animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a
reler. Quanto a esses de quem me queixo, não sou eu homem que esconda as
proprias convicções. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um
documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria
do nosso clero é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a natural
repugnancia a despedaçar um cadaver, daria aqui as razões da minha
persuasão. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: não
tergiverso, não me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades,
senão mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu
somno deixasse de ser profundo, como o é habitualmente.
Postas as cousas nestes termos, que são os exactos, não me é possivel
comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra
padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta
desigual, que envolveria a minha condemnação_. Se v.. viu naquella fatal
antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas
um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu não valerei mais,
litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem,
mas mil, mas dez mil clerigos máus ou insipientes, ainda que os fundam e
os acrisolem, chegarão, acaso, a produzir o equivalente de um homem de
alguma intelligencia e de alguma honestidade? Não. O resultado de todas
essas operações será sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou
de corrupção. Peccado de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido.
Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porém, v.. ao
perigo litterario? Tambem não póde ser. É v.. assaz instruido para
sentir que por esse lado a lucta me dá tanto cuidado como daria a v.. se
estivesse no meu logar. É o perigo religioso? A idéa da condemnação
antes de contestada a lide, e envolvida na proposição da causa, torna
talvez plausivel esta interpretação. Nessa hypothese, v.. não teria
advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero português não é a
maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico não constitue
por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposição
com esta; mas confio em que a Providencia me livrará de cair nesse
abysmo, não só agora, mas sempre.
Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, será
condemnavel, senão pela substancia, ao menos pelos accidentes? Será
condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes,
de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar
em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepção. É de um padre da
igreja, a cujas obras o nosso clero foi tão affeiçoado, que até lh'as
quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos.
Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta são de suprema doçura
comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a
corrupção, não do clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas em
geral do sacerdocio do seu tempo. «_Manou a iniquidade_--dizia S.
Bernardo--_dos anciãos, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus;
daquelles que parecem governar o teu povo! Já não é licito dizer_--_tal
o povo, tal o sacerdocio; porque este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os
teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e
exercem na igreja o mando supremo_[1]». E, como se estas acres
expressões não bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta
dirigida, não a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio
II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da
indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os
bispos as cousas sanctas_ a cães, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e
elles em paga mettem-nas debaixo dos pés. Assim o quizeram, assim o
tenham_[2]». Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que
matinada se alevantaria contra mim!
Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu não
passo de um peccador e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de
longe, _non passibus æquis_. Comtudo, v.. não deixará de advertir em
que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge,
humilde, simples, sem pretensões orgulhosas, sem presciencia de que
tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O
espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bôca esses brados
d'indignação, como loucas provocações arrancaram da minha penna palavras
muito menos violentas.
Já agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado português
quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasião de alludir na minha
carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brandão ácerca
do clero português no principio deste seculo. O metropolita explicava
n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a
desconsideração sobre o poder pontificio: «_São aquelles_--dizia o
arcebispo de Braga--_que á força de supplicas importunas, de respeitos
humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir
da curia romana provisões beneficiaes_, que mais parecem titulos de
contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos;
_provisões a favor das quaes tem infestado as parochias e córos_
(collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos
indignos, etc.[3]». Que se leia inteira a passagem impressa daquella
carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais
desabrida linguagem.
Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me a crença de que não
estão no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S.
Bernardo.
Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me
quer ver collocado, em relação á maioria do clero. Foram apenas alguns
que me provocaram do pulpito, e eu chamo á autoria o grande numero. É
verdade. Não sei com certeza senão de alguns factos de aggressão, mas a
noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns
constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem,
dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho.
É acaso provavel que se não repetissem por outras dioceses? Em Lisboa,
onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustração, onde,
até, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria fé é mais tibia,
onde, emfim, os prégadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria
delles, houve dous exemplos. Não me será licito inferir que, não tendo
eu uma policia ás minhas ordens, ignoro muitos successos analogos?
Depois, houve, á vista desses factos repetidos, não digo punição de
semelhante abuso do ministerio sagrado, o que não peço, o que até me
contristaria, porque me lembro das palavras de Christo «_Perdoa-lhes
Pae, que não sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a
renovação de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os
arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como
informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero
diocesano? Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem entendem que
a sanctidade dos papas da idade média ou o apparecimento de Ourique são
partes integrantes da crença catholica, e que se trepassem ao pulpito, e
lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se não
estão de accordo com os prégadores, como se esquecem de que os padres de
Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados
_divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de
falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos
mesmos oradores que _não falem imprudentemente de milagres, limitando-se
aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de
peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois
v.. que eu não increpe o maior numero e que não o supponha alistado
contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?
Passando ao segundo capitulo de accusação, sinto verdadeira magoa em ser
constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi ácerca
dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha.
Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas,
violentas e cubiçosas, alguns delles que se chamaram Gregorio,
Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes
Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no
meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia
Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz,
creio eu, justiça, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque
viveu antes de nascer a monarchia. É singular como v.. pôde perceber
que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! Não teria eu
direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van
a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me
parece indubitavel é que alguma convicção historica preoccupava o
espirito de v.. quando nas minhas expressões vagas e geraes viu um
ataque directo e especial á memoria daquelles homens extraordinarios,
cujos meritos não neguei, nem tenho empenho em negar.
Entretanto não pense v.. que com isto pretendo lançar fóra de mim a
responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III.
Não tenho a minima dúvida em lhes applicar as designações de
intelligencias violentas e cubiçosas, como não a tenho em chamar
corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. É verdade
que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisação, e Innocencio III
com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e
litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisação
constitua dogma de fé, e obste á liberdade do historiador para avaliar
como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que,
fundando-se as canonisações em provas humanas, e não em factos
revelados, as decisões pontificias a tal respeito são sempre falliveis,
o que bem se manifesta da oração que ainda no seculo XIV os papas faziam
na solemnidade das canonisações, pedindo a Deus permittisse que não se
houvessem enganado. Esta doutrina é corrente, e v.. não a ignora, nem
poderia ignorá-la[6].
Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous
pontifices a justiça que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a
entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais
de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos
que a civilisação lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos não
conheço nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o
professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se
valer exclusivamente da idéa em que se resume a historia do progresso
humano. Esta idéa é a _lucta do espirito com a sua manifestação, com a
fórma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no
meio da força do acaso_[7]. Elle vê-a representada, incarnada, digamos
assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e
tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da
instituição. É inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe
a manifestação da idéa, e em philosophia historica os defeitos desses
papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por
que elles desempenharam a missão providencial do papado n'aquella
epocha. Todavia, na apreciação _moral_ dos seus actos como individuos, é
por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo
conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu
da historia «_No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade não
se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. Não são os
phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo
delles_.» Para avaliar o pontifice como representante e typo da
instituição, a regra é exacta; para o avaliar como homem, não; porque a
_intenção_, a causa moral dos actos, é necessaria para a apreciação
abstracta de um caracter. A suberba, a ambição e até a cubiça de
Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente me referi
n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se é possivel, documentos
irrefragaveis.
Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa
intenção moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu
contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas
cousas os sanctos padres. São respeitaveis auctoridades! «_De
resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que não se
enfureça tanto comigo, e que a sua veneranda suberba não me fustigue com
tão longa flagellação_[9]».
De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um
pobre velho: S. Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao
proprio cardeal. Verdade é que não sabía quão grande sancto havia de vir
a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge
está explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu
na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior
intellectualmente aos outros homens, a ambição de os dominar a todos
fê-lo até negar a realeza, não só como facto, mas tambem como principio.
Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? Não o
creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas.
«Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos
principes) não estará sujeita á que Deus estabeleceu para gloria
propria? Quem não sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes
pagãos, os quaes por instigações do diabo, _que é o verdadeiro principe
do mundo_, movidos por cega paixão e levados por intoleravel presumpção,
_usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com
esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os
crimes?[10]» Não lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse,
o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso
que o sancto varão fazia do famoso texto biblico: _Per me reges
regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._
Podemos nós os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio)
acceitar as idéas do celebre S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho,
uma intolerancia para com os poderes da terra, que não
comprehenderiamos, talvez, hoje, se não tivesse vivido no nosso seculo
uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleão
Bonaparte?
Vamos ás ultimas censuras de v.. em que me parece não ter mais razão do
que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_,
não póde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma
não se póde entender senão o poder pontificio, não se póde significar
senão o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S.
Bernardo para me salvar da condemnação eminente. Nesta contenda, não sei
porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre
da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellações
para o papa, e alludindo a dous bispos allemães carregados de crimes,
que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro,
haviam sido repellidos nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo
exclama: «_Grande novidade! Quando até o dia de hoje rejeitou Roma
dinheiro?_[11]» Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao
governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa
Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, não
pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bôca do
grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a
opinião do severo cluniacense, «_era mais facil entrar honesto, do que
tornar-se lá homem de bem_[12]»; essa curia que me obrigaria a encher
paginas e paginas de citações se quizesse colligir as passagens
relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se
tractava de receber ouro, passagens que se encontram ás dezenas nos
escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, até, versos das
cantigas populares contra a cubiça da curia, o que prova ter-se tornado
proverbial a corrupção de Roma[13].
Mas concedamos que, ultrapassando além da curia romana, eu tivesse em
mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos
publicos são do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos
moraes e politicos poderem trazer graves turbações, dias de amargura á
igreja, não é licito a todo e qualquer christão deplorar essas
consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_
ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem
de ter a intenção directa de o destruir? Ou eu não sei português, ou
empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se
diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que
se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a
idéa de attribuir a esse individuo a intenção directa do suicidio? Ou
será que as expressões simples, as phrases innocentes dos outros homens
se convertem em peste e veneno, quando saem da bôca do feroz herege que
ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo
ácerca do milagre de Ourique?
Em que tempos estamos nós? Para onde caminha a reacção religiosa? Que!?
Eu não poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um
papa, em relação aos futuros destinos da igreja, e S. Thomás de
Cantuaria poderia sem ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III as
gravissimas accusações de o trahir, e de querer conduzi-lo á morte[14]?
Poderia S. Thomás de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII,
ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro
dizia «_não possuo nem ouro nem prata_»--responder-lhe «_que tambem era
passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e
anda_[15]» epigramma pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça
não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás ser um doutor da igreja,
depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo
Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilhão de igrejas_[16]?
Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florença, que não
duvidou de pintar com as mais negras côres os vicios hediondos de
Clemente V[17]. Não chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque
taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o
erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia
Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de
doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que não
sou nenhuma dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos principios
eternos da moral, da justiça e da caridade evangelica as acções dos
papas sem renegar da igreja.
Não disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos.
Cada qual póde vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que, porém, eu
tenho jus é a averiguar se é exacta a proposição absoluta de v.., de que
o futuro da igreja é muito sabido, claro e indisputavel _para os
catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do
catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em
que a proposição assim absolutamente enunciada, conduziria ao
impossivel? O que é certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um
dos seus membros, é que ella será perpetua, indestructivel. Mas por
quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de
tribulação; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, virão ou
não como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore
eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v..
sabemos. Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico,
habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea
revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que
as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram á voz da curia
romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compressão
inexoravel, preferida á politica evangelica da tolerancia, do perdão das
injurias, da caridade sem limites, poderá varrer para sempre dos animos
italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e
o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor póde v.. julgá-los
legitimos ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que elles não
existam; que elles não possam triumphar algum dia, eis o que v.., por
certo, não affirmará com a mão na consciencia. E nessa hypothese, quem
saberá dizer até onde chegarão os excessos da colera e da vingança,
azedadas pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por elle, se
legitimidade se póde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem
catholico é licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé ácerca da
perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve
entristecer, aterrada pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos
seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe ardentes sobre o seio
materno. Se attribuir ao gremio dos fiéis, composto de homens, os
affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não é, de certo, das
tradições evangelicas, nem das tradições dos antigos padres. Já no
seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos
o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio
Magno não duvidava de dizer: «_A sancta igreja, emquanto vive esta vida
de corrupção, não cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que
passa_»: e n'outra parte: «_A dor esmaga a igreja quando vê os perversos
prosperarem na propria maldade_»[20]. É dessas vicissitudes a que allude
o sancto pontifice que eu falo; é a essas vicissitudes, demasiado
provaveis, que os erros dos homens, as paixões anti-christans do
sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previsões, um caracter de
terribilidade.
Tenho dado razão de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto
que o limitado espaço de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo,
o inhibisse de assim o practicar. Gósto de ser advertido dos erros em
que caio, quando é a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister,
e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas
ulteriores observações v.. me convencesse de que eu errava. Á ignorancia
presumida, ou á insolencia estupida, é que não costumo fazer a honra de
responder. Quanto a esta questão, que não suscitei, e que até deploro,
ella terminou para mim. Que os hypocritas façam visagens beatas contra a
minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas
são essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras
inquisitoriaes, mercê de Deus, acabaram para sempre. A raça dos escribas
e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle
mais cordealmente amaldiçoou, é immortal e immutavel; mas deixá-la
viver. Quem diz ao sapo:--«não sejas asqueroso?»--Quem diz á
vibora:--«não sejas peçonhenta?»--Babem e mordam; é o seu destino,
coitados!
O que não tolerarei é que me chamem de novo, a mim ou aos meus
escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se
deshonram os pulpitos. Que os prelados façam ou não o seu dever a este
respeito, pouco me importa. Estejam certos de que não será a suas
excellencias que pedirei desaggravo.
III
SOLEMNIA VERBA
AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES
(_Outubro, 1850_)
Porque virá tempo em que muitos homens não soffrerão a san
doutrina; mas..... accumularão para si mestres conforme aos seus
desejos:
E assim apartarão os ouvidos da verdade e os applicarão ás fabulas.
_S. Paulo, Epistola II a Thimoteo c. 4. v. 3, 4._
Permitta-me v.. que, sem existirem entre nós outras relações que não
sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando
se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa,
uma carta a v..