perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos
isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento,
que o digno academico fez, é exactamente a contraria da que elle
desejava. Se assim é, torna-se impossivel achar jámais uma passagem de
auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora
até aqui não tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas
desde que a palavra ourique (tirei-lhe o _O_ maiusculo, não pensem que
teimo em fazê-la nome proprio) significa só _adversidade_ ou
_infortunio_, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no
fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtéjo é um facto provado
pelos testimunhos que eu colligi; o que não está provado, nem se ha de
provar nunca, é que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor
arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de
Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do _campo de
Ourique_; mas como o auctor do opusculo não consente que esse pobre _o_
tome as dimensões de letra maiuscula, qualquer passagem que appareça ha
de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: «Houve em 1139 um
combate entre os moslems e os infieis _no campo da adversidade ou do
infortunio_». Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e
consequentes, houve muitos recontros entre os christãos e os
mussulmanos, segue-se que não saberemos a que conflicto allude o auctor
arabe; porque todos os campos de combate são de adversidade ou
infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este
modo de defender a importancia da batalha de Ourique é galantissimo.
O que, porém, é verdadeiramente academico e digno do pincel de Molière é
o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura ácerca da
etymologia de Ourique. «É bem clara--diz elle--_ainda para os que não
sabem arabe_, a nenhuma analogia que se nota _com o ouvido_ entre
_orique_ e _arique_». Agora, quer o meu amigo saber com que palavra
arabe _orique_ se parece muito? É com _araka_. Isto não precisa de
commentario. Nas contendas dos nossos rapazes ácerca da Stoltz e da
Novello, quem devia dar a sentença definitiva era o illustre arabista.
Proponham a questão á Academia.
Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo
paragrapho. É uma novidade que escapou a todos os etymologistas e
ethnographos. Na translação das palavras de umas linguas para as outras,
ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta
da ignorancia das multidões, que são quem ordinariamente faz essas
adopções de termos peregrinos. As proprias transformações das linguas
são assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas
da Europa occidental. Nestas mudanças e adopções não ha letra que não
possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para não o
ignorar. Agora ouça o meu amigo um mysterio da lingua arabe: «Moura--diz
o opusculo--foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo _araka_, cuja
primeira letra radical, que é um _alif, não soffre a conversão_ para a
letra _o_ nas linguas europeas». Isto quer dizer que aos rudes
portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras,
quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes
caíam nas unhas, era prohibido tocar no _alif_, especie de
_noli-me-tangere_ arabico. Certamente, meu amigo, no alcorão ha uma sura
intitulada «_Dos escorchamentos etymologicos_» onde o propheta diz:
«Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra _alif_ para della
engenhar um dos seus maldictos _ós_, vai preso». Foram peccados meus que
me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair
por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo
sarraceno.
Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como
isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de
sciencias moraes e bellas-letras, elle entenderá assim melhor a phrase);
vem uma longa chicana sobre as palavras _fossado_, _correria_,
_entrada_, e não sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudição
pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado á expedição de Affonso
I em 1139, porque todas as etymologias do mundo não podem fazer com que
uma cousa deixe de ser o que é. O fossado era uma expedição que se fazia
em regra todos os annos no começo do verão ás terras inimigas:
questionar sobre isto não sería mais do que mostrar-se profundamente
ignorante das nossas cousas antigas. _Correria_ é um nome que cabe ao
fossado tão bem como _expedição_; porque correria é uma especie do
genero expedição, mais nada. Quem faz uma expedição, fossado, ou
correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcorão ou a
Academia não mandarem o contrario) e por consequencia faz uma _entrada_.
Não é uma miseria, além disso, affirmar-se n'um papel que tem a
pretensão de ser cousa séria, que eu me contradigo, porque, chamando
correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a idéa de que os
mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o
passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se
ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos não podiam
precaver-se? Que resposta séria se póde dar a isto? Fique-se entendendo
que quando um paiz é invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar
como carneiros e não se unem para se defenderem, ou que os soldados que
fazem correrias, não andam, mas voam, ou vão em aerostatos descer aonde
e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de
Ourique não houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas
almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem, é cousa tão absurda,
quanto é certo que essa expedição importava uma longa marcha de
cincoenta leguas (que tantas irão de Coimbra ao campo de Ourique) quasi
toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos,
Ourique ficava _no coração das terras mussulmanas_. Qualquer cabo de
esquadra sabe que difficuldades se offerecem á marcha de tropas, embora
disciplinadas (como de certo não eram as de Affonso I) atravez de um
paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O
principe português deixava, além disso, na sua retaguarda, por um e por
outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos,
taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a
volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim,
meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o
fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos,
embora não tivesse as dimensões que lhe attribuiram depois, foi ou não
foi um acto de bastante ousadia.
De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho
que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as
minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo _derrota_ por _destroço_
ou _desbarato_ (dos sarracenos em Ourique). Não escrevi o meu livro para
se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico português, e
por isso na sua lingua, ao menos até onde eu a sabía.
Vamos á questão principal. Para a tractar não me parece que fosse
necessario accumular previamente tanta inexacção e tanto desproposito.
Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos
transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio ácerca da
batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposição
_contraria_, isto é, que nesses diversos escriptores arabes se
encontram, não só vestigios della, mas tambem a sua _descripção_, e as
suas _consequencias terriveis_.
Algum de nós, pois, engana o publico; algum de nós commette uma acção
indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta á verdade. Eu
consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio
mussulmano na Peninsula, e que estão traduzidos. Era essa unicamente a
minha obrigação, porque não sei arabe. O auctor do opusculo _devia_
tê-los visto antes de escrever, e _podia_ ter lido outros, porque diz
que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros
comparados com os monumentos christãos, e o auctor achasse que esses
não-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era
preferivel ao delles e ao dos monumentos christãos, sendo accordes uns
com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa
de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa
concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda
no seculo XII ou nos começos do XIII. Das tres fontes historicas resulta
ou não resulta o que eu disse? Resulta ou não resulta, que antes de
julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo
as tropas que pôde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christãos?
É verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou _de abril a setembro
ou outubro_[69]? É verdade que os seus defensores pediram debalde
soccorro a Tachfin, _que se achava então em Africa_? São, portanto, bem
deduzidas as minhas inferencias de que é absurdo imaginar que havia
trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito
do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso
Henriques, e não os havia para descercarem uma praça daquella
importancia? É para responder negativamente a estas perguntas de um modo
tão categorico como eu as faço, que desafio o auctor do opusculo
sarraceno.
Ao que se colhe dos monumentos christãos e mussulmanos coevos ou quasi
coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porém, oppôr o
_digno_ academico? Vejamos:
Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, _que viveu no principio do seculo_
XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da
epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou
transcrever, porque gósto de apresentar o corpo de delicto:
«E dizem alguns dos sabios precedentes _sobre_ o governo da Andaluzia
(_sic_) que ella muito se engrandeceu: _e na verdade conquistou com boa
posse_ (_sic_) muitos dos logares _os_ (_sic_) mais notaveis: e foi isto
depois que l'Enrick _derrotou_ os mussulmanos; (_sic_) não persistiram
estes depois disso no paiz senão quando obravam pacificamente; e _por
isso_ (_sic_) ficaram os christãos neste paiz senhores de suas terras e
de suas riquezas (_sic_), (_sic_), (_sic_).»
O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que
até certo ponto simula lingua portuguesa, ha, _não só claros vestigios_
da batalha de Ourique, mas tambem a _descripção della e das suas
consequencias_. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes
antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na
Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns
daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes
que eu não soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia
e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel
achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opiniões
aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo
XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi vê em meio-mouro.
Realmente a cousa é séria, sobretudo exornada com as erudições e
commentarios do traductor, a quem Deus dê alguma inclinação mais
proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos
viajantes marroquinos.
Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a
l'Enrik (que é possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos
escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no
principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender
antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra
_ulmá-i_ para significarem os _seus_ historiadores. Vamos por partes. Se
o sr. Hamed escreveu _sabios precedentes_, é porque já tinha dicto quem
elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertação ácerca da palavra
_ulmá-i_, não seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o
traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah
traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as
notas de sr. Gayangos á versão de Al-Makkari, notas preciosas como fonte
de erudição arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para
sabermos que importancia deveriamos dar aos _sabios precedentes_ como
auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava.
Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem
vindo a Hespanha e repetissem o que por cá tivessem ouvido ácerca do
recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos
antes, provariam tanto a favor della como a _precedente_ traducção prova
que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa
lingua. Suppondo, porém, que Hamed se refira no principio do periodo a
historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o
que é certo é que a phrase relativa a l'Enrik não é dos taes _sabios
precedentes_, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe
bastante da lingua franca para ver que desde as palavras «_e na
verdade_» não são os _sabios precedentes_, mas sim o proprio Hamed, em
corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu
testimunho o dicto delles, se é possivel perceber aquelle _imbroglio_
que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior é que o proprio
texto está provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a
facto algum especial, se refere em geral ás victorias e conquistas de
Affonso I, (se é que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que
eu particularisei com a miudeza e exacção, a que os _sabios
precedentes_, os _ulmá-i_ da nossa terra, não tinham chegado. Se Hamed
se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik,
tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as
consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como já disse,
Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de
terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtéjo,
ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabeça ao jugo christão.
Aqui tem o bom redactor da _Semana_ o que é e o que vale o papel da
tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos
monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis. É o
dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se
fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que
terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio é ás
vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias!
O famoso texto do viajante marroquino é reforçado com um contraforte
tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do
uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante
passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o
texto _inedito_ de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe
á luz do dia:
«E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139)
desbaratou o general Taxefin as multidões dos christãos _nos campos de
Attibbat_; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de
seus prisioneiros _seis mil captivos: em consequencia do que_ partiu
para Marrocos, e á sua chegada _lhe saiu ao encontro seu pae_, o
imperador dos mussulmanos, _que ficou em profundo desgosto e cheio de
grande susto_.»
No capitulo 33 do Karttás traduzido pelo padre Moura não vem esta
passagem. Entretanto não devo crer que o auctor do opusculo a
inventásse. Cumpre suppôr que elle se serviu de algum exemplar mutilado,
viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na versão de
Moura é no capitulo 40 que se contém as ultimas acções do Tachfin na
Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz:
«No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o
principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido
e tomado de assalto _a cidade de Segovia_, levando comsigo _seis mil
captivos_; e tendo chegado a Marrocos _veio seu pae encontrá-lo_ com
grande pompa e _se alegrou com elle_, etc.[71]»
As duas passagens são, se não identicas, por certo parallelas. Tracta-se
em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um
triumpho em que captivou seis mil homens. A differença está nas
circumstancias, e _na data_. Qual dessas se deve preferir? Vejamos.
Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas põe-na como
immediata á reducção de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de
1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao
anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a
saída do principe almoradive para a Africa devia verificar-se já em 532,
isto é, nos fins de 1137 ou nos principios de 1138.
Com esta data concorda o auctor da chronica de Affonso VII, mencionando
a partida de Tachfin para além-mar entre os successos de 1138, e
descrevendo a mensagem que lhe enviaram á Africa os defensores de
Aurelia durante o cerco posto a esse castello por Affonso VII _em abril
de_ 1139. O chronista christão vai de accordo na chronologia com os
historiadores arabes sem os conhecer, e limitando-se a narrar os factos
que _ouvira ás pessoas que os tinham presenciado_[72].
Não quero suppôr, torno a repetir, que o auctor do opusculo forjasse a
passagem que cita, ou que alterasse a data da hegira para provar que
Tachfin estava em Hespanha em julho de 1139. N'uma questão em que se tem
procurado associar á idéa de que caí n'um erro historico a de que tive
em mira deshonrar o meu paiz, tal procedimento fora duplicadamente
torpe. Todavia o _digno_ academico ainda assim tem d'escolher entre a
ignorancia e a má fé. Se conhecia a chronica de Affonso VII, a narrativa
de Conde e a versão de Assaleh por Moura, tinha que fazer duas cousas:
primeira, provar que essas auctoridades em que eu me estribava eram
insufficientes; segunda, mostrar que o seu manuscripto tinha uma
importancia, uma auctoridade tal, que as annullava. Onde o fez? Como o
fez? Acaso só porque se mandaram escrever n'uma pedra lithographica uns
poucos de caracteres arabicos ou o que quer que seja, provou-se que as
palavras que resultam da sua união são indubitaveis como o evangelho, ou
sequer que é preferivel a leitura do codice de que se tiraram á leitura
de codices já conhecidos e traduzidos por outros arabistas, que pelo
menos sabiam tanto arabe como o auctor do opusculo?
Á vista destas simples e claras reflexões, o texto de Abdel-halim citado
pelo digno academico vale tanto e prova tanto como o de Hamed-el-Nabil.
Eu, porém, acceito-o por um momento. Vamos a discuti-lo em si.
Que diz o tal texto? Que Tachfin desbaratou no campo da total destruição
(Attibbat) as multidões dos christãos; que aprisionou seis mil homens, e
que partiu para Marrocos, com o que seu pae ficou cheio de desgosto e de
susto. Onde se fala aqui em Ourique? Para entender _Ourique_ por
_Attibbat_ o auctor faz o seguinte raciocinio:--«a batalha de Ourique
foi de _total destruição_ para os mussulmanos, logo _Attibbat_ é
Ourique:»--e querendo provar que o recontro de Ourique foi uma grande
batalha, faz outro raciocinio do mesmo jaez:--«Attibbat quer dizer
Ourique, logo em Ourique houve uma _total destruição_.»--Todos os
argumentos, todas as erudições do folheto nesta parte, embora por outras
phrases, reduzem-se a isso; reduzem-se a duas petições de principio.
Depois, não é admiravel o desgosto e susto de Aly-Ibn-Iussuf vendo seu
filho voltar á Africa depois de uma victoria em que desbarata os
christãos, mata muitos, e leva seis mil captivos? Felizmente para Aly,
Tachfin não levou, em vez de seis, doze mil captivos, e não deixou o
resto passado inteiramente á espada. Se tal acontece, o pobre amir
el-moslemin caía fulminado por uma apoplexia. Até o auctor do opusculo
achou a cousa absurda. Mas como saíu da difficuldade? Dizendo-nos que o
texto arabe tanto póde significar «_Tachfin desbaratou os christãos_»
como «_os christãos desbarataram Tachfin_.» Estava eu tão desgostoso por
não saber arabe como o velho Aly por seu filho ganhar victorias, quando
veio esta declaração consolar-me. A historia é impossivel na lingua
arabe; porque a mesma phrase significa branco e significa preto; exprime
os dous factos mais oppostos. Os traductores de historias sarracenas tem
andado a debicar com a Europa: onde dizem que tal batalha foi ganhada
por A contra B, podiam ter dicto com a mesma veracidade que fora ganhada
por B contra A. Isto, meu amigo, não se discute: está discutido por si.
Depois de vermos sacrificada a logica e até o simples senso commum á
necessidade de achar um texto arabe que prove a importancia da batalha
de Ourique, o que é mais divertido é o completo esquecimento em que o
auctor do opusculo sarraceno, enlevado no seu Abdel-ha-lim _particular_,
deixa os monumentos christãos coevos que referem o successo. A chronica
lamecense, a conimbricense, a dos godos, todas dizem que o general
sarraceno era Ismar (_præside rege Smare_). Se Ismar não significa
Tachfin como Attibbat significa Ourique, segue-se que ou mentem as
chronicas coevas, ou mente o Abdel-halim _particular_, que diz ter sido
o general dos sarracenos o proprio Tachfin, ou a passagem citada não se
refere ao successo de Ourique. Daqui parece-me que não ha fugir. A
ultima explicação é sem duvida a verdadeira. Essa passagem é
evidentemente a que Moura traduziu, e Conde substanciou; passagem que se
combina chronologicamente com a narrativa da chronica de Affonso VII, e
que no opusculo apparece alterada nas circumstancias e na data. Quem a
alterou, e para que fim? Isso pertence a Deus, que vê os corações, e nos
ha de julgar a todos no dia de juizo.
Depois, como accommodar os factos, que o auctor do opusculo acceita do
seu Abdel-halim particular em demonstração da grandeza da batalha, com o
que nos diz a chronica dos godos e com o resultado daquella jornada?
Pois os mussulmanos são postos em fuga ao primeiro recontro, por um
troço de cavalleiros escolhidos (_electi milites_) ficando
entrincheirados os restantes dos poucos soldados (_paucis suorum_), de
Affonso Henriques, e Tachfin, que foge, leva seis mil prisioneiros? Que
digo eu, seis mil! Segundo o commentario do digno academico eram muitos
mais. Aquelles seis mil foram escolhidos um a um, no meio do grande
vagar que para isso tinham os sarracenos fugitivos, entre milhares de
christãos de rebotalho, aos quaes iam cortando os pescoços. As causas
determinantes da escolha (que eu deixarei nas paginas do opusculo,
porque não as consentem as paginas da _Semana_) deviam tornar os bons
dos sarracenos demasiado pechosos na selecção, e pelas minhas contas,
para apurarem seis mil como lhes eram precisos, não podiam deixar de
refugar os seus cento e noventa quatro mil, esmando pelo baixo. A mim
parece-me, salvo o respeito devido a um representante da parte sarracena
da Academia, que era melhor ter traduzido do Abdel-halim particular,
(lithographando tambem no fim do opusculo o original mourisco e
subministrando assim mais abundante alimento á pasmaceira dos parvos)
uma carta de Tachfin dirigida ao principe português, escripta ao começar
a retirada, e concebida pouco mais ou menos nos seguintes termos: «Meu
Affonso-Ibn-Errik. Estou capaz de renegar Mafoma com a grande róta que
me déste. Vou para Africa amuado, metter-me em casa de meu pae, que se
chama Aly-Ibn-Iussuf, embora os _ulmá-i_ academicos da tua terra queiram
á fina força chamar-lhe Aly-Ben-Taxefin. A guerra é guerra, e uma
batalha perdida ou ganhada não é motivo para nos desestimarmos. Eu
preciso de levar comigo em ar de prisioneiros uns seis mil rapazes
christãos airosos e bempostos. Se os podéres dispensar, far-me-has nisso
particular favor e uma acção de cortezia. Só Deus é Deus e Mohammed o
seu propheta. Aos 26 de zilkhada da Hegira 533.»--Com isto ficava tudo
explicado. Os seis mil prisioneiros tinham sido uma generosidade do
_Pharaó obdurado_, embora fingida; porque, tendo Christo acabado de lhe
asseverar que havia de vencer sempre os sarracenos, não só podia fazer
presente a Tachfin de todos os soldados imberbes do exercito, mas tambem
de quanto soldado barbudo, velho e relho, achasse alli á mão vasculhando
o acampamento, os quaes, se não prestassem para mais nada, prestariam
para bichos da cozinha do amir-el-moslémin.