Esta carta será um pouco extensa. Será talvez seguida de outras. Não o

sei ainda. N'uma questão litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que o

procedimento de alguns individuos da ordem sacerdotal converteu n'uma

contenda que não sei até onde chegará, v.. fez-me a honra de ser meu

adversario, escrevendo dous opusculos em que combate as minhas opiniões

n'um, ou para melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria.

Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas epochas, v.. se houve

sempre para comigo com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia de

um espirito cultivado. Póde haver ahi uma ou outra expressão mais viva,

que feriria certas vaidades demasiado mimosas; se, porém, as ha, não me

feriram a mim, endurecido já nestes recontros, e que tambem não sou dos

menos sujeitos a ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade.

No meio dos que me tem combatido, v.. representa a meus olhos a parte

san, os homens sinceros do gremio, da eschola, do partido (como quizerem

chamar-lhe, porque os nomes importam pouco) a que v.. pertence.

Representa, digo, essa parte, postoque, e ainda bem que assim é, não a

resuma. Igual testemunho devo deixar aqui, se os meus escriptos tem de

viver mais algum dia que eu, ácerca dos Redactores do jornal _A Nação_.

Meus adversarios tambem, não recebi delles na impugnação das minhas

doutrinas, senão provas de consideração e de urbanidade.

Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita em que quiz encerrar-se no

seu ultimo e recente opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses

homens probos e leaes que estimo e respeito, embora julgue erroneas,

deploraveis até, as suas opiniões n'uma contenda, que, não por minha

culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma direcção fatal. Deus

queira que os imprudentes que lhe deram origem não tenham de chorar a

sua loucura com lagrymas amargas!

Sería bem triste que essa porção de compatricios meus em cujos corações

o amor do passado é um sentimento puro, postoque, a meu ver, ás vezes se

manifeste de modo pouco reflectido, me cressem traidor á sancta causa da

patria. Se os erros de nossos paes e os erros de todos nós os que

vivemos, erros que nos trouxeram a uma situação que não posso, que não

quero definir aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal, ameaçado

na sua independencia e nacionalidade, brade por todos os seus filhos

para um esforço supremo, para o salvarem ou para morrerem, espero em

Deus, e depois de Deus na minha consciencia, que, sem crer no milagre de

Ourique, não serei o ultimo a acceitar esse terrivel convite. O passado!

Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com

mais saudade para as suas tradições? Mas as tradições de que tenho

saudade; mas o passado que eu amo, não o são essas lendas absurdas

(desculpe v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas por

interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que sejam, nem a

philosophia nem o christianismo consentem se faça o céu instrumento. Nos

tempos que foram o que me sorri, não só como saudade, mas (porque não

direi agora o que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem como

esperança, são as tradições dessa liberdade primitiva, postoque

incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para mãe,

para abrigo das sociedades da Peninsula; dessa liberdade, rude e

turbulenta como uma creança educada á lei da natureza, mas como ella

robusta e viçosa; dessa liberdade que se estribava nos habitos, que

resultava de instituições positivas e exequiveis, e não de instituições

copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os

Pyreneus; dessa liberdade que tornava a monarchia uma cousa sancta,

necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraça sua e nossa,

foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio,

politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e Commentarios

das escholas d'Italia; dessa liberdade, que, desenvolvida e organisada

logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez á gloria immensa,

mas para nós mais que esteril, de nos convertermos em victimas da

civilisação da Europa, de revelar o Oriente á sua cubiça, para logo

virmos assentar-nos extenuados n'um occaso de tres seculos; dessa

liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em

esforços impotentes de emancipação, que tomámos como licções

d'extranhos, e que era mais velha para nós do que o era para elles.

Eis-aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual não só

creio, mas tambem espero.

Peço a v.. e aos animos honestos que pensam como v.. se persuadam de que

o homem que não admitte certas narrativas infundadas, nem por isso deixa

de ser bom português, e que, se não está excessivamente inclinado a

adorar o Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em Deus.

Com elles, com v.. a discussão grave, pausada, modesta, é possivel; é

mais, é uma necessidade do espirito, em que este se sente viver da vida,

a elle tão congenita, do raciocinio. Mas como replicar seriamente a

homens, não só ignorantes e ineptos, do que elles não tem culpa, mas que

falsificam, truncam, omittem as palavras do adversario, que lhe alteram

as ideas, que, mettidos no charco mais fetido dos becos da Alfama ou do

Bairro Alto, atíram ás faces do _impio_ que passa quanto lodo lhes cabe

nas mãos, contrahidas e convulsas pela colera? A taes desgraçados que se

póde fazer, senão dar-lhes a triste celebridade dos Cotins ou dos freis

Gerundios, e enviá-los á geração futura, envolvidos no sudario do

escarneo, para lhe distrahir os tedios?

Se as expressões, talvez severas e acres em demasia, que me escaparam

n'um impeto de indignação contra a maioria do nosso clero, e não contra

os homens honestos e instruidos que pertencem a essa classe, como sem

pudor se inculca, não estivessem justificadas pelos actos que as

suscitaram, as consequencias do meu escripto tê-las-hiam remido. Dos que

me impugnaram, foi aos seculares que coube a moderação, a lealdade, e a

elevação dos pensamentos; foi a sacerdotes que couberam as manifestações

de odio incrivel[21], a transfiguração das minhas ideas, e a linguagem

sem nome das prostitutas. Isto é significativo. É que esses seculares

nunca tinham trajado a roupeta, usada a cubrir mais hypocritas e

devassos ignorantes do que varões religiosos e sabios: tinham, sim,

vestido a farda de soldado, costumada a despertar tantas vezes nobres e

grandes instinctos. E que me importam a mim esse odio impotente, essa

linguagem vergonhosa? O que o futuro ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o

v.. As ameaças, que ahi se murmuram pelos cantos, essas causam-me dó. Se

ao poder publico faltasse a força para manter illesa a segurança dos

cidadãos, devolvia-se a estes o direito da propria defesa. Mas os

Jacques-Clementes não apparecem senão onde a sinceridade das convicções

degenerou em delirio, e não onde as crenças são especulação. Para ser

Jacques-Clemente requer-se mais alguma cousa do que saber assassinar; é

necessario saber morrer.

Entrarei na materia.

Na questão suscitada pelo modo como tractei na Historia de Portugal a

lenda de Ourique, e ainda outras lendas analogas, é necessario confessar

que se tem partido sempre de um ponto nebuloso e fluctuante. Para se

chegar a um resultado preciso era necessario ter convindo em certo

numero de principios, acceitar certas formulas de raciocinio. Não se fez

isso. E todavia, a crítica historica tem regras para a credibilidade,

regras a que todo aquelle que tracta de taes materias deve sujeitar-se,

porque se estribam, não só na acceitação dos homens de sciencia, mas

tambem na razão commum. Estes preceitos são no nosso seculo, em que os

estudos historicos têm feito na Europa tantos ou mais progressos que as

outras sciencias, assaz severos; mas essa severidade começou a

desenvolver-se desde os fins do seculo XVII, em que a congregação de S.

Mauro, aquelle brilhante seminario de homens illustres, creou a

diplomatica. O estudo dos archivos, estudo alumiado pela philosophia

crítica, mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas compilações de

trabalhos historicos dos seculos anteriores. É de S. Germão dos Prados,

de S. Brás da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos da França

e da Allemanha, que partiu o movimento intellectual da Europa nesta

parte do saber humano. O que o seculo presente, amestrado por maior

experiencia, tem feito é apertar mais as condições da credibilidade,

evitando ao mesmo tempo todo o genero de preoccupação que possa proceder

dos interesses de partido politico ou da incredulidade em materias de

religião; é tambem o ter dirigido as indagações historicas mais para o

estudo da indole das sociedades, do que para os actos dos individuos.

Não nega as tradições da antiga sciencia; completa-as, aperfeiçoa-as. No

exame dos monumentos, na sua confrontação, tem dado exemplos de

imparcialidade e de paciencia, que mereceriam os applausos dos grandes

reformadores benedictinos, se podessem contemplar os resultados da

eschola que elles crearam, embora a sciencia moderna, como era natural,

os tenha deixado bem longe de si. Os doutos que têm comparado os

_Monumenta Germaniæ Historica_ de Pertz, os _Monumenta Historiæ Patriæ_,

publicados em Turin, a Collecção dos Archivos d'Inglaterra, a

continuação dos _Scriptores Rerum Francicarum_, e emfim as demais

publicações desta ordem com o que os maurienses nos deixaram nesse

genero, sabem que passos gigantes tem dado a crítica das fontes

historicas. O uso dessas fontes, a applicação dos preceitos a ellas, tem

produzido historiadores como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amári,

Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira conhece e admira. É a

estes typos que hoje forçosamente ha-de tentar aproximar-se quem

escrever historia, se não quizer deshonrar-se e deshonrar a litteratura

do seu paiz. Foi essa aproximação que eu tentei, persuadido de que bem

merecia por isso da terra em que nasci. Se é assim ou não, pertence

decidi-lo áquelles que vierem após nós. No meio de uma revolução

litteraria não ha desafogo de animo bastante para se fazer inteira

justiça, nem aos meus esforços, nem á candura das minhas intenções.

Conheço a difficuldade de se abandonarem antigas preoccupações, e seria

louco se me irritasse com isso.

Mas para refutar as impugnações que até aqui têm apparecido não me

parece necessario invocar a sciencia no seu estado actual, e nem sequer

a sciencia anterior na sua applicação á historia profana. Bastam-me as

regras acceitas pelos historiadores ecclesiasticos mais respeitaveis,

inculcadas por theologos, estabelecidas por membros illustres do clero,

a quem nem uma unica voz ousará accusar de menos crentes, ou sequer de

menos piedosos. É, creio eu, e v.. o julgará, acceitar a situação mais

desvantajosa possivel: é tambem o que eu já tinha feito invocando a

regra de Vicente de Lerins. Se a religião (cuja base é a crença em

cousas que excedem a comprehensão humana, e que nos impõe a synthese, o

dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente á analyse) exige dos

factos tradicionaes, antes de os acceitarmos, as condições de terem sido

acreditados _sempre, em toda a parte, e por todos_, quem pede para crer

ou deixar de crer factos puramente humanos (sujeitos pela sua natureza a

toda a discussão possivel) apenas as garantias de liberdade intellectual

que a igreja, tão parca em concedê-las, concede aos fiéis para

acceitarem uma parte das suas crenças, não abdica evidentemente de uma

liberdade, de uma vantagem que é sua, que ninguem lhe disputaria? Mais

de uma vez terei talvez de appellar para a probidade litteraria e para a

intelligencia de v.. e dos homens sinceros e honestos que pensam como

v..; mas aqui, parece-me tão evidente a materia, que a deixo á discrição

do espirito mais vulgar, da consciencia mais prevenida. Se Galileu,

quando descobriu que era a terra e não o sol que andava, tivesse

presentes as condições do Comonitorio, não o teria affirmado, e evitaria

as perseguições da inquisição, postoque deixaria para outro a gloria de

ter descuberto um facto importante. Aquelle canon, applicado á sciencia,

é mais perigoso para a verdade nova do que para o erro antigo.

Eu disse que as auctoridades que estabeleceram as regras historicas

acceitas por mim serão ineluctaveis para aquelles mesmos que mais

ferrenhos se mostram em conservar quanto os tempos passados nos

transmittiram. Essas regras, pois, ao menos as principaes, permitta-me

v.. que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver uma parte do clero

insultar-me nos pulpitos e na imprensa, calumniar-me nas praças e

corrilhos, porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas

_para se estudar e escrever a historia da igreja_ por homens que são a

gloria e honra da classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos, na

consciencia de todos não estivesse quanto escrevi ácerca da decadencia

intellectual da maioria do nosso clero, parece-me que o que vou

transcrever sería medida sobeja para por ella se aferir essa verdade. Já

que falei dos religiosos da congregação de S. Mauro, começarei pelo mais

celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon. Eis o que elle nos

ensina:

1.^o «Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da

historia é em evitar todos esses vicios em que é facil cair; quero

dizer, evitar admittir por verdadeiro o que é falso, ou deixar-nos

dominar pelas affeições particulares dos historiadores. É necessario,

primeiro que tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se é idoneo e

sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou

seita...»

2.^o «Devemos averiguar _se o auctor que lemos é synchrono_

(contemporaneo); se escreveu elle proprio, ou se copiou outro; se é

prudente nas suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas;

porquanto, dada a paridade no demais, deve preferir-se a opinião do

auctor coevo á do mais moderno. Digo--dada a paridade no demais--porque

póde acontecer, e acontece ás vezes, escrever a historia com inteira

madureza o auctor não synchrono, estribado _em monumentos serios_ e boas

razões, e o contemporaneo muito ao contrario, ou seja por negligencia,

ou seja por ignorancia dos factos, ou seja por alguma prevenção, ou

finalmente porque o _subjuga a força do proprio interesse_.»

3.^o «Segue-se d'aqui _não se dever confiar demasiado naquelles factos

sobre que os escriptores rigorosamente contemporaneos, ou quasi

contemporaneos, guardaram silencio_; postoque possa acontecer que um

auctor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados

em logar occulto quando os factos aconteceram, ou visse escriptores

synchronos, ou quasi synchronos, cujas obras depois se perdessem.

«_Se, porém, esses escriptores, ou os que lhes succederam, no intervallo

de um até dous seculos, nada dizem a tal respeito, e não obstante isso,

um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho ou

auctoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente esses factos,

bem pequena conta se deve fazer delle_, aliás abririamos ampla estrada

para errarmos, e para enganarmos os outros.»

4.^o «Com todo o cuidado nos devemos premunir para não sermos

illaqueados por alguns auctores suppositicios, inventados nestes nossos

tempos...»

5.^o «Não se deve proscrever qualquer auctor por um ou outro defeito de

paixão ou allucinação, pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeição

propria da natureza humana, comtanto que seja sincero e pontual no

resto...»

6.^o «Não se devem desprezar os antiquarios, auctores de resumos

historicos, e compiladores...»

7.^o «Quando as narrativas variam, não nos devemos deixar attrahir pela

consideração do numero, mas sim pelo merito e gravidade[22] dos

auctores; visto que muitas vezes acontece que a auctoridade de um auctor

grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos fé,

_porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discussão e

diligente exame das cousas_...»

8.^o «Por este mesmo motivo não deve fazer-se grande fundamento na quasi

innumeravel multidão de casos que muitos modernos costumam amontoar nas

vidas de certos sanctos... Dizendo isto, sinto apertar-se-me o coração,

e com magua devo accrescentar, que são muitissimo mais exactos os

auctores profanos escrevendo vidas de ethnicos, do que muitos christãos

relatando vidas de sanctos, o que já não receou affirmar Melchior Cano,

referindo-se a Diogenes Laercio e a Suetonio.»

Ouçamos ainda n'outra parte o fundador da diplomatica francesa:

«É necessaria a crítica para distinguirmos as historias verdadeiras das

falsas; para não darmos temerariamente credito a narrações

supersticiosas, a vans opiniões, a delirios aereos, a _milagres fingidos

ou duvidosos_, a _escriptos suppostos dos sanctos padres_. O veneravel

Guigo, quinto geral dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma de

crítica: ..._Buscae a prova de tudo; o bom respeitae-o. Quem crê de

prompto é leve de coração._»

Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador da igreja catholica.

Depois de varias considerações sobre os documentos falsos com que o

clero innundou a Europa nos seculos de trevas, e da falta de instrucção

que entre elle reinava, o historiador observa:

«Outro resultado da ignorancia é tornarem-se os homens credulos e

supersticiosos, por falta de principios seguros de crença e de exacto

conhecimento dos deveres religiosos. Deus é poderosissimo, e os sanctos

têm alto valimento para com elle: verdades são estas que nenhum

catholico rejeita: logo devo acreditar todos os milagres attribuidos á

intercessão dos sanctos. Má conclusão. Cumpre examinar as provas delles,

e com tanta mais exacção, quanto esses factos mais incriveis e

importantes forem. Porque, dar por certo um milagre falso nada menos é,

segundo S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus, como mui

judiciosamente observa S. Pedro Damião. Assim, longe de ser acto de

piedade crê-los de leve, é a propria piedade que nos obriga a

averiguarmos com rigor as provas em que se fundam. _O mesmo se deve

dizer das revelações, das apparições de espiritos, das operações do

demonio... Em summa, toda a pessoa dotada de bom juizo e religiosidade

deve ser cautelosissima em acreditar factos sobrenaturaes._»

Mas observemos as precauções de que Fleury se rodeava, as balisas que

para si proprio punha, ao começar o immenso lavor da sua _Historia

Ecclesiastica_, ainda hoje não substituida, apesar de tantas

monographias excellentes com que depois tem sido illuminada, por um ou

por outro aspecto, n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis os

limites que elle estabeleceu á credibilidade n'um genero de escriptos

onde esta poderia ser mais ampla, limites que á _fortiori_ não será

nunca licito ultrapassar em matéria de tradições humanas. Mas antes

permitta-me v.. que cite algumas passagens, as quaes me parecem

grandemente applicaveis a essa parte do clero, que, em vomitando, no

pulpito ou na imprensa, contra quem diz a verdade, quantos adjectivos

injuriosos contém o diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra

dessas fabulas e crendices que estão costumados a propalar entre o povo,

provavelmente pela mesma razão por que prégam mal, isto é _porque os

festeiros gostam d'isso_, embora os concilios lh'o prohibam, os

apostolos os condemnem, os membros mais doutos e pios da igreja

catholica lhes mostrem o abysmo em que se precipitam! Para onde has tu

fugido, oh religião de Christo?!

«Vejo bem--diz Fleury--que a minha historia não ha-de agradar aos

espiritos acanhados, atidos ás suas preoccupações, e sempre promptos em

condemnar os que pretendem desenganá-los; aos que tapam os ouvidos

quando a verdade soa, para se abraçarem com as fabulas, buscando

doutores que vão com elles. Não lhes faltarão livros acommodados ao

paladar. Escrevo em vulgar para ser util aos homens de juizo...»

«Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um de credulidade, outro de

critica. Nem só a simpleza faz credulos. Pessoas ha que o são por

politica e por deploravel sobranceria. _Julgam que o povo é incapaz ou

indigno de saber a verdade; e tem por necessario alimentar-lhe todas as

opiniões que lhe foram inculcadas como religião_, receiosos de abalar o

que é solido, atacando o que é frivolo. Na essencia, estes suberbos

politicos são ignorantissimos. Desconhecendo a religião, não a tomam a

serio, e nada os liga a ella senão as preoccupações da infancia e os

interesses temporaes. Nunca examinaram as seguras provas do evangelho,

nem sentiram a excellencia da sua moral e a esperança dos bens eternos.

_É por isso que não ousam profundar as cousas antigas e temem

conhecê-las_: sabem que lhes não são favoraveis. Querem crer que sempre

se viveu como hoje, porque não querem mudar de vida, como se nos fosse

proveitoso enganar-nos a nós mesmos, ou se a verdade podesse trocar-se

em mentira á força de averiguações. Graças a Deus, a fé christan passou

pelo chrysol; o que ella _teme_[23] é que não a conheçam.

«A outra especie de pessoas credulas em demasia são christãos sinceros,

mas fracos e escrupulisadores, que á propria sombra da religião

respeitam, e sempre receiam crer de menos. Falta a uns a instrucção;

cerram os outros os olhos, e não querem fazer uso do entendimento. É

para os taes objecto de devoção crer quanto escreveram os auctores

catholicos e quanto crê o ignorante vulgo. A meu vêr, a _legitima

devoção consiste em prezar a verdade e a pureza da religião, e em

observar, primeiro que tudo, os preceitos expressamente estabelecidos na

sagrada escriptura_. Ora, vemos que S. Paulo recommenda repetidas vezes

a Tito e a Timotheo que evitem as fabulas, predizendo tambem que uma das

desordens do fim do mundo será o affastarem-se os homens da verdade para

se aterem a crendices; vemos que as fabulas eruditas não merecem menos

desprezo a S. Pedro que os contos de velhas de S. Paulo; e do mesmo modo

que elle condemna as fabulas judaicas, teria condemnado as christans, se

já então as houvesse. Que dirão a isto aquelles que a timidez torna tão

credulos? Não terão escrupulo em menosprezar semelhante auctoridade?

Dirão que nunca houve fabulas entre os christãos? Seria desmentir a

antiguidade em peso...»

«A critica é portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradições,

deve averiguar-se quaes são dignas de credito; devemos fazê-lo, até, se

não queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem

que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os

milagres estão bem provados, para lhe não levantarmos falso testemunho,

attribuindo-lhe os que elle não fez.»

Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico ácerca dos milagres,

estribado nos livros que Deus inspirou. Quem será, pois, o impio, o

incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos

homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que

esquecidos dos deveres, não digo do sacerdocio (porque neste caracter, o

seu procedimento não tem nome), mas do simples christão, ousam perguntar

ao historiador sincero: «_Se é necessario, se é util que o historiador

se constitua campeão acerrimo contra essas tradições que deturpam a

historia?_ e que respondem:--_É um arrojo mui imprudente e reprehensivel

no historiador semelhante intento. Que precisão, que vantagem ha em

destruir as crenças theocraticas[24], que uma tradição de seculos fora

radicando no coração do povo? Nenhuma ha:_» e depois accrescentam esta

maxima impia de Laharpe--«_a politica sabia e devia tirar partido do

poderoso movel da geral crença, cujos effeitos são geralmente bons em

todo o governo, mesmo quando a crença é erronea!_» Não peço a v.. tão

cavalheiro e tão indulgente para comigo; peço ao homem que mais me

odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os

desgraçados que não se envergonham, christãos e sacerdotes, de invocar

contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que

insultam, não a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia,

mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 3 / 16 段