Machico acossado por Pepe, e mais tarde seu tio Rimbúa, que habitava as

lagoas do rio Nhengo, onde se tinha exilado, depois de Hebitane se

assenhorear do paiz, foram fixar domicilio no mesmo local a oito horas

de marcha, de distancia um do outro, onde vinham permutar seus negocios

as comitivas procedentes das Pedras de Pungo-Andongo, de Cassange e do

Bihé; mas depois de ser assassinado por seu tio Hipopa, este

assenhoreou-se do dominio, que desfructou até o momento de ser acclamado

senhor do Lui, e por esse motivo aquelle ponto presentemente é dominio

seu feudatario, dando logar a que não seja tão concorrido.

É d'esse mesmo local que eu disse por occasião da passagem do illustre

viajante para Loanda, achar-se apenas a dez dias de distancia da

nascente do Riambeje, segundo as indicações de Hipopa, que por vezes foi

á caça dos elephantes para essas partes. Com effeito, no espaço que

medeia entre Machico e Catende para o sul e sudoeste, que são

necessarios dez dias para percorrer, deve effectivamente encontrar-se a

nascente do grande rio.

De Catende para Catema, temos cinco dias, d'esta terra para Chaquilembe

outros cinco dias; estas tres terras são tributarias do Matiamvo, e

n'ellas limita o seu dominio com a tribu do Lui, do Luvar e do Quiboco,

sendo em Chaquilembe que as comitivas procedentes das terras que acabei

de designar, se refazem de mantimento para continuar a sua viagem mais

para o centro, e quem, seguindo por ellas, tomar a direcção do nordoeste

e leste, não passa o Riambeje porque o deixa ao sul e sudoeste, como

acabei de dizer.

Agora, as comitivas da mesma procedencia tomando esta ultima direcção,

teem necessariamente de passar pelas terras de Musso-candanda e

Canunguessa, egualmente do dominio Matiamvo, e passar o Riambeje na sua

nascente, a vau ou em ponte, segundo as localidades a que se dirigir.

Se, pois, o illustre viajante, pondo de parte preconceitos mesquinhos e

futeis puerilidades, tratando com mais afinco dos objectos em immediata

relação com a sciencia, partisse de Machico com destino a estas ultimas

terras, e n'ellas tratasse de investigar o que tanto prendia com o seu

dever, teria sem duvida achado a chave do enigma, como seja a nascente

do Riambeje, deixando por consequencia de luctar n'aquella duvida do ser

e não ser, como infelizmente se veiu a realizar para a sua pessoa.

A mesma pagina 80 o seguinte:

«Expondo a extranheza que lhe causou o phenomeno de um rio correndo

em duas direcções oppostas, nota o dr. Livingstone que não

advertira, quando tinha atravessado o Lotembua, qual direcção toma

a corrente d'este rio; mas que, tendo feito reparo, ao achar-se da

outra banda do lago Dilolo, de que seguia para o sul, presumiu que

nascia no grande paúl, que observara indo para o nordeste, e

continuava correndo para o meio dia; porém que chegando á margem

meridional, ali o informaram de que a parte do rio, que tinha

acabado de atravessar, caminha ao norte, e não desagua no lago

Dilolo, mas sim no rio Kasai. Posto que eu não observei a corrente

(adverte Livingstone) de nenhuma sorte duvido de que seja exacta a

asserção, que aliás me foi confirmada, nem de que, por conseguinte,

o lago Dilolo sirva de reservatorio commum dos rios que vão

correndo uns para o nascente, outros para o poente.»

A este respeito só a sciencia geographica pode apresentar um trabalho

completo, o que não está em relação com os meus conhecimentos; no

entretanto, apresentarei aquillo de que posso dispor, dizendo que os

rios de uma mesma origem, e com direcções oppostas, abundam aqui em

Africa:--aquelles de que tenho conhecimento segundo as informações

obtidas, são os que seguem descriptos nas minhas differentes viagens:

_Rio Loengue_, na terra de Miqueselumbue. _Rio Lunguébungue_, no

territorio Ganguella, das tribus Luchiaje e Bunda. _Rio Quando_, no

territorio Ganguella, das tribus Zambueira e Bunda. _Rios Cuito da

Zambueira, Cuime_ e _Cuiba_, no territorio Ganguella, entre as tribus

Luchiaje, Zambueira, e Quiboco. _Rios Caquema_, _Cuito_ e _Cunhinga_, no

territorio Quimbundo, do dominio do Bihé, descampado denominado Inhana

Umbolobulo. _Rios Cubango_ e _Cutato dos Mangoias_, no territorio

Quimbundo proximo ás terras de Candumbo e Sambo, descampado denominado

Acaca e Acatumbo. _Rios Quebe_ (_Cubo_ na sua foz ao sul de Loanda) e

_Cunene_, no territorio Quimbundo, na terra do Ambo, montanha denominada

_Ecunjo_, e assento da libata grande da dita terra, podendo dizer-se

que, é ella e suas circumvisinhanças, a paragem onde têem origem todos

os rios que deitam suas aguas no Atlantico, comprehendendo todo o

litoral ao sul de Loanda até Benguella. Não falo do Cunene, visto que

segue curso mais longiquo pelo interior, até á sua foz ao Sul de Cabo

Negro. Tambem é voz tradiccional que n'ella existem minas de oiro,

explorado em principio do seculo actual pelo sertanejo de Benguella João

Pedro Costa.

A paginas 91 depois de fazer vêr o illustre auctor do _Exame_ que, o

conhecimento da navegação e do curso do Zambeze pelos portuguezes, já é

de antiga data, conclue como segue:

«Eis aqui as palavras do homem tão competente, como insuspeito a

que me referi, fallo de mr. V. A. Malte-Brum, que dando noticia do

mappa de Zambezia e Sofalla do sr. visconde (hoje marquez) de Sá da

Bandeira, que vae publicado no fim d'este volume (do exame) assim

se explica. «A carta que temos á vista comprehende a parte da

Africa Austral, que se estende do 10.^o ao 24.^o grao de latitude

meridional, e do 25.^o ao 41.^o gráo de longitude oriental do

meridiano de Greenwich.

O mappa representa o curso do Zambeze desde Seshek, capital dos

Makololos, até á foz do rio, e tem por objecto fazer conhecido,

qual é sobre as suas duas margens, e no interior do continente

africano austral, os estados dos conhecimentos e dos dominios

portuguezes.

Não ha duvida em que, por esta costa oriental da Africa, os

portuguezes hajam ha muito penetrado muito mais ávante do que

nenhuma nação europea; mas tambem nada mais certo do que, quer

fosse por motivos politicos, quer fosse por indifferença

relativamente aos interesses scientificos, haver-se guardado

silencio ácerca de descobertas que só o engodo commercial tinha

provocado. Hoje os portuguezes parece que soffrem o castigo d'este

silencio premeditado; silencio que deu naturalmente occasião ao

esquecimento; e comtudo elles reclamam a prioridade das descobertas

feitas pelo reverendo David Livingstone sobre as margens do Chire e

do Nhanja... O mappa permitte que se faça idéa exacta da extensão

que tinha adquerido o dominio portuguez sobre a costa de Sofalla, e

sobre as margens do Zambeze, e contem indicações uteis, que debalde

se procurariam n'outra parte.»

A prioridade das descobertas pelos portuguezes, está demonstrando até á

saciedade que lhes pertence de facto e de direito, faltando unicamente

para que fossem o que deviam ser, e era de esperar, que, o governo ou

mesmo sociedades scientificas, enviassem homens praticos nos

conhecimentos dos differentes ramos da sciencia humana, a fim de

explorar, investigar, e descrever tudo o que teem immediata relação com

essas descobertas, e quando tivessem a desgraça de serem seifados pela

morte, como succedeu ao dr. Francisco José de Lacerda e Almeida, era do

dever não desanimar, proseguindo sempre na obra encetada até o seu

complemento. As honras, as grandezas, e os premios, foram instituidos

para renumerar taes feitos, visto que como diz Mr. Matte-Brun, o engodo

commercial obriga a grandes reservas, e distrae os espiritos para a

sordida avidez dos interesses.

Mas que é o que pode prosperar sobre a terra sem esse agente que se

chama commercio?! Aquelles, que vivem exclusivamente d'elle, não são

competentes para metter hombros a taes emprezas, e os exemplos temol-os

de casa.

Se a minha obra fosse o que deveria ser, ha muito que estaria publicada,

e talvez que em diversas linguas, obrigando o illustre viajante, a se

tornar mais commodido nos seus escriptos; não o tem sido pela falta de

valor litterario, nunca é tarde porém para se emendar e corrigir erros.

As pag. 96 e 97 o seguinte. No cap. 12 escreve o dr. Livingstone:

«Procurando certificar-me se por ventura Santura (_Sanduro?_) tinha

sido visitado em algum tempo por homens brancos, não pude achar

vestigios de tal visita: não existe prova de que alguem da tribu de

Santura tivesse visto um homem branco antes da minha chegada e de

Mr. Oswell em 1851. Aquelles povos não tem, é certo, recordações

escriptas; porém os acontecimentos notaveis são commemorados por

nomes, como Parke observou ser costume nas terras por onde viajara.

O anno da minha chegada foi honrado com o nome do anno em que

chegou o homem branco. Depois da primeira visita de minha mulher

muitas creanças tiveram o nome de _Ma-Roberto_ (applicado á mãe e

não ao filho, synonimo das primeiras lettras; depois do traço é o

nome do filho. A tribu Quimbunda serve-se das lettras Ma, para

designar Mãe) ou mãe de Roberto, nome do seu filho mais velho,

outros tiveram o nome de Espingarda, Wagon, Monare, Jesus, etc,

porém posto que os nossos nomes e os dos nativos portuguezes, que

vieram em 1853, foram adoptados, não ha vestigio de que tivesse

logar cousa semelhante mais cedo entre os Barotse: a visita do

homem branco é acontecimento tão notavel, que, se tivesse occorrido

durante os ultimos cem annos, devia ter d'ella ficado tradição.»

«É muito para notar esta insistencia do dr. Livingstone em que não

eram os portuguezes conhecidos dos Barotse. Esta demasiada

insistencia faz desde logo nascer suspeitas no animo do leitor

desprevenido, e mórmente se porventura está familiarisado com a

maneira de escrever do celebre missionario: n'elle a insistencia

longe de significar segurança, quasi sempre indica hesitação, e não

acontecerá agora o mesmo? Examinemos.»

«Em uma nota ao logar citado diz o dr. Livingstone: «Os Barotse dão

a si o nome de Buloiana, ou pequenos Baloi, como procedendo do Loi

ou Lui, segundo a commum pronunciação. Lui tem sido visitado pelos

portuguezes, porém como a posição de Lui não está bem fixada,

voltaram-se as minhas indagações para verificar se porventura era a

mesma que a de Naliele. Perguntando ao cabo dos Mambari, chamado

Porto, se tinha ouvido dizer que Naliele tivesse anteriormente sido

visitada, respondeu negativamente, e declarou «que por tres vezes

tentara elle ir alli do Bihé, porém que sempre lhe tolhêra o

intento a tribu dos Ganguellas.» Elle quasi o conseguiu em 1852,

porém foi repellido. Agora (1853) tentou ir ao nascente de Naliele,

mas retrocedeu para Barotse, não podendo ir além de Kamko, povoação

situada junto ao rio Bashukulompo, a oito dias de distancia. A

gente de Porto desejava com ardor obter a recompensa promettida

pelo governo portuguez. O não ter sido elle bem succedido,

confirmou-me na intenção de ir para Oeste. Porto benevolamente se

offereceu a acompanhar-me, querendo eu ir com elle ao Bihé, porém,

não acceitando eu, precedeu-me a Loanda, e, estava publicando o

_Diario_ da sua viagem, quando cheguei áquella cidade. Ben-Habibe

contou-me que Porto tinha remettido cartas para Moçambique pelo

arabe Ben-Chombo, que eu conheci; e depois assegurou, em Portugal,

que elle mesmo fôra a Moçambique com as suas cartas.»

O illustre viajante sendo menos exacto na exposição dos factos, taes,

como se deram, permitta-me de os narrar como se passaram.

No dia 1.^o de fevereiro de 1853, cheguei na terra do Lui, margem

direita do Riambeje, isto é, ao estabelecimento feito pelos meus

empregados em 1850, sendo n'este mesmo mez que passei para a margem

esquerda, e dei principio e fim ao novo estabelecimento, e ficando por

consequencia depois da sua conclusão, esperando, que chegasse a licença

do soba Hiquereto, para a comitiva tomar os seus differentes destinos.

Com effeito, ella não se fez muito demorada, porque a 12 de março

chegaram os emissarios do soba Pepe que tinha partido para Rinhande á

nossa chegada no paiz, juntos a outros do soba Hiquereto, que

acompanhavam doze dentes grandes de elephante para permutar por polvora,

com ordem para a comitiva transitar por onde bem lhe conviesse: o que

logo se levou a effeito, visto que tudo se achava prestes para o dito

fim; bem assim a partida da comitiva de Moçambique, realizada a 25 do já

citado mez e anno, como egualmente tive occasião de falar.

Projectando Pepe, em fins de maio, prestar homenagem ao seu Suzerano, e

em attenção, á qualidade de seu hospede com que era tratado, convidou-me

para a jornada, que, gostosamente acceitei, em virtude da recente

noticia da chegada de um homem branco com carros a Rinhande. Este homem

era o illustre viajante.

Partimos a 20 de junho, eu por terra, o soba Pepe pelo Riambeje, em

companhia de quem enviei Jorge José Motta meu empregado, com dois fardos

de fazendas, (esta fazenda voltou intacta para o estabelecimento) para

permutar por marfim, segundo a indicação d'aquelle.

A 3 de julho cheguei a Quiceque, onde, os primeiros emboras da minha

recepção foram a noticia do assassinato do soba Pepe, traiçoeiramente,

ás mãos de seu primo Hiquereto, e victima por consequencia da sua

bonhomia e boa fé.

Confesso que bastante impressionado fiquei com tal acontecimento,

fazendo-me luctar na alternativa de retroceder, ou de proseguir ávante,

mas vencendo esta fraqueza, optei em proseguir a minha jornada, chegando

a Rinhande a 12 do já citado mez, onde fui minuciosamente informado,

pelo dito meu empregado, do homicidio em questão, o qual o illustre

viajante em virtude dos seus usos, teria o cynismo de attribuir a

connivencia nossa e os mais que após se seguiram na desditosa familia da

victima, quando o pequeno leão senhor do Lui fosse assistido de qualquer

portuguez, como era assistido da sua pessoa.

Pela minha parte não lhe quero arrogar semelhante injuria.

No dia 13 estava prestes a seguir para a libata grande ou povoação do

soba, comprimentar este, reservando para depois a mesma cerimonia para

com o branco, que os indigenas appellidavam geralmente de _Monare_

(synonymo de negociante ou sertanejo, como o illustre viajante me

disse), quando, inesperadamente se apresenta o primeiro seguido de um

numeroso sequito, como é de costume entre os Macorrollos, e após elle, o

illustre viajante, pelas nove horas da manhã.

Depois de trocados os comprimentos do estylo, puzemo-nos a conversar;

segundo as minhas indicações falava o interprete Joaquim Marianno,

conhecido dos indigenas pelo appellido de _Hindere_ (synonymo de branco

na lingua quimbunda), com Hiquereto, já seu conhecido da viagem de 1850,

pastoreando elle ao tempo o gado no Lui, como já tive occasião de falar,

e eu, com o illustre viajante que, dirigindo-me a palavra sobre se eu

falava inglez, francez, latim, etc., respondi negativamente, não

dissimulando o meu constrangimento em presença de taes interrogações.

Apresentei-lhe papel e lapis a fim de inscrever o seu nome, o que fez,

fazendo eu outro tanto por baixo, bem assim, passei a inscrever o de

Caetano José Ferreira, segundo a indicação do illustre viajante,

trabalho a que se não quiz dar na occasião da visita do mesmo senhor no

local, pelo julgar, quiçá, de superfluo; retirando-se o soba e o seu

sequito, bem assim o illustre viajante, eram onze horas.

No dia 14 recebi dois dentes grandes de elephante e um boi, presente do

soba Hiquereto, que retribui na occasião, e mais tarde, na minha

retirada para o Bihé, e n'este dia, pelas dez horas, fui retribuir as

visitas recebidas na vespera, a primeira ao soba por ter a certeza de

que não seria tão demorado, e a segunda ao illustre viajante, onde me

demorei bastante tempo e tive a honra de jantar.

Antes porém de proseguir ávante, permitta-me o illustre viajante, que

passe a transcrever os trechos que seguem, e que vem aqui muito a

proposito; o primeiro tem relação com o assassinato do infeliz soba

Pepe, prova de que nada diz a seu respeito, e é este:

«_10 de julho de 1853._ Continuámos a viagem, e fomos fazer quilombo nas

povoações de Rinhande. Caminho plano, mattos de espinheiro, e palmeiras,

abundante de sal, terreno fertil, leguas andadas 6, rumo de oeste. Este

local serviu de theatro ao mais atroz attentado, no assassinato do

infeliz soba Pepe, perpetrado por seu primo o soba Hiquereto. O homicida

não tendo a menor consideração para com aquelle que espontaneamente lhe

havia entregue o poder, tão cobarde se mostrou, que o commetteu á

traição, e revestido do seguinte facto: Em maio do corrente anno, partiu

Borollo da capital do Lui, dizendo ao seu superior que seguia para

Rinhande a visitar Hiquereto; na realidade assim se verificou, porém, o

objecto da sua visita teve por fim a ambição do poder em mira,

servindo-se das armas da calumnia, para levar a cabo seus malevolos

intentos contra quem o havia salvo da morte, livrando-o da azagaia de

seu irmão o defuncto soba Hebitane; diz o rifão que «quem seu inimigo

poupa nas mãos lhe vem a morrer». Tendo a calumnia na mente do inexperto

soba sortido o desejado effeito, com a sua inexperiencia de moço e

selvagem, não quiz recorrer a provas para a salvadora justificação da

victima, mas sim, servindo de juiz e algoz a um tempo, saciou a sede de

sangue n'aquelle que lhe apontavam de rival. Foi, pois, n'este local,

que sahindo ao encontro da sua victima, e a titulo de obsequio, a

deshoras, commetteu o homicidio, degolando o infeliz. Egual sorte espera

no futuro o calumniador, muito principalmente n'este paiz, em que a

vontade do chefe é a lei suprema.»

Os dois paragraphos que seguem é para que o leitor possa avaliar o

cavalheirismo do illustre viajante, na linguagem empregada nos seus

escriptos em relação á minha pessoa.

«_13 de julho._ Fui visitado pelo soba Hiquereto, que esteve a conversar

perto de duas horas no quilombo, ao cabo de cujo espaço, e seguido do

seu sequito, se retirou á sua povoação. Ao mesmo tempo tive a honra da

receber a visita do dr. David Livingstone, missionario inglez, enviado

pela Sociedade da propaganda da fé em Londres, a fim de explorar o

interior de Africa.»

«_14 de julho_. Fui visitar o dr. Livingstone, e vendo até que ponto

pode chegar a industria dos inglezes, completamente admirei o seu

arrojo. A comitiva do dr. é composta de oito pessoas, e em geral, bem

como elle, falam perfeitamente a lingua dos macorrollos; dois grandes

carros de quatro rodas cada um, e puxados cada qual por seis juntas de

bois, transportam uma immensa bagagem, que, a ser conduzida por pretos,

indispensavel seriam sessenta carregadores. Sahindo, pois, do Cabo da

Boa Esperança, até á capital do povo Macorrollo, gastou seis mezes de

viagem, passando unicamente dois rios caudalosos, Orange, proximo do

Cabo, e Quando, proximo de Rinhande; havendo ao mesmo tempo paragens,

nas quaes não encontrava agua em cinco dias consecutivos. É, pois, esta

a segunda viagem do dr. David Livingstone a Rinhande, e a querer

emprehender viagem para o Occidente com taes carros, inteiramente se

tornava impossivel, em virtude dos mattos fechados a percorrer, serras a

transpor, grandes paues, e finalmente abundancia de rios caudalosos.

Teve a bondade de me fazer ver todos os seus mappas, uns completos e

outros incompletos, e ao mesmo tempo, que desejava seguir em minha

companhia até á capital de Angola, ao que annuindo, lhe fiz ver que com

muito gosto acceitava a sua companhia; depois de nos havermos despedido,

retirei-me ao quilombo».

Tornando ao assumpto de que me tinha desviado. Depois dos comprimentos

indispensaveis, o illustre viajante apresentou-me os seus mappas, uns

completos e outros incompletos, e um mappa antigo portuguez, de pequeno

formato, contra cujo auctor se mostrou o illustre viajante agastado, por

não haver marcado precisamente como era do seu dever, a posição e

largura do rio Loanja, apresentando-o muito fóra do seu natural.

Objectei que os rios na estação invernosa, são uma cousa, e na estação

secca, outra, talvez que essa mesma circumstancia se desse em relação ao

rio Loanja, sendo visitado na primeira d'essas estações pelo auctor do

dito mappa, o que o fizera cahir em erro, mas que tendo eu transitado

pela sua margem direita, tres dias consecutivos, e trazendo a direcção

do sul para Quiceque, lhe assignalara tres braças de largo, sem comtudo

o haver passado, e com a particularidade de ser na estação secca; não

insistindo mais sobre este ponto, aqui terminou o incidente, do qual me

tornarei a occupar. Disse mais se tinha conhecido o soba Hebitane. A uma

proposição tão insolita, respondi indicando o interprete Joaquim

Mariano; a isto nada retorquiu.

Perguntou mais quantos dias eram do Bihé ao logar em que nos achava-mos;

respondi que só apresentando o Diario da minha viagem poderia dizer

alguma cousa com precisão.

Fomos jantar, e depois d'este, apresentou-me o illustre viajante um

mappa em branco, que desenrolou; deu-me um lapis, a fim de marcar a

posição do Bihé, e pontos principaes por onde tinha transitado. Mais um

vexame para mim, por me fazer passar por ignorante aos olhos do illustre

viajante, visto que tive mais de uma vez de lhe responder negativamente,

dizendo não ter os conhecimentos necessarios para tal. Enrolou o mappa,

que guardou, bem assim a bussola, e depois apresentou-me a carta do

cavalheiro Duprat, especie de circular ás auctoridades e subditos de S.

M. F., recommendando o illustre viajante, a qual, depois de ter acabado

de ler, dobrei e entreguei; e como fossem já cinco horas da tarde

despedi-me e retirei ao quilombo.

No dia 15 de julho, fui percorrer a povoação de Rinhande, e tendo sido

prevenido de que Hiquereto partia no dia seguinte para o Lui, pelo

Riambeje, em companhia do illustre viajante (foi n'esta occasião que

elle visitou a catarata Cungo (_Chungo_) ou Mosioatunia, e que tiveram

logar os assassinatos de que acabei de falar, na desditosa familia do

infeliz soba Pepe) dispuz a minha partida para o mesmo dia, mas por

terra, e pelo mesmo caminho da vinda, em consequencia de ter ficado a

minha cavalgadura no caminho, a quatro dias de distancia de Quiceque,

por motivo da mosca _Zeze_ em que abunda as margens do Loanja, do que já

tive occasião de falar.

A 16 de julho parti de Rinhande, e depois de vinte dias gastos no

caminho, em marchas e demoras, cheguei ao estabelecimento a 4 de agosto.

Acto continuo á minha chegada mandei chamar a gente que tinha partido

para Moçambique a 25 de março, a fim do seu chefe dar conta dos motivos

que originaram o aborto da viagem, cujos se acham descriptos no logar

competente. Após esta audiencia tambem mandei chamar as pessoas

principaes da comitiva, a quem expuz os pormenores relativos á viagem

que acabava de fazer, bem assim a tenção immediata de continuar jornada

para o nordeste, a fim de me encontrar com os pombeiros de

Miqueselumbue, unicos que faltavam no estabelecimento. Isto era um dever

a que me não podia eximir, segundo a pratica estabelecida, e concluido

elle, dei por terminada esta segunda audiencia, e ordem para os

preparativos de partida.

No dia 5 de agosto apresentei-me na libata grande, onde pernoitei, a fim

de comprimentar Hiquereto, bem assim o illustre viajante; retirando-me

no dia 6, visto haver cumprido esse dever de civilidade. N'esta povoação

denominada Nariere, entre outras coisas de que falámos, veiu a do

illustre viajante fazer menção dos recentes assassinatos, consequencia

do trama preparado por Borollo; respondi que egual sorte aguardava este

no futuro. Disse mais que desejava viver retirado, e, se, com este

intuito não haveria para o occidente uma terra para n'ella residir;

respondi negativamente, visto que o illustre viajante havia delineado um

segundo paraiso. E, interrogado mais sobre se em Loanda haviam

hospedarias, e inglezes, respondi affirmativamente, accrescentando elle

que, pretendia dirigir-se a Ribonda fazer algumas observações, e que no

seu regresso aproveitaria o ensejo para me visitar; a que retorqui

achar-me ás suas ordens.

No dia 7 alevantei com direcção ao nordeste a encontrar-me com os

pombeiros de Miqueselumbue nas margens do Loengue, unicos que faltavam

no estabelecimento de entre o grande numero que tinha despachado para

diversas paragens, como acabei de dizer, e prompto para despachar pela

segunda vez a comitiva para Moçambique, isto depois de ter recommendado

o bom agasalhado do illustre viajante, como á minha propria pessoa.

Silva Porto e Livingstone manuscripto de Silva Porto encontrado no seu espólio · 第 3 / 6 段