Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho pelo meu paiz desta

necessidade de disputar ácerca de um diploma falso, que se acha

depositado nos archivos do estado, onde qualquer pessoa póde examiná-lo.

Qualquer pessoa, sim; porque não é preciso ter a menor idéa de

paleographia para o reconhecer por falso. Basta pôr-lhe ao lado dous ou

tres diplomas genuinos do meiado do seculo XII, e comparar. Esses

multiplicados recursos que possue a diplomatica para desmascarar

falsarios são aqui perfeitamente inuteis. Estou certo de que v.. nunca o

viu; porque tambem estou certo de que, se o houvera visto, eu acharia

v.. a meu lado para dizer aos homens sem pudor que ainda ousam inculcar

como legitima essa invenção torpe: «_Sois uns miseraveis!_»

Sinto sinceramente que v.. se dignasse de tomar para si, a favor da

apparição, um argumento que devia pertencer precipuo aos apologistas dos

clerigos ignorantes e devassos. Consiste elle em que, negando eu que a

tradição de Ourique remonte aos tempos a que se refere, devo dizer

quando, como, e para que a forjaram. Onde existe semelhante canon de

critica historica? O que sei é que ella começou a apparecer no ultimo

quartel do seculo XV, mais de trezentos annos depois da epocha em que se

diz succedido o milagre; o que sei é que em nenhum escriptor, nem em

nenhum documento legitimo, coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de

semelhante tradição; o que sei é que os escriptores modernos que a

publicaram não se referem a testemunho contemporaneo ou proximo; o que

sei, portanto, é que as regras de critica adoptadas por homens não menos

pios que sabios me obrigam a rejeitá-la. Diga-me v..: se um devedor seu

pretendesse pagar-lhe certa quantia em moeda falsa, v.., depois de a

examinar e convencer-se da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios

por que pretende julgar-me, devia reconhecê-la por boa e acceitá-la,

emquanto não podesse mostrar quando, como, por quem e para que fora

forjada. Não vê v.. que uma tal regra de critica nos obrigaria a adoptar

como verdadeiras até as lendas indicas de Vishnú e de Brahma?

Outro argumento me faz v.. que eu tambem desejara tivesse deixado aos

ex-frades ignorantes e hypocritas: é o da impossibilidade de nossos avós

terem adoptado uma tradição que não fosse verdadeira. Quer v.. que lhes

concedamos a mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma honra, o

mesmo amor da propria fama e dignidade que nós temos. Concedo por um

momento. Mas o patriotismo de v.. não será tão inimigo da logica, nem

tão cego, que recuse os mesmos dotes aos avós dos actuaes castelhanos,

franceses, italianos e allemães. Por aquella doutrina, v.. deve

acreditar todas as lendas desses paizes, ainda quando a critica

historica as tenha feito abandonar aos castelhanos, franceses, italianos

e allemães de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo, acreditar _à fortiori_

a historia da papisa Joanna, embora já os proprios protestantes se riam

dessa calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou por

seculos. Mais ainda: v.. é assaz instruido para não ignorar qual foi a

civilisação dos arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes

hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura, qual a nobreza do seu

caracter. Apesar disso, elles nunca deixaram de crer na tradição dos

milagres de Mafoma. Não é de esperar da justiça de v.. que recuse a esse

povo tão culto os dotes intellectuaes e moraes que attribue a nossos

avós. Adoptará v.. as lendas mussulmanas ácerca do propheta de Mekka?

Principios que provam tanto, ou antes que provam tudo, permitta-me v..

desconfiar de que não provam nada. Deus nos livre de pensar que uma

fabula que se generalisa, se converte por isso em verdade. Semelhantes

doutrinas, deixe-as v.., christão, cavalheiro, e homem de letras, para

essa parte da cleresia, que quer lucrar com as illusões populares. A

nós, christãos, incumbe recordar-nos daquellas tremendas palavras do

divino Mestre:

«Guardae-vos do fermento dos phariseus, que é a hypocrisia:»

«_Porque nenhuma cousa ha occulta que não venha a descubrir-se; e

nenhuma ha escondida que não venha a saber-se_....»

«E todo o que proferir uma palavra contra o filho do Homem ser-lhe-ha

dado perdão; mas _áquelle que blasphemar contra o Espirito Sancto, não

lhe será perdoado_.»

V.. sabe, tão bem como eu, que, segundo Sancto Agostinho, uma das

blasphemias contra o Espirito Sancto _é o negar a verdade conhecida por

tal_.

E é isto o que responde a todas as considerações que v.. me faz sobre a

conveniencia de não desilludir o povo ácerca das suas tradições

mentirosas: são estas palavras do Salvador, que fulminam os phariseus

modernos, como fulminaram os antigos, que me obrigam a falar verdade

escrevendo a historia. Ainda que essas considerações fossem exactas, a

patria verdadeira do christão é o céu, cujas portas ficarão cerradas,

conforme a doutrina de Christo, aos que tiverem desmentido a verdade na

terra. A patria deste mundo é nosso dever amá-la, sacrificar-lhe tudo,

menos a honra, menos as esperanças de além do tumulo, menos a fé. É esta

a mais sancta das tradições que herdámos de nossos paes. O crucifixo

sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os que nos geraram, não o

insultemos na vida, para podermos tambem despedir o ultimo alento,

abraçados com elle, sem terror, sem remorsos, e para o legarmos

immaculado a nossos filhos; para que elles, no momento de o

transmittirem moribundos a nossos netos, não se lembrem horrorisados de

que essa imagem do Redemptor já foi bafejada pelo extremo respirar de um

blasphemo. Amemos e respeitemos a tradição divina, e tenhamos esforço

bastante para repellir mentiras, sobretudo quando, segundo as palavras

do apostolo, ellas envolvem um falso testemunho contra Deus.

Isto é para os christãos. Para os falsos politicos, que cuidam ser a

religião apenas um instrumento que serve para conter os humildes e

pobres, a que Christo chama os grandes do seu reino, e a que elles

chamam massas brutas; para esses, que não crendo acaso em Deus, accusam

os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores de nossa gloria;

para esses liberaes e até democratas, que desprezam o povo ainda mais do

que o desprezavam os poderosos de outros tempos; para os taes não

applico eu só o dicto de Fleury, de que são ignorantissimos em materias

de religião; digo tambem que o são em materias de politica. Para o povo

ser livre, é necessario que seja religioso e honesto; não que seja

credulo. Para que elle seja religioso e honesto é necessario que conheça

as doutrinas do evangelho, que não são mais do que a confirmação divina

da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpre

inculcar-lhe os principios do christinanismo, e as consequencias

daquelles principios: cumpre illustrá-lo, em vez de o conservar na

ignorancia; fazer-lhe sentir que a força de practicar grandes e nobres

sacrificios, tão recommendados por Jesus, é o caracter que distingue o

espirito immortal do homem do instincto que anima as alimarias. É

preciso convencê-lo de que o patriotismo, de que esse puro e sancto

affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as affeições do

coração, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a

intemperie das estações, para irmos morrer n'um campo de batalha,

salvando a terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do

nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de nossas irmãs e mulheres, é

a manifestação mais solemne da energia do espirito humano, e da

abnegação christan. E estas verdades eternas; estas verdades, que,

gravadas nos corações do povo, tantas vezes têm salvado as pequenas

nações dos intentos ambiciosos das grandes, d'onde se deduzem? É das

invenções dos milagreiros e falsarios, ou das divinas paginas da biblia?

V.. deve conhecer, como homem de letras que é, a historia dos povos

mussulmanos. Houve nunca no mundo crença que se estribasse tanto como o

islamismo em falsos milagres, quasi sempre conducentes a inspirar o amor

da guerra e o enthusiasmo das multidões credulas? E todavia, quaes foram

os effeitos desse enthusiasmo, que não correspondia a doutrinas accordes

com os instinctos naturaes da nossa alma, que não se fundava em

convicções reflectidas, na certeza moral do dever, mas que se inspirava

de promessas fingidas do céu? Os mussulmanos devastaram e submetteram a

melhor porção da Asia e da Africa, e ainda uma pequena parte da Europa:

formaram quinze ou vinte nações de falsos crentes, e estas nações

cresceram e civilisaram-se combatendo sempre. E depois? Depois, quando

foi preciso conservar o edificio; quando se tractou de defender a

patria, em vez de a tirar aos outros; quando foi preciso repellir em vez

de aggredir, mostrar essa perseverança, que nem se exalta com o

triumpho, nem desanima com o revés; que padece, calada e soffrida; essa

perseverança que é a mais poderosa arma dos povos ameaçados na sua

existencia, tudo faltou. As nações mussulmanas desmembraram-se,

fundiram-se, annullaram-se umas, desappareceram outras, e conservando

todas as suas crenças, todos os seus milagres, ei-las ahi estão as que

restam, ludibrio da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo ao

crepusculo da passada gloria, lançando nos dias da afflicção e do perigo

os olhos para o occidente, a vêr se os filhos da cruz estendem o braço

para proteger o crescente. As tradições das victorias, as maravilhas

celestes dos tempos heroicos de Islam lá estão gravadas na memoria de

todos. Porque não salvam, não regeneram ellas essas sociedades

atrophiadas e moribundas?

Ainda hoje ha homens das novas idéas, os quaes se dizem cheios de

illustração e de philosophia, que, abandonando os milagres suppostos,

não porque os tenham por infundados ou absurdos em si, mas porque suppõe

que o fanatismo póde lucrar com elles, não querem que se toque nas

tradições humanas que se ligam á gloria nacional. É verdade que não

sabem bem que deva consistir a gloria de uma nação, porque nunca

pensaram nisso. Para elles, que vivem no seculo XIX, onde quer que

pereceram milhares de homens, combatendo por interesses que não

comprehendiam, ou por torpe cubiça; onde quer que o ferro e o fogo

arrasaram as cidades, despovoaram os campos, embora dessas cidades e

campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem

mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos

gigantes da assolação, dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,

avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens as façanhas dos

proprios avós. Se a historia pergunta:--«Acaso esses combates, em que,

sem duvida, se practicaram grandes feitos, foram uteis ao progresso

moral e material do povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram a sua

decadencia? Está ou não essa gloria militar, aliàs indisputavel,

assombrada por grandes crimes? Foi a intenção, a qual só determina o

valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos

elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela

ambição, ou pelo capricho de algum principe?»--A historia que faz estas

perguntas ou outras analogas, porque esse é o seu dever, commette aos

olhos dos taes um crime de leso-patriotismo. O castelhano, por exemplo,

que disser:--«As barbaridades e crimes commettidos por Cortez, Pizarro,

ou Almagro, na conquista da America, deshonram as emprezas arriscadas e

longinquas dos filhos da Peninsula, embora o descubrimento do Novo Mundo

demonstre a sua pericia, o seu ardimento de navegadores e de soldados.

Os effeitos dessa conquista foram o corromperem-se os costumes, morrerem

as industrias nascentes, despovoarem-se os campos da Hespanha,

seccarem-se, em summa, todas as fontes da sua prosperidade solida e

legitima: foram amontoarem-se nas mãos do fisco e dos poderosos o ouro e

a prata, que, obtidos sem custo pelos crimes, se desbarataram sem pudor

pelos vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades, e com ellas o

sentimento da dignidade humana, cujo ultimo brado soou nas rebelliões

contra a tyrannia de Carlos V:»--o hespanhol que disser isto é um mau

cidadão aos olhos dos mansos guerreadores destes nossos tempos. E

porque? Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se, elevar-se

pelas tradições da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas

vezes tracta de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde o berço de

farrapos até a enxerga rota em que fenece, vai travada de receios, de

sobresaltos, de desalentos, e de agonias, pensa lá nas cutiladas que se

deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou quatro seculos, por

mãos d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se memoram n'uns livros

que elle nunca leu, porque não sabe ler, nem tem dinheiro para pão,

quanto mais para livros? Que são essas palavras retumbantes de

regeneração pelas tradições, senão sons ôcos, que não correspondem a

nenhuma idéa? Supponhamos, porém, que todas essas recordações chegavam

ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de licção para as suas

necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza passageira destruiu os

habitos do trabalho e da economia, entorpeceu pela miseria, resultado

infallivel da prosperidade ficticia, a energia do coração, que faz

luctar o homem com a adversidade e vencê-la, de que serve estar de

contínuo a prégar ao povo:--«Teus avós levaram o terror do seu nome aos

confins do mundo, saquearam e queimaram emporios opulentos em plagas

remotas, metteram a pique poderosas armadas, derribaram os templos

alheios, violaram as mulheres extranhas, passaram á espada os que eram

menos valorosos que elles, abriram caminho ao engrandecimento dos outros

povos da Europa, e affeitos a gosos faceis, deposeram aos pés do

absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os grilhões que lhes

deitavam aos pulsos por que eram dourados, e tornaram-se ludibrio do

mundo.»--Estas licções é que hão-de ensinar a actividade no trabalho, a

severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas verdadeira, o

desejo de cultivar as artes da paz, no meio de um paiz decadente, cuja

unica esperança de salvação está em se desenvolverem nelle essas e

outras tendencias analogas? Não! O povo, que tem mais logica do que os

prégadores de vãos apophtegmas, ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de

concluir que é assaz fidalgo para não contrahir habitos villãos e ruins.

De historias d'aggressões e de conquistas brilhantes não se deduz a

necessidade de morrer obscuramente em defesa da terra da patria; não se

deduz a moderação revestida de firmeza, que faz respeitar pelas grandes

as nações pequenas; não se deduzem nem o amor do trabalho, nem o amor da

virtude. Em vez de contarem ao povo as façanhas da Africa e do Oriente,

contem-lhe qual era o commercio de Lisboa, e o movimento agricola do

paiz no no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia desses e de

outros factos analogos lhe é mais proveitosa, material e moralmente, de

que recordar-lhe a gloria de batalhas e de conquistas.

Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras lendas humanas nunca

salvaram um paiz, quando a podridão penetrou no amago da arvore social.

Onde e quando o homem renega da sua origem divina, vende a liberdade a

troco de delicias, esquece que o elevar-se acima de viciosas paixões

traz um goso interior que vale bem todos os que dão os sentidos, não é

lisonjeando-lhe vaidades, que, nem sequer respeitam a magestade de Deus,

que o havemos de revocar ao sentimento da dignidade e do dever. V..

sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio romano, e

nomeadamente a historia do baixo-imperio. Não leio essas paginas

melancholicas, sem que involuntariamente volva os olhos para o estado

actual de algumas nações modernas: as analogias que encontramos entre

estas e aquella são symptomas dolorosos; mas não vem para aqui. Eu peço

a v.. que reflicta sobre essa historia em relação á efficacia das

tradições. Ella completa o quadro que nos offerecem as nações

mussulmanas. Não foi no tempo da republica, foi sob o ferreo dominio dos

cesares, que os poetas cantaram os mythos da gente romana, que os

historiadores celebraram as suas glorias, e deram a importancia da

verdade a centenares de lendas tradicionaes e fabulosas, que a sciencia

moderna, as investigações do grande Niebuhr, reduziram já ao seu justo

valor. De que serviram, porém, essas glorias, esses milagres do

polytheismo, contados gravemente a um povo servo e gasto, que apodrecia

aos pés dos tyrannos? Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos

espraiavam-se em exaggerações sobre as grandezas passadas, emquanto os

cidadãos recusavam combater por uma patria que se tornara em nome vão, e

preferiam o jugo dos barbaros a uma nacionalidade mentida. Os hymnos, as

gloriosas recordações romanas serviram só para acompanhar ao cemiterio

da historia o ataúde de Roma.

Consinta v.. que a estas rapidas considerações eu ajuncte ainda um

exemplo domestico, sobre o qual peço a v.. que medite. Na lucta violenta

e tenaz que Portugal sustentou nos fins do seculo XIV para repellir o

dominio estrangeiro, ninguem se lembrou de fortalecer os animos

invocando o milagre de Ourique; ao menos não espero que v.. me aponte o

menor vestigio historico que me desminta. A razão para desaproveitar tal

auxilio foi demasiado forte; foi a razão do cordeiro da fabula--_o

milagre ainda não era nascido_. E todavia o triumpho coroou os heroicos

esforços de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente ser livre.

Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava, absoluto e não

contradicto, no commum dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de

modo innegavel. E todavia, quasi sem combate, as espadas castelhanas

acabaram com a independencia de Portugal n'um dia.

Entre os dous factos está, além do milagre, a grande gloria das

conquistas, gloria que não era uma tradição remota, quasi oblitterada na

memoria do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a bem dizer actual.

Alguns dos que mais tinham contribuido para ella ainda viviam.

Estes dous phenomenos, que determinam duas epochas principaes da nossa

historia, assim aproximados, são a negação mais solemne da utilidade dos

embustes religiosos, ou para melhor dizer, anti-religiosos, e do orgulho

selvagem de ter annaes escriptos com o sangue humano vertido em guerras

não provocadas, em guerras de aggressão, e sobretudo de cubiça.

Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso singular, um general ou um

homem d'estado tirasse vantagem dessa deploravel força moral que se

estriba nas superstições, ou nas idéas de uma gloria feroz. A questão é,

se hoje o povo português tem alguma vantagem que tirar dessas tradições,

na situação em que a Providencia o collocou. Sejamos sinceros. Póde elle

sonhar em ser conquistador, ou sequer em constituir uma potencia

maritima ou continental que pése com demasiada força na balança dos

acontecimentos politicos? Parece-me que nenhum sisudo o dirá. Somos

pequenos; mas nem isso é vergonha, nem impedirá que as grandes nações

nos respeitem, se formos respeitaveis. Para obtermos consideração basta

que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem á Europa que

sabemos, queremos, e podemos regenerar-nos pela sciencia, pelo trabalho

e pela morigeração.

Morigeração, trabalho, sciencia, eis as armas com que a philosophia

politica deste seculo ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma

lucta generosa. Os espiritos mais altos, seja qual fôr a sua crença

religiosa e politica, proclamam a paz e a fraternidade entre os homens.

E não só as proclamam, mas até empregam a poderosa alavanca da

associação para promoverem, digamos assim, uma cruzada sancta contra as

tendencias guerreiras. Os esforços collectivos desses homens summos

serão baldados? Não o cremos. Elles tem um alliado irresistivel. Quando

os exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tiverem

devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e mais pura

seiva da sua vida economica, é então que a philosophia politica hade

alcançar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa será

senão o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de

dezenove seculos, de uma demonstração practica e invencivel, de que a

lei moralmente necessaria das sociedades modernas é o christianismo, é o

verbo de amor e da paz revelado no Evangelho?

Nesses dias, que porventura tardam menos do que muitos pensam, que

destino darão os sacerdotes da bombarda, da lança e da espada aos seus

deuses fulminados? As palavras «façanhas, gloria guerreira, conquistas,»

como serão definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou

dous seculos? Como julgará a historia os milagres inventados para

sanctificar o derramamento de sangue humano?

Desculpe v.. esta digressão, que não creio nem inutil nem extranha ao

assumpto. De novo entrarei directamente nelle, para proseguir nas

explicações que devo aos meus adversarios sinceros, honestos e

instruidos, e não á ignorancia malevola e presumida de hypocritas

insignificantes.

Começarei por dar a v.. a razão moral, a razão suprema, porque rejeito

não só o milagre de Ourique, mas tambem os outros milagres, como o de

Alcacer, a que ou a má fé, ou a piedade pouco illustrada quizeram

attribuir a sorte das batalhas, sorte dependente dos occultos designios

da Providencia e de mil accidentes, previstos ou fortuitos, explicaveis

ou inexplicaveis para a historia. Não creio que essas guerras contra os

infiéis fossem cousa excessivamente christan, e por isso o meu espirito

recusa-se a acceitar como factos verdadeiros os testemunhos de

approvação divina a um procedimento anti-evangelico. Na idade média

passava como cousa corrente, que o guerrear os infiéis e fazer-lhes

acceitar á força o jugo, aliàs tão suave e tão livre, do christianismo,

era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se desta doutrina, ou,

para sermos justos, acreditavam-na, em geral, sinceramente:

acreditavam-na, até, a maior parte dos homens intelligentes e pios.

Entre estes se distingue o proprio S. Bernardo, que o excessivo zelo da

gloria do christianismo incitou a promover a segunda cruzada, cujo

infeliz resultado lhe acarretou tantas accusações amargas, tantos

desgostos pungentes. A favor das guerras contra os mussulmanos durante a

idade média, principalmente a favor da que se fazia na Peninsula, podem

militar boas razões de politica, e até de direito, porque essa guerra

não era mais do que a reacção contra uma conquista. Razão religiosa é

que eu não vejo nenhuma que a favoreça. Repugna-me á consciencia que o

Christo, o Deus de paz e misericordia, viesse pessoalmente ou enviasse

os seus anjos a incitar christãos a derramarem o sangue humano, a

levarem a assolação e a morte ao meio daquelles que não o adoravam. Será

este um modo errado de vêr? A S. Thomás de Aquino, que ainda alcançou os

tempos das cruzadas, não fizeram força alguma as opiniões que haviam

dado origem áquellas expedições longinquas, para deixar de estabelecer

que a diversidade de crença não é motivo bastante para um povo atacar

outro. Reprovando a guerra de religião, não era possivel cresse que Deus

approvava essas luctas crueis com manifestações sensiveis. Vê-se,

portanto, que os _milagres militares_, que então se contavam a tal

respeito, pouco credito mereciam a um dos homens mais pios do seculo

XIII, e sem contradicção ao mais profundo philosopho do seu tempo.

Ouçamos, porém, o grande historiador da igreja, falando dessas guerras

contra os mussulmanos.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 5 / 16 段