Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria hoje a opinião de

Cenaculo, vamos aos _Novos Testemunhos_ do padre Pereira. Disse eu que

este escripto traria deshonra ao auctor da _Tentativa Theologica_, e da

_Vida de Gregorio VII_, se não fosse uma ironia. Confesso a v.., que

antes quero salvar, por esta hypothese, a reputação de um nome illustre

na nossa litteratura, do que acceitar a anecdota, a que alguns attribuem

a concepção dos _Novos Testemunhos_, anecdota que mais de uma vez tenho

ouvido referir. Conta-se, que, sendo o padre Pereira pouco aferrado ao

dinheiro (é defeito de classe: não creia v.. que usurario nenhum fosse

nunca homem de letras) veio a achar-se um dia com a bolsa completamente

vazia. Advertido da apertura da situação pelo creado, pegou n'algumas

folhas de papel, escreveu os _Novos Testemunhos_, mandou-os ao seu

editor, e recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos por dous ou

tres dias. Eu prefiro a ironia á anecdota, que não sei se é verdadeira.

Mas ou a musa do opusculo fosse a precisão de dinheiro, ou fosse a

vontade de gracejar, o que tenho por certo é que, a não ser assim, a

obra fora indigna de um homem, que pulverisou as pretensões illegitimas

e insolentes da curia romana, e que fez tremer boa meia duzia de

hypocritas e pedantes do seu tempo. As provas de que os _Novos

Testemunhos_ precisam da minha explicação, ou d'outra qualquer, vou

dá-las a v.., começando por transcrever uma passagem da introducção do

opusculo. Depois de apresentar como demonstração de não ser forjado _o

juramento d'Alcobaça_ o haver, antes de Brito o publicar, testemunhos

_da tradição_ de Ourique (argumento na verdade singular!) o padre

Pereira prosegue:

«Mas quanto a verificar o caso da apparição, tem a dita demonstração _o

defeito de que nenhum dos testemunhos em que ella se funda remonta a

maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel_. E assim _poderão_ os

emulos das nossas glorias _repôr_ que uns _testemunhos do principio do

XVI não são sufficientes_ para extorquir delles o assenso a um facto,

que se suppõe _acontecido no meio do seculo XII_.»

Depois d'isto, que digam todas as pessoas que lerem esta carta, não

sendo algum clerigo mau e ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte

quaesquer prevenções, o que se deve esperar no opusculo? O auctor

confessa que a favor da apparição não bastam os testemunhos posteriores

ao anno de 1495, insufficientes para provas de um facto succedido em

1139, logo elle vai offerecer-nos documentos, trezentos, ou, pelo menos,

duzentos annos anteriores. Eu digo o que nos offerece Pereira em logar

dos _testemunhos insufficientes_.

1.^o A narrativa de Olivier de la Marche na introducção ás suas

Memorias.

Esta introducção foi começada a escrever em 1492, conforme o proprio

auctor das Memorias declara[32]: isto é, as passagens relativas ás armas

reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres annos antes de começar a

epocha em que os testemunhos ácerca de um milagre succedido 357 annos

antes nada provam, segundo confessa o padre Pereira, advertindo que, por

esses não prestarem, nos ía expor quatro novos, _todos de tanto peso e

authoridade, que não ha para que se desejem outros mais graves_. Destas

premissas segue-se, que o testemunho dado a favor de um facto 357 annos

depois do tempo em que se diz succedido é _defeituoso e insufficiente_,

mas dado 354 annos depois do successo é igual ao de qualquer pessoa, ou

de muitas pessoas que houvessem presenciado este, visto que _nada ha

mais grave_, do que um testemunho posterior de 354 annos, emquanto o

posterior de 357 não presta para nada.

Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico? Deixo a escolha a v..

postoque estou certo de que das duas explicações ha-de preferir a

ultima.

Mas o caso não pára aqui. Tenha v.. paciencia, porque não fui eu que

quiz discutir o milagre de Ourique; foram os padres, que me têm

insultado porque o tractei como elle merecia, que me compelliram a isso.

Hão-de esgotar o calix da ignominia até as fézes. Elles dizem do pulpito

abaixo que era melhor que eu não tivesse falado em tal; e eu digo-lhes

da imprensa, do meu pulpito, que era melhor continuarem a aleijar o

latim do breviario e do missal, e deixarem-me em paz escrever a historia

verdadeira do meu paiz.

Digo que o caso não pára aqui, porque o modo como é narrada a historia

da apparição por Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas,

é curiosissimo. Segundo elle, o conde Henrique tinha escudo branco:

depois este escudo adornou-se por quatro vezes: 1.^a quando Affonso I,

passando o Tejo, desbaratou em campo d'Ourique (_Cambdorick_) os cinco

reis mouros, e, em allusão a cinco bandeiras que lhes tomou, pôs no

escudo branco cinco escudetes azues. 2.^a Houve nova mudança quando _o

mesmo rei foi a Roma_ emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno

consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu pondo-se

inteiramente nú, e desafiando o papa e os cardeaes para que lhe

mostrassem todos junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes das

que elle tinha recebido pela fé de Christo. Era maravilhoso, de feito, o

numero d'ellas: cinco com visiveis indicios de deverem ter sido mortaes,

a não se haver dado milagre no caso. O argumento fora peremptorio. O

papa e os cardeaes disseram-lhe que vestisse a camisa; e para lhe darem

uma satisfação da injusta pronuncia, mandaram-lhe que em cada um dos

escudetes posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria daquellas

famosissimas lançadas de que os mouros o haviam servido. 3.^a Tendo o

infante D. Fernando, rei de Portugal, casado em França com a condessa

Maria de Bolonha, teve um filho, chamado Henrique, o qual accrescentou a

orla do escudo em que estão os castellos. E sobre este ponto discute o

auctor o erro que havia nos dictos castellos, estribando-se na opinião

de portuguêses notaveis. Entre estes devo advertir, para o que v.. logo

verá, que elle havia já mencionado especialmente _e com elogios

extraordinarios_ o celebre Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a

dignidade de escanção de Madama Margarida, viuva de Carlos o

Temerario[33]. A 4.^a alteração, que vinha a ser a quinta fórma das

armas reaes portuguesas, foi o pôr-lhes uma cruz firmada no escudo um

rei de Portugal (já se vê que muito posterior a Affonso I), facto cuja

origem _alguns attribuiam (aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido uma

cruz no céu_ durante uma batalha com os sarracenos, o que vendo o

principe dissera, orando a Deus, que _mostrasse_ antes a _cruz_ aos

infieis, e _assim se fez_, com o que os mouros ficaram desbaratados.

Accrescenta Olivier de La Marche que talvez o milagre seja verdadeiro;

mas que _para elle a verdade é que o bom rei João_ (D. João I) foi quem

ajunctou ás armas portuguesas os quatro braços floreteados firmados no

escudo.

Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la Marche em toda a sua força e

pureza, postoque resumido. Não lhe faço commentarios. Deixo a v.. e a

todos homens instruidos que os façam. Eu por mim estou satisfeito.

Inverterei aqui a serie dos quatro _irrecusaveis_ testemunhos do padre

Pereira, porque tenho uma razão de ordem que me obriga a reservar o

segundo para o ultimo logar. Falarei, portanto, do terceiro.

Gomes Eannes de Azurara, na continuação da chronica de D. João I por

Fernão Lopes, transcreve um discurso feito áquelle principe pelos seus

confessores, frei Vasco Pereira e frei João Xira, a quem elrei pedira

lhe dissessem se era serviço de Deus intentar a conquista de Ceuta. A

resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se no exemplo de muitos

outros principes e cavalleiros famosos, que haviam acommettido os

infiéis na persuasão de que practicavam uma obra meritoria,

offerecendo-se á morte. Os que a tinham alcançado, entendiam os dous

frades que ficavam equiparados no céu aos martyres, e que os que não a

haviam obtido, nem por isso deixavam de ser sanctos, estando resolvidos

a morrer alegremente pela fé. Os theologos terminaram a serie dos

exemplos (nos quaes figuram entre aquella especie singular de

bemaventurados o Cid Ruy Dias e o conde de Castella Fernão Gonçalves,

que nunca desconfiaram de que eram sanctos) pela seguinte passagem,

conforme se lê na edição de 1644:

«...temos ante nossos olhos a memoria do mui notavel, fiel e catholico

christão elrei D. Affonso Henriques, cujas reliquias tractamos entre

nossas mãos. Vêde, senhor, os signaes que trazeis em vossas bandeiras, e

perguntai e sabei como e por que guisa foram ganhados; os quaes

certamente de todas as partes mostram a paixão de Nosso Senhor

Jesu-Christo, _por cuja reverencia e amor o bemaventurado_ rei offereceu

o seu corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles cinco reis, como

vossa mercê sabe. Considerae _isso mesmo_ (do mesmo modo) Senhor, _se

elle duvidara se o seguinte trabalho era serviço de Deus, não tivereis

vós hoje em dia esta mui nobre cidade_ (Lisboa) nem a villa de Santarem,

com outros logares, etc.»

Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque illustrava o sentido das

phrases relativas á batalha de Ourique. O que frei João Xira queria

dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera a morrer por

Christo em Ourique, entendendo que fazia serviço a Deus, como depois, na

tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala aqui no milagre? Se

houvesse outras testemunhas daquella epocha (1415), que positivamente

referissem a apparição, ainda se poderia, embora com violencia, suppôr

nas phrases do frade uma allusão ao successo; mas faltando-nos

absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa tal supposição. Trazer

esta passagem para provar, que já em 1415 existia a tradição, ao passo

que, para ella poder ter a significação forçada que se lhe quer dar é

necessario suppôr a existencia da mesma tradição, o que é, senão um

circulo vicioso, uma petição de principio? Não é, porém, só isso. Nestas

lendas, inventadas com fins humanos por milagreiros e falsarios, quasi

que não é possivel dar um passo sem encontrar falsificação. A chronica

de Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra contra os castelhanos,

depois da revolução de 1640, e precedida por uma gravura representando a

apparição, foi viciada nesta passagem, provavelmente para se ver nella

uma allusão obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu ver, o padre

Pereira. No codice authentico do Archivo nacional, onde no impresso se

lê «_vencendo_», está escripto «_vendo_». «Vendo» torna o sentido da

passagem claro. O rei _vendo_ os _cinco_ reis mouros, offereceu o seu

corpo a Jesus, e pôs nas suas bandeiras os _cinco_ escudos. Substituida,

porém, a palavra _vendo_ por _vencendo_, a phrase obscurece-se; a causa

de se pôrem os cincos escudos nas bandeiras, isto é, o serem os reis

mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que se cria tirar vantagem em

1644, ganha em frei João Xira um novo, postoque bem debil, alliado.

Mas supponhamos tudo quanto quizerem. Adoptemos como exacto o texto

impresso de Azurara: vejamos ahi a apparição, embora não haja lá uma

unica palavra a semelhante respeito. O testemunho singular de frei João

Xira em 1415 não seria um pouco tardio para provar um successo de 1139,

profundamente esquecido nos chronicons e monumentos coevos? Não o

rejeitam as regras da critica sincera; regras estabelecidas accordemente

por tantos e tão respeitaveis escriptores ecclesiasticos; regras, emfim,

cuja solidez a experiencia demonstra de contínuo aos que se votam a

serios estudos historicos? Quer v.. um exemplo domestico da utilidade

das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos, dos Fleurys,

desprezadas só por aquelles que desprezam tudo, menos os dezeseis

tostões de um sermão de milagres? É exemplo que não está no cartorio da

camara de Evora, nem nos Commentarios ideaes de Affonso X, mas no

Archivo Nacional, onde todos o podem vêr. Consiste n'uma especie de

summario historico dos reis de Portugal, lançado no 4.^o volume de

Inquirições de Affonso III, no reinado de D. João I. No preambulo

daquelle summario, destinado a avaliar-se, á vista dos factos

historicos, a genuinidade das doações dos reis anteriores, affirma-se

que para o escrever se averiguara com extrema exacção a verdade,

fixando-se assim a serie chronologica dos principes portugueses. Sabe

v.. qual é a exacção desse monumento destinado a servir de padrão legal,

para por elle se afferirem diplomas que importavam á fortuna particular

e aos direitos da corôa? Citarei só os erros relativos a Affonso I.

Segundo o summario official, elle nasceu em 1092, foi casado com a filha

de D. Affonso de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em dezembro

de 1184. D'aqui verá v.. o credito que deveriam merecer-nos os

testemunhos do seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre do seculo

XII, quando esses testemunhos existissem, e não fossem um rol vergonhoso

de falsificações e mentiras.

O quarto testemunho do padre Pereira é o proprio instrumento da

apparição, que existiu em Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o

de Alcobaça. O auctor dos Novos Testemunhos diz que não sabe se os dous

foram uma e a mesma cousa, passando o celebre documento do archivo

daquelle mosteiro para o d'Alcobaça. Como demonstra elle, porém, essa

existencia? Pelo depoimento de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556, e

publicado por outro frade cruzio, insigne forjador de textos e diplomas,

e chronista da ordem, frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario

pelos seus proprios confrades[34]. Se acreditarmos este, os conegos de

Sancta Cruz, _empenhados em fazer canonisar Affonso I_, requereram se

tirasse um depoimento de testemunhas sobre os milagres do primeiro rei

português, do _Pharaó obdurado_ dos monges de Cella-Nova. Quem

primeiramente depôs foi um _dos conegos empenhados_, e foi este que

disse constar o milagre de Ourique pelo juramento que existia do mesmo

rei. Desse juramento original tiraram-se então em duplicado copias

authenticas; uma para se guardar no mosteiro, outra para ir a Roma, o

que não chegou a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz o original e

uma copia em instrumento, e fóra d'alli outra copia authentica. Tudo

isto se perdeu, e nada resta de um documento de tanta valia, que

forçosamente se havia de guardar com recato, senão a grosseira impostura

dos frades bernardos, restando tambem, nos fins do seculo passado, um

traslado que se dizia transcripto de _um original_, diverso no seu theor

do _outro original_ de Alcobaça, e só semelhante a elle em ter sellos

pendentes, cousa que não existia na epocha em que o juramento se diz

exarado.

O que tudo isto vem a ser é uma serie de vergonhas e miserias

repugnantes, e sobretudo de falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios,

elles nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os seus embustes. Se

frei Nicolau, ou os conegos de 1156 (porque eu não sei se a historia do

depoimento se verificou, ou se é invenção do chronista) se lembrassem do

que passou antes d'elles, teriam procedido com mais cautela nas suas

mentiras. Quem lê a façanhosa chronica dos conegos regrantes conclue que

no tempo de frei Nicolau os pergaminhos originaes eram aos milhares em

Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui está o que não só elle proprio,

postoque fraca testemunha, mas tambem escriptores mais serios, que se

reportam a um documento coevo, nos referem como acontecido em 1411. No

dia de Corpo de Deus desse anno, uma tempestade que estourou sobre

Coimbra produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu o mosteiro de

Sancta Cruz. «A agua (diz o auto que sobre isto se redigiu) levou, além

de muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas de memorias

antigas e de doações que os reis fizeram ao dicto mosteiro, que _todas_

foram molhadas _e a mór parte dellas perdida_». Sabendo elrei D. João I

do successo, segundo confessa o mesmo frei Nicolau, ordenou se

trasladassem em publica fórma as _doações e mais escripturas_ que

restavam dando-se a este transumpto a mesma força dos originaes, «_com o

que_, prosegue o chronista, _se restaurou parte da perda de tantas e tão

antigas escripturas que hoje nos fazem grande falta_». De duas uma: ou o

instrumento da apparição depositado em Sancta Cruz pereceu em 1411, ou

escapou. Se escapou, devia ser trasladado no chartulario em que, segundo

a ordem delrei, se lançou o que restava. Esse chartulario existia ainda

no tempo do chronista, e provavelmente existe ainda hoje. Para que

inventaram, pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaça? Porque, em vez de

imaginarem cem mentiras para amparar a tradição, não foram a Sancta Cruz

extrahir desse traslado authentico dez ou cem traslados novos, que

tambem seriam historica e até legalmente authenticos? Porque não vão lá

buscá-los ainda hoje para confundirem a minha impiedade? Se, porém, o

pergaminho original pereceu em 1411, que são essas historias de

publicas-fórmas _do original_ feitas pelos notarios Manso e Thomé da

Cruz, e não sei por quem mais, senão embustes, ou copias tiradas de um

documento falso. Porque eu não disputo, nem me importa, que elle fosse

forjado pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de S. Bernardo.

Falta o segundo testemunho, que deixei para ultimo logar, porque se

prende com o que me resta a dizer a v.. sobre a lenda da apparição. Esse

testemunho é o de Vasco Fernandes de Lucena, que, indo como orador da

embaixada enviada por D. João II ao papa em 1485, referiu a historia da

apparição no discurso que recitou perante Innocencio VIII e perante a

curia. Como prova do successo, elle tem pouco mais ou menos o valor do

de Olivier de la Marche. Se aos historiadores que escreveram depois de

1495 se não póde attribuir, segundo Pereira, e muito mais segundo as

doutrinas dos pios e eruditos escriptores a que me referi na carta

antecedente, auctoridade bastante para nos compellirem a acceitar a

tradição de Ourique, tê-la-ha, porventura, o testemunho singular de um

homem que o refere apenas dez annos antes, tractando-se de um milagre

que se diz succedido n'uma epocha anterior de mais de tres seculos? É

impossivel que v.. não sinta que semelhante auctoridade nada vale.

Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu. O primeiro e o segundo são

dos fins do seculo XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a um só.

Persuadem-no o affirmar Olivier de la Marche que sobre a questão das

armas portuguesas ouvira pessoas _notaveis_ de Portugal com quem

tractara[35] tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos elogios á

sciencia e talento de Vasco de Lucena. O terceiro é uma passagem, aliàs

viciada, de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer correcta, não

contém uma unica palavra ácerca da apparição. Finalmente, o quarto é o

juramento de Affonso Henriques, que _consta_ existia em Sancta Cruz

muito antes de Fr. Bernardo de Brito encontrar o de Alcobaça, o qual se

não sabe se é o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas que nós sabemos

perfeitamente que é falso. Eis aqui os testemunhos do milagre de

Ourique, «_de tanto peso e auctoridade, que não ha para que se desejem

outros mais graves_».

Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo a decidir se o padre Pereira

escreveu isto em seu juizo, ou se estava dando largas á sua jovialidade.

Resta-me só fazer um esforço para acceder, até onde é possivel, a uma

pretensão de v.. embora já ficasse provado que ella era infundada. Diz

v.. que para refutar plenamente a fabula da apparição deveria eu dizer

quando, como, para que, e por quem fora inventada. É evidente que o

falsario havia de precaver-se para não o descubrirem, e só elle poderia

dizer positivamente qual era o seu intuito quando forjou a patranha.

Sendo homem astuto, saberia não somente guardar segredo, mas tambem

fazer espalhar com arte a fabula. Que calumnias não tem alevantado uns

aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos? Muitas dellas,

passando primeiro de boca em boca, vindo á imprensa, combatidas pelos

calumniados, nem por isso hão deixado de generalisar-se, e de tomar ás

vezes tal consistencia, que é possivel passarem algumas, d'aqui a um

seculo, por factos historicos, até que uma critica severa e

desapaixonada as reduza ao seu justo valor. Sobre a origem da fabula de

Ourique não se podem produzir factos decisivos, mas podem reunir-se

alguns, que, assim aproximados, offerecerão fundamento a suspeitas

vehementes sobre a epocha do nascimento da tradição, sobre seus

auctores, e sobre os fins com que foi inventada. Note v.. que eu falo da

tradição e não do juramento, que provavelmente, no estado em que hoje o

temos, é mais moderno. Quanto a esse invento grosseiro, considerado em

si, confesso que me fallece o animo para o analysar.

Partamos de um facto. O primeiro testemunho sobre a existencia da

tradição relativa ao milagre de Ourique, preciso, incontroverso, é o de

Vasco Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais são chronicas que _se

perderam_, vestigios que _se apagaram_, obras que _ninguem conhece_.

Isto faz lembrar o gracioso livro das _Antiguidades de Evora_, que

muitos tem tomado por obra de um tolo, e que na realidade são a satyra

dos falsarios e crendeiros, feita por um homem espirituoso e engraçado.

Tudo quanto se cita anterior a 1485 são embustes e ridicularias, sem

exceptuar as chronicas do tempo de Affonso Henriques attribuidas aos

imaginarios chronistas João Camello e Pedro Alfarde, onde se diz que

_talvez_ se achasse a tradição. A invenção dos taes chronistas, frades

de Sancta Cruz, tinha já sido reduzida a pó pelo cruzio D. Thomás da

Incarnação, e por frei Manuel de Figueiredo, frade d'Alcobaça. A

referencia a semelhantes mentiras feita por Pereira e por Cenaculo, que

escreveram depois de ellas estarem refutadas, prova a _sinceridade_ com

que foram redigidos nesta parte os _Cuidados Litterarios_, e tambem os

_Novos Testemunhos_.

Temos, pois, um homem celebre, um castelhano, erudito, valido de D. João

II, que, n'um discurso recitado perante Innocencio VIII, menciona pela

primeira vez a apparição. Singular origem de uma fabula, que, revelada

por um estrangeiro, vem á luz em terra estrangeira, regida por um

governo theocratico, que tem por fundamento primitivo do seu dominio

temporal um titulo falso.

A memoria de D. João II é odiosa. Entre todos os reis legitimos

portugueses, é elle o unico ao qual sem injustiça a historia póde

attribuir a qualificação de tyranno. Elle foi quem deu o golpe mortal

nas velhas liberdades desta nossa terra. No seu reinado tem de ir buscar

o historiador a causa fundamental da nossa decadencia, que começa com o

estabelecimento do absolutismo, embora a podridão que corroe a arvore se

esconda por alguns annos no cerne. É tambem singular por esta

circumstancia a origem da tradição. Nasce, dilata-se, cresce, firmando

as raizes no tumulo da liberdade.

Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado do _principe perfeito_ um

foragido português, seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da

Costa. Depois do assassinio judicial do duque de Bragança, o cardeal

aproveitou o ensejo para malquistar o rei português com Sixto IV. Em

consequencia d'isso (ao menos assim se acreditava), o papa enviou em

1483 um nuncio a Portugal, a queixar-se dos abusos do poder temporal

contra as pretendidas immunidades da igreja, que o filho de Affonso V

respeitava tanto como os foros politicos do reino. Foi o rei emprazado

para apparecer ante o papa, por si ou por procurador, para dar

explicações ácerca do seu procedimento. Nomearam-se embaixadores; mas

antes de partirem, Sixto IV relevou o rei da citação, diz-se que a

instancias do mesmo cardeal que excitara a tempestade, receioso de que

os ministros portugueses, chegando a Roma, lhe pagassem em igual moeda,

fazendo-lhe perder parte do poder e credito de que gosava[36].

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 7 / 16 段