depois de dezaseis dias de marcha, e no dia 22 de agosto,
encontramo-nos, passando acto continuo a tomar contas aos diversos
negociadores sobre a permutação que haviam feito. No entretanto, a minha
missão não estava terminada; tinha vindo ao encontro d'esta gente, é
certo; mas no seu numero faltava a arabe Ben-Habibe, a quem eu queria
confiar a minha gente para a viagem de Moçambique, pelo julgar mais
habil que seu tio Ben-Chombo, que já se tinha recolhido ao
estabelecimento, e ambos haviam recebido fazendas minhas. Mas havendo
ficado ainda á retaguarda, e não me sendo possivel ter mais demora, no
dia seguinte 23 de agosto retrocedendo para o Lui, cheguei ao
estabelecimento a 6 de setembro, tendo a noticia de que o soba
Hiquereto, bem assim o illustre viajante, tinham partido para Rinhande
cinco dias antes da minha chegada. Acto continuo mandei chamar
Ben-Chombo ao qual propuz a commissão de Moçambique em companhia da
minha gente, mediante o perdão da quantia em que tinha ficado alcançado,
e a gratificação de cem pezos, no caso de bom exito, acceitando
promptamente e ficando por consequencia á minha disposição; (ainda não
satisfiz esta divida em virtude de se não ter apresentado o arabe depois
que desempenhou a commissão) tratando-se unicamente n'este meio tempo
dos preparativos das duas viagens: a de Moçambique realisada a 22, e a
minha para o Bihé levada a effeito a 30 d'esse mesmo mez.
Posto isto, direi que, em referencia á terra não ser visitada por branco
algum, antes, e mesmo no tempo de Sanduro, se o illustre viajante se
désse ao incommodo de visitar o local onde jaz sepultado este mesmo
soba, (todos os sobas depois de acclamados têem por habito construir a
sua respectiva povoação, ahi residem, e ahi são enterrados, e sempre no
valle de Lui) alli encontraria vestigios do contrario n'umas campainhas
que foram do dito Sanduro: eis o que digo relativamente:
«_15 de setembro de 1867._ Hoje fui ao local de romagem dos sobas
primitivos d'este povo, e, tambem dos senhores intrusos durante o seu
dominio no paiz, que nada teem a admirar, exceptuando as Eçandeiras e
Palmeiras que contam para mais de seculo de existencia, seguindo a
posição das mesmas a fórma oval, como são todas as povoações dos
selvagens; hoje, apenas apresenta a fórma semi-circular, visto que o
tempo destruindo algumas da parte de sueste, damnificou de alguma
maneira o todo pittoresco do local, em consequencia da situação que
occupa no meio d'este descampado immenso, e despovoado de arvoredo, que,
tem uma elevação de dez pés acima do nivel terreo, onde nunca chegou a
agua, mesmo em annos de grande inundação; e que segundo informações dos
velhos que me assistiram, foi mandado entulhar pelo soba Sanduro.
«Proximo do mesmo, sobranceiro ao Riambeje pequeno, do lado do norte, e
junto, do lado de leste, existem duas povoações a cargo de cujos
habitadores está confiada a sua limpeza; no centro, e junto de uma
corpulenta Eçandeira, está a sepultura do fundador que com facilidade se
distingue em virtude de oito grossas forquilhas de pau ferro com as
hastes bastante compridas e agudas, e nas quaes o soba manda depositar
uma peça de fazenda fina, (é primeiramente rasgada aos pedaços) logo que
na terra faz entrada qualquer comitiva de sertanejos, e que ahi é
consumida pelo tempo. Tambem ahi encontrei quatro campainhas antigas.
«Como fosse prevenido para o effeito, depositei egualmente quatro jardas
de algodão e quatro campainhas pelos ditos paus, presenteando egualmente
o chefe do local, velho de oitenta janeiros, com duas jardas de baeta, e
missanga aos seus companheiros e para a turba que me rodeava; após o que
me retirei, deixando todos satisfeitos da minha visita, quiçá, que
anhelando outras identicas pelo proveito que d'ellas lhes resulta.
Spleen de Londres, e vento vario de dia e de noite.»
De que parte sahiram essas campainhas antigas de que acabo de fazer
menção: do Oriente ou do Occidente?
Quem é tambem o auctor do mappa de pequeno formato, antigo e portuguez,
cujo auctor tanto tinha attrahido a colera do illustre viajante, pelo
erro relativo ao rio Loanja?
O povo Lui segue o costume de beijar as palmas das mãos, e tambem o de
se oscular, costume que ainda não vi reproduzido entre as mais tribus
d'estas paragens; isto quando por qualquer circumstancia se avistam
parentes e amigos, ou mesmo por caso fortuito se encontram; se o soba
segue para a guerra, e dada a circumstancia de regressar victorioso, o
povo de ambos os sexos acode pressuroso ao seu encontro para o
victoriar. Como emblema da victoria, cada individuo previne-se de dois
ramos verdes de arvore especial, que leva em cada uma das mãos, e
chegado na margem de qualquer rio, lago ou lagôa, mettem-n'os como
emersão na agua, tirando-os acto continuo, e espargindo-se á imitação de
agua benta, e como que purificando-se.
Concluida esta primeira cerimonia, a um tempo, e seja qual fôr o numero
de pessoas, todas em ala, com os ramos sempre nas mãos, canto monotono e
candenciado, mas que tem um tanto de agradavel e harmonico, em louvor do
soba e dos seus, pela victoria acabada de alcançar, a passo grave e
candenciado, dirigem-se em ala para elle. A um tempo tudo se prosta de
joelhos, dando principio de lhe beijar as palmas das mãos,
alternadamente a direita e esquerda; primeiramente as pessoas de elevada
jerarchia, seguindo-se após estas, as pessoas plebeias, isto por tres
vezes successivas, tendo logar primeiramente a esparsão da agua, a fim
de ter logar após a mesma, o beijar das palmas das mãos. Os osculos teem
logar entre pessoas de egual jerarchia; o soba é tão sómente osculado
por pessoas da sua familia, ás quaes tributa alguma consideração.
Dado o caso de ser em occasião do seu regresso, e depois de transpor os
limites da capital, que a turba venha ao seu encontro, o soba pára, e
egualmente o povo da guerra, a fim de ter logar a cerimonia que acabo de
descrever: continuando da mesma fórma na libata grande, até que o povo
em geral, da capital, tenha cumprido tal dever, acompanhado de tributo
segundo o custume do paiz, mas tributo que se não torna oneroso, visto
que cada pessoa deposita aos pés do soba aquillo de que pode dispor, e
em virtude do habito de que ninguem se lhe apresenta sem que leve alguma
cousa.
D'onde, pois, veiu tal habito ao povo Lui: dos missionarios catholicos
ou protestantes? creio que d'aquelles e não d'estes, em presença de não
haver exemplos em contrario.
Finalizo dizendo que na digressão por mim feita a encontrar-me com os
pombeiros de Miqueselumbue, gastei até ao logar do encontro, dois dias
áquem do rio Loengue, 16 dias. Para Moçambique, da primeira vez em que a
viagem abortou, sahindo a minha gente como já disse do estabelecimento a
25 de março de 1853 até á terra do soba Camgomba, além do rio Lohunje,
em 7 de junho do citado anno, 75 dias, sendo 46 de viagem e 23 de demora
nos differentes pontos por onde transitou; recorrendo, pois, o illustre
viajante ao seu mappa, e no qual grandes modificações teem a fazer, virá
no conhecimento da falta que commetteu em se deixar levar das
informações menos bem cabidas de Ben-Habibe.
Em identico caso estamos na minha precedencia ao illustre viajante a
Loanda, bem assim na minha ida a Portugal. As minhas viagens até o
presente, a partir da epocha em que tivemos a honra de nos conhecer-mos,
teem-se limitado unicamente: da terra do Bihé para a cidade de
Benguella, e vice-versa, e da terra do Bihé para o Lui, e vice-versa. E
que, á imitação do illustre viajante poderia eu egualmente desmentir as
suas palavras sob a asserção de ter visitado o Riambeje em companhia de
Mr. Oswell, em 21 de junho de 1851, mas sim haver realisado tal excursão
na sua segunda viagem em 1853, da qual data a sua visita á catarata
Chungo ou Mosioatunia, visto que assim me foi affirmado por Hipopa,
dizendo que na occasião em que o illustre viajante e Mr. Oswell, se
dirigiam para Quiceque, tivera logar o seu encontro com a comitiva de
Pepe e Hiquereto, que se dirigiam para Rinhande, em consequencia da
morte do soba Hebitane, e que regressando, se retirára poucos dias
depois para o Cabo, fazendo tal excursão na segunda viagem como acabo de
dizer.
Faço simplesmente a narração, tal como me foi affirmada; mas não
respondo por ella.
A paginas 120, o seguinte.
«Por occasião de encarecer a affeição dos Bechuanas aos filhos,
quando estes ainda em tenra edade, diz o dr. Livingstone: «Tive
conhecimento de varios casos de avós que amamentaram os netos.
Masina de Kuruman não tinha tornado a ter filhos desde o nascimento
de sua filha Sina, e não tinha leite depois que Sina fora
desmamada, o que costuma ter logar quando a creança tem dois ou
tres annos de edade. Sina casou quando contava dezesete ou dezoito
annos, e teve dois gemeos. Masina, decorrido o intervallo pelo
menos de quinze annos desde que amamentara o ultimo filho, pegou de
uma das creanças e a poz ao peito, e o leite correu em tal
abundancia, que ella poude só por si alimental-a. Masina contava
então pelo menos quarenta annos.»
Vou egualmente corroborar o facto apresentado pelo illustre viajante. No
Bihé havia uma familia oriunda de paes europeus, fallecidos muito tempo
antes da minha chegada ao paiz; o chefe era homem que sustentava a mãe,
velha sexagenaria, e duas filhas que vinham a ser netas da velha; das
quaes, tendo-se amancebado a mais velha, que foi habitar para a
companhia d'aquelle que a tinha escolhido para sua companhia, veiu a
constar a familia unicamente de tres pessoas. Acontecendo porém este
mesmo homem ter a desgraça de ser arguido de feiticeiro por um europeu,
que levou a barbaridade a ponto de o mandar assassinar, segundo o estylo
do paiz, ficou por consequencia a familia sem chefe, seguindo a avó, e a
neta por tomar estado, para a companhia d'aquelle que, ainda não havia
decorrido um anno tinha elegido para sua companheira a filha do homem
barbaramente assassinado, e o qual cumprindo os deveres d'este, veiu a
ser o arrimo da familia, succedendo por essa occasião dar a sua
companheira á luz um infante, mas fallecendo poucas horas depois do
parto.
A pobre creatura ferida no amago d'alma por dois golpes, se pode dizer
repetidos, a perda do filho que era o seu arrimo, e após ella a perda da
neta, sabendo ser delicto entre a tribu Quimbumda que reduz á escravidão
a familia que em virtude de um tal acontecimento entregasse a creança a
peitos estranhos para amamentar: toma o bisneto recemnascido em seus
braços, e trata de cumprir o dever do amor maternal, alimentando-o a
seus resequidos peitos, a que acorde copiozo alimento, o qual serve de
conservar a existencia ao innocente por espaço de um mez, no fim do qual
expirou, mas em virtude de doença que lhe sobreveiu.
Por egual extraordinario, talvez, em tal acontecimento, é a natureza ter
produzido um ente em paiz culto, que em Africa, pela falta absoluta de
conhecimentos, de mistura com a sua fraqueza veiu a adquirir os habitos
dos selvagens, tornando-se uma fera como aquellas que habitam as selvas,
por suggestões d'aquelles que o rodeavam. E para honra da humanidade
taes actos apontam-se.
A paginas 158 o seguinte.
«As aldéas dos Barotse são construidas sobre defezas, algumas das
quaes dizem que foram elevadas artificialmente por Santuru, antigo
chefe dos Barotse, e, durante a inundação, todo o valle toma a
apparencia de um grande lago, com as aldêas sobre as defezas como
ilhas, do mesmo modo que succede no Egypto com as aldêas dos
egypcios.»
Já tive occasião de falar d'este local onde jaz sepultado o pae do
actual soba do paiz, unico que foi mandado aterrar por elle, e tambem de
que ha exemplo; os mais logares ficam pelo descampado ou valle, onde
residiram e foram enterrados os antecessores do actual soba, (a sua
povoação corre de noroeste para sueste, é a maior que tem existido, e
approximadamente contém duas mil pessoas; por occasião da inundação
d'este anno não fizeram mudança, visto que a agua se conservou a vinte
passos de distancia do local) e do povo Lui propriamente dito que em
parte habita os lados marginaes ou encosta dos mattos, e em parte o
descampado, sobre monticulos de maior ou menor ambito e elevação, nos
quaes pela maior parte tambem cultivam o grão, que fica sempre de vez em
antes de se realisar o periodo da inundação, á excepção dos logares
proximos aos mattos, e mesmo por estes em ambas as margens do
descampado, bem assim as dos monticulos de que acabei de falar; este
povo não tem por habito cultivar a terra nos logares baixos do valle;
emquanto a inundação vae tomando incremento, não lhe dão importancia,
mas no momento em que principia a chegar ás povoações, e só n'este caso,
então dão immediatamente logar á sua mudança para ambas as margens do
descampado, porque é indicio da inundação tomar maior incremento, o que
de ordinario tem logar nos mezes de janeiro e fevereiro, tendo logar o
regresso nos mezes de abril e maio, nos quaes a agua vae diminuindo
progressivamente. Para este effeito estão de ordinario prevenidos com as
canoas, porque então se pode dizer um mar ou grande lago o geral do
descampado, formando ilhas de maior ou menor ambito os monticulos como
que espalhados por elle, e como seja o seu elemento favorito, e pelo
qual de ordinario almejam; a caçada ao hipopotamo, e a de toda a especie
de aves, em que então abunda, torna-se o seu divertimento de todos os
dias: ao passo que a gente do sexo feminino passeia de uma para as
outras povoações. Porém não havendo indicios de que a inundação vá em
progressivo augmento, conservam-se nas suas localidades, sendo n'este
caso o gado o unico objecto que não admitte de longar, porque effectuam
de ordinario a sua transferencia no mez de dezembro, para ambas as
margens do descampado; reservando unicamente aquelle de tirar leite, do
seu uso diario, o qual, é mudado no caso de se verificar a mudança do
proprietario, visto haver logares conhecidos dos indigenas por onde pode
passar sem perigo.»
Foi pois Sanduro que mandou aterrar o local em que habitou, o qual não
tem mais de uma milha em toda a sua circumferencia, isto provavelmente
por ter escolhido para sua residencia, justamente uma ilha formada por
um braço do Riambeje, a partir do lado de noroeste, a desembocar no de
nordeste, e que tem a designação de Riambeje pequeno; paragem mais baixa
que o geral do descampado. Na mesma ilha, em egual direcção, e na
distancia de uma legoa, existe o local denominado Nariere, antiga côrte
do povo Macorrollo, hoje inteiramente deshabitada como já disse. Fóra da
dita ilha, em egual direcção, e na distancia de uma legoa egualmente,
existe a povoação de Hipopa, da qual tambem acabei de falar.
A paginas 162 e 163 o seguinte:
«Terça feira 17 de janeiro (1854) fomos honrados (narra
Livingstone) com uma grande recepção por Shinto. Sambanza reclamou
a honra de nos apresentar, porque Manenko se achou um tanto doente.
Os portuguezes nativos e os Mambari iam armados de espingardas a
fim de darem uma salva a Shinto, fazendo o tambor e o trombeteiro
todo o ruido que lhes era possivel com instrumentos muito velhos. O
Kotta, ou logar da audiencia era uma praça de perto de cem jardas,
e viam-se em uma das extremidades dois agradaveis specimens de uma
especie de Baniána, (_arvore, cujos ramos pendem para a terra, e,
tomando n'ella raiz, engrossam e formam novos troncos, etc.,
«Eçandeira, ou ulemba dos Quimbundos; existem seis especies.»_)
Debaixo de uma d'ellas estava assentado Shinto, sobre uma especie
de throno, coberto com uma pelle de leopardo; trajava com véstia
variegada, saiote de baeta vermelha agaloada de verde, pendiam-lhe
do pescoço muitos fios de contas grossas, e os braços e as pernas
enfeitadas de braceletes e varios ornamentos de ferro e de cobre,
na cabeça tinha posto uma sorte de capacete feito de contas de
vidro entretecidas com primor, e coroado de grande penacho de
pennas de pato. Proximo a elle estavam assentados tres mancebos com
grandes feixes de settas sobre os hombros, etc.»
Admiramos unicamente a belleza do estylo empregado pelo illustre
viajante no trecho que acabamos de reproduzir, e seguintes, descrevendo
a recepção que lhe fez o soba de Catema, que a falar a verdade nem
merece as honras do titulo, não porque o queira humilhar, mas pelo papel
que representa, elle e todos os mais do dominio da Lunda perante o seu
Suzerano, ou dado o caso de virem enviados d'este a exigir-lhes tributo,
como adeante terei occasião de falar.
Entre as tribus Ganguellas ou Quimbundas constituidas pela maior parte
sob a fórma republicana, poderiam gozar das prerogativas de estados de
segunda ordem, porque então poderiam taes sobas dizer-se, senhores do
_quero, posso e mando_; mas debaixo do jugo ferreo do Matiamvo,
tornam-se simples automatos da sua vontade.
O illustre viajante deve de estar ao facto do tratamento dado por
Hiquereto áquelles potentados que se lhes apresentavam com tributo, ou
mesmo teria ouvido falar das extorsões feitas pelos seus emissarios,
quando, enviados em qualquer commissão aos ditos sobas, que, por via de
regra, vinha a ser pela tardança de tributo, faziam e fazem ainda
presentemente (e quando deixarão de o fazer!) pelas suas localidades:
pois n'uma e n'outra terra é identico o tratamento; com a differença
porém de que, no Lui não fazem ostentação dos assassinatos prepetrados e
mandados perpetrar; ao passo que na Lunda é um acto de glorificação do
Matiamvo. Posto isto, passaremos a narrar os factos taes como se passam,
e cujos significam o reverso da medalha.
Os sobas Chinde, Catema e Catende, que são precisamente aquelles por
onde transitou o illustre viajante, em antes da extincção do trafico e
quando os elephantes percorriam os seus respectivos dominios, vendiam
escravos, e tributavam com elles o Matiamvo, correndo-lhes tudo por esse
motivo ás mil maravilhas, monteando-se aquelles animaes á imitação dos
outros, para seu alimento, ficando, por consequencia, os dentes no mesmo
local em que era morto o elephante, expostos á deterioração e sem que
ninguem os procurasse, (presentemente ainda se dá esta celebre anomalia
para o sul além do rio Cubango, nas paragens percorridas pelos
Cassaqueres); mas findo o trafico as coisas tornaram-se outras; o marfim
teve principio de ser procurado, os indigenas deram principio egualmente
de o pôrem debaixo de guarda; e tendo finalmente logar d'essa epocha por
deante o tributo de escravos e marfim para o Matiamvo, em virtude das
suas ordens.
Os caçadores Quibocos como fossem conhecendo o valor d'este genero em
presença dos concorrentes, principiaram no seu paiz de mover guerra de
exterminio aos mesmos animaes, que afugentados por esse motivo, se foram
internando pelo interior, onde da mesma fórma se lhes continuou tal
guerra, pela ambição a que o marfim tinha dado origem, ficando o caçador
com o dente esquerdo e dando o direito ao senhorio em cujo dominio era
morto o elephante. A perseguição não diminuiu; pelo contrario, foi em
progressivo augmento, visto que já se não falava em escravos pelas
mesmas terras, mas sim a ordem do dia era marfim, porque ao passo que
affluia ao mercado do littoral, ia tendo alta de preço; dando-se por
consequencia a mesma circumstancia pelos differentes pontos do interior.
A isto se deve a descoberta de novos mercados, de outras terras, e
finalmente de outras tribus, até então desconhecidas. Os elephantes
foram escaceando no dominio dos tres sobas que acabei de designar, e
outros, até o seu total desapparecimento; e como era forçoso de
apresentar tributo annualmente ao Matiamvo, faziam-no com escravos,
fazenda, missangas, pelles e alguns dentes de marfim, quando os podiam
obter dos caçadores; em presença de que, se tornava excessivamente
oneroso tal encargo, visto que para arranjar fazendas e missangas
sufficientes, se lhe tornava necessario dispôr de dez escravos, termo
medio, além d'aquelles com que tributavam o seu suzerano. Por este
motivo a decapitação de taes sobas principiou a ter logar mais
amiudadamente, já na occasião em que se apresentavam com o tributo na
côrte, já mandando o Matiamvo saber porque motivo se demorava o tributo
além do tempo marcado; se por um lado quando se apresentam, ficavam por
via de regra desempedidos, pelo outro ficavam detidos de permeio com o
povo de que eram acompanhados, empregando-os em todo o serviço que lhes
era destinado, até que ao cabo de um ou dois mezes, e ás vezes mais
tempo, lhes era permittido regressar aos logares de suas naturalidades.
Se, pelo contrario na occasião em que se apresentavam com o tributo, o
Matiamvo não ficava satisfeito com qualquer dos apresentantes, em acto
continuo o mandava decapitar, depois de lhe tiraram do pulso a insignia
do poder, que vem a ser uma manilha ou bracellete de metal, envolvida em
certos e determinados preservativos do seu conhecimento e superstição,
que acto continuo vão depositar aos pés do Matiamvo. Este, pegando
n'ella e depois de ter mandado vir á sua presença o successor immediato
da victima, porque necessariamente deve acompanhal-a, depois de lhe
recommendar o bom regimen do seu dominio, e o que deve fazer em relação
ao tributo, entrega-lhe a insignia do poder, que o investe no mandato do
seu decapitado parente, ficando por consequencia habilitado para o
exercer, se por acaso não vier a ter egual sorte.
Verificando-se porém o caso de que o Matiamvo envie emissarios ao
dominio de taes sobas, estes tornam-se martyres das extorsões que lhes
são feitas, e emquanto não são despedidos, a sua auctoridade torna-se
nulla na povoação; havendo alguns, como tem acontecido, que fazendo
observações contra tão insolito procedimento, o enviado puxando do
_Mucuale_(facão de dois gumes) decepa-lhe a cabeça sem mais ceremonia
que a sua vontade, e sem opposição da parte do povo da povoação,
tira-lhe do pulso a insignia do poder, que entrega ao successor
immediatamente, dizendo-lhe simplesmente que seja mais pontual que o seu
antecessor no desempenho das ordens do Matiamvo; depois de mandar
preparar o craneo, isto é, raspar por dentro e por fóra a fim de lhe
serem extrahidas todas as particulas admissiveis de putrefacção, para
ser guardado cuidadosamente com outros que teem egual sorte, e que na
sua retirada para a côrte, apresenta como tropheus na presença do
senhor, que lhe diz simplesmente ter cumprido o seu dever, dando-lhe a
maior importancia proporcionalmente á maior porção de objectos de valor,
lhe fosse possivel conduzir á sua presença.
Algumas vezes subornados pelos ambiciosos do poder, estes mesmos
enviados do Matiamvo, a que dão o nome de _Cacoattas_, ao entrar na
libata grande do dominio a que se dirigem, intimam o soba existente a
fim de abandonar o logar para que o seu successor o possa occupar, o que
executa acto continuo sem mais observações, não lhe sendo permittido
levar coisa alguma, além das pelles ou pannos que tinha no corpo, e com
os quaes o encontraram na occasião; porque lhe advertem immediatamente,
que, tudo quanto existe na povoação pertence ao Matiamvo. As pessoas que
lhe são affeiçoadas só depois da retirada do enviado é que se lhe vão
aggregar, e, se na occasião da expulsão se não lembrou de entregar a
insignia do poder, seguem logo emissarios em seu alcance para que a
restitua, e no que tambem não faz a menor objecção, visto que por
felizes se reputam aquelles a quem a sua boa estrella concedeu
semelhante graça.
Finalmente, taes atrocidades são frequentes, e os Cacoattas tornam-se os
flagellos dos sobas secundarios; taes oppressões teem dado logar a que
alguns se tenham rebellado, mas não obstam ellas, os pretendentes ao
poder são muitos, e não são exemplo a causar-lhes a menor impressão,
visto que do acontecimento de hoje já ninguem fala ámanhã; advertindo,
que, não é só entre os Mulluas que ellas se dão e repetem, os mesmos
episodios são identices no Batebere, no Cazembe, no Lui e entre o povo
Macorrollo, potentados poderosos para estas paragens.