destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos
descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos
hombros seu velho e já tão roto manto, e nua e vinolenta pragueja a
verdade, atira com a fé aos pés da politica, rasga as sacras paginas,
maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, não volteis,
cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia,
a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que estão sanctificadas no
livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no
templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta, que o povo só póde ser
virtuoso se crer em falsos milagres, saí, porque o templo está polluido
pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis da cruz. A cruz está
pura; a cruz será eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio
chegasse, o que não creio, a corrompê-lo inteiramente; se não achassemos
uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz lá
está hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos
irmos abraçar com ella: os mortos não tem ouro, os mortos não são
festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi não se tem
blasphemado.
Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christão sincero o
ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de
Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preço
por que o venderam, acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia, e
vejamos, como já disse, as mais importantes dessas regras que o pio e
douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia
credulidade.
«Não tenho em conta de provas, senão o testemunho dos auctores
originaes, isto é, daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou
pouco depois_. Porque a memoria dos successos não póde subsistir por
muito tempo sem ser escripta. _Bastante será se durar um seculo._ O
filho póde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou avô lhe
referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos
que tem passado por varias gerações não obtem a mesma certeza: cada qual
lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar.
_É por isso que as tradições vagas de factos muito antigos, que tarde ou
nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando
a factos provados. _Nem se diga que as historias pódem ter-se perdido;
porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas
nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos
anteriores a elles muitos seculos; _se não citam os auctores d'onde os
tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os
rumores vulgares_.....»
«Os proprios auctores contemporaneos não devem adoptar-se sem exame...
deve averiguar-se bem se o escriptor é digno de fé, quasi como quem
inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em
outros diplomas da epocha, deve ser preferido ás narrativas dos
historiadores._»
Até aqui Fleury. Para estas largas citações preferi dous homens de
indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu
poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos ou
protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma
questão que evidentemente não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia
invocar a bella sentença de Cicero: _«Quem ignora que a primeira lei da
historia é não ousar dizer a menor falsidade, e a segunda não nos faltar
jámais valor para dizermos a verdade?_» É certo que uma parte do clero
português do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--«_Ignoramo-lo
nós._»--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no
seculo XVII, as palavras de João Leclerc:--«Quando se escreve a
historia, _sobretudo de tempos antigos_, não é licito dissimular a
minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita
muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulação, inutil para aquelles,
é profundamente damnosa a estes.»--Não me quiz aproveitar dessas
auctoridades summas, porque um não era christão, outro não era
catholico. Parece-me que é levar longe o escrupulo. E todavia, o
protestante Leclerc estribava-se na opinião de S. Isidoro
Pelusiota--«Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras
encobrem a verdade, muito mais desgraçados me parecem de que os que não
a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho não a
alcançaram, estes não são talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo
dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam,
commettem mais grave e imperdoavel peccado.»
Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo
eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Serão os theologos de
profissão mais indulgentes para com as lendas e tradições não provadas?
Exigirão, ao menos em referencia á historia da igreja, maior credulidade
nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre Melchior Cano, o qual
ninguem accusará de excessivo amor pelos fóros e liberdades do
raciocinio: eis algumas das suas observações ácerca do credito que deve
dar-se ás tradições infundadas.
«A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das
verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra
perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem
presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que
os presenciaram_...»
«É cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a
historia ecclesiastica não podem ser gente boa e sincera, e que toda a
sua narrativa é tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o
erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas são
as queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas no seio da
igreja; _prudentes e graves as arguições que dirige áquelles que julgam
obra pia fazerem de mentiras religião_, cousa altamente perigosa e
profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos
acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos
bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado
tirarão, talvez, se não negar-se fé ás cousas verdadeiras por causa das
falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa
consciencia auctores de inteira veracidade_.»
Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em
seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade,
outro bem diverso extracto. Juro que não o faço com o intento de
humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vêr, cega um erro
deploravel. É para vingar a religião injuriada; é para dar ao paiz um
desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios
recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em
completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. Só advirto
que a passagem é concepção de um sacerdote, que celebra por certo
tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as
paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras
que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro
tempo:
«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de vós Isaias, quando disse:
«Esta gente honra-me com os labios; mas o seu coração está affastado de
mim.»
Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peço venia de lançar,
depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um
homem tão delicado como v..
«Os historiadores têm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios
singulares, que registavam em seus escriptos _não eram fundados senão em
rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta
precaução, já porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... já
porque elles não julgassem dever abalar a crença vulgar; bem convencidos
que á sombra de um prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a que
talvez tivessem vergonha de prejudicar.»
«Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos
historiadores, ácerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem
dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario é querer campar por uma
anomalia extravagante e ridicula..._»
«Se, porém, gravemente offende o melindre patriotico de uma nação
aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas
tradições historicas constantemente recebidos e venerados; quanto não se
torna mais altamente _réu d'este attentado_ aquelle escriptor, que não
só os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de á cara descuberta os vir
insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente
tenha commettido _tão reprehensivel e extranho excesso_, é por certo o
auctor da carta aviltante, a respeito da Apparição de Christo a D.
Affonso Henriques. _É uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e
aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropéra...»
«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro
por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, não receio
dizê-lo_, por effeito dessa universal crença dos sabios, _perdido a sua
natureza e deixado de o ser!!!_...»
Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a
averiguar tranquillamente se os theologos de profissão concordam com os
eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda
algumas palavras de Melchior Cano.
«Achareis outros, não tão ineptos, mas quasi tão imprudentes, que não
buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar
onde é raro encontrá-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto
frequentemente aos inconstantes e leves de cabeça; _porque os homens
graves e severos não costumam andar á caça dos dictos vãos do vulgo_.»
Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como
lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenças mais sanctas e
legitimas em milhares de corações. Vacillou, acaso, por isso a critica
dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de
tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua
falsa miragem? V.. o julgará pelas doutrinas de muitos varões religiosos
dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam
precedido. Por exemplo, o theologo piemontês Denina, diz-nos:
«Acontecem algumas cousas fóra da ordem natural, que, de per si só, são
incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres,
os quaes, _nem é licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem
acceitar todos sem selecção_...»
«Pertence á prudencia do historiador _nada escrever, que não saiba por
si proprio, ou não se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_,
cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem póde ter
conhecimento do que narra, se não viveu no tempo em que os factos
aconteceram; nem sabê-los de pessoas fidedignas, se estas não os
presenciaram_; nem escapa de credulo, se não explicar e expender as
razões, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o
fazem _nenhum credito merecem_...»
«Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar;
salvo constando que fôra curioso em indagar e explorar...»
«Se o historiador referir cousas, não do seu tempo, mas succedidas
muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores
d'onde as tirou_, sendo _aliàs daquelles que as podiam saber_...»
«Não duvido de chamar _máu historiador_ a todo aquelle que devendo ter
por norma o não ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo
para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que
motivo for_...»
Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim
pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz
mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos,
a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituições de historia
ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito
canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses compendios
relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais são do que o
desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de
Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em
summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram
ex-professo ou accidentalmente da crítica historica. Andam esses livros
nas mãos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este,
coitado, não sabe ler. Não serei, por isso, demasiado extenso em
citá-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem
sobretudo ao intento.
«Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente,
ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou
por vontade nos _queiram_ illudir, só podêmos acquiescer ao seu
testemunho, se não houver razões sufficientes para duvidar da sua
habilidade ou sinceridade.»
«A auctoridade das testemunhas não é uma e a mesma, e portanto deve
attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relação aos
sentidos, 2.^o em relação ao entendimento, 3.^o em relação á vontade. Em
relação aos sentidos, essas testemunhas ou são de vista ou de ouvida.
_As de ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que ouviram aos coevos o
que narram_...»
«D'aqui se segue, _que pouca fé deve dar-se áquillo que os escriptores
ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de
mencionar_...»
«A verdade dos conhecimentos historicos não depende de modo nenhum da
abundancia dos historiadores, visto que _não provém maior certeza a um
facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais
modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos
elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu_...»
«A consideração do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que
escreveu importa muito em relação ao seu intuito de falar verdade.
N'alguns paizes a liberdade de escrever é franca; n'outros opprimida;
n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a
verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia
romana receberam ás vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete
cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde
vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta
para a verdade._»
«Não faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias
passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a
outros.»
Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo
Dannenmayr:
«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos
principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor
de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos
e largamente provados._»
Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina,
uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas
sinceros nas suas prevenções, houvessem de julgar-me, não tanto no foro
da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha
direito de trazer o litigio, mas nó da mais restricta piedade. Em these,
a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e
que apologia, meu Deus!) das tradições fabulosas, não é comigo; é com os
apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os
theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava á
hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente
não se lembrou de que lhe caía a mascara, e de que alguem poderia
levantá-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de
justiça lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz
respeito, o meu dever é provar aos homens sinceramente pios que,
rejeitando falsas lendas, não ultrapassei os limites de uma crítica
irreprehensivel. Será esse o objecto da carta immediata, que em breve
espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão das minhas opiniões
ácerca da maioria do nosso clero, e ácerca da curia romana.
Compelliram-me a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os
conhecesse: hão-de ser satisfeitos.
Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a
vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas
suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes
dias de tempestade!
IV
SOLEMNIA VERBA
SEGUNDA CARTA
AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES
(_Novembro, 1850_)
Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais
exacção, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas
as principaes regras da critica, em relação ás fontes historicas. Dessas
regras resulta o que a boa razão está por si indicando; que é necessario
premunir-nos contra a credulidade, não só por honra da sciencia e pela
consideração do proprio credito litterario, mas tambem, o que é mais
grave, para não deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos
livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os
outros se consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos testemunhos
synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que
presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos
contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer
sobrenaturaes e incriveis para a razão humana; quer elles nos sejam
transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos
do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porém, se
tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto é
certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impõe as
palavras de S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos a
Deus.
Que podia eu fazer em relação ao supposto milagre de Ourique, escrevendo
a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas,
historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame
attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de
provas daquella celebre tradição, só tinha servido de convencer-me das
aberrações em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados,
quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os
caracteres desta a um preconceito. Não me era possivel omittir a batalha
de Ourique. Que podia eu fazer, repito, ácerca do milagre da apparição?
Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospôr as
doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram
de critica historica, calcar aos pés a maxima do mais illustre escriptor
romano, ou então manifestar sem hesitação as proprias convicções, que
julgava e julgo legitimas, isto é, proceder de um modo que v.. mesmo crê
nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não sei se
está em perfeita harmonia com a idéa geral que predomina nas
considerações que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os
inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria
commum, da manifestação das minhas doutrinas.
Disse, pois, o que suppús e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me
dilatar, sem exaggeração, sem pretensões a ter feito um importante
descobrimento historico; porque realmente o não era: disse-o
singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as
incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma
attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito dizê-lo, nem v..
nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um
pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de
sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides
concentravam todas as forças em Africa, para salvarem o imperio da
ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem
a heroica guarnição de uma praça como Aurelia ao seu triste destino. A
narrativa anterior, o quadro da situação dos lamtunitas e das
perturbações quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam
o leitor para por si fazer conceito das dimensões da batalha de Ourique.
Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar,
talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum
modo desculpar a significação exaggerada que depois se lhe attribuiu.
Sobre a apparição disse apenas o restrictamente necessario para o leitor
vulgar conhecer que eu não a admittia. Se tivesse o proposito deliberado
de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo,
crê v.. que eu não teria recursos para aproveitar o lado contradictorio
e até ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se não possa
encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da
historia? Crê v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da
invenção dessa maravilha, e avaliá-las severa ou, se quizerem,
malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me
dizer que foi necessaria demasiada prevenção contra mim, ou a favor da
inviolabilidade da apparição, para se não ver que procurei, quanto me
era possivel sem offender a verdade, não converter os factos que se
prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas
com que finalisa cada volume do meu livro são destinadas para os homens
da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opiniões. Estas
notas são, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores não se
cansa com essas discussões tediosas. Foi, porém, ahi que eu alludi ao
ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaça, o que fiz apenas pelo
desejo de dar uma satisfação aos homens professionaes. Se eu fosse o
impio, o atheu, e não sei que mais, que por ahi me chamam os padres
ignorantes e mal procedidos, não tiraria vantagem dessa falsificação
insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas
do céu para fins terrenos? Não practicaria ao menos aquillo que a
justissima indignação de qualquer homem religioso o levaria talvez a
practicar? Se tal se houvesse de crer, não deveriam qualificar-me de
impio, mas sim de insigne mentecapto.
Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as
minhas opiniões, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de
Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de
juramento conservado em Alcobaça, eu fiz uma citação
contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano não
nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao
citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaça?--«_Quem desejar conhecer a
impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc._»--Se o auctor
concorda comigo em que elle é falso, onde está a improcedencia da
citação? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que
v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma
que acreditava na apparição, posto negasse a genuinidade do pergaminho
de Alcobaça, e que eu não creio nem no documento, nem no facto.
Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. Não era, porém, para a
opinião manifestada pelo academico em relação ao successo, mas sim para
as suas razões contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o
que elle diz em favor do facto não é mais do que repetir o que outros
disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente
de Fóra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, dá como
provavelmente tirada _de outro original falso_. O que se vê de tudo
aquillo é que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o
que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaça, quiz ao menos
salvar-se, protestando pela pureza da sua crença no milagre de Ourique.
Talvez, se eu vivesse então, fizesse o mesmo, em attenção á
circumstancia que nos recorda Gmeiner: «_onde vigorou o terrivel
tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade_».