converter os infiéis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer ao
mundo a guerra, da sequencia do seu discurso, e do procedimento dos seus
discipulos se manifesta claramente que só se referia ás turbações que
havia de excitar a sua doutrina celestial, turbações em que a violencia
havia de vir toda dos inimigos, a quem os christãos opporiam a
resistencia que as ovelhas oppõem aos lobos. A verdadeira religião deve
conservar-se e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu,
pela prédica discreta, pelas obras virtuosas, e mais que tudo por
illimitada paciencia. Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres,
mais prompto será o effeito. Quando Machiavello dizia que os prophetas
desarmados nunca saíram com seus intentos, mostrava-se a um tempo
ignorante e impio; porque Jesu-Christo, o mais desarmado de todos, foi o
que fez conquistas mais rapidas e firmes; conquistas como elle as
queria, ganhando as almas, mudando de todo os homens, e tornando-os de
maus em bons, o que nenhum conquistador jámais fez....»
«Repito pois, que não se deve tractar de diminuir as falsas religiões,
ou dilatar a verdadeira pelas armas e pela violencia: não são os infiéis
que se devem destruir, mas sim a infidelidade, conservando os homens, e
illustrando-os ácerca dos seus erros. Em summa, para isso não ha senão
um meio, persuadir e converter....»
Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres d'Alcacer e de Ourique,
milagres em que se faz intervir o céu para o derramamento do sangue
humano; milagres, que nem tem o merito de originalidade, porque não
havia por essa épocha paiz da Europa, onde tambem a credulidade de
muitos, e a má fé de alguns não tivessem associado largamente o céu ás
luctas sanguinolentas daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres,
emfim, que, por sua natureza, são, religiosa e moralmente, absurdos.
De passagem lembrarei a v.. que não é bem fundada a accusação que me
dirige, de que não appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente de
Lerins, quando foi exactamente o contrario que fiz. Dos tres testemunhos
presenciaes que temos ácerca daquelle celebre recontro, só em dous se
allude aos signaes miraculosos que se viram no céu. O auctor da Historia
Damiatana, que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia milagrosa.
Não acha v.. significativo este silencio? Em todo o caso falta o _ab
omnibus_ de Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a doutrina de
Mabillon, citada por mim na carta antecedente, de que é _temerario_, não
só o acreditarmos em milagres falsos, mas até nos simplesmente
_duvidosos_. Quando o sentimento religioso, o respeito das doutrinas
evangelicas não obstasse á crença nesse favor do céu, obstar-lhe-hia a
severa doutrina do grande benedictino.
Se não fosse o desejo de dar satisfação plena aos homens escrupulosos,
mas capazes de se convencerem da verdade, como v.. talvez concluisse
aqui esta carta, porque as grosserias parvoas da ignorancia e os rugidos
do interesse ferido, que vê fugir atraz da apparição de Ourique todos os
milagres rendosos, só se punem com a immortalidade do ridiculo.
Não concluirei, porém, sem dizer alguma cousa em especial sobre a
tradição do apparecimento de Christo a Affonso I, considerada na sua
origem, e no modo como foi propagada e defendida. Os principios mais
solidos da critica, o silencio absoluto, não só dos contemporaneos, mas
tambem de dez gerações successivas, bastaria para condemnar a tradição
aos olhos dos desapaixonados, quando ella não fosse absurda em si,
porque é absurdo pôr Deus em contradicção com a indole do christianismo.
Ha, porém, na historia da invenção, propagação, e aperfeiçoamento dessa
lenda tanta hesitação, tantas contradições, tanta imprudencia, tanta
falsificação, tantos desejos de se illudir ou de illudir os outros, em
homens que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas, que o
colligir as provas disso é offerecer uma licção salutar do perigo que ha
em abusar do sentimento religioso do povo para fins mundanos, e da
miseria a que podem chegar ainda os altos engenhos, quando se esquecem
das doutrinas evangelicas, e de que as duas cousas que o Salvador mais
solemnemente amaldicçoou neste mundo foram a mentira e a hypocrisia.
O silencio de mais de tres seculos sobre um facto estrondoso, que
deveria andar na memoria de todos, como o milagre de Ourique, não é só
negativo, por assim nos exprimirmos; é tambem positivo. Conjuncturas
houve, antes dos fins do seculo XV, em que elle se teria publicamente
invocado, se não fosse uma fabula ainda não inventada. Citarei duas.
Seria inexplicavel, se admittissemos a existencia da tradição cem annos
antes de 1485, que nem um só dos prégadores, letrados, e capitães de D.
João I, os quaes mais de uma vez, nas suas allocuções ao povo e aos
soldados, reccorreram ás cousas religiosas para accender os animos
contra os castelhanos, e para crear a confiança de victoria final na
lucta brilhante da independencia; que nem um só desses prégadores,
letrados e capitães, os quaes não cessavam de accusar os inimigos de
scismaticos, pretendendo ligar á sua causa a causa de Deus, se lembrasse
jámais de citar as promessas feitas por Christo a Affonso I, o que era
decisivo. Antes disso, tambem, nos principios do seculo XIV,
tractando-se com grande empenho da separação da ordem de Sanctiago em
Portugal do grão-mestrado de Castella, o mestre e os freires portugueses
dirigiram ao papa um longo arrazoado em que argumentavam, que, sendo os
bens que a ordem possuia em Portugal, reino separado e independente de
Castella, dados pelos reis deste paiz, não era justo que o grão-mestre
castelhano os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para firmar na
origem do reino a independencia daquella parte dos cavalleiros que nelle
residiam, o mestre Pedro Escacho e os seus commendadores allegavam ao
papa um facto novo, mas do qual era quasi impossivel que separassem a
historia da apparição, se della houvesse vestigios. O facto novo era a
acclamação de Affonso I em Ourique.
«Outr'ora--diziam em Roma os procuradores dos spatharios--o rei de
Portugal, D. Affonso I de clara memoria, o qual, esmagando com mão
poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo de Ourique, foi
elevado a rei pelos seus nobres e _pelos outros concelhos_, combateu os
dictos sarracenos inimigos da religião orthodoxa com todas as forças,
para exaltação da fé catholica e defensão do proprio reino. O mesmo rei,
debellando e expugnando os infiéis, acommetteu-os e tirou-lhes
castellos, fortalezas e muitas terras. Acceso em zelo da fé, e
attendendo ao esforço do mestre e freires de Sanctiago que então viviam,
concedeu-lhes, etc.»
Não fazendo caso da ignorancia dos procuradores de Pedro Escacho[28]
ácerca do estado da sociedade portuguesa no meiado do seculo XII, quando
mencionam os villãos dos concelhos como intervindo n'uma eleição de rei,
não faz peso a v.. que não se lembrem do milagre da apparição? Se
existisse a tradição, poderiam elles ignorá-la, e não a ignorando
ommitti-la, quando tanto convinha invocá-la? Não era evidente que o
titulo e a independencia do rei obtinham incomparavelmente mais
importancia e firmeza dos mandados positivos de Christo, do que das
acclamações da soldadesca? Deixo á imparcialidade de v.. o resolver
estas questões.
Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas as memorias e
documentos anteriores a 1485 ácerca da apparição não é só negativo; que
é tambem positivo. Mas existe realmente este silencio?--perguntar-me-ha
v.. Conforme a sua opinião, estribada na de Cenaculo e Pereira, elle não
existe. No folheto recentemente publicado, que v.. intitulou _Nova
Insistencia_, com lealdade de cavalheiro e de homem de letras v..
abandonou o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que tambem o antigo
documento da _Symmicta_ ao destino que elles mereciam; mas insiste nos
outros documentos que se citam. Examinarei se v.. tem razão na
insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar aqui v.. das injurias que
a bruta ignorancia de um pobre tonto vomitou indirectamente contra v..
por não distinguir o texto attribuido no breviario a S. Bernardo;
cabe-me, digo, consolá-lo com o meu exemplo, e com o de um sacerdote
instruido, que, enganado com v.. por aquella insigne falsificação,
expondo-lhe eu as minhas opiniões ácerca do milagre de Ourique, me
contrapunha o testemunho do grande abbade de Claraval, inserto no
breviario. Como, porém, para escrever a historia do nosso paiz é
necessario caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja, lá com todas
as prevenções contra os salteadores, cá attentos sempre a que não nos
illuda a cada momento um fabricante de mentiras ou um falsificador de
documentos e textos, amestrado pela experiencia repliquei que duvidava
da passagem do breviario, e que duvidava sobretudo pelo adjectivo
_lusitanum_, que nella se lê, e que eu tinha a certeza de não se
encontrar em monumento nenhum do seculo XII para significar _português,
cousa portuguesa_. Na duvida, passámos a examinar o texto do sancto, e a
falsificação appareceu-nos logo mais clara que o dia. Assim v.. teve
companheiros na illusão; nem creia que tem tido só dous: ha-de ter tido
milhares delles. Ria-se destes eruditos que adivinham tudo quanto se
lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra, que logo distinguem _pelo
estylo_ quatro ou cinco linhas interpoladas nas obras de qualquer
escriptor.
Mas, voltando ás cousas sérias, v.., repito, insiste nas outras provas,
desprezadas as evidentemente falsas. E quaes são as que ficam? Creio que
v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon, e de toda a gente que
não esteja em guerra declarada com o senso-commum, _de que não provém
maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos
auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que o outro
tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais do que o primeiro que o
referiu._ Assim, tendo nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam
o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do seculo XVI annullam-se
completamente. Ha, porém, outras anteriores, dirá talvez v.. É verdade
que Cenaculo as propõe. Mas quaes são ellas? Examinemos.
1.^o Um indice, escripto em Roma, de documentos relativos a Portugal em
que se memora o facto da apparição.
Como Cenaculo nos não diz a data do indice, estamos desobrigados de
discutir o documento a que se refere: provavelmente havia de ser pelo
gosto do da Symmicta.
2.^o A doação ao mosteiro de Claraval, feita por Affonso Henriques.
Tem o pequeno inconveniente de ser falsa. João Pedro Ribeiro reduziu-a a
lastimoso estado na segunda das suas Dissertações Chronologicas. Estou
certo de que o bispo de Béja, se resuscitasse, não havia de ter vontade
de tornar a falar nella.
3.^o Nos _Commentarios_ de Affonso sabio, traduzidos em português no
tempo de Affonso IV, termina o capitulo 416 por uma passagem, em que
Cenaculo quiz ver a memoria do milagre, embora nella não haja uma
palavra a semelhante respeito.
Este testemunho, ainda suppondo que a passagem diga o que não diz, tem
tambem outro pequeno inconveniente. É que Affonso sabio não escreveu
Commentarios nenhuns. Veja v.. se os encontra mencionados no extenso e
minucioso artigo ácerca de Affonso X, na _Bibliotheca Hespanhola_ de
Rodrigues de Castro, ou se acha em parte alguma vestigios de taes
Commentarios.
4.^o Uma passagem de uma chronica inedita dos reis de Portugal, que,
_pela fórma da letra e pela linguagem_, se conhece ser do tempo de
Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta de um codice da camara
d'Evora.
Pedirei pela primeira vez um favor a v.. É que não acredite demasiado na
pericia paleographica de Cenaculo. A diplomatica ainda não acho meios
sufficientes para distinguir com certeza pela fórma dos caracteres, nos
codices portugueses, os que são do seculo XIV ou do XV. Tanto em letra
assentada como em cursivo, não ha nelles senão a alleman pura, ou a
francesa com maior ou menor resabio de monachal ou alleman. Isto é
commum a ambos os seculos. A mesma romana pura ou restaurada, que começa
a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio da monachal. Pelo que
respeita á outra adivinhação de Cenaculo relativamente á linguagem, v..
como homem de letras, está por certo habilitado para avaliar a _força_
deste meio de apreciação. Se o bispo de Béja vivesse, eu compromettia-me
a apresentar-lhe passagens extensas, escriptas em vulgar no meio do
seculo XIV e outras escriptas já na segunda metade do XV, e se elle
fosse capaz de dizer quaes eram as antigas e quaes as modernas, dava-lhe
a minha palavra de honra de ficar crendo no milagre de Ourique. Esta
experiencia que eu offereceria ao erudito bispo, estou prompto a
offerecê-la a quem quer que pretender tentá-la.
Agora accrescentarei mais alguma cousa. No archivo da camara d'Evora,
que examinei por meus proprios olhos, posso certificar a v.. que nada ha
anterior a D. João I; nem diplomas, nem codices. Que é feito da tal
chronica que o bispo de Béja diz existir no archivo da camara d'Evora? O
que havia de estimação naquelle archivo foi distrahido pelo antiquario
Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de Cenaculo. Isto é sabido pelas
pessoas eruditas d'aquella cidade. V.. deduzirá d'aqui as conclusões
legitimas.
A erudição immensa de Cenaculo tem um defeito que nelle provinha do
excesso de uma util faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa.
Era essa faculdade a da memoria comprehensiva e tenaz. Lia muito e
fiava-se na força da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos
seus escriptos que grande numero das citações que fazia e das
auctoridades em que se estribava não as verificava, e que a memoria o
trahia ás vezes, quando menos em particularidades e accidentes que
modificavam a significação dos textos, servindo mal os intuitos do bom
do prelado e tornando suspeita a sua candura.
Os _Commentarios_, por exemplo, de Affonso sabio, traduzidos em
português, podiam ser, não uma invenção, mas sim uma reminiscencia, ou
uma nota tomada á pressa por Cenaculo, e talvez a chronica inedita dos
reis de Portugal, que _pela fórma da letra e pela linguagem_ se conhecia
ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa analoga aos taes _Commentarios_,
isto é, apenas uma confusão de idéas, ou, quando muito, uma inexacção de
apontamentos.
Existe uma compilação historica em vulgar, ou colligida ou accrescentada
nos meiados do seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal abrange
a regencia e morte do infante D. Pedro (cap. 438) e nada contém
posterior a este facto, continuando nos capitulos seguintes a historia
dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se tres exemplares desta
compilação, que constitue, ao menos intencionalmente, uma historia geral
das Hespanhas desde os tempos mais remotos até os seculos XIV e XV. Em
París e em Madrid conservam-se os dous exemplares mais antigos. O de
París trasladou-o o dr. Nunes de Carvalho com o intuito de imprimir
aquelle curioso inedito. Dadiva do meu tão erudito como modesto amigo
José Gomes Monteiro, possuo eu o terceiro exemplar, que parece ter
pertencido a Manuel Severim de Faria. O codice de Madrid é talvez o
mesmo que menciona pouco explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de
Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A _Cronica General_ attribuida
a Affonso sabio subministrou ao compilador a historia fabulosa e a
historia antiga da Peninsula atè a epocha leonosa. A corographia
d'Hespanha, bem como a narração da entrada e conquista desta pelos
mussulmanos e dos primeiros tempos do seu predominio são extrahidas da
historia arabe de Arrazi, conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro
Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e á iniciativa daquelle
principe uma traducção do livro do historiador musulmano, e
effectivamente esta parte da compilação é uma daquellas que parecem mais
antigas pela rudeza da linguagem. A chronica do Cid, publicada
modernamente pelo P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por
Masdeu, era conhecida já do compilador, que largamente a aproveitou na
composição do seu livro.
No exemplar de París, conforme o que se vê da copia de Nunes de
Carvalho, faltam os capitulos 411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no
exemplar de Madrid. Encontram-se, porém, no que pertenceu a Severim de
Faria; e é justamente nestes capitulos, desde o 412 até o 438 que está
inserida a chronica dos reis de Portugal, começando na vinda do conde D.
Henrique e finalisando nos primeiros annos do governo de Affonso V. É
uma narrativa assás resumida, distinguindo-se apenas a parte relativa
aos reinados de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos verdadeiros ou
fabulosos são mais particularisados.
Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto, com o n.^o 79, um antigo
codice transferido para alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de
Coimbra. Contém varias memorias historicas e outros papeis avulsos
escriptos por diversas mãos, tudo colligido, segundo parece, nos fins do
seculo XV. Acaba o codice por dous chronicons em vulgar[29]. Um tem por
titulo «_Como e donde descenderom os reis de Portugal_»: o outro «_Aqui
se compeça a istoria dos reys de Portugal_»: Ambos se referem em breves
palavras ao conde Henrique, dilatando-se com os successos e lendas da
vida de Affonso Henriques, successos e lendas aproveitados pelo
chronista Galvão. Ao passo, porém, que o primeiro chronicon não
ultrapassa a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque em breve
resumo, as vidas dos seus successores até D. Dinis. Em relação aos
tempos de Affonso Henriques são em parte identicos, não só no contexto,
mas até nas phrases. Ha todavia entre elles uma differença digna de
reparo: é a de que no primeiro se repetem mais de uma vez as palavras
_conta a historia_, que não apparecem no segundo, ao passo que n'aquelle
se referem tradições relativas a Affonso I ommittidas neste, donde se
conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho historico mais antigo,
de que talvez o segundo seja apenas um extracto, embora accrescentado
com leves traços dos subsequentes reinados.
No exemplar da compilação que pertenceu a Severim de Faria a narrativa
dos successos de Portugal durante a vida de Affonso I póde dizer-se que
é um complexo dos dous chronicons de Sancta Cruz, ás vezes perfeitamente
semelhante, outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se os
chronicons na compilação ou tiraram-se della? Por outra: qual dos tres
monumentos é mais antigo? É o que não importa nem eu me atrevo a
resolver.
O que importa é o que se lê nestes monumentos, os mais remotos que nos
restam escriptos em vulgar, ácerca da batalha de Ourique. Vejamos se lá
se encontram vestigios do celebre milagre.
O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos que Affonso Henriques,
acclamado rei pelo exercito antes do combate, depois deste, _por memoria
daquelle boo aquecimento que lhe deus dera pôs no seu pendam cinquo
escudos por aquelles cinquo reis e pose-os em cruz por renembrança da
cruz de nosso senhor ieshu christo, e pôs em cada huum XXX dinheiros por
memoria daquelles XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu christo._
No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada da lucta de
Affonso Henriques com sua mãe e com o conde de Trava (a que faz seguir
immediatamente o recontro de Valdevez) e a lenda do cardeal legado e do
bispo negro medeia a noticia da batalha de Ourique por estas simples
palavras: _E depois ouve batalha em nos quanpos dourique e venceo a._
Indicio notavel de que ainda no seculo XV havia quem desse áquelle
acontecimento uma importancia secundaria.
Na compilação a passagem relativa á jornada de Ourique é a seguinte:
«Ajuntou suas gentes e foyse sobre os mouros e correolhes a terra dês
coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e correo toda a terra ataa
o campo de Ourique, onde achou elRey ismar, que a essa sazon era Rey da
estremadura, com sinco Reys que o vinham buscar sabendo o grande dapno
que lhes fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha no lugar que
se chama crasto verde, e vencêos e prendêos e matou a mayor parte de
todas suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha os seus o
alçaram por Rey, e dês enton se chamou Rey de portugal: e depois que os
Reis forom vencidos, elRey dom Affom de portogal, por memoria daquelle
boo acontecimento que lhe deus dera trouve por armas sinco escudos por
aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrança da cruz de nosso
senhor jesu cristo, e poz em cada huum escudo trinta dinheiros por os
trinta dinheiros por que judas o vendêo, e dêsi tornouse para sua terra
muy honradamente».
Onde estará o milagre em qualquer destas tres passagens não posteriores
aos meados do seculo XV e que por ventura são mais antigas?
É muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa e variadissima leitura,
tivesse visto alguma copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente a
compilação no exemplar de Severim de Faria, que viveu no Alemtejo, onde
tambem Cenaculo residiu longamente, e onde o manuscripto podia
conservar-se ainda no tempo do bispo de Beja. Uma circumstancia digna de
notar-se torna mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim do
capitulo 416 dos suppostos _Commentarios_, e na compilação os ultimos
periodos do capitulo 415 são os que se referem á batalha de Ourique e
aos seus resultados. O logar do capitulo citado é o mesmo: a differença
está na numeração deste, e essa differença é apenas de uma unidade.
Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz derivar o imaginario
escudo de Affonso Henriques, nada mais facil do que Cenaculo, citando de
memoria, dar á compilação, tirada em grande parte da _Cronica general_,
o titulo de Commentarios d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta
Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo tempo a lenda do escudo
d'armas com a lenda da apparição, acerca da qual não ha ahi uma palavra.
Tudo isto não passa de conjecturas, mas de conjecturas que põem em salvo
a probidade litteraria de um dos nossos mais illustres prelados de uma
epocha ainda pouco remota, em que os bispos portugueses eram bispos, e
não vigarios do papa[30].
Em Cenaculo a defensão do milagre de Ourique era empenho cego. Não sei,
nem me importam os motivos. Importa-me o facto, que annullaria melhores
testemunhos do que esses que cita, quando elle fosse o seu unico
abonador. Quer v.. uma prova decisiva da cegueira do douto prelado? Eu
lh'a dou, e irrefragavel: é o seguinte periodo:
«O advertido padre Pereira faz ver que desde o seculo XV se acham
escriptores mui auctorisados, que referem o acontecimento como de cousa
_então vulgar entre as pessoas que haviam tractado os immediatos
contemporaneos do successo, em maneira que a tradição é coetanea._»
Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer que em 1485 (epocha do
primeiro testemunho preciso sobre a apparição, o de Vasco Fernandes de
Lucena), havia gente que tinha conhecido individuos do tempo da batalha
de Ourique, ou por outra, que no seculo XV havia pessoas _com trezentos
annos de idade._
Quem diz isto póde dizer livremente o que lhe aprouver. Quando um
espirito não-vulgar chega a este estado, que nos resta senão
confessarmos o nosso nada diante da summa intelligencia de Deus?
Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto me foi possivel, a falar de
leve na apparição; eis porque tenho até hoje reluctado em descer á
discussão especial dessa mentira ridicula, com que os prégadores vão
ludibriar o povo na cadeira do evangelho. Estas miserias e vergonhas, e
as que successivamente apontarei, sobre quem recaem? Sobre homens que
aliàs têm direito á reputação que adquiriram na historia litteraria do
paiz e nos annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso talvez de
amor proprio[31], talvez uma piedade ou um patriotismo irreflectido,
fizeram com que, em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova de que
tal ou tal cousa era verdade, caminho deploravel em cujo termo é certo o
precipicio.
Fóra dos testemunhos cujo nenhum fundamento acabo de mostrar, Cenaculo
reduziu-se a adoptar as pretendidas provas do padre Pereira, sem
exceptuar o juramento de Alcobaça. E note v.. que elle o conhecia tão
pouco ou era tão fraco diplomatico, que não hesitou em escrever estas
palavras memoraveis:--«_Duvidar da apparição_ emquanto o desconhecimento
dos testemunhos a faz presumir de piedade popular e crença apaixonada,
_pode ser critica_; mas a interpretação livre e esquerda da palavra real
e fundada (o juramento de Alcobaça) merece ser sempre vista com
desapprovação e desagrado».--Isto quer dizer que, se não houvesse o
instrumento da apparição, podiamos com boa critica deixar de crer no
milagre. Assim, se o bispo de Béja vivesse hoje, á vista da declaração
official da falsidade do documento, que o meu amigo Rebello da Silva
arrancou ao juiz mais competente na materia, o lente de diplomatica e
guarda-mór interino do Archivo Nacional, elle teria de passar com armas
e bagagens para o campo dos _impios_, se quizesse (havia de querer)
intitular-se bom critico.