Mancebos, cujos corações generosos a indignação póde desvairar! No meio

destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos

descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos

hombros seu velho e já tão roto manto, e nua e vinolenta pragueja a

verdade, atira com a fé aos pés da politica, rasga as sacras paginas,

maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, não volteis,

cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia,

a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que estão sanctificadas no

livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no

templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta, que o povo só póde ser

virtuoso se crer em falsos milagres, saí, porque o templo está polluido

pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis da cruz. A cruz está

pura; a cruz será eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio

chegasse, o que não creio, a corrompê-lo inteiramente; se não achassemos

uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz lá

está hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos

irmos abraçar com ella: os mortos não tem ouro, os mortos não são

festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi não se tem

blasphemado.

Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christão sincero o

ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de

Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preço

por que o venderam, acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia, e

vejamos, como já disse, as mais importantes dessas regras que o pio e

douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia

credulidade.

«Não tenho em conta de provas, senão o testemunho dos auctores

originaes, isto é, daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou

pouco depois_. Porque a memoria dos successos não póde subsistir por

muito tempo sem ser escripta. _Bastante será se durar um seculo._ O

filho póde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou avô lhe

referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos

que tem passado por varias gerações não obtem a mesma certeza: cada qual

lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar.

_É por isso que as tradições vagas de factos muito antigos, que tarde ou

nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando

a factos provados. _Nem se diga que as historias pódem ter-se perdido;

porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas

nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos

anteriores a elles muitos seculos; _se não citam os auctores d'onde os

tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os

rumores vulgares_.....»

«Os proprios auctores contemporaneos não devem adoptar-se sem exame...

deve averiguar-se bem se o escriptor é digno de fé, quasi como quem

inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em

outros diplomas da epocha, deve ser preferido ás narrativas dos

historiadores._»

Até aqui Fleury. Para estas largas citações preferi dous homens de

indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu

poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos ou

protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma

questão que evidentemente não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia

invocar a bella sentença de Cicero: _«Quem ignora que a primeira lei da

historia é não ousar dizer a menor falsidade, e a segunda não nos faltar

jámais valor para dizermos a verdade?_» É certo que uma parte do clero

português do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--«_Ignoramo-lo

nós._»--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no

seculo XVII, as palavras de João Leclerc:--«Quando se escreve a

historia, _sobretudo de tempos antigos_, não é licito dissimular a

minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita

muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulação, inutil para aquelles,

é profundamente damnosa a estes.»--Não me quiz aproveitar dessas

auctoridades summas, porque um não era christão, outro não era

catholico. Parece-me que é levar longe o escrupulo. E todavia, o

protestante Leclerc estribava-se na opinião de S. Isidoro

Pelusiota--«Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras

encobrem a verdade, muito mais desgraçados me parecem de que os que não

a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho não a

alcançaram, estes não são talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo

dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam,

commettem mais grave e imperdoavel peccado.»

Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo

eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Serão os theologos de

profissão mais indulgentes para com as lendas e tradições não provadas?

Exigirão, ao menos em referencia á historia da igreja, maior credulidade

nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre Melchior Cano, o qual

ninguem accusará de excessivo amor pelos fóros e liberdades do

raciocinio: eis algumas das suas observações ácerca do credito que deve

dar-se ás tradições infundadas.

«A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das

verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra

perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem

presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que

os presenciaram_...»

«É cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a

historia ecclesiastica não podem ser gente boa e sincera, e que toda a

sua narrativa é tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o

erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas são

as queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas no seio da

igreja; _prudentes e graves as arguições que dirige áquelles que julgam

obra pia fazerem de mentiras religião_, cousa altamente perigosa e

profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos

acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos

bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado

tirarão, talvez, se não negar-se fé ás cousas verdadeiras por causa das

falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa

consciencia auctores de inteira veracidade_.»

Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em

seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade,

outro bem diverso extracto. Juro que não o faço com o intento de

humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vêr, cega um erro

deploravel. É para vingar a religião injuriada; é para dar ao paiz um

desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios

recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em

completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. Só advirto

que a passagem é concepção de um sacerdote, que celebra por certo

tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as

paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras

que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro

tempo:

«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de vós Isaias, quando disse:

«Esta gente honra-me com os labios; mas o seu coração está affastado de

mim.»

Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peço venia de lançar,

depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um

homem tão delicado como v..

«Os historiadores têm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios

singulares, que registavam em seus escriptos _não eram fundados senão em

rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta

precaução, já porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... já

porque elles não julgassem dever abalar a crença vulgar; bem convencidos

que á sombra de um prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a que

talvez tivessem vergonha de prejudicar.»

«Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos

historiadores, ácerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem

dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario é querer campar por uma

anomalia extravagante e ridicula..._»

«Se, porém, gravemente offende o melindre patriotico de uma nação

aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas

tradições historicas constantemente recebidos e venerados; quanto não se

torna mais altamente _réu d'este attentado_ aquelle escriptor, que não

só os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de á cara descuberta os vir

insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente

tenha commettido _tão reprehensivel e extranho excesso_, é por certo o

auctor da carta aviltante, a respeito da Apparição de Christo a D.

Affonso Henriques. _É uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e

aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropéra...»

«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro

por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, não receio

dizê-lo_, por effeito dessa universal crença dos sabios, _perdido a sua

natureza e deixado de o ser!!!_...»

Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a

averiguar tranquillamente se os theologos de profissão concordam com os

eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda

algumas palavras de Melchior Cano.

«Achareis outros, não tão ineptos, mas quasi tão imprudentes, que não

buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar

onde é raro encontrá-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto

frequentemente aos inconstantes e leves de cabeça; _porque os homens

graves e severos não costumam andar á caça dos dictos vãos do vulgo_.»

Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como

lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenças mais sanctas e

legitimas em milhares de corações. Vacillou, acaso, por isso a critica

dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de

tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua

falsa miragem? V.. o julgará pelas doutrinas de muitos varões religiosos

dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam

precedido. Por exemplo, o theologo piemontês Denina, diz-nos:

«Acontecem algumas cousas fóra da ordem natural, que, de per si só, são

incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres,

os quaes, _nem é licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem

acceitar todos sem selecção_...»

«Pertence á prudencia do historiador _nada escrever, que não saiba por

si proprio, ou não se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_,

cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem póde ter

conhecimento do que narra, se não viveu no tempo em que os factos

aconteceram; nem sabê-los de pessoas fidedignas, se estas não os

presenciaram_; nem escapa de credulo, se não explicar e expender as

razões, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o

fazem _nenhum credito merecem_...»

«Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar;

salvo constando que fôra curioso em indagar e explorar...»

«Se o historiador referir cousas, não do seu tempo, mas succedidas

muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores

d'onde as tirou_, sendo _aliàs daquelles que as podiam saber_...»

«Não duvido de chamar _máu historiador_ a todo aquelle que devendo ter

por norma o não ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo

para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que

motivo for_...»

Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim

pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz

mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos,

a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituições de historia

ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito

canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses compendios

relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais são do que o

desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de

Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em

summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram

ex-professo ou accidentalmente da crítica historica. Andam esses livros

nas mãos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este,

coitado, não sabe ler. Não serei, por isso, demasiado extenso em

citá-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem

sobretudo ao intento.

«Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente,

ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou

por vontade nos _queiram_ illudir, só podêmos acquiescer ao seu

testemunho, se não houver razões sufficientes para duvidar da sua

habilidade ou sinceridade.»

«A auctoridade das testemunhas não é uma e a mesma, e portanto deve

attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relação aos

sentidos, 2.^o em relação ao entendimento, 3.^o em relação á vontade. Em

relação aos sentidos, essas testemunhas ou são de vista ou de ouvida.

_As de ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que ouviram aos coevos o

que narram_...»

«D'aqui se segue, _que pouca fé deve dar-se áquillo que os escriptores

ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de

mencionar_...»

«A verdade dos conhecimentos historicos não depende de modo nenhum da

abundancia dos historiadores, visto que _não provém maior certeza a um

facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais

modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos

elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu_...»

«A consideração do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que

escreveu importa muito em relação ao seu intuito de falar verdade.

N'alguns paizes a liberdade de escrever é franca; n'outros opprimida;

n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a

verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia

romana receberam ás vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete

cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde

vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta

para a verdade._»

«Não faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias

passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a

outros.»

Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo

Dannenmayr:

«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos

principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor

de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos

e largamente provados._»

Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina,

uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas

sinceros nas suas prevenções, houvessem de julgar-me, não tanto no foro

da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha

direito de trazer o litigio, mas nó da mais restricta piedade. Em these,

a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e

que apologia, meu Deus!) das tradições fabulosas, não é comigo; é com os

apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os

theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava á

hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente

não se lembrou de que lhe caía a mascara, e de que alguem poderia

levantá-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de

justiça lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz

respeito, o meu dever é provar aos homens sinceramente pios que,

rejeitando falsas lendas, não ultrapassei os limites de uma crítica

irreprehensivel. Será esse o objecto da carta immediata, que em breve

espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão das minhas opiniões

ácerca da maioria do nosso clero, e ácerca da curia romana.

Compelliram-me a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os

conhecesse: hão-de ser satisfeitos.

Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a

vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas

suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes

dias de tempestade!

IV

SOLEMNIA VERBA

SEGUNDA CARTA

AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES

(_Novembro, 1850_)

Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais

exacção, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas

as principaes regras da critica, em relação ás fontes historicas. Dessas

regras resulta o que a boa razão está por si indicando; que é necessario

premunir-nos contra a credulidade, não só por honra da sciencia e pela

consideração do proprio credito litterario, mas tambem, o que é mais

grave, para não deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos

livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os

outros se consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos testemunhos

synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que

presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos

contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer

sobrenaturaes e incriveis para a razão humana; quer elles nos sejam

transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos

do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porém, se

tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto é

certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impõe as

palavras de S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos a

Deus.

Que podia eu fazer em relação ao supposto milagre de Ourique, escrevendo

a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas,

historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame

attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de

provas daquella celebre tradição, só tinha servido de convencer-me das

aberrações em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados,

quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os

caracteres desta a um preconceito. Não me era possivel omittir a batalha

de Ourique. Que podia eu fazer, repito, ácerca do milagre da apparição?

Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospôr as

doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram

de critica historica, calcar aos pés a maxima do mais illustre escriptor

romano, ou então manifestar sem hesitação as proprias convicções, que

julgava e julgo legitimas, isto é, proceder de um modo que v.. mesmo crê

nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não sei se

está em perfeita harmonia com a idéa geral que predomina nas

considerações que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os

inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria

commum, da manifestação das minhas doutrinas.

Disse, pois, o que suppús e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me

dilatar, sem exaggeração, sem pretensões a ter feito um importante

descobrimento historico; porque realmente o não era: disse-o

singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as

incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma

attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito dizê-lo, nem v..

nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um

pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de

sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides

concentravam todas as forças em Africa, para salvarem o imperio da

ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem

a heroica guarnição de uma praça como Aurelia ao seu triste destino. A

narrativa anterior, o quadro da situação dos lamtunitas e das

perturbações quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam

o leitor para por si fazer conceito das dimensões da batalha de Ourique.

Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar,

talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum

modo desculpar a significação exaggerada que depois se lhe attribuiu.

Sobre a apparição disse apenas o restrictamente necessario para o leitor

vulgar conhecer que eu não a admittia. Se tivesse o proposito deliberado

de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo,

crê v.. que eu não teria recursos para aproveitar o lado contradictorio

e até ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se não possa

encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da

historia? Crê v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da

invenção dessa maravilha, e avaliá-las severa ou, se quizerem,

malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me

dizer que foi necessaria demasiada prevenção contra mim, ou a favor da

inviolabilidade da apparição, para se não ver que procurei, quanto me

era possivel sem offender a verdade, não converter os factos que se

prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas

com que finalisa cada volume do meu livro são destinadas para os homens

da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opiniões. Estas

notas são, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores não se

cansa com essas discussões tediosas. Foi, porém, ahi que eu alludi ao

ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaça, o que fiz apenas pelo

desejo de dar uma satisfação aos homens professionaes. Se eu fosse o

impio, o atheu, e não sei que mais, que por ahi me chamam os padres

ignorantes e mal procedidos, não tiraria vantagem dessa falsificação

insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas

do céu para fins terrenos? Não practicaria ao menos aquillo que a

justissima indignação de qualquer homem religioso o levaria talvez a

practicar? Se tal se houvesse de crer, não deveriam qualificar-me de

impio, mas sim de insigne mentecapto.

Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as

minhas opiniões, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de

Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de

juramento conservado em Alcobaça, eu fiz uma citação

contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano não

nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao

citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaça?--«_Quem desejar conhecer a

impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc._»--Se o auctor

concorda comigo em que elle é falso, onde está a improcedencia da

citação? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que

v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma

que acreditava na apparição, posto negasse a genuinidade do pergaminho

de Alcobaça, e que eu não creio nem no documento, nem no facto.

Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. Não era, porém, para a

opinião manifestada pelo academico em relação ao successo, mas sim para

as suas razões contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o

que elle diz em favor do facto não é mais do que repetir o que outros

disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente

de Fóra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, dá como

provavelmente tirada _de outro original falso_. O que se vê de tudo

aquillo é que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o

que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaça, quiz ao menos

salvar-se, protestando pela pureza da sua crença no milagre de Ourique.

Talvez, se eu vivesse então, fizesse o mesmo, em attenção á

circumstancia que nos recorda Gmeiner: «_onde vigorou o terrivel

tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade_».

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 4 / 16 段