Parece, porém, que, emquanto proseguia em Portugal a lucta tenebrosa e

encarniçada de uma aristocracia suberba com um rei ambicioso e

inexoravel, o cardeal não dormia em Roma. Invectivava-se ahi ou

fingia-se invectivar contra a frouxidão de Sixto IV, que deixava o rei

português quebrar os privilegios do clero sem se lhe comminarem

censuras[37]. Deste clamor sincero, ou desta farça, resultou uma bulla

concebida em durissimos termos, que se expediu nos primeiros mezes de

1484. A linguagem della era a linguagem habitual da curia, insolente e

grosseira; mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo. O papa

recordava uma cousa de que os reis portugueses se haviam esquecido;

recordava a D. João II que _tinha a dignidade real por dadiva da sé

apostolica e de que era seu tributario[38]_. Uma bulla destas faria hoje

desatar a rir quaesquer ministros portugueses, até em pleno parlamento.

Naquelle tempo, porém, ainda o negocio era um pouco serio. D. João II,

se riu, foi em particular.

O arcebispo D. João Galvão, um dos valídos do rei e inimigo figadal da

familia de Bragança[39], tinha sido transferido, ainda em tempo de

Affonso V, da sé suffraganea de Coimbra para a metropolitana de Braga. O

arcebispo olhava para as cousas ecclesiasticas como certos prégadores

d'hoje olham para a prédica; pelo lado solido. Sem lhe importar obter o

pallio, foi usando do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas da

mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava devorar pacificamente tão bom

quinhão na mesa ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir o

clero[40]; mas até que ponto eram graves as culpas do arcebispo, que

assim se arriscava a perder a dignidade archiepiscopal (como tem

succedido a muitos outros) não sei eu dizer: falo pela boca do papa, que

lhe dirigiu tambem uma carta de ameaças. O que é certo é que o movedor

das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal da Costa, não devia

esquecer-se de carregar a mão no valído do seu adversario. Odio de padre

contra padre ainda é mais profundo e tenaz do que contra qualquer

secular.

As relações com Roma offereciam, pois, um aspecto pouco agradavel,

quando Sixto IV veio a fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura em

que elrei apunhalava em Setubal o Duque de Viseu, mandava envenenar o

Bispo d'Evora, assassinar D. Gotterre no fundo de um calabouço, e

degolar e esquartejar em praça outros fidalgos. D. João I tomara da

côrte de Inglaterra o esplendor, os habitos cavalleirosos, o amor da

cultura litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje distinguem as

classes elevadas na Gran-Bretanha. Seu bisneto tomava da côrte de França

apenas um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava modelar as manifestações

da sua alma.

A casa de Bragança procedia de D. João I, mas de D. João I antes de rei

e simples mestre da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se enlaçado

com as armas de Portugal, porque D. João I não se esquecera, depois de

rei, de que fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava.

Com as mãos tinctas do sangue do duque de Viseu, D. João II arrancou a

cruz do escudo de Portugal, e alterou a posição dos escudetes lateraes,

collocados até ahi horisontalmente, dando assim nova fórma ás armas do

reino. Dir-se-hia que até d'alli quizera affastar a memoria da linhagem

dos seus principaes adversarios.

Era essa a causa da mudança? Não o sei. Ruy de Pina, um dos amoucos do

principe perfeito, attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar ou

recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O que é certo é que a

alteração se fez no mesmo anno de 1484.

Hoje a heraldica e os brasões são dixes com que se entretem as creanças

barbadas: o jogo do xadrez é cousa incomparavelmente mais grave. Nos

fins do seculo XV não era, porém, assim. A attenção da Europa devia

volver-se principalmente para o ensanguentado drama que se representava

na côrte de Portugal; mas a cruz de Christo expulsa das moedas, dos

sellos e das bandeiras do reino, pelas mãos de um rei algoz, havia de

dar occasião a mais de um commentario pouco favoravel.

Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco escudetes representassem

uma cruz, e ao mesmo tempo contivessem uma allusão mysteriosa á paixão

de Christo; se as arruellas que os ornavam representassem os trinta

dinheiros por que Judas vendeu o Senhor, que falta faria a cruz

floreteada de Aviz nas armas de Portugal? Não ficava ahi uma cruz

mystica, um symbolo piedoso?

Fallecido o papa que recordara a D. João II qual era a origem da

independencia de Portugal relativamente a Leão, e que ainda ousava

lembrar-se do signal de vassallagem que outr'ora se offerecera á igreja

de Roma, elle fora substituido por Innocencio VIII. Sabido o successo,

elrei resolveu mandar a Roma uma embaixada, para orador da qual escolheu

um homem de plena confiança, o castelhano Vasco de Lucena.

Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor que as bullas de Lucio II e

de Alexandre III ácerca da independencia do reino, e que talvez Affonso

Henriques houvesse dado a guardar aos seus chronistas, João Camello e

Pedro Alfarde? Se o tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem

dessa circumstancia o novo papa, tirando assim á curia a vontade de

repetir as doutrinas carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV.

Porei aqui a parte mais interessante do discurso, que o orador de

Portugal fez ao papa rodeado dos seus cardeaes, em cujo numero se

contava o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre Pereira já

traduziu uma porção desse discurso; mas era um preguiçoso aquelle bom do

padre Pereira. V.. hade permittir que eu o seja menos, e dê um talho

mais largo.

Depois de indicar em poucas phrases as origens de Portugal, o orador

fala dos primeiros annos do governo de Affonso I e da pequenez dos seus

estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas e conquistas: Leiria,

Santarem, Lisboa tomadas, o Tejo transposto, a provincia transtagana

submettida, com Evora sua capital, Cezimbra e Palmela, fortalezas

inexpugnaveis, reduzidas, sendo por elle desbaratados _milhares

infinitos_[41] de mouros com poucos cavalleiros. «Outra vez (ou

_novamente_)--prosegue Lucena--no campo de Ourique, naquelle sitio a que

o _vulgo_ chama _agora_ Cabeças dos Reis, com um pequeno exercito venceu

cinco poderosissimos reis mouros. Na qual batalha, para se ver quão

porfiada fosse, e quão excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram

as lanças dos barbaros os escudos que embraçava na mão esquerda. Desta

singular e famosa victoria procedeu _fixar elle as insignias e armas dos

reis de Portugal_, pondo nellas cinco escudos, e collocando em cada um

delles cinco dinheiros, sendo sabido que até então as armas eram um

escudo só, todo semeado de besantes. Estes cinco escudos _postos em

fórma de cruz_, e estes besantes quinarios _tambem distribuidos em

cruz_, que nos indicam senão os trinta dinheiros, preço do sangue de

Christo, pelo qual este foi entregue aos judeus pelo crudelissimo Judas?

Antes de dar o signal para a batalha, este rei, orando de joelhos, viu o

Salvador pendente da cruz, e foi tal a confiança do regio animo, tal a

fé gravada no seu coração, que, sem se aterrar com a estupenda

maravilha, _se atreveu_ a dizer que _não convinha_ que Christo

apparecesse a um firmissimo crente, mas que tal apparecimento era

necessario aos hereges, aos que se afastavam da fé christan. D'isto e

d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa sanctidade conhecerá mais

claro que esta luz que nos alumia _por qual constancia d'animo, por qual

ardor de virtude, por que prendas, por quaes degráus e successos subiu

ao fastigio regio_; como esse varão tão religioso, forte e pio augmentou

os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo jugo da

servidão; com que razão, por força da _clarissima vontade e da suprema

direcção_ (optimo auspicio) _da eterna magestade_, com _auxilio do povo_

e _adjutorio_ da sancta igreja romana, _tomou o regio nome com direito

perfeito_ (optimo jure) _e o legou aos seus successores_; mais feliz

nisto que outros principes, dos quaes muitos aspiraram ao titulo real

pelo favor dos povos; outros por temor dos seus satellites armados;

poucos, a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro caminho da

virtude.»

Aqui tem v.. o que se lê na oração de Lucena relativamente a Affonso I.

Note v.. que o orador passava por um dos homens mais instruidos do seu

tempo, e não podia por ignorancia fazer o que fez; isto é, inverter a

ordem dos successos do reinado d'aquelle principe. Deste discurso o que

se deduz é que a batalha de Ourique foi a ultima façanha notavel delle,

posterior a tudo, inclusivamente á tomada de Evora, e quem sabe se á

bulla de Alexandre III, que concedeu ao principe português a

qualificação de rei? O que é certo é que, se a chronologia fingida por

Lucena fosse verdadeira, a batalha e o milagre de Ourique, em que elle

visivelmente quer fundar a independencia de Portugal, _embora com o

favor do povo e de Roma_, teriam sido posteriores á carta de feudo á sé

apostolica e á bulla de acceitação de homenagem expedida por Lucio II.

Assim, a dignidade do rei e a independencia de Affonso I assentariam

n'um titulo, não só incomparavelmente melhor, qual era a vontade de Deus

milagrosamente manifestada, mas tambem posterior á offerta e acceitação

da homenagem feita em 1144, que por esse facto ficavam invalidadas por

inuteis. Presupposto isto, a impertinente recordação da curia romana,

inserida na bulla «_Ut saluti_» de Sisto IV, ficava tambem de todo o

ponto refutada.

Mas dirá v..--o cardeal D. Jorge da Costa, presente ao acto, não podia

impugnar este inaudito milagre?--Não se impugnam assim milagres.

Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra mim, porque no seculo

XIX não creio n'uma fabula provada tal até a saciedade, e imagine se um

padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre nos fins do seculo XV; e

quando se atrevesse a dizer alguma cousa, seria em particular ao papa e

aos cardeaes. Outra flagrante mentira dizia ahi Lucena sem temor de que

D. Jorge o contradissesse: era a historia dos cinco dínheiros em cada

escudete, desmentida por todas as armas reaes gravadas nos sêllos e

moedas dos nossos antigos reis da primeira dynastia, começando em Sancho

I. Restam muitos desses sêllos e moedas; muitos mais deviam restar

naquella epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa notavel: havia

de ter visto muitissimos; mas nem por isso Lucena titubeou, antes nesta

parte o seu discurso, geralmente frio, melifluo, calculado, tem certo

sabor de colerica invectiva contra os que disso duvidassem. O

descaramento é, ha muitos seculos, um dos dotes do homem d'estado.

Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador de Portugal no concilio

de Basiléa, e na embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as orações de

abertura nas côrtes de 1478 e de 1481. Todas essas orações, que não

deviam ser menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas escapou a da

embaixada de Roma de 1485, e não só escapou, mas tambem foi impressa, e

não só foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se della duas edições em

caracteres gothicos e sem data, ao que parece, estampadas _fóra do

reino_ e com todos os signaes de _pertencerem aos primeiros tempos da

arte da impressão_[42]. Se de feito a oração foi reproduzida pela

imprensa pouco depois de recitada, devia sê-lo fóra do reino, onde a

imprensa de livros latinos e vulgares não consta que existisse ainda.

Mas duas edições da mesma epocha, que provam, senão que _alguem

interessava em dar áquelle discurso a maxima publicidade_?

Recorde-se v.. do que eu disse a proposito de Olivier de la Marche, e da

influencia que é provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista

flamengo ácerca das armas de Portugal. Vê-se que em 1492, em que este

escrevia, as opiniões andavam encontradas. As armas que ahi mais se

deviam conhecer eram as antigas com a cruz d'Aviz, porque a reforma de

D. João II tinha apenas oito annos. Entretanto a noticia do milagre de

Ourique, postoque alterada, corria já alli, e a alteração provinha de

quererem _alguns_ acommodar a fabula ás armas antigas. Consequentemente,

outros não queriam: logo disputava-se ácerca disso: logo a historia da

apparição era uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a explicação

sabida e ordinaria, como Lucena dissera em Roma, teria De la Marche

accumulado a serie de despropositos que anteriormente transcrevi? Elle

falara ácerca d'isto com muitos portugueses, e escrevia á vista das suas

informações. O que indica essa completa confusão d'idéas do chronista?

Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente no meio das lendas que

se ligavam ao brazão dos reis de Portugal, as tinha inteiramente

baralhado.

Agora note v.. que por estes mesmos annos de 1491 e 92 Lucena devia

estar em Flandres, porque é neste tempo que elle começa a intitular-se

conde palatino (titulo que parece provir-lhe do cargo d'escanção da

viuva de Carlos o Temerario), ao passo que nessa conjunctura o achamos

ausente de Portugal[43]. V.. ajuisará das illações que destes factos se

podem tirar.

Mais ou menos inexactas que sejam as noticias que nos restam ácerca da

existencia em Sancta Cruz de Coimbra de um monumento relativo á

apparição, parece todavia que alguma cousa ahi houve, e o transumpto do

juramento de Affonso I, feito pelo notario Manso _em tempo d'elrei D.

João II_, não é de desprezar, logo que um homem como frei Francisco

Brandão affirma tê-lo visto. Tal transumpto, se não prova a existencia

de um documento verdadeiro, faz crer que _alguma cousa sobre a apparição

tinha_ apparecido _em Sancta Cruz no tempo daquelle rei_.

Advirta, porém, v.. que D. João Galvão, o arcebispo de Braga, valído de

João II, tinha sido prior mór de Sancta Cruz, devendo por isso conservar

estreitas relações com os frades, e que a familia Galvão parece ter tido

particular tendencia para aquelle mosteiro; um outro D. João Galvão era

seu prior crasteiro no principio do seculo XVI, e, como vimos, diz-se

que em 1556 um frade cruzio, velho de oitenta annos, o _cartorario_ D.

Manuel Galvão, depôs que existia o auto do juramento de Affonso I, _em

que os prelados e os grandes da corte estavam assignados_, grossa

mentira, seja de passagem dicto, porque o estylo constante, sem excepção

no seculo XII e ainda no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo

notario que os exarava os nomes dos prelados e ricos-homens

confirmantes. Mas os Galvões não acabam aqui. Duarte Galvão, _irmão do

arcebispo valído_, escrevendo depois de 1500 a chronica de Affonso

Henriques (no fim da qual adverte _innocentemente_ que seu irmão o

arcebispo lhe dissera que tinha motivos para crer _que Affonso Henriques

fora sancto_,) introduz na narrativa da batalha de Ourique a historia da

apparição, aperfeiçoada com a scena do ermitão que esquecera a Lucena.

Galvão refere-se nesta parte ao que _elle mesmo_ (Affonso I) _disse, e

dentro da sua historia se contém_, o que parece alludir a uma especie de

memoria ou diploma em que figura o filho de D. Theresa, o _Pharaó

obdurado_. Tudo o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em fama;

isto é, a reprehensão dada pelo rei a Christo por lhe apparecer a elle;

as promessas da protecção perpetua do reino feitas por Deus; emfim tudo

aquillo que os frades de Alcobaça metteram para dentro do _seu original_

do juramento, porque em verdade era pena que andasse tanta cousa boa só

em _confirmada fama_, como diz Duarte Galvão. Mas se os frades bernardos

souberam aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem um

juramento vistoso, e de uma apparição rachitica uma apparição ancha e

acabada, o chronista não tinha mostrado menos juizo em lhe dar uma

applicação util. Para D. João II, morto e sepultado, não servia ella já

de nada. A bulla _Ut Saluti_, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio

VIII tinham desapparecido da scena politica. Na cadeira de S. Pedro

estava assentado o sancto padre Alexandre Borgia, que tinha assaz que

fazer em administrar piamente a igreja de Deus, para não cogitar na

sujeição politica de Portugal á sancta sé. O milagre de Ourique andava

de todo desaproveitado. Era uma lastima. O chronista olhou para o

mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro dos Galvões, e entendeu que

a apparição lhe podia ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente

da apparição, no que ninguem até ahi sonhara. Fora a causa de tamanha

mercê do céu o ter Affonso I fundado e enriquecido Sancta Cruz _com

grande devoção_. Na verdade isto era em parte mentira; porque as grandes

doações de terras, castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques

áquelles frades, são todas posteriores a 1139 e anterior á batalha de

Ourique apenas a de uma horta em Coimbra[44]. Antes, porém, da

pontilhuda dialectica dos diplomaticos não se olhava de tão perto para

as cousas. A mentira util tornava-se em verdade pelo consenso dos

sabios, e sabios eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade de

explorar a tradição em beneficio dos conegos cruzios era indisputavel.

Os caseiros e emphyteutas do mosteiro, raça dura e rebelde em pagar suas

rendas e foros, não pagava, e ria-se das excommunhões; os officiaes da

coroa quebravam impiamente os privilegios da ordem, e até,

anteriormente, os villãos de Montemor tinham ousado accusá-la de haver

obtido com dolo e mentira parte das suas rendas e direitos

senhoriaes[45]. Depois, naquella conjunctura, o mosteiro estava gasto e

desbaratado das guerras que pouco antes o prior D. João de Noronha

tivera com o bispo de Coimbra, em razão de uma pouca de carne furtada da

cozinha do bispo pelos criados do prior; guerras em que se deram cruas

batalhas nas praças de Coimbra, sendo necessario que o poder publico

mandasse marchar tropas para pacificar á força os dous reverendos

campeões[46]. Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes, os bens

e rendas de Sancta Cruz sob a protecção de um bom milagre, naquella

occasião desoccupado, d'ahi só podia provir utilidade aos cruzios sem

damno de terceiro. Valia a pena, por isso, de achar a causa verdadeira

do milagre de Ourique, com que ninguem ainda tinha atinado.

Paro aqui; e peço desculpa a v.. da minha linguagem. Ha cousas que

nenhuma equanimidade basta para dellas se falar sem indignação, ou sem

riso. É necessario escolher, e eu prefiro o ultimo quando se tracta de

embustes e miserias que já não fazem mal. V.. tomará na conta que

merecem os factos e as reflexões que no decurso desta carta lhe

submetto, e de que no seu foro intimo tirará as conclusões que julgar

razoaveis. Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado pela

imprensa que se retirava da arena da discussão. Por mais oppostas que

sejam em tantas cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica com um

homem honesto, cortez e instruido, era-me summamente agradavel. Mas

d'hoje avante, dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que não faria uma

acção boa. Até certo ponto sería ferir pelas costas um adversario leal.

Cessou por isso a nossa correspondencia. Restam mil outros meios de

falar com o geral dos homens de bem e sinceros, e de dizer ao meu paiz

as verdades em que a guerra da maioria do clero me obriga, por propria

defesa, a fazê-lo pensar.

V

A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA

AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO

(_Março, 1851_)

Meu amigo.--Remette-me v.. o folheto de A. C. P. (que me diz ser um

«academico» o sr. Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os

crimes, as fabulas, as contradicções, as ignorancias e não sei quantas

cousas mais, em que o peccador de mim caiu na narrativa da batalha de

Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa no seu jornal acerca desta

publicação, a qual fez, segundo v.. affirma, certo effeito, por causa

das garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por lithographia ao

folheto, como prova dos progressos da arte typographica entre nós, que é

o mais que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas. Sabe o bom

redactor da _Semana_ a primeira impressão que o folheto me causou? A que

em mim produzem muitas cousas que se publicam nesta nossa terra.

Lembrei-me da Divina Providencia, para lhe agradecer que o estudo da

nossa lingua esteja tão pouco generalisado na Europa. A reputação

litteraria do paiz ganha immensamente com isso. Dizem que não se deve

nunca desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que litterariamente

desesperava della, se não fosse a mocidade, á qual Deus queira dar

bastante amor do estudo, e alumiá-la com um sancto horror a cruzar os

umbraes da Academia. A dizer a verdade, meu amigo, começa a fallecer-me

a paciencia e a vontade para discutir cousas que nos escorregam para o

chão quando tentamos submettê-las á analyse. Demais, do que eu tracto

agora é de pôr quanto antes na imprensa o quarto volume da _Historia de

Portugal_, que, em consciencia, me tem dado mais que pensar do que todas

as criticas academicas, presentes e futuras. Com a mão no coração,

digo-lhe que, _exceptis excipiendis_, o areopago censorio mais

inoffensivo, mais divertido até, que ha em todo o mundo é a Academia de

Lisboa. Collectivas ou individuaes, as censuras que partem d'alli nem

sequer arranham a supposta victima. Se não escorchassem, por via de

regra, a grammatica e o senso commum, não só seriam suaves e morbidas;

seriam até, permitta-me dizê-lo, voluptuosas. Traduzidas em chim,

tomavam-nas por obra de algum collegio de mandarins letrados do celeste

imperio. O opusculo que o meu amigo me remette é pasmoso no genero: é um

botaréu da maravilhosa fabrica das memorias e actas academicas tirado do

seu logar, e a que fizeram perder aquella parte de formosura que lhe

houvera resultado da harmonia do todo. Sinceramente, é uma cousa que

lastimo.

Agora o que, tambem sinceramente, eu não esperava era achar no opusculo

certa cortezia nas fórmas que o auctor empregou. Sabía que se estava

imprimindo contra mim um cartapacio mourisco. Pensei que fosse obra dos

reverendos, que, tão pobres de saber e de intelligencia como ricos de

odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria a colera que os abafa. E

ainda bem! Apesar do nojo que tenho desses pobres-diabos, não quero que

elles estourem, porque são meus irmãos, como em gira jesuitica se

costuma dizer a cada punhalada que se dá no proximo. Estou já tão

affeito aos improperios da imprensa devota, á caridade dos nossos

khatibs e ul-máis, que não esperava no imminente opusculo senão mais uma

prova a favor da minha crença na atrophia moral e intellectual da

maioria do nosso clero, crença que elle se encarregou de demonstrar até

a saciedade. Enganei-me: era obra secular; academica, porém cortez;

cortez (entendamo-nos) até o ponto de não usar o auctor das phrases dos

prostibulos e das tabernas, mas não até o ponto de respeitar o meu

caracter moral, porque ahi sou accusado de _falto de sinceridade_ (pag.

10), de _critico cheio de fel_, de _criminoso_ (pag. 15), de _aviltador

do valor português_ (pag. 18). Isto, porém, pode ser violento, mas não é

immundo. Os mentecaptos indecentes são os que a minha dignidade de

escriptor e de homem me não consente refutar. Assim, ser-me-ha licito

satisfazer aos desejos do bom redactor da _Semana_ e remetter-lhe

algumas notas ácerca deste curioso papel.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 8 / 16 段