É esta a idéa que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os

animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a

reler. Quanto a esses de quem me queixo, não sou eu homem que esconda as

proprias convicções. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um

documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria

do nosso clero é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a natural

repugnancia a despedaçar um cadaver, daria aqui as razões da minha

persuasão. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: não

tergiverso, não me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades,

senão mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu

somno deixasse de ser profundo, como o é habitualmente.

Postas as cousas nestes termos, que são os exactos, não me é possivel

comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra

padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta

desigual, que envolveria a minha condemnação_. Se v.. viu naquella fatal

antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas

um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu não valerei mais,

litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem,

mas mil, mas dez mil clerigos máus ou insipientes, ainda que os fundam e

os acrisolem, chegarão, acaso, a produzir o equivalente de um homem de

alguma intelligencia e de alguma honestidade? Não. O resultado de todas

essas operações será sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou

de corrupção. Peccado de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido.

Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porém, v.. ao

perigo litterario? Tambem não póde ser. É v.. assaz instruido para

sentir que por esse lado a lucta me dá tanto cuidado como daria a v.. se

estivesse no meu logar. É o perigo religioso? A idéa da condemnação

antes de contestada a lide, e envolvida na proposição da causa, torna

talvez plausivel esta interpretação. Nessa hypothese, v.. não teria

advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero português não é a

maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico não constitue

por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposição

com esta; mas confio em que a Providencia me livrará de cair nesse

abysmo, não só agora, mas sempre.

Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, será

condemnavel, senão pela substancia, ao menos pelos accidentes? Será

condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes,

de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar

em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepção. É de um padre da

igreja, a cujas obras o nosso clero foi tão affeiçoado, que até lh'as

quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos.

Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta são de suprema doçura

comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a

corrupção, não do clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas em

geral do sacerdocio do seu tempo. «_Manou a iniquidade_--dizia S.

Bernardo--_dos anciãos, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus;

daquelles que parecem governar o teu povo! Já não é licito dizer_--_tal

o povo, tal o sacerdocio; porque este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os

teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e

exercem na igreja o mando supremo_[1]». E, como se estas acres

expressões não bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta

dirigida, não a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio

II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da

indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os

bispos as cousas sanctas_ a cães, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e

elles em paga mettem-nas debaixo dos pés. Assim o quizeram, assim o

tenham_[2]». Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que

matinada se alevantaria contra mim!

Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu não

passo de um peccador e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de

longe, _non passibus æquis_. Comtudo, v.. não deixará de advertir em

que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge,

humilde, simples, sem pretensões orgulhosas, sem presciencia de que

tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O

espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bôca esses brados

d'indignação, como loucas provocações arrancaram da minha penna palavras

muito menos violentas.

Já agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado português

quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasião de alludir na minha

carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brandão ácerca

do clero português no principio deste seculo. O metropolita explicava

n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a

desconsideração sobre o poder pontificio: «_São aquelles_--dizia o

arcebispo de Braga--_que á força de supplicas importunas, de respeitos

humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir

da curia romana provisões beneficiaes_, que mais parecem titulos de

contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos;

_provisões a favor das quaes tem infestado as parochias e córos_

(collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos

indignos, etc.[3]». Que se leia inteira a passagem impressa daquella

carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais

desabrida linguagem.

Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me a crença de que não

estão no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S.

Bernardo.

Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me

quer ver collocado, em relação á maioria do clero. Foram apenas alguns

que me provocaram do pulpito, e eu chamo á autoria o grande numero. É

verdade. Não sei com certeza senão de alguns factos de aggressão, mas a

noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns

constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem,

dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho.

É acaso provavel que se não repetissem por outras dioceses? Em Lisboa,

onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustração, onde,

até, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria fé é mais tibia,

onde, emfim, os prégadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria

delles, houve dous exemplos. Não me será licito inferir que, não tendo

eu uma policia ás minhas ordens, ignoro muitos successos analogos?

Depois, houve, á vista desses factos repetidos, não digo punição de

semelhante abuso do ministerio sagrado, o que não peço, o que até me

contristaria, porque me lembro das palavras de Christo «_Perdoa-lhes

Pae, que não sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a

renovação de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os

arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como

informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero

diocesano? Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem entendem que

a sanctidade dos papas da idade média ou o apparecimento de Ourique são

partes integrantes da crença catholica, e que se trepassem ao pulpito, e

lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se não

estão de accordo com os prégadores, como se esquecem de que os padres de

Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados

_divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de

falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos

mesmos oradores que _não falem imprudentemente de milagres, limitando-se

aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de

peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois

v.. que eu não increpe o maior numero e que não o supponha alistado

contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?

Passando ao segundo capitulo de accusação, sinto verdadeira magoa em ser

constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi ácerca

dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha.

Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas,

violentas e cubiçosas, alguns delles que se chamaram Gregorio,

Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes

Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no

meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia

Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz,

creio eu, justiça, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque

viveu antes de nascer a monarchia. É singular como v.. pôde perceber

que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! Não teria eu

direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van

a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me

parece indubitavel é que alguma convicção historica preoccupava o

espirito de v.. quando nas minhas expressões vagas e geraes viu um

ataque directo e especial á memoria daquelles homens extraordinarios,

cujos meritos não neguei, nem tenho empenho em negar.

Entretanto não pense v.. que com isto pretendo lançar fóra de mim a

responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III.

Não tenho a minima dúvida em lhes applicar as designações de

intelligencias violentas e cubiçosas, como não a tenho em chamar

corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. É verdade

que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisação, e Innocencio III

com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e

litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisação

constitua dogma de fé, e obste á liberdade do historiador para avaliar

como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que,

fundando-se as canonisações em provas humanas, e não em factos

revelados, as decisões pontificias a tal respeito são sempre falliveis,

o que bem se manifesta da oração que ainda no seculo XIV os papas faziam

na solemnidade das canonisações, pedindo a Deus permittisse que não se

houvessem enganado. Esta doutrina é corrente, e v.. não a ignora, nem

poderia ignorá-la[6].

Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous

pontifices a justiça que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a

entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais

de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos

que a civilisação lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos não

conheço nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o

professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se

valer exclusivamente da idéa em que se resume a historia do progresso

humano. Esta idéa é a _lucta do espirito com a sua manifestação, com a

fórma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no

meio da força do acaso_[7]. Elle vê-a representada, incarnada, digamos

assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e

tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da

instituição. É inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe

a manifestação da idéa, e em philosophia historica os defeitos desses

papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por

que elles desempenharam a missão providencial do papado n'aquella

epocha. Todavia, na apreciação _moral_ dos seus actos como individuos, é

por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo

conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu

da historia «_No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade não

se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. Não são os

phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo

delles_.» Para avaliar o pontifice como representante e typo da

instituição, a regra é exacta; para o avaliar como homem, não; porque a

_intenção_, a causa moral dos actos, é necessaria para a apreciação

abstracta de um caracter. A suberba, a ambição e até a cubiça de

Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente me referi

n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se é possivel, documentos

irrefragaveis.

Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa

intenção moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu

contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas

cousas os sanctos padres. São respeitaveis auctoridades! «_De

resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que não se

enfureça tanto comigo, e que a sua veneranda suberba não me fustigue com

tão longa flagellação_[9]».

De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um

pobre velho: S. Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao

proprio cardeal. Verdade é que não sabía quão grande sancto havia de vir

a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge

está explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu

na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior

intellectualmente aos outros homens, a ambição de os dominar a todos

fê-lo até negar a realeza, não só como facto, mas tambem como principio.

Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? Não o

creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas.

«Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos

principes) não estará sujeita á que Deus estabeleceu para gloria

propria? Quem não sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes

pagãos, os quaes por instigações do diabo, _que é o verdadeiro principe

do mundo_, movidos por cega paixão e levados por intoleravel presumpção,

_usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com

esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os

crimes?[10]» Não lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse,

o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso

que o sancto varão fazia do famoso texto biblico: _Per me reges

regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._

Podemos nós os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio)

acceitar as idéas do celebre S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho,

uma intolerancia para com os poderes da terra, que não

comprehenderiamos, talvez, hoje, se não tivesse vivido no nosso seculo

uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleão

Bonaparte?

Vamos ás ultimas censuras de v.. em que me parece não ter mais razão do

que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_,

não póde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma

não se póde entender senão o poder pontificio, não se póde significar

senão o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S.

Bernardo para me salvar da condemnação eminente. Nesta contenda, não sei

porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre

da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellações

para o papa, e alludindo a dous bispos allemães carregados de crimes,

que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro,

haviam sido repellidos nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo

exclama: «_Grande novidade! Quando até o dia de hoje rejeitou Roma

dinheiro?_[11]» Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao

governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa

Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, não

pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bôca do

grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a

opinião do severo cluniacense, «_era mais facil entrar honesto, do que

tornar-se lá homem de bem_[12]»; essa curia que me obrigaria a encher

paginas e paginas de citações se quizesse colligir as passagens

relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se

tractava de receber ouro, passagens que se encontram ás dezenas nos

escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, até, versos das

cantigas populares contra a cubiça da curia, o que prova ter-se tornado

proverbial a corrupção de Roma[13].

Mas concedamos que, ultrapassando além da curia romana, eu tivesse em

mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos

publicos são do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos

moraes e politicos poderem trazer graves turbações, dias de amargura á

igreja, não é licito a todo e qualquer christão deplorar essas

consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_

ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem

de ter a intenção directa de o destruir? Ou eu não sei português, ou

empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se

diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que

se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a

idéa de attribuir a esse individuo a intenção directa do suicidio? Ou

será que as expressões simples, as phrases innocentes dos outros homens

se convertem em peste e veneno, quando saem da bôca do feroz herege que

ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo

ácerca do milagre de Ourique?

Em que tempos estamos nós? Para onde caminha a reacção religiosa? Que!?

Eu não poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um

papa, em relação aos futuros destinos da igreja, e S. Thomás de

Cantuaria poderia sem ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III as

gravissimas accusações de o trahir, e de querer conduzi-lo á morte[14]?

Poderia S. Thomás de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII,

ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro

dizia «_não possuo nem ouro nem prata_»--responder-lhe «_que tambem era

passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e

anda_[15]» epigramma pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça

não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás ser um doutor da igreja,

depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo

Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilhão de igrejas_[16]?

Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florença, que não

duvidou de pintar com as mais negras côres os vicios hediondos de

Clemente V[17]. Não chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque

taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o

erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia

Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de

doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que não

sou nenhuma dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos principios

eternos da moral, da justiça e da caridade evangelica as acções dos

papas sem renegar da igreja.

Não disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos.

Cada qual póde vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que, porém, eu

tenho jus é a averiguar se é exacta a proposição absoluta de v.., de que

o futuro da igreja é muito sabido, claro e indisputavel _para os

catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do

catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em

que a proposição assim absolutamente enunciada, conduziria ao

impossivel? O que é certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um

dos seus membros, é que ella será perpetua, indestructivel. Mas por

quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de

tribulação; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, virão ou

não como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore

eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v..

sabemos. Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico,

habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea

revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que

as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram á voz da curia

romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compressão

inexoravel, preferida á politica evangelica da tolerancia, do perdão das

injurias, da caridade sem limites, poderá varrer para sempre dos animos

italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e

o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor póde v.. julgá-los

legitimos ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que elles não

existam; que elles não possam triumphar algum dia, eis o que v.., por

certo, não affirmará com a mão na consciencia. E nessa hypothese, quem

saberá dizer até onde chegarão os excessos da colera e da vingança,

azedadas pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por elle, se

legitimidade se póde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem

catholico é licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé ácerca da

perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve

entristecer, aterrada pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos

seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe ardentes sobre o seio

materno. Se attribuir ao gremio dos fiéis, composto de homens, os

affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não é, de certo, das

tradições evangelicas, nem das tradições dos antigos padres. Já no

seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos

o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio

Magno não duvidava de dizer: «_A sancta igreja, emquanto vive esta vida

de corrupção, não cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que

passa_»: e n'outra parte: «_A dor esmaga a igreja quando vê os perversos

prosperarem na propria maldade_»[20]. É dessas vicissitudes a que allude

o sancto pontifice que eu falo; é a essas vicissitudes, demasiado

provaveis, que os erros dos homens, as paixões anti-christans do

sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previsões, um caracter de

terribilidade.

Tenho dado razão de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto

que o limitado espaço de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo,

o inhibisse de assim o practicar. Gósto de ser advertido dos erros em

que caio, quando é a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister,

e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas

ulteriores observações v.. me convencesse de que eu errava. Á ignorancia

presumida, ou á insolencia estupida, é que não costumo fazer a honra de

responder. Quanto a esta questão, que não suscitei, e que até deploro,

ella terminou para mim. Que os hypocritas façam visagens beatas contra a

minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas

são essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras

inquisitoriaes, mercê de Deus, acabaram para sempre. A raça dos escribas

e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle

mais cordealmente amaldiçoou, é immortal e immutavel; mas deixá-la

viver. Quem diz ao sapo:--«não sejas asqueroso?»--Quem diz á

vibora:--«não sejas peçonhenta?»--Babem e mordam; é o seu destino,

coitados!

O que não tolerarei é que me chamem de novo, a mim ou aos meus

escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se

deshonram os pulpitos. Que os prelados façam ou não o seu dever a este

respeito, pouco me importa. Estejam certos de que não será a suas

excellencias que pedirei desaggravo.

III

SOLEMNIA VERBA

AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES

(_Outubro, 1850_)

Porque virá tempo em que muitos homens não soffrerão a san

doutrina; mas..... accumularão para si mestres conforme aos seus

desejos:

E assim apartarão os ouvidos da verdade e os applicarão ás fabulas.

_S. Paulo, Epistola II a Thimoteo c. 4. v. 3, 4._

Permitta-me v.. que, sem existirem entre nós outras relações que não

sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando

se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa,

uma carta a v..

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03 · 第 2 / 16 段