Uma explicação. Quando digo que não posso refutar mentecaptos

indecentes, não quero significar que essa guerra que se me faz, atroz na

intenção, ridicula nos effeitos, ha de ficar sem punição. Não sou homem

disso; mas tambem não sou homem que gaste polvora com guerrilhas. Hei de

ir buscar a seu tempo as columnas de infanteria e os macissos de

cavallaria que estão atraz dellas. As miserias que ahi vão pela imprensa

contra mim são um veu que encobre, ou antes descobre por demasiado raro,

negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se a Europa catholica se

hade infeudar de novo ás corrupções da curia romana, com o seu cortejo

de jesuitas de todos os formatos, de todas as idades e de todas as

mascaras; com os seus titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas em

miniatura. Tentêa-se este solo de Portugal: manda-se hostilisar em mim o

progresso das novas idéas, a independencia das opiniões, não porque eu

seja o mais forte, mas porque circumstancias, que não preparei nem

provoquei, me collocaram na primeira linha do combate. O que é certo é

que alguem se ha de enganar ácerca do desfecho da lucta, ou nós, ou esse

grupo, essa cousa, que por ahi anda a ajunctar quanto pó e podridão ha

no cemiterio dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida; essa cousa

hedionda, que, incapaz das ambições grandiosas, do despotismo esplendido

da Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho que ella desmente,

fulminada pela philosophia que ella detesta, depois de apurar as suas

doutrinas espirituaes nas fontes catholicas das margens do Neva, vem

refocilar-se para a peleja, e desafiar a justiça de Deus e dos homens

atraz dos olhos buliçosos da madona de Frosinone. Aqui, no ultimo

occidente, o recontro final ha de ser mais tarde. Que a mocidade não

durma, porém! Prepare-se para os dias de prova, e talvez de tribulação,

com a severidade dos costumes, que dá a energia moral, e com a

severidade do estudo, que subministra as armas para a victoria. Por ora

pedem-nos só jesuitas; o perigo da petição não é grande. A igreja da

_Memoria_, cujas grimpas vejo d'aqui, collocada lá a meia encosta, vigia

a foz do Tejo. Os filhos de Loiola não passariam áquem da barra sem que

o sangue de D. José I gemesse nos fundamentos do templo, e este gemido

retumbaria pelo reino de Portugal, porque a imprensa tem echos.

Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por não deshonrar esta terra:

empreguemos unidos os nossos esforços para augmentar os thesouros da

civilisação no paiz; associemo-nos lealmente a quantas idéas generosas e

puras de progresso material e intellectual surgirem no meio de nós.

Filhos da imprensa, os nossos deveres são arduos; mas é necessario

cumpri-los. Porque estou eu tranquillo no meio da tormenta que ruge?

Porque tenho a consciencia de os haver desempenhado escrevendo a

historia. Se transigisse com vaidades e mentiras; se vendesse a minha

penna a paixões pequenas e más; se recuasse diante de considerações

miseraveis, as horas da solidão e do silencio, que são as mais da minha

vida, não seriam tão repousadas para mim. Alumiado por essa luz moral,

que nunca devemos perder de vista, espero levar ao cabo o empenho que

tomei, até porque a historia de Portugal é uma das mais ricas em licções

para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas, e essas licções

são hoje altamente proficuas. Não ha nella, sob tal aspecto, uma só

epocha infertil, desde os tempos barbaros em que o arcebispo João

Peculiar, furioso contra o seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos

paços episcopaes deste, convertia a cathedral em estabulo dos seus

cavallos, e espalhava por terra as sacras fórmas, n'um impeto de bruta

colera, até aquelles, não barbaros mas corruptos, em que os devotos e

pios inquisidores, depois de mandarem desconjunctar nos tractos do potro

os membros delicados das virgens hebreas, ou das tidas por taes, iam,

curvados sobre o leito da dôr, pousar mollemente os olhos lubricos nos

debeis corpos das martyres, e fartar a sua luxuria de tigres palpando

aquellas carnes pisadas e sangrentas. Quando a justiça de Deus põe a

penna na dextra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os

documentos indubitaveis de crimes que pareciam escondidos para sempre

debaixo das lousas, elle deve seguir ávante sem hesitar, embora a

hypocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso

o que quer que seja de divina.

E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo! O opusculo tinha-me

profundamente esquecido.

O eruditissímo academico meu adversario declara-me inhabilitado para

escrever a historia do dominio mussulmano na Hespanha, porque não sei

arabe.

Pois então dou-a por não escripta. Largo o titulo de historiador; mas

consolo-me com a boa companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras não sabiam

arabe; Barros não sabia o sanskrito; Raynal não sabia as linguas bunda,

tupinamba e iroquesa; Bossuet não sabia as setenta e duas linguas da

torre de Babel.

O auctor do opusculo passa a demonstrar como eu não sei arabe. Não era

preciso: nas notas do meu livro estou mais que confesso. Nunca citei um

texto escripto nessa lingua, que não dissesse de que traducção me tinha

valido.

Eis, todavia, as provas _da minha_ insciencia:

Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem phenicia.

E continúo a attribuir-lh'a. O nome radical do rio é _Ana_: e os

eruditos concordam geralmente em que a palavra é phenicia. _Guadi_,

_wadi_, ou como em mouro direito for, é árabe, e significa rio. Até ahi

chega o meu arabismo. Mas não são essas syllabas que o distinguem,

porque os sarracenos as ajunctavam a muitos _nomes proprios_ de rios.

_Guadiana_ nada mais é que o _rio Ana_.

Segunda: Digo que _Alcacer_ significa _paços reaes_.

E porque não o havia de dizer? Os _Vestigios arabicos_ de Moura dão-lhe

a significação de _palacio acastellado_; e eu, que não sei arabe, mas

que sei outras cousas que o auctor do opusculo ignora, affirmo-lhe que

naquella epocha o _Al-kassr_ ou _Al-kassba_ (aqui me colhe n'alguma

tropelia arabica) era isso, ou mais exactamente, um _castello

apalaçado_. Quanto ao adjectivo _reaes_, asseguro-lhe á fé de christão

(e tanto da gemma, que não entendo o alcorão) que em virtude das

instituições politicas d'aquelles tempos, assim entre sarracenos como

entre nazarenos, o _alcacer_ era necessariamente _real_, isto é,

dependente do poder publico.

Terceira: Chamo a _Ourique_ nome proprio de logar.

Sobre isso falaremos d'espaço.

Quarta: Interpreto _Iman_ dignidade religiosa.

Esta accusação deixou-me quasi academico. Para um arabista parece-me

gracejo forte de mais. Pois _Iman_ não significa dignidade religiosa? O

auctor do opusculo devia então dizer-nos se o _iman_ era algum capitão

de mar e guerra, mercador de retalho, dentista, ou que demonio era o

_iman_. Quem a mim me metteu nestes trabalhos sei eu. Foi o celebre

traductor e refutador do alcorão, Marraccio, que teve a insolencia de

dar sempre á palavra _iman_ a significação de _chefe do culto_, de

_principal sacerdote (sacrorum antistes)_[47]: foi o orientalista

Von-Hammer[48], que sabe mais das cousas mussulmanas, que toda a eschola

arabica de Lisboa desde a sua fundação até hoje: foram todas as

exposições da organisação religiosa entre os mussulmanos, não só da

Peninsula, mas de todo o mundo.

Quinta: Digo ser _Ismar_ corrupção de _Omar_ ou de _Ismael_.

É possivel que eu me enganasse: todavia, porque não me fez o auctor do

opusculo um favor especial; porque não me citou na historia de

Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou na de Al-Keiruani, onde

se mencionam milhares de individuos mussulmanos, um só que se chamasse

_Ismar_? Assim fico em duvida, e desconfiado de que tenhamos outra

anecdota como a d'_Iman_.

Felizmente as provas não continuam. Se o auctor proseguisse, temo que

demonstrasse contra mim que eu sabía arabe. Era um aperto em que me

punha; porque na realidade eu não sei decifrar um unico daquelles

engaços de passas, que elle lithographou ao cabo do seu opusculo.

Passado o preambulo, o auctor annuncia que vai provar-me pelos

historiadores arabes que a batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o

_golpe fatal dado no dominio mussulmano_. Sancto breve da marca! Sempre

são mouros! Se tal affirmam, digo ao illustre arabista que não os

acredite. Os monumentos christãos, ainda os mais exaggerados, não contam

tanto. O dominio mussulmano ficou como estava depois da jornada

d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para os seus estados, ao

norte do Mondego, porque sabía do officio de soldado. Sessenta annos de

lucta depois da bulha d'Ourique não bastaram para expulsar de todo do

actual territorio português os mussulmanos. Apesar da celebre jornada de

1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando palmo a palmo a

Estremadura e o Alemtejo. Que _golpe fatal_ foi, portanto, esse de

Ourique? Ah mouros, mouros! Isso é debicar com o proximo.

Depois de citar o que eu refiro como introducção á narrativa da batalha,

o opusculo vem deitar-me tudo por terra com um sopro. Errei a

chronologia, os nomes dos imperadores almoravides, tudo. Oh peccador de

mim!

Lá vai o texto do nosso academico arabico:

«Nada tem o facto de Ourique, succedido no reinado de

Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este Aly-Ibn-Iussuf foi

o primeiro imperador da dynastia dos morabethins e falleceu no anno

496 da Hegira, 1103 da era Christã...»

«Não foi, _portanto_, no reinado de Aly-Ibn-Iussuf, nem durante o

de Aly-Ben-Taxefin, que começou a pretensão do celebre El-Mohdy,

mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly, que succedeu a

Aly-Ben-Taxefin, isto é, principiou no reinado do III imperador e

só tomou seu maior incremento no meio do reinado do IV imperador da

dynastia dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin: logo no

reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi a batalha de Ourique,

não houve revolução, nem politica, nem religiosa, que distrahisse

as tropas; o que tudo confirmamos, convidando nossos leitores a que

leiam os capitulos desde 32 até 36 inclusivamente da Historia

Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por

Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim.»

Transcrevi todas estas blasphemias historicas, para que se veja com

quanta razão dou graças a Deus de que a nossa lingua seja pouco

conhecida, e o que se deve esperar de uma academia onde ha destes

eruditos. Pús á vista de todos o corpo de delicto. Vamos ao auto.

A serie dos imperadores almoravides que resulta das precedentes

passagens é a seguinte.

1.^o Aly-Ibn-Iussuf 1103 (morto)

2.^o Aly-Ben-Taxefin 1139 (batalha d'Ourique)

3.^o Taxefin-Ben-Aly (apparecimento do Mahadi)

4.^o Ibrahim-Ben-Taxefin.

Em que se funda o auctor? Que é o que cita em seu abono?

Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia de Assaleh-Ben-Abdel-Halim,

ou Salihn Abd-Alihim, conforme for em mouro a graça de sua mercê, porque

não ha dous arabistas que escrevam um nome de gente do mesmo feitio.

Ora os capitulos citados[49] têem apenas o pequeno inconveniente de se

referirem ás primeiras conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento

do seu dominio na Africa _na segunda metade do seculo XI_. É no capitulo

37 que se narra a primeira passagem á Hespanha de Iussuf-Ibn-Tachfin e a

victoria de Zalaka em 1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a terceira

em que Iussuf incorporou nos seus dominios os estados mussulmanos da

Peninsula, que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf foi o primeiro

imperador almoravide d'Africa e de Hespanha.

A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos 39 e seguintes da

Historia de Assaleh-Abdel-halim é:

1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido) em 1106

2.^o Aly-Ibn-Iussuf (appel. Abu-Hassan) (fallecido) em 1142

3.^o Tachfin-Ibn-Aly (morto em) 1145

Se o meu amigo comparar isto com o que se diz no opusculo, não me ha-de

acreditar. Tem razão. É monstruoso, é incrivel, é absurdo; mas está la.

Se quizer desenganar-se, procure a versão de Assaleh pelo padre Moura

esplendidamente impressa pela Academia em papel pardo e letra safada.

Veja o que diz o historiador arabe, o que eu digo, e o que diz o

opusculo. Depois julgue-nos; e, ainda depois, faça idea do que irá pela

_Classe de Sciencias Moraes e Bellas-letras_ (ou, como quem o dissesse

em português, _e Boas-letras_) da Academia[50].

É assim que esta gente salva a gloria nacional e vindica a bulha

d'Ourique contra a minha má fé, contra o fel da minha critica.

A má fé é minha. Repare bem nisso.

Mas haverá outros textos de Abdel-halim, que tenham alguns capitulos 32

a 36, que nos contem essas historias do opusculo?

Na parte da _Historia do Dominio dos Arabes_ por D. J. Conde, relativa á

dynastia almoravide, o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte do

seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve aproveitar-se com cautela.

Todavia Conde era incapaz de commetter um erro tão grosseiro como

transtornar completamente a chronologia daquella epocha. Isto estava

reservado para um membro da nossa academia.

Eis o resumo da chronologia de Conde quanto á dynastia almoravide[51]:

1.^o Abu-Bekr-Ibn-Omar (unicamente na Africa)

2.^o Iussuf-Ibn-Tachfin, fallecido na egira 500

(1106-1107)

3.^o Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na egira 534

(1139-1140)

4.^o Tachfin-Ibn-Aly fallecido na egira 541

(1146-1147)

A ordem dos imperadores é a mesma. Conde atraza dous annos a morte de

Aly-Ibn-Iussuf e adianta um a de seu filho. Ainda admittida a

chronologia Conde, a jornada de Ourique cai dentro do reinado de

Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira 534 correu de _agosto_ de 1139 a agosto

de 1140.

Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan e Ibn-Al-Khatib consideram

Iussuf-Ibn-Tachfin como o fundador da dynastia almoravide. Eis a

chronologia seguida por elles:

1.^o Iussuf, fallecido na egira 500 (1106-7)

2.^o Aly, fallecido na egira 537 (1142-3)

3.^o Tachfin, fallecido na egira 539 (1144-5)[52]

Já se vê que, segundo a chronologia de Ibn-Khallekan e de Ibn-Al-Khatib,

a ordem da dynastia é a mesma, e que o successo d'Ourique tambem cai no

reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre Abu-l-Feda concorda com elles. «Na

Egira de 500--diz Abu-l-Feda--morreu Iussuf-Ibn-Tachfin, _amir

al-moslemin_. Succedeu-lhe Aly seu filho (Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o

titulo de _amir al-moslemin_, como seu pae[53].»

Resta apontar o que resulta da narrativa do principal historiador arabe

do dominio mussulmano Peninsula, Al-Makkari, ácerca da dynastia

almoravide:

1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin 1052 a 1106

2.^o Aly-Ibn-Iussuf 1106 a 1143

3.^o Tachfin-Ibn-Aly 1143 a 1145

4.^o Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin 1145 a 1147[54]

Que tal parece ao meu amigo a erudição arabica da parte sarracena da

nossa Academia?

Nos arabes vê-se que se encontra exactamente o contrario do que se lê no

opusculo. Certamente o auctor descubriu essa deliciosa historia dos

almoravides, que nos conta, nos escriptores christãos coevos ou quasi

coevos. Sempre era gente que se confessava. Mouro e judeu mentem por

officio. Vejamos:

A chronica dos godos nas suas referencias aos imperadores almoravides:

1.^o Iussuf (batalha de Zalaka) 1085 aliàs 1086

2.^o Aly-Ibn-Iussuf (cerco de Coimbra) 1117[55]

A conimbricense:

2.^o Aly (cerco de Coimbra) 1117[56]

Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII mais instruido na

litteratura arabe e christã da Peninsula, estabelece para a dynastia

almoravide d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55 annos desde a

Egira 484 até a Egira 539, a seguinte chronologia:

1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (principio da dynastia) 1091-2

2.^o Aly-Ibn-Iussuf

3.^o Tachfin-Ibn-Aly (fim da dynastia) 1144-5[57]

Ao _digno_ academico restam talvez para estribar as suas famosas

historias _almoraviditicas_ (na falta de arabes e christãos) alguns

historiadores tartaros, mongoles, ou chinas.

É provavel que seja assim.

Perdôe, meu amigo, estas extensas citações. Era necessario dar uma

prova, que não admittisse subterfugios, dos deploraveis, por não dizer

vergonhosos, extremos a que o desejo de me combater tem levado certas

pessoas.

O auctor do opusculo negou, com a mesma sem cerimonia com que

transtornou a serie dos imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi

(Mohammed-Ibn-Tiumarta) começasse a revolução almohade no reinado de

Aly, e que nos ultimos annos deste reinado, isto é, na epocha da batalha

ou recontro de Ourique, essa revolução houvesse tomado um incremento

irresistivel. Todavia são os mesmos escriptores arabes que contam o

successo como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim, em que elle

finge estribar-se com uma citação _falsa_; _falsa_, digo, porque tanta

confusão involuntaria é moralmente impossivel. A narrativa de

Abdel-halim é, que em 1120 appareceu o Mahadi; que de 1122 a 1125 já se

achava com forças para vir assentar campo perto de Marrocos; que, tendo

fallecido em 1130, tomou o commando dos almohades Abdel-mumen, o qual

foi acclamado imperador em 1133, continuando guerra incessante contra os

almoravides até os destruir[58]. É elle que, depois de narrar as

victorias de Tachfin-Ibn-Aly contra os christãos desde 1126 até 1137,

refere que logo passara á Africa[59]. Conde diz-nos que fora chamado por

seu pae ameaçado da ultima ruina[60]. Habil e feliz general contra os

christãos, esta causa da sua partida parece confirmada, não só pela

razão, mas tambem pelo texto de Al-Khatib[61]. Um monumento christão,

escripto por individuo do mesmo seculo, a _Chronica Adefonsi

Imperatoris_, confirma e particularisa o facto. Narrando os successos de

1138, diz que Tachfin levara comsigo, retirando-se para a Africa, até os

mosarabes e os prisioneiros christãos para os oppôr aos almohades[62].

Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas almoravides, quando a

defesa de Marrocos o obrigava a converter em soldados os proprios

nazarenos captivos? Destroem-se estes factos com citações falsas? Como

se explica o abandono d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande

batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco) no occidente da

Peninsula entre almoravides e portugueses, quando de Africa se não

dispensava um soldado para a salvação d'aquella chave da fronteira

musulmana? Que se póde dizer que tenha um vislumbre de senso commum

contra o que a este proposito reflecti?

Quem dá documentos de má fé? Sou eu ou os meus adversarios?

Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico arabe não vale a pena

disso.

Depois d'estas façanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusações

curiosissimas. Fora extenso de mais citá-las todas. Uma d'ellas é que

chamo á serie dos imperadores almoravides _dynastia lamtunense_ para

explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para

taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a mercê de

dizer-me que o vocabulo _lamtunense, ou antes almolatamenense_, não

serve para indicar covardia. Devéras? E eu que não caía em nada! Isto é

incrivel, amigo redactor da _Semana_. Digo mais: era impossivel haver

quem fizesse d'estas, se não houvesse academias. Chamei aos principes

almoravides _dynastia lamtunense_, ou _lamtunita_, porque todos os

historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib,

Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou

covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raças bereberes que

serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era

a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da

tribu de Masufah pertencente a essa raça. Aquella phrase do opusculo

«_ou antes almolatamenense_», é deliciosa. Como o nosso arabista

precisava de mostrar a sua pobre erudição, fez pouco mais ou menos este

raciocinio: «o auctor da Historia de Portugal denomina os principes

almoravides _lamtunenses_; eu digo-lhe, _ex auctoritate qua fungor_ que

era melhor chamar-lhes _almolatamenenses_»: ora como esta denominação

provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres

n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforço, embora

elle não usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehendê-lo

por isso; porque é uma violencia negar a um pobre escholar arabico a

occasião de mostrar erudições _reconditas_. Sabe o meu amigo o que isto

faz lembrar? Faz lembrar o prégador que punha o barrete na borda do

pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o á sua

vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra

mim:

Que os principes almoravides usaram do titulo de _amir-el-muminin_[64].

A prova disto é curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no,

segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado

duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de

Cordova. Não o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que

fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, é

incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se vê

que o titulo dos soberanos lamtunenses era _amir-al-moslémin_ (principe

dos mussulmanos). Ouçamos agora o sr. Gayangos: «Não consta da

historia--diz elle--que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores

tomasse nunca o titulo de _Amiru-l-muminin_, que era reservado para o

khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo

contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de

_Amiru-l-muslemin_, ou _principe dos moslems_ (de Africa e de Hespanha).

Os proprios sultões de Cordova, postoque descendentes do tronco dos

Benu-Umeyyah, e tão intimamente ligados com a familia do propheta, não

se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbás

não chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o

uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova

e d'outras cidades da Peninsula[65]». Effectivamente Abu-l-Feda nos

certifica que Abderrahman III «foi o primeiro entre os principes

ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de _amir-al-muminin

proprio do Khalifa_[66].»

Isto não são citações falsas. Por ellas póde ver o meu amigo com quanta

exacção eu escrevi ácerca dos almoravides, embora não fosse esse o

objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o

opusculo sarraceno destinado a refutar-me. Não fica, porém, aqui o

negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da

lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia

almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de _amir-al-muminin_, porque,

diz elle, o de khalifa só se deu aos imperadores do oriente, e estas

palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeço

a ultima novidade; mas eu não escrevia grammatica; escrevia historia, e,

politicamente, as duas expressões eram synonimas. Que se pensaria de

quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que,

falando do imperador da Russia, dissesse «_o czar ou autocrata_?» Por

outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de

khalifa se deu ou não se deu aos principes mussulmanos do occidente,

ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha,

cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6

d'Al-Makkari, ahi achará que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam

III «foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu _os titulos de

khalifa e de amiru-l-muminin_». Se tambem quizer saber se os principes

almohades tomaram ou não o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e lá

achará este periodo: «El-Mohdi _elevou o khalifado_ para os que lhe

succederam[67]», e mais adiante, onde se conta certa anecdota do

primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, lerá que um poeta da côrte

dizia a outro: «Até quando importunarás tu _o khalifa_?»; porque é de

advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha

criticos academicamente originaes.

Mas, em consciencia, meu amigo, eu ás vezes merecia ser feito socio

effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha

simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta

mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue

toda a matalotagem arabica do _digno_ academico, se lhe rebella e

tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E senão,

ouçamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leão e ao papagaio, de que

Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador,

traduzidas por Moura na sua versão de Abdel-halim, são «_as victorias e

o poder competem ao califa Abdelmumen_[68]». É verdade que o auctor do

folheto, que repete a historia do leão e do papagaio, não sei para me

provar o que, traduz, em logar de _califa_, _successor_. Mas aqui para

nós, meu amigo, postoque eu não saiba arabe, apostava que isso foi uma

esperteza, e que naquella expressão _algalifatu_ (ou, como Moura lê,

_el-califa_) anda o que quer que seja de _khalifa_.

Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha

como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraça,

duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso

paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique não é

nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa

_adversidade_ ou _infortunio_.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 9 / 16 段