reputar excepcional, temos as seguintes terras de potentados poderosos:
Bailundo, Bihé, Gallangue e Quiaca; mas n'ellas as unicas barbaridades
que se dão, vem a ser o assassinato de quatro pessoas, o maximo, no
governo de cada potentado para differentes preservativos, em virtude da
arreigada crença de seus antepassados, bem assim a de feiticeiria, que,
leva a perpetrar o assassinato por differentes fórmas, na pessoa do
desgraçado que fôr arguido de tal epitheto.
A paginas 175 e 176 o seguinte:
O dr. Livingstone censura Manuel Caetano Pereira de ter exagerado
egualmente o seu poder. «Indagando eu, escreve Livingstone, se
ainda se faziam sacrificios humanos no reino de Cazembe, como no
tempo de Pereira, informaram-me que taes sacrificios nunca tinham
sido tão communs como Pereira os representara, e que só tinham
logar occasionalmente, quando o chefe carecia de certos
encantamentos, porque então era morto um homem por serem para
aquelle precizas algumas partes do seu corpo.» N'outro logar
accrescenta: «O Cazembe além de ser visitado por Lacerda, tambem o
foi por Pereira, que deu do poder d'aquelle chefe grandiosa
informação, a qual não foi confirmada pelas minhas investigações».
Se bem que tenha acabado de tratar da materia, e, se bem que sob
differente assumpto, o volver a ella nunca se torna demasiado.
Assassinar sob que pretexto fôr, sempre é commetter o homicidio; o
illustre viajante esquece aquelles que continuamente commettia
Hiquereto, não obstante a sua assidua assistencia entre os Macorrollos,
a quem, se não diariamente, ao menos uns dias por outros, fazia ouvir a
palavra da Biblia, como descida do ceu, para se dar ao incommodo de
investigar o que outros escriptores, muito tempo antes, relatavam sobre
o assumpto, no qual pecca como em todos os outros, por menos veridico
nas asserções.
Como pode ser que taes assassinatos tenham logar occasionalmente, dada a
circumstancia de se tornarem necessarios para os preservativos d'esses
mesmos poderosos potentados?! Se o seu instincto é a sede de sangue, com
elle são ammamentados, e n'elle iniciados, até que assumindo o poder se
fartam á semelhança do tigre que habita as selvas! E, porventura, se
taes crueldades não fossem continuas, o seu poder não seria ephemero?
Decerto que o seria, visto que para se sustentarem n'elle, ellas são
perpetradas com assiduidade, até que uma conspiração urdida nas trevas,
em presença de uma indisposição qualquer que elles sintam, lhes põem
termo á existencia, já propinando-se-lhes veneno, já torcendo-se-lhes o
pescoço, e já finalmente a decapitação, se um chefe audacioso preside á
conspiração. O herdeiro assumindo as redeas do governo, não modifica
estas disposições tradicionaes do seu codigo, cumpril-as-ha á risca, se
porventura se não tornar mais sanguinario.
Enviando uma expedição qualquer contra um estado rebellado, o chefe e
seus adjuntos devem apresentar no regresso o sacco dos craneos do soba e
mais pessoas de subida jerarchia do mesmo estado, que despejam com
grande ceremonial aos pés d'esses grandes potentados (Matiamvo e
Cazembe), e que acto continuo vão designando a quem pertenceram, porque
é n'isto que se cifra a sua maior vaidade; após este acto segue-se a
entrega do despojo, que, por via de regra é o que reservam para o fim do
ceremonial. Se, pelo contrario, em logar d'estes signaes de victoria,
foram derrotados, apresentando-se dando conta do successo, sejam quaes
forem as razões que possam allegar, ellas tornar-se-hão baldadas perante
o suzerano, porque a um signal seu particular, são mandados retirar da
sua presença, a fim de serem decapitados, um a um, sem o menor queixume
da sua parte por lhes ter chegado a sua ultima hora.
Este ceremonial de caveiras, tem logar unicamente no Cazembe, e na
Lunda, na terra do Luvar, entre a raça Ganguella, se o soba segue para
qualquer excursão, bem assim por occasião da sua morte; agora, entre o
povo Batebere, Lui, Macorrollo, não se dão ao incommodo de decepar
cabeças, o assassinato sendo perpetrado á azagaia, e na presença do
soba; o cadáver é arrastado para fóra da povoação, onde é consumido
pelos animaes; e sendo commetido fóra, ahi mesmo o deixam ficar para ter
egual destino; que seja proximo ou distante é coisa que pouco importa.
Finalmente, em relação ao poder do Cazembe, direi que é elle muito fraco
para affrontar o poder do Matiamvo, mas muito forte para o repellir em
caso aggressivo. O illustre viajante sabe perfeitamente o proverbio:
Duas aves de rapina não se fazem companhia; no mesmo caso temos ambos os
chefes indigenas e consanguineos.
A folhas 203 o seguinte:
A situação do Bihé não é bem conhecida. Estando nós em Sanza,
asseveraram-nos, que demora ao sul d'aquelle ponto, a oito dias de
distancia. Esta noticia pareceu confirmar-se pelo facto de
encontrar-nos muita gente, que vinha do Bihé para o Matianvo
(_Sobre este ponto consulte o Diario de Joaquim Rodrigues á sahida
do Bihé_) e para Loanda. Toda esta gente veiu reunida até Sanza, e
alli se separou, tomando uns para o nascente, e outros para oeste.
A nascente do Coanza por conseguinte não fica provavelmente longe
do Bihé.»
«A 10 de dezembro de 1853 digo o seguinte--«Continuámos a viagem,
passamos o rio Quanza em ponte e a vau; n'esta paragem de quatro braças
de largo, e d'ella á sua nascente dois dias de viagem. Proseguimos a
marcha, e fomos fazer quilombo nos mattos, margem direita do dito rio.
Caminho plano, mattos fechados, abundancia de riachos, terreno fertil,
legoas andadas 3, rumo de leste.»
Mais tarde pude colher a seguinte informação: Que o rio Quanza procede
de um lago sito no local denominado Gunda-angongo, povo de raça
Ganguella da tribu Nhemba. Em relação ao Riambeje disse já o seguinte:
«Concedendo, pois, que assim não seja como acabo de transcrever, é fóra
de toda a duvida que, qualquer rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel
que seja com agua pela curva da perna, d'ahi á sua cabeceira não pode
distar mais de quatro dias de jornada, a experiencia assim m'o tem
ensinado.»
Posto isto, direi ser applicavel o que fica dito ao rio de que nos
estamos occupando, e que concordamos inteiramente com a opinião do
illustre viajante, pelos exemplos que passamos a apresentar.
_Rio Nhengo_, _Ninda_ na sua cabeceira: Direcção de Oeste para Leste,
leito de areia e pedra, e de margens apauladas; da sua nascente á sua
desembocadura no Riambeje, nove dias de marcha; vadiavel nos quatro
primeiros dias a partir da mesma, d'ahi por deante a partir para a sua
foz, percorre-se em canoas. _Rio Cutti_: Direcção do Norte para o Sul,
leito de areia e argilla, e de margens apauladas no espaço de duas
milhas, isto é da margem direita para a esquerda do matto; da sua
nascente á sua desembocadura no rio Quando, oito dias de marcha;
vadiavel nos quatro primeiros dias, a partir da mesma, e d'ahi por
deante a partir para a sua foz, é percorrido em canoas. _Rio Cubangui_:
Direcção do Norte para o Sudoeste, leito de argilla, pedra e areia, e de
margens apauladas; da sua cabeceira ávante quatro dias; já não dá vau,
tornando-se necessario construir ponte para se passar para a sua margem
esquerda; dirige o seu curso para o rio Quando. _Rio Quando_: Direcção
do Norte para Sueste, leito de argilla e areia, e de margens apauladas;
da sua nascente ávante quatro dias, offerece passagem em ponte e a vau;
d'ahi para a sua foz no Riambeje proximo a Quiceque, é percorrido em
canoas. _Rio Caimbo_: Direcção de Nordeste para Sueste, leito de
argilla, pedra e areia, e de margens apauladas; a sua nascente procede
de um lago, e d'ella ávante dois dias, offerece unicamente passagem em
ponte e a vau, com difficuldade, pelo motivo da sua corrente veloz;
d'esta passagem á sua foz, no rio Quando, é percorrido em canoas. _Rio
Cuttau_: Direcção de Sudoeste para Noroeste, leito de areia, e de
margens apauladas; espraia muito, e por este motivo se pode dizer
vadiavel até á sua foz no rio Lunguébungo; este dirige o seu curso Para
o Riambeje. _Cuito da Zambueira_: Direcção do Norte para o Sul, leito de
argilla e areia, e de margens apauladas; da sua nascente ávante cinco
dias offerece passagem a vau, e em ponte, e d'ahi para a sua foz no
Cubango, é percorrido em canoas. _Rio Varia_: Direcção do Sul para o
Norte, leito de argilla; da sua nascente ávante cinco dias, offerece
unicamente passagem em ponte, e ávante tres dias na sua desembocadura no
rio Cuime, (este tem a sua foz no Quanza) é percorrido em canoas. _Rio
Quanza_: Direcção do Sul para o Norte, leito de argilla e pedra, e
margens de argilla; oito dias da sua nascente ávante, no porto do Cuio,
onde se passa em canoas. _Rio Cuquema_: Direcção de Nordeste para
Sudoeste, leito de argilla e pedra, e margens de argilla; cinco dias
ávante da sua nascente, no porto do Bissongue, onde se passa em canoas,
dando-se a mesma circumstancia d'ahi para a sua foz no Quanza, nos dois
dias a percorrer. Finalizo dizendo que os rios que ficam notados,
existem a partir do Lui para o Bihé, e vice-versa, e aquelles unicamente
cujas cabeceiras se passam, ou existem distantes do caminho do transito
os dias que ficam marcados; o que julgo sufficiente a provar o que fica
dito em relação aos rios Quanza e Riambeje.
A ps. 256 o seguinte:
«Chegado ao rio Loembua, no proseguimento da marcha começada,
refere o dr. Livingstone, que a presença de um homem branco
infundio terror nas mulheres, e que, n'estes casos, pareciam muito
contentes quando elle dr. Livingstone acabava de passar sem se ter
apoderado d'ellas; que o espreitavam das fendas das portas, atê que
elle se approximava, e então se recolhiam fugindo para o interior
da casa.»
O illustre viajante quiz mostrar mais uma vez, a degradação a que chegou
por estas paragens o immoral e escandaloso commercio de escravos, dando
logar a que o bello sexo horrorisado nem se atreva de apparecer aos
olhos dos desmoralisadores traficantes de entes humanos, verdadeiro
flagello da humanidade n'esta parte do mundo chamado Africa. Mas isto em
relação á situação reciproca de duas partes mutuantes na acção de
contrahir um negocio qualquer; jámais no caso de aprisionamento de
pessoas, que se torna muito mais melindroso como aconteceria com a
_aldeia inteira de Bakalakau_; tal procedimento daria causa a graves
represalias, como então tive occasião de fazer ver, e ao facto de
correrem muito risco todos os sertanejos do Bihé, Caconda, Cassange,
Pungoandongo, de Quilengues, que não obstante partirem de pontos
oppostos, muitas vezes se encontram pelo interior d'este vasto
continente; mas quando se não desse essa mesma circumstancia, quem
deixará de ignorar que piratas não necessitam de negociar?
Aqui tem o illustre viajante o reverso da medalha. Depois de se transpor
os rios Cuquema e Quanza, as comitivas do Bihé são honradas na pessoa do
seu chefe, pelas pessoas de ambos os sexos em massa, das povoações dos
Ganguellas das tribus Luchiajé, Bunda, e Zambueira, nas terras por onde
passa, da maneira que segue: _O nosso senhor veiu! O nosso branco veiu!
O nosso amigo veiu!_ Isto á apparição do chefe da comitiva, batendo
palmas continuamente, e fazendo-lhe um cerco entre o qual com
difficuldade caminham os conductores da tipoia. E no momento em que elle
tenha transposto a povoação, o povo, da mesma sorte corre
precipitadamente para a frente, a fim de repetir a mesma ceremonia que
finda depois de terem acompanhado o negociante na distancia de uma a
duas milhas, retrocedendo então depois de cançados ás povoações d'onde
sahiram.
Entre a tribu dos Quibocos, estas demonstrações de jubilo excedem muito
além do que acabo de referir, porque aturam pelo espaço de dois a tres
dias, acompanhando a comitiva com seus generos, que permutam logo que se
acha concluido o trabalho de construir o quilombo, retrocedendo ás suas
povoações ao cabo do dito espaço; agora, se o illustre viajante não
recebeu applausos semelhantes, muito principalmente tendo effectuado a
sua passagem pela terra d'esta tribu, é isso devido ao pequeno numero de
pessoas de que se compunha a sua comitiva, limitando-se por consequencia
a vel-o pelas frestas das portas, como diz; mas não com receio de que
aprisionasse pessoa alguma, ou mesmo de que fosse anthropophago, como as
mães persuadem ás creanças indicando-lhes a approximação de qualquer
europeu, á maneira de papão, a fim de as adormecer.
Finalmente, não tendo o condão de adevinho, não obstante achar-me no
paiz onde em larga escalla se exercita essa arte, quer-me parecer que
foi a obra do illustre viajante que em 1866 ou 1867 deu logar a tanto
alardo na camara alta em Portugal para a total suppressão da escravatura
em todas as possessões portuguezas, não reflectindo jámais os nossos
legisladores que é um negocio assás melindroso de um traço de penna
acabar com ella, e que além d'isso temos uma lei que fixa para 1867 a
mesma suppressão.
Quaes são as medidas já adoptadas depois do celebre decreto de 22 de
abril de de 1858, para que aquelles que podem mandar, tenham aquelles
que sabem obedecer?
Responderão: o trabalho livre! Esperemos e veremos.
A ps. 261 o seguinte:
«Como d'este ponto (do Zambeze interior) deviamos separar-nos para
o nordeste, resolvi-me a visitar na seguinte manhã a catarata
Victoria, chamada pelos indigenas Mosioatunia, e mais antigamente
Shonguê (_Chungo?_) Tinha-mos ouvido fallar d'ella desde que
entramos n'estas terras, e uma das perguntas que me fez Sebituane
foi «Tendes na vossa terra fumo que faça estampido? Elles (os
indigenas) não se atrevem a approximar-se tão perto que possam
examinal-a; porém, referindo-se ao vapor e ao estrondo
«Mosi-va-tunia» o fumo alli estrondea. Outr'ora a catarata
chamava-se Shonguê, mas nunca pude saber a razão de lhe darem este
nome. A palavra que entre elles designa a vasilha de cozer a comida
tem similhança com aquella, e acaso quereriam significar uma
caldeira a ferver, comtudo não tenho certeza d'isto. Persuadido de
que Mr. Oswell e eu fomos os primeiros europeus, que visitámos o
Zambeze no interior do paiz, e de ser esta catarata o annel que
prende as duas porções, _conhecidas e desconhecidas_, d'aquelle
rio, decedi-me a usar da mesma liberdade com que se auctorisaram os
Makololo, e lhe dei aquelle nome inglez, sendo esta a só occasião
em que appliquei um nome da minha nação a alguma parte das terras
que investiguei...»
_Chungo_, _namatittima_, _imbôto ea mahenza_: «D'aquelles local (o
abysmo) sae fumo, que molha a gente, e que atemoriza como o fragor do
trovão,» dizem os indigenas do local, tribu Baleia ou Guete (nome
generico pelo qual é denominada esta numerosa familia composta de
diversas tribus) d'estas paragens. «_Mosi-oa-tunia_:--«O fumo alli
estrondea», diziam outr'ora os Macorrollos, ao approximarem-se do local
d'onde sahem as columnas de fumo da catarata, e que por assim a terem
chrismado, assim se ficou denominando.--_Victoria falls_, repete o
illustre viajante á imitação dos intrusos senhores, querendo coroar a
obra da sua gloria na parte conhecida e desconhecida, do grande
manancial.
Eu penso, e creio não me enganar, que se os Macorrollos a um tempo se
fossem precipitar no abysmo da catarata que chrismaram como acabei de
dizer de Mosioatunia, o illustre viajante não os seguia, visto que a sua
prudencia assim lh'o aconselhava, mas já o amor proprio lhe não permitte
recusa na denominação em paiz estranho, a objectos, applicando-lhes
nomes do seu paiz natal, porque ao passo que o quer engrandecer, tambem
engrandece a sua pessoa! Vaidade das vaidades, e tudo vaidade.
Eis os nomes que lhe são applicados pelos indigenas aos differentes
pontos do seu curso a partir do Lui para Quiceque, e vice-versa.
_Sioma._ Povoação proxima da catarata;
_Gonhe._ Principio da catarata, e no qual as canoas são conduzidas por
terra em virtude dos escolhos.
_Cale._ Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.
_Luço._ Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.
_Gambue._ Local mais ávante, no qual as canoas são conduzidas por terra
em virtude dos escolhos.
_Lucibe._ Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.
_Molele._ Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.
_Acicuti._ Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos, bem
assim onde habitou o fundador de que ha tradicção, do mesmo nome, e
chefe da tribu Baleia.
_Chungo._ Mosioatunia, synonymo do primeiro nome; fim da catarata e
local do abysmo, e no qual as canoas são conduzidas por terra em virtude
dos escolhos.
E, eis o que digo egualmente em 23 de julho de 1858 sobre o assumpto:
«23. Continuámos a viagem por mattos fechados, e chegamos na cachoeira
do Riambeje, sitio Catongo, onde se fez quilombo. Paragem de transito
sem inconveniente algum, terreno fertil, horas de marcha 9-1/2, rumo de
sul.
«Estamos nas margens do magestoso rio sem rival n'estas paragens, que
banha com suas aguas os contornos de Senne, Tete e Quilimane; o seu
curso é apenas interrompido por tres cachoeiras, prestando no mais do
seu transito, livre e seguro apoio áquelles que com as suas canoas,
sulcam as suas aguas. N'esta paragem que terá de extensão seis legoas,
as canoas em partes são carregadas por pretos, e em outras proseguem na
sua carreira pelos differentes braços que sahem do rio; formando este
aqui e alli, ilhas de maiores ou menores dimensões, cheias de arvoredo
secular, e em outros logares de cannaviaes impenetraveis; bem assim, os
contornos cheios de arvoredo gigante. O rio comprimido aqui pelas suas
margens alcantiladas, em partes cobertas de areia mui fina e clara, que
as enchentes vão accumulando segundo a direcção do seu curso, formam um
contraste inteiramente sublime; o terreno contiguo n'esta estação todo
gretado, bem assim algumas lagoas cheias de pedras, acham-se cobertas de
espessas camadas de sal, que os naturaes preparam com alguma perfeição.
Finalmente, o dr. David Livingstone, penna intelligente a toda a prova,
e que bastantes serviços tem prestado á causa das sciencias, e a prol da
humanidade, por vezes tem percorrido estas paragens em investigações
scientificas, ninguem, pois, melhor que elle, poderá apresentar o quadro
completo da topographia do paiz, cousa muito fóra da esphera dos meus
conhecimentos, como o meu amigo leitor facilmente deverá comprehender, e
que me não envergonho confessar.»
A ps. 286 o seguinte:
«N'outro logar conta Livingstone que, achando-se na tribu de
Mpende, cujo chefe lhe difficultára o passo, dous velhos vieram, de
ordem d'este, perguntar-lhe quem era. E que lhes respondera. «Sou
inglez.» A isto replicaram os velhos que não conheciam aquella
tribu, e que suppunham que elle e os seus eram Muzungos
(portuguezes) com os quaes n'outro tempo haviam combatido. «Então
(accrescenta Livingstone) como eu ainda não sabia que a palavra
Muzungo era applicada aos portuguezes, e pensei que queriam com
ella designar os mulatos, mostrei-lhes o meu cabello e a pelle do
meu peito, e perguntei se os Muzungos tinham o cabello e a pelle
como eu? Como os portuguezes costumam cortar o cabello rente, e são
além d'isso menos claros de que nós, os velhos responderam. «Não,
nós nunca vimos pelle como essa tão branca.» E continuaram «Ah! vós
decerto pertenceis á tribu que tem coração para os homens pretos.»
Eu com satisfação lhe respondi que sim, etc.»
Diz inconsideradamente o illustre viajante: «Sou inglez»! Julgaria por
ventura que a Inglaterra enviasse a sua esquadra e desaggravar o seu
assassinato, dado o caso de que os selvagens o tentassem?! Felizmente
que taes arrogancias áquem Bihé, não se podem contar e apontar, ao passo
que além, a partir da mesma terra para o litoral, não só se apontam,
como infelizmente se contam repetidas! E, ai quando tal se realizasse na
pessoa do illustre viajante, em presença do seu caracter um tanto
irrascivel, não teria por certo direito a melhores honras, que aquellas
que tiveram tantos outros portuguezes, cujas ossadas insepultas por
essas mesmas paragens, reclamam incessantemente dos transeuntes a oração
funebre pelo eterno descanço de suas almas, já que outra cousa não podem
obter em desaggravo do seu desastrado fim.
O sr. Gamitto diz-nos no seu _Muata Cazembe_ que, os chefes designam os
portuguezes por Muzungos. Segundo o mesmo sr. a raça de Cazembe dá-lhes
egual denominação. A raça da Lunda chama-lhes _Hinder oe comema_; a raça
dos Ganguellas, _Sungo_, e a antecedente, bem assim, _Hinder ea numba_;
a raça do Luvar dá-lhes aquellas denominações, a raça dos Quimbundos,
_Sungo_; a raça Bunda, de Angola e suas dependencias: _Sungo_, e
_Cangundo_; a raça Lui e Macorrollo: _Macua do Oriente_, e _Macua do
occidente_, indicando as ditas partes do globo. Pela mesma maneira
designarão o Allemão, o Belga, o Hespanhol, o Francez, o Inglez, e
finalmente o Russo, em virtude da sua côr, de natos da mesma parte do
globo, de filhos de além mar; mas não que sirva a distinguir uma raça
qualquer, como o illustre viajante quer fazer acreditar. Que nos venha
dizer que, este ou aquelle regulo se não chame Hiquereto, sua segunda
Providencia, e que em virtude da sua indole, fizesse menos preço da sua
pessoa, levando a audacia ao ponto de o querer impedir na jornada, é
cousa que se entende, mas não a insinuação opprobriosa sob o nome
portuguez, simplesmente pela circumstancia de alguns membros da mesma
familia empregarem-se, no odioso trafico de escravos; o que não está em
harmonia com a posição que occupa na sociedade, e muito menos com o
caracter de que se acha revestido. A não ser essa sua segunda
Providencia, torno a repetir, o illustre viajante teria effectuado a sua
viagem a Loanda auxiliado por esses mesmos a quem amiudadamente pretende
expor no pelourinho da irrisão publica, como empregando-se n'um genero
de vida que já de ha muito deixou de ser. Teria egualmente effectuado a
sua viagem a Moçambique auxiliado pelo bom governo portuguez, a cuja
fraqueza deve o bom exito da sua viagem de Costa a Costa, para mais
tarde o escarnecer, como effectivamente o fez;... a retribuição seria
sempre a mesma!
Oh! se esta bella joia engastada como está na corôa de Portugal,
pertencesse á de França ou da Inglaterra, o commercio da escravatura
far-se-hia sempre, então, não direi que para possessões estranhas, mas
sim nas proprias; havendo a certeza de que uma potencia não tomaria
contas á outra por semelhante procedimento. O illustre viajante
percorrendo Africa como acaba de realisar, diria então: Acabo de fazer a
minha digressão na terra por excellencia denominada a oitava maravilha
do mundo, visto que está ainda por vir á luz. Mas se bem que lhe pese,
ella pertence a Portugal, e isso é sufficiente para a desacreditar, não
obstante os obsequios com que por toda a parte foi honrado.
As vicissitudes do acaso são assim, um tanto inconstantes para os
individuos como tambem para as nações, e para fortuna sua e dos seus, um
Pombal é como um meteoro; apparece de tempos a tempos, para desaggravar
e elevar a sua patria.
Qual será o potentado poderoso ou secundario em Africa, que abomine o
trafico da escravatura? Se d'ahi lhe provém a sua grandeza, que se pode
dizer ephemera, porque para se sustentar no poder, tem necessariamente
de ser prodigo!... E a prodigalidade é exercida em virtude dos pleitos
que quotidianamente decidem, e dos quaes são provenientes os escravos, o
gado, a fazenda, as enchadas, a cera, alguma ponta de marfim, e
finalmente toda a especie de creação miuda, fonte principal do seu
rendimento; visto que nem todos se podem chamar senhores da Lunda, Lui,
Cazembe, Batebere, Risucatebe e Macorrollos, onde abunda o marfim; os
Ganguellas, onde apparece o marfim e abunda a cera; o Humbe, onde
apparece o marfim e abunda o gado, mas que tambem permutam os escravos
em maior ou menor escala, attendendo a ser a força principal da sua
população.
Embora a total suppressão se approxime do termo, o illustre auctor do
_Exame_ pode ter a certeza de que o trafico não cessará jámais além do
dominio das Quinas, visto que ahi se dão egualmente lucros para
especuladores; compram escravos para o serviço, para a troca do marfim,
da cera, do sal, do gado e finalmente para satisfazer Milongas (crimes),
como já tive occasião de falar.
E como poderá deixar de ser assim, se os escravos e o gado, são os
unicos dois elementos que fórmam a riqueza principal e unica de todas as
classes, aqui no interior d'este grande continente?