peninsula durante os seculos medios esqueceu-me completamente. Veio

recordar-m'a, porêm, uma circumstancia casual. Tendo de examinar um

volume da _Revue Historique du Droit Français et Étranger_, passou-me

pelos olhos um artigo de M. de Rozière (julho e agosto de 1855) sobre o

escripto do sr. Muñoz, escripto que o illustre professor, a quem devo

mais de uma prova de benevolencia, resume com a sua habitual lucidez, e

cuja doutrina acceita como a mais verosimil. A doutrina, porêm,

expressamente combatida pelo auctor do opusculo sobre o estado das

pessoas nos reinos de Asturias e Leão, nos primeiros seculos depois da

invasão arabe, é unicamente a minha. É de mim que elle declara discordar

completamente sobre a natureza da servidão na monarchia néo-gothica

desde o VIII até o XII seculo. A verosimilhança da sua opinião torna

portanto menos provavel para o illustre professor da _École des Chartes_

a doutrina que estabeleci. Se a questão pendesse tão sómente entre mim e

o sr. Muñoz, demorar, ou, até, pospôr completamente a defesa da minha

theoria ácêrca da servidão n'aquelle periodo não teria grande

inconveniente. Os documentos invocados pelo sr. Muñoz e as suas

ponderações, e bem assim os documentos que eu citei e as conclusões que

delles deduzi estão ao alcance dos homens de letras da Peninsula que se

dedicam aos trabalhos historicos; e os archivos de Portugal e de

Hespanha encerram centenares de outros monumentos ainda não estudados,

que poderiam lançar nova luz sobre o assumpto. Nada mais facil, até, do

que conduzirem-nos novas investigações, a mim ou ao sr. Muñoz, a

abandonar o proprio systema, porque ambos buscamos sinceramente a

verdade. Mas desde que a materia do debate, transpondo os Pirenéus, foi

exposta a uma luz que não creio verdadeira, por um homem como Mr. de

Rozière, e a um publico privado dos meios de apreciar por si proprio os

documentos e raciocinios em que se fundam as duas opiniões oppostas,

entendo que é do meu dever publicar as observações que se me offerecem

relendo os artigos do sr. Muñoz, observações que, feitas ha dous annos,

quando estas materias eram quasi a unica occupação do meu espirito,

seriam sem duvida mais efficazes para a defesa de um systema que ainda

hoje me parece ser o que melhor se estriba nos antigos documentos, e que

ao mesmo tempo melhor os explica.

Antes de tudo cumpre determinar bem a materia controversa e

circumscrevê-la. Tanto eu como o sr. Muñoz falámos da servidão no

periodo em que por successivas transformações o homem de trabalho, o

homem escravo, o homem _cousa_ dos romanos chegou a ser a pessoa civil,

a pessoa livre, o cidadão mais ou menos humilde dos tempos modernos.

Deixando de parte maiores ou menores differenças de opinião entre nós

quanto aos tempos da monarchia gothica, ou que se possam deduzir das

nossas palavras quanto aos tres ultimos seculos da idade média,

limitar-me-hei a expôr o que contradictoriamente entendemos ácerca da

situação das classes servis do VIII até o XII seculo. Escrevendo um

artigo e não um livro, procurarei affastar todas as questões secundarias

que se ligam a esse grande facto da transformação das classes

trabalhadoras, e abstrahindo das causas e consequencias da situação em

que se acharam os servos depois da invasão arabe e da reacção asturiana

(successos coevos e quasi simultaneos) em tudo o que não fôr

indispensavel para a clareza da materia, reduzirei o discurso ao que a

razão persuade e os monumentos confirmam ácerca do facto geral da

transformação gradativa da população serva naquelle periodo de quatro

para cinco seculos.

II

O estudo reflectido dos historiadores arabes e dos monumentos christãos

da épocha da conquista e do dominio sarraceno tem feito sentir que essa

conquista e esse dominio extranho foram, na historia das invasões e da

sujeição de raça a raça, de povo a povo, entre os factos de semelhante

ordem, um dos que custaram á humanidade menos tyrannias, menos lagrymas

e menos sangue. Tem-se dado o devido desconto ás exaggerações das

chronicas e á linguagem de certos escriptores christãos contemporaneos,

aonde auctores mais modernos foram buscar os lineamentos dos seus

quadros de terror, quando ahi mesmo se encontram as provas de que os

factos não correspondem ás expressões genericas com que é descripto como

um dos mais crueis flagellos o predominio dos sarracenos na Peninsula.

Se juncto ao Guadalete se desmoronou o imperio dos godos, a sociedade

wisigothica ficou. As provincias ou as cidades que acceitaram sem

resistencia o jugo dos novos senhores não tiveram que padecer senão as

consequencias dos grandes movimentos militares sobre qualquer

territorio, as violencias accidentaes e individuaes durante a lucta. Em

geral, a ordem das relações civis, e uma parte das publicas continuam a

subsistir do mesmo modo que d'antes. O tributo e o exercicio das altas

funcções da administração do Estado é que mudam. Nas provincias

meridionaes da Hespanha fica, até, por algum tempo um simulachro do

imperio gothico, o reino de Theodemiro, tributario mas livre, que se

incorpora obscuramente depois nos dominios do khalifa. No meu livro

busquei desenhar com fidelidade essa nova situação; dar aos successos o

seu verdadeiro valor, estribando-me nos monumentos coevos, e fazer

sobresair a população mosarabe (godo-romana), tão esquecida em geral

pelos historiadores.

Entre os mosarabes a situação dos servos devia ser a mesma que entre os

godos antes da conquista. Não é provavel que esta formula da sociedade

civil se alterasse quando todas as outras se mantinham. Nessa parte a

conquista arabe não trouxe o que trazem sempre os grandes abalos

politicos, um progresso de civilisação.

Succedeu o mesmo com a reacção asturiana? Podia succeder? Pús este

problema a mim mesmo, e resolvi-o negativamente; porque a razão e os

documentos me forçavam a essa solução negativa.

O levantamento de Pelaio não chegou a ser uma revolução: foi uma

resistencia: resistencia feliz nos primeiros passos e que não tardou a

converter-se n'um perigo serio para o dominio mussulmano. Dentro de

poucos annos a reacção obscura de um punhado de soldados godos fundava

uma monarchia christan e independente, que se contrapunha ao islamismo

triumphante, que estabelecia fronteiras, embora variaveis, e que tomava

ou fundava logares fortes, onde os novos senhores da Hespanha

encontravam dura repulsa ás suas diligencias para suffocar esta perigosa

entidade politica. Da desproporção das forças entre as duas potencias

mussulmana e christan, se o nome de potencia póde dar-se aos estados de

Pelaio e dos seus immediatos successores, resultava necessariamente um

facto. Todo o homem válido devia ser chamado ás armas nas Asturias, mas

de um modo em que interviesse a espontaneidade individual. Não alcanço

sequer como podesse ser de outro modo. A servidão dos godos; os senhores

levando os servos armados ao combate, sem crença, sem ardor, sem

interesses moraes ou materiaes que defender, como nos tempos gothicos,

sería um facto que não sei como poderia dar em resultado a fundação e

engrandecimento da monarchia de Oviedo.

Na verdade, com o tempo, as instituições wisigothicas foram-se

restaurando á medida que se engrandecia o novo reino, que uma parte do

territorio deixava de ser perenne campo de batalha, e que a segurança,

maior ou menor, favorecia o maior ou menor desenvolvimento da

agricultura e de uma especie de industria. Uma parte da população

mosarabe, ou pelas migrações tanto forçadas como espontaneas, ou pela

aggregação successiva de territorios habitados por ella, incorporava-se

gradualmente na sociedade néo-gothica, e, trazendo comsigo a

jurisprudencia antiga, que tinha conservado intacta sob o jugo

sarraceno, devia exercer naquelle sentido uma influencia, digamos assim,

reaccionaria. Mas o que não podia era destruir a força das

circumstancias; o que não podia, n'uma sociedade em cuja origem, em cujo

amago estava a resistencia, a espontaneidade, a liberdade, era

restabelecer a servidão pessoal antiga em toda a sua plenitude.

Supponhâmos um nobre, e até um simples _possessor_, acolhendo-se ás

Asturias, a Oviedo, nos tempos de Pelaio ou dos seus immediatos

successores. Como arrastará elle comsigo os servos que o rodeiam?

Invocará a força publica, a auctoridade mussulmana para os constranger a

acompanharem-no? Sería absurda a hypothese. Esse nobre, ou esse

_possessor_ ha-de descer á persuasão; ha-de falar de manumissão, ha-de

approximar de si o homem envilecido, ha-de recorrer aos afagos, ás

promessas. Ficar onde se acha é para o servo a liberdade, quando o

senhor abandona o lar domestico. Devemos acaso crer que nelle estão

inteiramente mortos todos os instinctos humanos?

Supponhâmos a conquista; a accessão de territorio. O mosarabe senhor de

servos, que se incorpora por esse facto na sociedade ovetense, acha

actuando energicamente nesta o sentimento da liberdade e da

espontaneidade individuaes, as classes servis armadas, os antigos laços

hierarchicos quebrados em grande parte. Esse facto não influirá em nada

nas suas relações com os proprios servos? Depois, além, pouco além,

estão os castellos sarracenos, a administração mussulmana. Se elle não

affrouxar os rigores da servidão; se não ligar a si o homem de trabalho

por algum interesse, por algum motivo racional, será difficil que esse

homem o abandone, e que conquiste pela fuga, e talvez pela mudança de

fé, a sua emancipação?

Se os documentos nos não provassem que a servidão de gleba fora o passo

immediato dado pelas classes infimas para a liberdade, a razão, longe de

nos persuadir que a servidão se mantivera em Oviedo e Leão como nos

tempos gothicos, far-nos-hia antes acreditar que ella fora substituida

pelo colonato espontaneo. O colonato, eis o grande meio de ligar o homem

de trabalho á terra, por este instincto, por este amor quasi connubial,

que une a mãe commum ao individuo que a faz fructificar. Da servidão

gothica, porém, para a adscripção havia um passo gigante, e as classes

servis eram assás rudes para não perceberem toda a differença do

colonato á adscripção, porque essas differenças são pela maior parte de

ordem moral. Na practica, materialmente, sobretudo em tempos de bruteza

e violencia, n'uma sociedade perturbada e vacillante, as distincções

entre a posse e o uso da terra pelo colonato ou pela adscripção não

podiam ser demasiado sensiveis. O sentimento, a aspiração do individuo

que cultivou o solo, que construiu a choupana, que plantou a arvore é

principalmente o não separar-se do campo, da choupana, da arvore. A este

sentimento correspondem ambas as formulas de consorcio entre o homem e a

terra, mais ou menos imperfeitamente, não tanto em virtude das condições

theoricas de cada uma das duas formulas, como do estado mais ou menos

civilisado da épocha em que se applicam. Acaso a historia não nos

subministra provas de oppressões exercidas sobre colonos espontaneos, e

consagradas até por contractos, tão barbaras como as que padeciam os

adstrictos á gleba, quando já a adscripção do homem tinha cedido o campo

á servidão exclusiva da terra?

Assim comprehende-se como a transformação do servo em adscripto podia

resultar da situação em que se achou a monarchia ovetense-leonesa no

seculo VIII, em vez de resultar della o colonato livre, que á primeira

vista a razão nos pinta como mais provavel, e que de feito o era, se

abstrahirmos das circumstancias sociaes para só attendermos ás

politicas.

Mr. de Rozière, expondo o debate entre mim e o sr. Muñoz, diz: «Esta

transformação (a da servidão para a adscripção) tinha-se realisado de

todo quando os christãos se refugiaram nas Asturias sob o mando de

Pelaio? Não o crê o sr. Muñoz, e combate, neste ponto, a opinião dos

historiadores de maior credito. Os exemplos, em que esteia o seu pensar,

dão a este um alto gráu de verosimilhança. Nelles se vêem escravos

destinados ao serviço domestico; uns são cozinheiros, padeiros,

sapateiros ou alfaiates; outros empregam-se no commercio e servem nas

lojas de venda. Nada ha fixo nas suas funcções, que dependem do capricho

do dono. A sorte dos escravos agricolas não é mais segura: uns

trocam-nos por cavalgaduras; outros entregam-nos aos mussulmanos em

resgate de captivos: todos podem ser separados da propria familia e do

campo que cultivaram».

N'esta exposição ha uma inexacção chronologica: a doutrina que eu

estabeleci não é que a adscripção se tinha já substituido á servidão

quando occorreu o alevantamento de Pelaio: é que este alevantamento e a

fundação do reino de Oviedo trouxeram de necessidade essa transformação.

Sejam quaes forem a differença ou a semelhança entre o meu modo de

pensar e o sentir do sr. Muñoz sobre a servidão gothica, não é ahi que

está a profunda divergencia entre nós. A divergencia completa refere-se

aos tempos posteriores á invasão dos arabes. É, até, o que se deduz do

titulo do opusculo do sr. Muñoz: é a essa épocha que verdadeiramente se

refere o trabalho publicado na _Revista de Ambos-Mundos_. Eis as suas

palavras: «Um escriptor... do vizinho reino de Portugal estabelece a

doutrina de que a servidão se distinguia, _na épocha de que tractamos_,

em estar vinculada ao solo, não admittindo outra classe de servos senão

a dos adscriptos á gleba. A seu vêr não existia nenhuma outra servidão

pessoal senão a dos arabes captivos na guerra, o que cremos não ser

conforme com o que o mesmo escriptor diz n'outra parte, isto é, que o

serviço domestico dos senhores e nobres parece ter sido desempenhado,

sob o dominio leonês, por membros das familias adscriptas, e que este

serviço se converteu n'um acto espontaneo no seculo XIII. Se os homens e

familias podiam contra sua vontade ser separados da gleba, onde se

achavam estabelecidos, para o serviço domestico, não podiam chamar-se

adscriptos, porque este nome traz comsigo a idéa de inamovibilidade do

colono do torrão que cultiva. Além d'isso, a sua opinião não concorda

com os monumentos da nossa historia.»

N'outra parte do opusculo do sr. Muñoz leem-se as seguintes passagens,

em que elle estabelece positivamente a sua theoria relativa á servidão

dos tempos neo-gothicos. «A condição dos servos era indubitavelmente a

de cousas. Podiam ser vendidos ou dados como um animal domestico, como

uma alfaia... Esta opinião, que sustentámos n'uma obra publicada ha

annos, foi impugnada pelo sr. Herculano n'uma extensa nota sobre o

caracter da servidão na monarchia néo-gothica... Na monarchia

néo-gothica continuaram os servos a ser o mesmo que na dos godos... E se

em Asturias e em Leão se encontram vestigios de servidão diversa da dos

adscriptos, poderão julgá-lo os que examinarem os documentos que já

publicámos e os que damos agora á luz.»

Effectivamente aos documentos impressos na _Colleccion de Fueros

Municipales_, o sr. Muñoz ajuncta muitos outros tendentes, segundo crê,

a corroborar a sua doutrina. Que antes de entrar na apreciação delles,

me seja permittido fazer breves reflexões.

O sr. Muñoz, limitando o debate aos textos dos documentos pospôs os

factos sociaes e politicos de que deduzi, digâmos assim _à priorì_, a

necessidade de uma profunda alteração das classes servis nas origens da

sociedade néo-gothica. Os factos podem não ser como eu os expús, ou as

consequencias que delles tirei ser inexactas, ou finalmente essas

consequencias não ter tido força bastante para mudar a situação

d'aquellas classes: podem peccar de muitos modos as largas observações

que fiz a este proposito no terceiro volume da Historia de Portugal, e

que tentei resumir em poucos periodos deste modesto trabalho. Mas seria

licito deixar ou esquecidas ou inconcussas essas ponderações? O methodo

que segui foi estudar os acontecimentos, examinar qual devia ser a sua

influencia na condição dos servos, e verificar se os documentos

confirmavam _à posteriori_ as illações deduzidas dos mesmos

acontecimentos. Bem sei que, prevenido por essas illações, era possivel,

era até facil, se quizerem, apreciar preoccupadamente os documentos; não

poderia, porém, o sr. Muñoz, interpretando-os sem attender aos factos

geraes, ás consequencias naturaes dos successos historicos, ás leis

moraes que regem as phases das sociedades, dar-lhes uma significação

diversa da verdadeira? Foi, se não me engano, o que de feito lhe

succedeu.

É essa justamente uma das difficuldades capitaes dos trabalhos

historicos relativos á idade media. O historiador tem de attender

constantemente á acção e á reacção mutuas dos factos politicos e dos

factos sociaes uns sobre os outros para d'ahi deduzir factos

desconhecidos; tem de substituir por illações fundadas nas leis que

actuam nas sociedades humanas, independentes da vontade dellas, o

silencio tantas vezes inopportuno dos monumentos. Quando estes existem e

são genuinos, claros e precisos, sem duvida constituem o guia mais

seguro para determinar os factos, e se as illações que tirámos os

contradizem, é necessario confessar que os principios eram inapplicaveis

á hypothese, ou que se applicaram mal. Mas, abstrahindo da questão de

genuinidade, são a clareza e a precisão qualidades vulgares nos

documentos dessas épochas tenebrosas? O sr. Muñoz sabe tão bem como eu

quão raros são os que achamos com taes condições; quantos annos, quantas

vigilias é necessario applicar ao estudo dessas fontes historicas para

nos habituarmos a comprehendê-las. Á difficuldade, que resulta das

referencias a cousas vulgares no tempo em que o documento se redigiu, e

que actualmente são desconhecidas ou conhecidas imperfeitamente,

ajuncta-se a lingua barbara, ás vezes horrivelmente barbara, que nelles

se empregava, mistura monstruosa de latim de todas as epochas com uma

linguagem vulgar que hoje se pode reputar morta, tão transformada se

acha nas linguas modernas da Peninsula: accresce a isto a differença

profunda entre os homens daquelle tempo e os do nosso, no modo de

conceber e exprimir as idéas; ajuncta-se a tendencia, quasi invencivel,

para vermos as cousas da idade media através do prisma dos habitos, das

opiniões, dos costumes, e direi, até, das preoccupações actuaes.

Subjugar esta tendencia é difficil; porque presuppoem um esforço de

abstracção, de que não são capazes ás vezes os mais robustos espiritos.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 11 / 16 段