Até 1854 foram aquellas as armas que para aqui vieram, e todas as tribus

para o poente não fazem uso de outras, porém, como os Macorrollos

sympathisassem mais com as raiunas, introduzidas pelo illustre viajante,

principiaram estas, d'essa epocha por deante até 1864, de affluir ao

paiz, mas em consequencia dos acontecimentos cahiram em desuso, para de

novo darem entrada áquelles, as quaes, bem como polvora, chumbo em

balas, e munição, arame de latão grosso, contaria de diversas côres e

qualidades, fazendas finas e ordinarias, e finalmente roupas, finas e

ordinarias, genero de grande extracção, são de exclusiva negociação com

o soba, attendendo a que este concentra na sua pessoa como senhor

absoluto, todo o machinismo mercantil, negociação unicamente feito, por

elle, e pelo sertanejo que se apresenta. Concluida, ella tem logar a

entrega do marfim, e por consequencia a distribuição dos generos pelos

magnates em geral; tem egualmente logar então a dispersão do povo da

comitiva para as terras limitrophes, onde se permuta o marfim,

egualmente os escravos, sendo este segundo ramo da attribuição dos

Bihanos, que, se dão melhor com elles, que não com os da sua raça, em

consequencia da humildade d'elles, já para o seu serviço, já para

satisfazer Milongas (crimes), já finalmente para permutar por cabeças de

gado, cujo preço é de seis bois grandes (castrados) por um escravo, o

que o possuidor decora com o pompôso titulo de sua manada de gado. E

todo aquelle que possue esta, e, ainda além d'ella, quatro ou seis

escravos, sahiu da classe plebea para a nobre; já por ter maior numero

de concubinas, que uma honraria adquirida á razão de um escravo ou um

boi; e já finalmente porque entra na classe de pombeiro, recebendo

fazendas dos sertanejos, pelo que é obrigado de acompanhal-os para toda

a parte; sendo a isto que o Bihano aspira unicamente, dando principio á

sua carreira pelo tirocinio de carregador.

Pelo que fica dito se vê que o nome de _Mambari_, applicado

indistinctamente ao povo Bihano pelos indigenas, e alternadamente

_Himbari_, e _Bimbari_, pelo povo Ganguella, é synonymo de _Quimbar_ ou

_Himbar_, com o qual são designados os escravos pertencentes aos

sertanejos, entre a raça Qimbunda, á qual, como já tive occasião de

falar, pertence a terra do Bihé, e mais terras para o poente até á

cidade de Benguella, comprehendo algumas que demoram para o norte e sul.

Em virtude do seu dialecto especial, e unico assim denominado,

apresentando-se os sertanejos do Bihé pelo interior a tratar de seus

negocios, os habitantes julgando o povo da comitiva como sujeito aos

mesmos, os ficaram designando de vez pelos nomes que ficam notados, e

com os quaes se não deshonram os Bihanos, povo excencialmente

commerciante.

Nas mesmas pag. 73 e 74 o seguinte:

«Quando os Mambari (narra Livingstone) divulgaram entre os seus, em

1850, noticias favoraveis do novo mercado, aberto no Oeste, muitos

mulatos portuguezes, dados ao commercio da escravatura, foram

induzidos a ir alli em 1853; e um, que _similhava perfeitamente um

portuguez_, chegou a Liniante (_Rinhande?_) emquanto eu alli

estava. Este homem não trazia mercadorias, e affirmava ter vindo

unicamente com o fim de indagar que sorte de fazendas teriam sahida

no mercado. Pareceu-me muito transtornado com a minha presença.

Sekeletu (_Hiquereto?_), deu-lhe de mimo um dente de elephante e um

boi, e, tendo-se (o portuguez) encaminhado a distancia de perto de

cincoenta milhas a Oeste, levou comsigo uma _aldeia inteira de

Bakalahari_ (_Bacalaliari?_) pertencente ao Makololo

(_Macorrolos?_). Trazia comsigo grande numero de escravos armados;

e como todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e creanças

foram levados, e o facto ficou ignorado até muito tempo depois, não

se sabe se elle realizou o seu intento por meio da força, ou se

mediante seductoras promessas. Em todo o caso a escravidão foi a

sua sorte. O portuguez era conduzido n'uma maca, dependurada de

duas varas, de modo que tendo a configuração de um sacco, os

Makololo, o nomeavam «o pae-do-sacco.»

Este homem tão infamemente ultrajado, e que foi meu visinho no Bihé,

presentemente morador no concelho do Dombe, no districto da cidade de

Benguella, chama-se Caetano José Ferreira, natural do Barreiro, suburbio

de Lisboa, e tem tanto de mulato, quanto o illustre viajante tem de boa

fé nos seus escriptos.

Sahindo comigo do Bihé a 20 de novembro de 1852, e seu companheiro

Norberto Pedro de Senna Machado, natural de Setubal, a 16 de janeiro de

1853, a comitiva dos ditos senhores tomou a direcção do Sul, para as

vertentes do rio Quando, e a minha, a direcção de Nordeste para aqui.

Caetano José Ferreira, por suggestões das pessoas principaes da

comitiva, foi levado a contrahir juramento com o soba do local onde

permutou seus negocios, dominio do então soba Hiquereto, como

actualmente o é do soba Hipopa.

Este juramento que os indigenas denominam Cacendo, consiste na diabolica

cerimonia dos contrahentes fazerem uma pequena incisão no peito, á qual

depois de applicados os labios, mutuamente chupam o sangue que d'ella

sae, e concluido tal acto, dizem-se inseparaveis para a vida e para a

morte; bem assim com direito reciproco nos seus bens, havidos e por

haver.

N'esta scena repugnante que rapido acabo de bosquejar, verificou-se,

porém, o contrario do que naturalmente era de esperar, visto que um mez

depois da retirada do mesmo senhor para o Bihé, succede morrer o soba, e

os selvagens affirmando ser proveniente do sangue que tinha sorvido do

europeu, em razão de tal ceremonia achar-se unicamente em uso entre os

naturaes, aguardaram ensejo de se apresentar alli em 1854 uma comitiva

minha, para preparar o assassinato de dois Bihanos, como represalia do

acontecimento, notificando ao chefe de dita comitiva, que, se Caetano

José Ferreira se não apresentasse, ou gente sua, a fim de pagar o crime

da morte do soba, os dois assassinatos que tinham commettido, seria o

preludio de vinganças mais estrondosas na occasião em que no local, ou

circumvisinhanças, apparecessem comitivas do Bihé.

Effectivamente, os dois assassinatos foram _pagos_ pelo dito sr. no Bihé

aos parentes das victimas, e, acto continuo, foi constrangido a mandar

enviados seus com fazendas, para satisfazer ao arguido crime da morte do

soba em questão, a fim de evitar maiores complicações e prejuizos de

futuro.

E sendo o caso que acabo de descrever a consequencia de uma imprudencia

irreflectida, qual não seria aquelle que immediatamente se seguiria ao

attentado do sequestro de uma _aldeia inteira de Bakalahari?!!_ Eu vou

dizer ao leitor: O chefe da comitiva, o seu companheiro, inclusive

brancos naturaes do paiz, e brancos para mais de mil, seriam massacrados

ao furor da turba de taes paragens, sempre avida de sangue, attendendo a

que para tal carnificina, seriam sufficientes quarenta e oito horas, se

tanto, de communicação pelo rio Quando, a fim do soba Hiquereto enviar a

ordem, depois de recebida a participação, no que não seria economico,

muito principalmente tendo por mentor o illustre viajante inglez.

Não appliques aos outros aquillo que, não desejas te seja applicado, diz

o rifão. De fado, o illustre viajante não pensou jámais que mui proximo

teria de ser victima d'este proloquiio, pois que recebendo debaixo da

mais boa fé, do dito soba, a gente que o conduziu a Loanda, bem assim o

marfim para alli lhe permutar, parte d'este genero serviu de costeio á

dita viagem, affectuada a qual nos nivela com zero; e tornando de

receber identico beneficio na viagem premeditada e realizada a

Moçambique, tornou ainda a abusar da boa fé do mesmo soba, porque o

actual senhor do Lui espera ainda pelo marfim e gente que acompanhou o

illustre viajante á mencionada terra.

Terminarei este paragrapho com duas palavras sobre a questão das côres.

Os inglezes sabem bellamente o quanto lhes teem custado estes mesquinhos

preconceitos. Os portuguezes estão ao facto da malquerença que entre

elles e seus irmãos do Brazil existe: no entretanto, nem uns nem outros

querem tomar o juizo perante os exemplos, a fim de uma vez por todas

acabarem com elles.

Nas mesmas pag. 74, 75, e 76 o seguinte:

«Mpepe (Pepe?) favorecia estes commerciantes de escravos, e elles,

segundo o seu costume, fundavam as esperanças de se tornarem

preponderantes no bom resultado da rebellião meditada. Conheceram

que o apparecer eu em scena havia de pezar na balança contra os

seus interesses. Um grande golpe de Mambari tinham vindo a Liniante

(_Rinhande_), quando eu andava herborisando nos prados ao sul do

Chobe (_Rio Quando?_). Chegando-lhes a noticia de eu estar alli

proximo, mudaram de rosto; e quando alguns Makololo, que nos tinham

ajudado a atravessar o rio voltaram com os chapéos que eu lhes

dera, os Mambari fugiram precipitadamente. É do costume que os

visitantes peçam licença com formalidade antes de se retirarem da

terra do chefe onde se acham, porém a apparição dos chapéos fez que

os Mambari enfardassem á pressa. Os Makololo informaram-se da causa

da precipitada retirada, e lhes disseram que, se eu alli estivesse,

lhes tomaria os escravos e as fazendas; e posto que Sekeletu lhes

assegurasse que eu não era salteador, mas sim homem de paz, fugiram

de noite, achando-me eu a sessenta milhas de distancia. Marcharam

para o norte, sob a protecção de Mpepe, construíram uma forte

estacada, d'onde alguns mulatos, commerciantes de escravos,

capitaneados pelo portuguez nativo, continuaram no seu trafico, sem

fazerem caso do chefe, em cujo territorio tinham feito incursão com

a maior semceremonia.»

«Accresce que, n'outro logar Livingstone, referindo-se a este mesmo

facto, accrescenta: _Alguns Mambari nos visitaram quando estavamos

em Naliele_.» São da familia Ambonda (_Quimbunda?_) que habita o

territorio ao sueste de Angola, e falla o dialecto bunda

(_Quimbundo?_) commum aos Barosse, (_Brose_, _Bruse?_) Baicie, etc.

São tão negros como Barosse, mas _vive entre elles grande numero de

mulatos_, distinctos pela sua côr peculiar de amarello doente. Os

_mulatos_, _os portuguezes nativos_, todos sabem lêr, e escrever, e

o cabeça do bando, se _realmente não é portuguez, tem o cabello

europeu_, e obrigado provavelmente pela carta de recommendação do

cavalleiro Duprat, arbitro por parte do governo de S. M. F. na

commissão mixta ingleza e portugueza na cidade do Cabo, mostrou-se

sinceramente desejoso de apresentar-me todos os bons officios ao

seu alcançe. Estas pessoas, _estou certo_, foram os primeiros

individuos de sangue portuguez, que viram o Zambeze no centro do

paiz, e chegaram lá dois annos depois da nossa descoberta em 1851.»

Ja tive occasião de dizer que, o soba como senhor absoluto do paiz

concentra na sua pessoa todo o poder, todos affirmam, mas ninguem se

aventura de reprovar a minima de suas acções; elle, e o sertanejo, são

as duas pessoas que unicamente se entendem sobre negocios: feliz d'este

se á primeira partida de marfim que recebeu lhe paga a factura, porque

todo o mais que fôr apparecendo de tributo até ao dia da sua retirada,

pertence-lhe, porque o vae recebendo proporcionalmente ao passo que fôr

chegando.

O tributo de escravos á sua chegada, depois de escolher os melhores para

o seu serviço, é distribuido pelo povo da localidade, verificando-se a

mesma particularidade nos mais ramos tributarios, com excepção das

canoas, e redes de pescar; aquellas para o serviço geral, e estas para

distribuir pelos pescadores. De tal regalia gozaram Pepe, em virtude dos

seus poderes illimitados; mais tarde Hiquereto; mais tarde Borollo; e

goza actualmente Hipopa. Esse grande numero de rapazes de 13 a 14 annos

de edade que tanto deram no goto do illustre viajante, tambem disse só

poderia ser transacção dos Bihanos. O sertanejo quando dá as suas

fazendas ás diversas pessoas de que se compôem a comitiva, é para a

permutação de marfim e jámais de escravos.

Agora, rebellião de quem, a favor de quem, e contra quem?...

Eu teria tudo a perder com ella, e nada a ganhar; no entretanto posso

affirmar ao illustre viajante que, effectivamente, tive propostas do

infeliz soba Pepe de cooperar com elle para o extreminio do soba

Hiquereto, a que respondi negativamente, fazendo-lhe vêr que tinha vindo

tratar dos meus negocios, e não ingirir-me em outros que me não diziam

respeito.

Propostas identicas me foram mandadas fazer da parte do soba Machico,

que rejeitei egualmente; ora se eu fosse natural de Zamzibar, e, quiça,

que inglez, tendo como tinha sufficientes meios de que dispor para o

effeito, talvez me inclinasse a acceitar taes offerecimentos que na

realidade eram brilhantes; mas sendo de opinião differente, não quiz

acceitar o que por tres vezes me foi offerecido: uma pessoalmente pelo

infeliz soba Pepe, e duas por parte do soba Machico, como acabei de

dizer. As medalhas teem verso e reverso, e quem assim não pensar

arrisca-se de cahir de muito alto.

E eu dava tanta importancia ao apparecimento do illustre viajante em

scena, ou melhor direi á sua sem razão no assumpto a que se refere, que

por elle sou justificado na minha semceremonia de transitar em todas as

direcções, n'um paiz que não era meu, mas onde, no entretanto, para

usofruir de tal regalia, havia comprado esse direito, contribuindo com o

competente tributo, como é de uso em todas estas paragens.

Quereria talvez o sr. Levingstone o exclusivo d'elle como Mentor do soba

Hiquereto?!

Dependeria eu d'elle em alguma coisa?!

Mas os Bihanos fugiram de que? Pela apparição dos chapéos, ou pela

noticia que tiveram de se achar proximo o illustre viajante, visto que

andava como diz: «herborisando nos prados ao sul do Chobe?»

Responderei que nem por uma nem outra coisa. Retiraram-se mas foi

realmente pelo illustre explorador andar «herborisando»... na boa fé do

soba Hiquereto, que a não ser tal circumstancia, talvez este se

resolvesse a vender o marfim que possuia, e que não vendeu por

insinuação sua, dirigindo-se então elles para Quiceque, e logares

circumvisinhos, bem assim para territorio do dominio da tribu Batebere,

onde permutaram as fazendas pelos dentes de elephantes, e não:

«Marcharam para o norte, onde, sob a protecção de Mpepe, construiram uma

forte estacada.» Esta estava concluida em fevereiro, quando a dispersão

do povo da comitiva teve logar em março de 1853, como passo a

demonstrar. Ella, e a bandeira das quinas que dei ordem de arvorar á sua

chegada, causariam ao illustre viajante sem duvida, a impressão de um

raio, qual a da minha apparição no Lui, como já tive occasião de dizer.

Por esse lado não tem razão, como effectivamente a não tem na maior

parte dos seus escriptos, attendendo a que a prioridade das descobertas

em Africa pertence de facto e de direito aos portuguezes. Agora, que na

terra a força disponha da justiça, o reverendo Dr. David Livingstone,

sabe perfeitamente que acima de nós existe um poder superior a nós,

perante o qual todos teremos de ser julgados.

Relativamente á celebre estacada de Catongo, ou muro de pau a pique, de

que acabei de falar, responderei que querendo eu ficar na margem d'além

do Riambeje, por estar ao facto das desintelligencias do soba Pepe com o

soba Hiquereto, aquelle fez-me vêr que tal passo não era do seu agrado,

em virtude do que, dei ordem para se passar para a margem d'aquem.

N'esta, foi-me destinada a montanha denominada Catongo, para fabricar o

estabelecimento, local verdadeiramente bello pela elevação que occupa, e

pela prespectiva que apresenta da sua sumidade. Dei principio e

conclusão áquelle fabrico em fevereiro do já citado anno, seguindo o

povo da comitiva para os differentes pontos do paiz no mez de março

seguinte, bem assim a comitiva de Moçambique, e isto depois de recebida

a ordem do soba Hiquereto para o indicado effeito, quando ainda o

illustre viajante não tinha chegado da sua tão apregoada segunda viagem.

Desgostoso pelos acontecimentos, fiz formal tenção de não voltar ao Lui;

despachei os meus empregados no anno seguinte de 1854, porém regressando

elles ao Bihé junto a emissarios do soba Hiquereto, e de sua ordem,

tanto insistiram commigo que resolvi seguir viagem em 1858. Chegando no

paiz fiquei na margem d'aquem do Riambeje, no estabelecimento de Luiz

Albino Rodrigues, e local dos primeiros, onde continuou fluctuando a

bandeira das quinas, além da que nos era inseparavel, quotidianamente,

na frente da comitiva, sendo então logar-tenente de Hiquereto, seu tio

Borollo, com quem communiquei no que dizia respeito aos meus negocios,

attendendo a que aquelle era apenas um automato da vontade d'este, e o

Lui, _Broze_, e _Bruse_ dos indigenas, era simplesmente a sombra de sua

passada grandeza. O movimento, e a vida do paiz, estava litteralmente

falando, em Rinhande.

Depois de ter despachado a comitiva para os seus differentes pontos, e

de ter chegado a esta capital, n'um dia, em occasião de conversar com

Hiquereto, disse-me elle que: o illustre viajante lhe havia dito não

approvar no paiz a presença de Macuas de Oeste, pois que pretendiam

apossar-se d'elle, havendo as provas do que avançava, na estacada por

mim feita em Calongo!!

Respondi ser falsa semelhante asserção, tendo elle provas mais

convincentes do contrario na minha recusa de voltar ao paiz, e quem

pretendesse assenhorear-se de qualquer dominio, não dava, por certo

semelhante passo, nem, ainda, se apresentaria com a força com que eu me

apresentava; poderia pois socegar por este lado, porque não seria da

minha pessoa que lhe resultaria o menor damno.

Podendo inferir-se de um tão insolito procedimento, a razão de ser que

existe na confrontação de portuguezes e inglezes, descripta a ps. quinze

da introducção, 68 e 231 do _Exame_, accrescentarei, que não levei

jámais a audacia a ponto de malquistar meus irmãos perante os selvagens,

considerando como meus irmãos todos aquelles que andam peregrinando por

estas paragens seja qual fôr a sua procedencia e naturalidade.

Em presença do que acabo de dizer, perguntará o leitor para que dirigia

a carta de offerecimento dos meus serviços ao illustre viajante;

responderei que então não quiz dar credito ao que Hiquereto me disse,

attribuindo a revelação a intriga dos familiares; hoje, porém,

verifica-se o contrario em presença dos factos que se apresentam.

É menos exacto egualmente o que o illustre viajante diz sobre dialectos,

isto é, ser commum a lingua Quimbunda ao povo Lui e Baieie; Como a ps.

191 do _Exame_ se trata mais detidamente do assumpto, responderei que, é

commum a lingua Quimbunda a grande parte do territorio Africano, podendo

fazer-se egual parallelo entre ella, e o dialecto Bunda (de Angola e

suas dependencias) áquelle que se dá entre a Portugueza e a Castelhana:

mas já não assim em relação aos dialectos Cafrial, Ganguella, Humbe,

Macorrollo, e Mullua; não menciono a tribu numerosa dos _Cassaqueres_,

especie de ciganos, de côr pardo claro, e errante pelo interior do

continente, em virtude do seu estado vagabundo. Aquelles tribus

espalhando-se com o correr do tempo pelo extenso e vasto solo que lhes

deu o berço, vieram mais tarde a mesclar-se umas com as outras, formando

nações diversas, e taes como existem presentemente. Os sabios de futuro

terão de resolver o problema.

Reservando para aqui as palavras que de proposito sublinhei de: «_Alguns

Mambari nos visitaram quando estavamos em Naliele_.» direi que não têem

qualificação possivel, visto que o illustre viajante foi visitado por

mim, e não pelos Bihanos, faltando por consequencia ao que deve a si

como cavalheiro, nivelando um outro com os selvagens.

A paginas 77 e 78 o seguinte; ouçamos o que diz ao ponto o Dr.

Livingstone, e ficaremos desenganados:

Mr. Oswell e eu nos dirigimos para Sesheh (_Quiceque?_) a cento e

trinta milhas ao Nordeste, e, no fim de junho de 1851, fomos

recompensados das nossas fadigas com o descobrimento do Zambeze no

interior do continente. Isto era de grande momento, porque d'antes

não se sabia que existisse alli aquelle rio. Os mappas portuguezes

todos o representam como tendo origem muito mais a Éste do lado

onde nos achavamos, e se em algum tempo tivesse existido coisa que

semelhasse uma serie de postos commerciaes atravez do paiz, entre

as latitudes 12.^o e 18.^o Sul, esta magnifica porção d'aquelle rio

devia ter sido conhecida. Nós o vimos no fim da estação estiva,

tempo em que o rio está mais diminuido, e comtudo levava então

corrente de agua profunda na largura de tresentas a seis centas

jardas. Mr. Oswell declarou que nunca vira rio tão formoso (_que

não tem em tal logar formosura, visto ser despido de arvoredo_),

nem mesmo na sua India. No tempo da sua inundação annual eleva-se

perpendicularmente vinte pés e alaga quinze ou vinte milhas de

terras adjacentes ás suas margens.»

Não obstante repizar n'um objecto que não admitte controversia, como

seja o Riambeje visitado em antiga data pelos meus concidadãos;

anteriormente a 1845 pela minha gente em territorio do dominio da Lunda,

e d'esta data por deante no Lui, lembrarei a feira de Cassange

estabelecida de antiga data, e da qual ainda me não occupei. Os

portuguezes ahi estabelecidos enviavam e enviam suas fazendas pelo

interior, tomando diversas direcções, e em algumas, segundo os pontos a

que se dirigem, passam e tornam a repassar o Riambeje. Em identicas

circumstancias temos os portuguezes residentes nas Pedras de

Pungoandongo, as suas fazendas seguem da mesma fórma para todos os

pontos do interior, em alguns passam e tornam a repassar o

Riambeje,--_Riambei_ e _Riambeje_, nomes empregados commummente pelos

indigenas por estas paragens, para designar o grande rio, e cujas terras

banha com as suas aguas, o qual, como já tive occasião de falar, é o

manancial de mais longo curso conhecido aqui em Africa.

No dia 20 de janeiro de 1848 na viagem dos meus empregados, eis o que

digo em relação a este rio:

--«Passámos o Riambeje para a margem opposta, ao qual se torna

impossivel marcar as braças que poderá ter, em consequencia de ser um

grande descampado todo cheio de agua na presente estação; o rio dirige o

seu curso pelo centro, as canoas largando da margem direita para a

esquerda, gastam seis horas de bom remar na ida e volta. O Riambeje tem

a nascente na terra do dominio da Lunda denominada _Musso-candanda_, e

vae desaguar no mar para o Oriente.»

Na actual viagem encontrei no estabelecimento Bonifacio José Basquete e

o seu empregado João Francisco da Silva; aquelle senhor na sua viagem do

Bihé para Cazembe-mucullo, passou, a um dia de distancia d'aquella

terra, o Riambeje, com agua pela curva da perna; accrescentando o dito

seu empregado, que, a gente da povoação Namoanna Hicungo, do já citado

dominio de Musso-candanda, está situada na cabeceira do rio em questão,

d'onde tiram agua para seu uso diario. A povoação de um dominio qualquer

pode existir hoje, e amanhã desapparecer em virtude da sua fórma de

governo, mas já não a terra de Musso-candanda, ou mesmo outra qualquer

em dominio poderoso; mudam apenas os sobas. Concedendo porém que assim

não seja como acabo de transcrever, é fóra de toda a duvida que qualquer

rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel que seja com a agua pela curva da

perna, d'ahi á sua cabeceira não podem distar mais de quatro dias de

jornada, a experiencia assim m'o tem ensinado. Fica pois demonstrado que

não tem razão de ser a pretensão do illustre viajante á descoberta do

Riambeje no interior do continente, em 21 de junho de 1851, querendo

ainda corroboral-a com a presença de mr. Oswell, attendendo a que muito

anterior á sua apresentação no dito local, isto é, de fins do seculo

passado até ao presente, os portuguezes o teem passado e repassado em

todos os pontos banhados pelas suas aguas.

A paginas 79 e 80 o seguinte:

«Fallando do reino de Matiamvo, e do desejo que tivera de visitar

este potentado, diz o dr. Livingstone: Que lhe asseguram, assim os

commerciantes indigenas, como os naturaes de Balonda (_Calundas?_)

que um braço consideravel do Zambeze, corre no territorio a leste

da capital, e caminha ao sul. «Todo este braço (accrescenta o dr.

Livingstone) incluindo o ponto, d'onde toma a oeste, para Masiko

(_Machico?_) está assignalado no mappa (d'elle Livingstone)

provavelmente em demasia ao nascente. Foi assim marcado quando eu

pensava que o Matiamvo e Cazembe ficavam mais a leste do que tive

ao depois motivo para julgar. Sendo todas estas indicações

derivadas do testemunho dos indigenas, eu as dou com desconfiança,

e como carecendo de ser verificadas por novos exploradores.

Silva Porto e Livingstone manuscripto de Silva Porto encontrado no seu espólio · 第 2 / 6 段