para o poente não fazem uso de outras, porém, como os Macorrollos
sympathisassem mais com as raiunas, introduzidas pelo illustre viajante,
principiaram estas, d'essa epocha por deante até 1864, de affluir ao
paiz, mas em consequencia dos acontecimentos cahiram em desuso, para de
novo darem entrada áquelles, as quaes, bem como polvora, chumbo em
balas, e munição, arame de latão grosso, contaria de diversas côres e
qualidades, fazendas finas e ordinarias, e finalmente roupas, finas e
ordinarias, genero de grande extracção, são de exclusiva negociação com
o soba, attendendo a que este concentra na sua pessoa como senhor
absoluto, todo o machinismo mercantil, negociação unicamente feito, por
elle, e pelo sertanejo que se apresenta. Concluida, ella tem logar a
entrega do marfim, e por consequencia a distribuição dos generos pelos
magnates em geral; tem egualmente logar então a dispersão do povo da
comitiva para as terras limitrophes, onde se permuta o marfim,
egualmente os escravos, sendo este segundo ramo da attribuição dos
Bihanos, que, se dão melhor com elles, que não com os da sua raça, em
consequencia da humildade d'elles, já para o seu serviço, já para
satisfazer Milongas (crimes), já finalmente para permutar por cabeças de
gado, cujo preço é de seis bois grandes (castrados) por um escravo, o
que o possuidor decora com o pompôso titulo de sua manada de gado. E
todo aquelle que possue esta, e, ainda além d'ella, quatro ou seis
escravos, sahiu da classe plebea para a nobre; já por ter maior numero
de concubinas, que uma honraria adquirida á razão de um escravo ou um
boi; e já finalmente porque entra na classe de pombeiro, recebendo
fazendas dos sertanejos, pelo que é obrigado de acompanhal-os para toda
a parte; sendo a isto que o Bihano aspira unicamente, dando principio á
sua carreira pelo tirocinio de carregador.
Pelo que fica dito se vê que o nome de _Mambari_, applicado
indistinctamente ao povo Bihano pelos indigenas, e alternadamente
_Himbari_, e _Bimbari_, pelo povo Ganguella, é synonymo de _Quimbar_ ou
_Himbar_, com o qual são designados os escravos pertencentes aos
sertanejos, entre a raça Qimbunda, á qual, como já tive occasião de
falar, pertence a terra do Bihé, e mais terras para o poente até á
cidade de Benguella, comprehendo algumas que demoram para o norte e sul.
Em virtude do seu dialecto especial, e unico assim denominado,
apresentando-se os sertanejos do Bihé pelo interior a tratar de seus
negocios, os habitantes julgando o povo da comitiva como sujeito aos
mesmos, os ficaram designando de vez pelos nomes que ficam notados, e
com os quaes se não deshonram os Bihanos, povo excencialmente
commerciante.
Nas mesmas pag. 73 e 74 o seguinte:
«Quando os Mambari (narra Livingstone) divulgaram entre os seus, em
1850, noticias favoraveis do novo mercado, aberto no Oeste, muitos
mulatos portuguezes, dados ao commercio da escravatura, foram
induzidos a ir alli em 1853; e um, que _similhava perfeitamente um
portuguez_, chegou a Liniante (_Rinhande?_) emquanto eu alli
estava. Este homem não trazia mercadorias, e affirmava ter vindo
unicamente com o fim de indagar que sorte de fazendas teriam sahida
no mercado. Pareceu-me muito transtornado com a minha presença.
Sekeletu (_Hiquereto?_), deu-lhe de mimo um dente de elephante e um
boi, e, tendo-se (o portuguez) encaminhado a distancia de perto de
cincoenta milhas a Oeste, levou comsigo uma _aldeia inteira de
Bakalahari_ (_Bacalaliari?_) pertencente ao Makololo
(_Macorrolos?_). Trazia comsigo grande numero de escravos armados;
e como todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e creanças
foram levados, e o facto ficou ignorado até muito tempo depois, não
se sabe se elle realizou o seu intento por meio da força, ou se
mediante seductoras promessas. Em todo o caso a escravidão foi a
sua sorte. O portuguez era conduzido n'uma maca, dependurada de
duas varas, de modo que tendo a configuração de um sacco, os
Makololo, o nomeavam «o pae-do-sacco.»
Este homem tão infamemente ultrajado, e que foi meu visinho no Bihé,
presentemente morador no concelho do Dombe, no districto da cidade de
Benguella, chama-se Caetano José Ferreira, natural do Barreiro, suburbio
de Lisboa, e tem tanto de mulato, quanto o illustre viajante tem de boa
fé nos seus escriptos.
Sahindo comigo do Bihé a 20 de novembro de 1852, e seu companheiro
Norberto Pedro de Senna Machado, natural de Setubal, a 16 de janeiro de
1853, a comitiva dos ditos senhores tomou a direcção do Sul, para as
vertentes do rio Quando, e a minha, a direcção de Nordeste para aqui.
Caetano José Ferreira, por suggestões das pessoas principaes da
comitiva, foi levado a contrahir juramento com o soba do local onde
permutou seus negocios, dominio do então soba Hiquereto, como
actualmente o é do soba Hipopa.
Este juramento que os indigenas denominam Cacendo, consiste na diabolica
cerimonia dos contrahentes fazerem uma pequena incisão no peito, á qual
depois de applicados os labios, mutuamente chupam o sangue que d'ella
sae, e concluido tal acto, dizem-se inseparaveis para a vida e para a
morte; bem assim com direito reciproco nos seus bens, havidos e por
haver.
N'esta scena repugnante que rapido acabo de bosquejar, verificou-se,
porém, o contrario do que naturalmente era de esperar, visto que um mez
depois da retirada do mesmo senhor para o Bihé, succede morrer o soba, e
os selvagens affirmando ser proveniente do sangue que tinha sorvido do
europeu, em razão de tal ceremonia achar-se unicamente em uso entre os
naturaes, aguardaram ensejo de se apresentar alli em 1854 uma comitiva
minha, para preparar o assassinato de dois Bihanos, como represalia do
acontecimento, notificando ao chefe de dita comitiva, que, se Caetano
José Ferreira se não apresentasse, ou gente sua, a fim de pagar o crime
da morte do soba, os dois assassinatos que tinham commettido, seria o
preludio de vinganças mais estrondosas na occasião em que no local, ou
circumvisinhanças, apparecessem comitivas do Bihé.
Effectivamente, os dois assassinatos foram _pagos_ pelo dito sr. no Bihé
aos parentes das victimas, e, acto continuo, foi constrangido a mandar
enviados seus com fazendas, para satisfazer ao arguido crime da morte do
soba em questão, a fim de evitar maiores complicações e prejuizos de
futuro.
E sendo o caso que acabo de descrever a consequencia de uma imprudencia
irreflectida, qual não seria aquelle que immediatamente se seguiria ao
attentado do sequestro de uma _aldeia inteira de Bakalahari?!!_ Eu vou
dizer ao leitor: O chefe da comitiva, o seu companheiro, inclusive
brancos naturaes do paiz, e brancos para mais de mil, seriam massacrados
ao furor da turba de taes paragens, sempre avida de sangue, attendendo a
que para tal carnificina, seriam sufficientes quarenta e oito horas, se
tanto, de communicação pelo rio Quando, a fim do soba Hiquereto enviar a
ordem, depois de recebida a participação, no que não seria economico,
muito principalmente tendo por mentor o illustre viajante inglez.
Não appliques aos outros aquillo que, não desejas te seja applicado, diz
o rifão. De fado, o illustre viajante não pensou jámais que mui proximo
teria de ser victima d'este proloquiio, pois que recebendo debaixo da
mais boa fé, do dito soba, a gente que o conduziu a Loanda, bem assim o
marfim para alli lhe permutar, parte d'este genero serviu de costeio á
dita viagem, affectuada a qual nos nivela com zero; e tornando de
receber identico beneficio na viagem premeditada e realizada a
Moçambique, tornou ainda a abusar da boa fé do mesmo soba, porque o
actual senhor do Lui espera ainda pelo marfim e gente que acompanhou o
illustre viajante á mencionada terra.
Terminarei este paragrapho com duas palavras sobre a questão das côres.
Os inglezes sabem bellamente o quanto lhes teem custado estes mesquinhos
preconceitos. Os portuguezes estão ao facto da malquerença que entre
elles e seus irmãos do Brazil existe: no entretanto, nem uns nem outros
querem tomar o juizo perante os exemplos, a fim de uma vez por todas
acabarem com elles.
Nas mesmas pag. 74, 75, e 76 o seguinte:
«Mpepe (Pepe?) favorecia estes commerciantes de escravos, e elles,
segundo o seu costume, fundavam as esperanças de se tornarem
preponderantes no bom resultado da rebellião meditada. Conheceram
que o apparecer eu em scena havia de pezar na balança contra os
seus interesses. Um grande golpe de Mambari tinham vindo a Liniante
(_Rinhande_), quando eu andava herborisando nos prados ao sul do
Chobe (_Rio Quando?_). Chegando-lhes a noticia de eu estar alli
proximo, mudaram de rosto; e quando alguns Makololo, que nos tinham
ajudado a atravessar o rio voltaram com os chapéos que eu lhes
dera, os Mambari fugiram precipitadamente. É do costume que os
visitantes peçam licença com formalidade antes de se retirarem da
terra do chefe onde se acham, porém a apparição dos chapéos fez que
os Mambari enfardassem á pressa. Os Makololo informaram-se da causa
da precipitada retirada, e lhes disseram que, se eu alli estivesse,
lhes tomaria os escravos e as fazendas; e posto que Sekeletu lhes
assegurasse que eu não era salteador, mas sim homem de paz, fugiram
de noite, achando-me eu a sessenta milhas de distancia. Marcharam
para o norte, sob a protecção de Mpepe, construíram uma forte
estacada, d'onde alguns mulatos, commerciantes de escravos,
capitaneados pelo portuguez nativo, continuaram no seu trafico, sem
fazerem caso do chefe, em cujo territorio tinham feito incursão com
a maior semceremonia.»
«Accresce que, n'outro logar Livingstone, referindo-se a este mesmo
facto, accrescenta: _Alguns Mambari nos visitaram quando estavamos
em Naliele_.» São da familia Ambonda (_Quimbunda?_) que habita o
territorio ao sueste de Angola, e falla o dialecto bunda
(_Quimbundo?_) commum aos Barosse, (_Brose_, _Bruse?_) Baicie, etc.
São tão negros como Barosse, mas _vive entre elles grande numero de
mulatos_, distinctos pela sua côr peculiar de amarello doente. Os
_mulatos_, _os portuguezes nativos_, todos sabem lêr, e escrever, e
o cabeça do bando, se _realmente não é portuguez, tem o cabello
europeu_, e obrigado provavelmente pela carta de recommendação do
cavalleiro Duprat, arbitro por parte do governo de S. M. F. na
commissão mixta ingleza e portugueza na cidade do Cabo, mostrou-se
sinceramente desejoso de apresentar-me todos os bons officios ao
seu alcançe. Estas pessoas, _estou certo_, foram os primeiros
individuos de sangue portuguez, que viram o Zambeze no centro do
paiz, e chegaram lá dois annos depois da nossa descoberta em 1851.»
Ja tive occasião de dizer que, o soba como senhor absoluto do paiz
concentra na sua pessoa todo o poder, todos affirmam, mas ninguem se
aventura de reprovar a minima de suas acções; elle, e o sertanejo, são
as duas pessoas que unicamente se entendem sobre negocios: feliz d'este
se á primeira partida de marfim que recebeu lhe paga a factura, porque
todo o mais que fôr apparecendo de tributo até ao dia da sua retirada,
pertence-lhe, porque o vae recebendo proporcionalmente ao passo que fôr
chegando.
O tributo de escravos á sua chegada, depois de escolher os melhores para
o seu serviço, é distribuido pelo povo da localidade, verificando-se a
mesma particularidade nos mais ramos tributarios, com excepção das
canoas, e redes de pescar; aquellas para o serviço geral, e estas para
distribuir pelos pescadores. De tal regalia gozaram Pepe, em virtude dos
seus poderes illimitados; mais tarde Hiquereto; mais tarde Borollo; e
goza actualmente Hipopa. Esse grande numero de rapazes de 13 a 14 annos
de edade que tanto deram no goto do illustre viajante, tambem disse só
poderia ser transacção dos Bihanos. O sertanejo quando dá as suas
fazendas ás diversas pessoas de que se compôem a comitiva, é para a
permutação de marfim e jámais de escravos.
Agora, rebellião de quem, a favor de quem, e contra quem?...
Eu teria tudo a perder com ella, e nada a ganhar; no entretanto posso
affirmar ao illustre viajante que, effectivamente, tive propostas do
infeliz soba Pepe de cooperar com elle para o extreminio do soba
Hiquereto, a que respondi negativamente, fazendo-lhe vêr que tinha vindo
tratar dos meus negocios, e não ingirir-me em outros que me não diziam
respeito.
Propostas identicas me foram mandadas fazer da parte do soba Machico,
que rejeitei egualmente; ora se eu fosse natural de Zamzibar, e, quiça,
que inglez, tendo como tinha sufficientes meios de que dispor para o
effeito, talvez me inclinasse a acceitar taes offerecimentos que na
realidade eram brilhantes; mas sendo de opinião differente, não quiz
acceitar o que por tres vezes me foi offerecido: uma pessoalmente pelo
infeliz soba Pepe, e duas por parte do soba Machico, como acabei de
dizer. As medalhas teem verso e reverso, e quem assim não pensar
arrisca-se de cahir de muito alto.
E eu dava tanta importancia ao apparecimento do illustre viajante em
scena, ou melhor direi á sua sem razão no assumpto a que se refere, que
por elle sou justificado na minha semceremonia de transitar em todas as
direcções, n'um paiz que não era meu, mas onde, no entretanto, para
usofruir de tal regalia, havia comprado esse direito, contribuindo com o
competente tributo, como é de uso em todas estas paragens.
Quereria talvez o sr. Levingstone o exclusivo d'elle como Mentor do soba
Hiquereto?!
Dependeria eu d'elle em alguma coisa?!
Mas os Bihanos fugiram de que? Pela apparição dos chapéos, ou pela
noticia que tiveram de se achar proximo o illustre viajante, visto que
andava como diz: «herborisando nos prados ao sul do Chobe?»
Responderei que nem por uma nem outra coisa. Retiraram-se mas foi
realmente pelo illustre explorador andar «herborisando»... na boa fé do
soba Hiquereto, que a não ser tal circumstancia, talvez este se
resolvesse a vender o marfim que possuia, e que não vendeu por
insinuação sua, dirigindo-se então elles para Quiceque, e logares
circumvisinhos, bem assim para territorio do dominio da tribu Batebere,
onde permutaram as fazendas pelos dentes de elephantes, e não:
«Marcharam para o norte, onde, sob a protecção de Mpepe, construiram uma
forte estacada.» Esta estava concluida em fevereiro, quando a dispersão
do povo da comitiva teve logar em março de 1853, como passo a
demonstrar. Ella, e a bandeira das quinas que dei ordem de arvorar á sua
chegada, causariam ao illustre viajante sem duvida, a impressão de um
raio, qual a da minha apparição no Lui, como já tive occasião de dizer.
Por esse lado não tem razão, como effectivamente a não tem na maior
parte dos seus escriptos, attendendo a que a prioridade das descobertas
em Africa pertence de facto e de direito aos portuguezes. Agora, que na
terra a força disponha da justiça, o reverendo Dr. David Livingstone,
sabe perfeitamente que acima de nós existe um poder superior a nós,
perante o qual todos teremos de ser julgados.
Relativamente á celebre estacada de Catongo, ou muro de pau a pique, de
que acabei de falar, responderei que querendo eu ficar na margem d'além
do Riambeje, por estar ao facto das desintelligencias do soba Pepe com o
soba Hiquereto, aquelle fez-me vêr que tal passo não era do seu agrado,
em virtude do que, dei ordem para se passar para a margem d'aquem.
N'esta, foi-me destinada a montanha denominada Catongo, para fabricar o
estabelecimento, local verdadeiramente bello pela elevação que occupa, e
pela prespectiva que apresenta da sua sumidade. Dei principio e
conclusão áquelle fabrico em fevereiro do já citado anno, seguindo o
povo da comitiva para os differentes pontos do paiz no mez de março
seguinte, bem assim a comitiva de Moçambique, e isto depois de recebida
a ordem do soba Hiquereto para o indicado effeito, quando ainda o
illustre viajante não tinha chegado da sua tão apregoada segunda viagem.
Desgostoso pelos acontecimentos, fiz formal tenção de não voltar ao Lui;
despachei os meus empregados no anno seguinte de 1854, porém regressando
elles ao Bihé junto a emissarios do soba Hiquereto, e de sua ordem,
tanto insistiram commigo que resolvi seguir viagem em 1858. Chegando no
paiz fiquei na margem d'aquem do Riambeje, no estabelecimento de Luiz
Albino Rodrigues, e local dos primeiros, onde continuou fluctuando a
bandeira das quinas, além da que nos era inseparavel, quotidianamente,
na frente da comitiva, sendo então logar-tenente de Hiquereto, seu tio
Borollo, com quem communiquei no que dizia respeito aos meus negocios,
attendendo a que aquelle era apenas um automato da vontade d'este, e o
Lui, _Broze_, e _Bruse_ dos indigenas, era simplesmente a sombra de sua
passada grandeza. O movimento, e a vida do paiz, estava litteralmente
falando, em Rinhande.
Depois de ter despachado a comitiva para os seus differentes pontos, e
de ter chegado a esta capital, n'um dia, em occasião de conversar com
Hiquereto, disse-me elle que: o illustre viajante lhe havia dito não
approvar no paiz a presença de Macuas de Oeste, pois que pretendiam
apossar-se d'elle, havendo as provas do que avançava, na estacada por
mim feita em Calongo!!
Respondi ser falsa semelhante asserção, tendo elle provas mais
convincentes do contrario na minha recusa de voltar ao paiz, e quem
pretendesse assenhorear-se de qualquer dominio, não dava, por certo
semelhante passo, nem, ainda, se apresentaria com a força com que eu me
apresentava; poderia pois socegar por este lado, porque não seria da
minha pessoa que lhe resultaria o menor damno.
Podendo inferir-se de um tão insolito procedimento, a razão de ser que
existe na confrontação de portuguezes e inglezes, descripta a ps. quinze
da introducção, 68 e 231 do _Exame_, accrescentarei, que não levei
jámais a audacia a ponto de malquistar meus irmãos perante os selvagens,
considerando como meus irmãos todos aquelles que andam peregrinando por
estas paragens seja qual fôr a sua procedencia e naturalidade.
Em presença do que acabo de dizer, perguntará o leitor para que dirigia
a carta de offerecimento dos meus serviços ao illustre viajante;
responderei que então não quiz dar credito ao que Hiquereto me disse,
attribuindo a revelação a intriga dos familiares; hoje, porém,
verifica-se o contrario em presença dos factos que se apresentam.
É menos exacto egualmente o que o illustre viajante diz sobre dialectos,
isto é, ser commum a lingua Quimbunda ao povo Lui e Baieie; Como a ps.
191 do _Exame_ se trata mais detidamente do assumpto, responderei que, é
commum a lingua Quimbunda a grande parte do territorio Africano, podendo
fazer-se egual parallelo entre ella, e o dialecto Bunda (de Angola e
suas dependencias) áquelle que se dá entre a Portugueza e a Castelhana:
mas já não assim em relação aos dialectos Cafrial, Ganguella, Humbe,
Macorrollo, e Mullua; não menciono a tribu numerosa dos _Cassaqueres_,
especie de ciganos, de côr pardo claro, e errante pelo interior do
continente, em virtude do seu estado vagabundo. Aquelles tribus
espalhando-se com o correr do tempo pelo extenso e vasto solo que lhes
deu o berço, vieram mais tarde a mesclar-se umas com as outras, formando
nações diversas, e taes como existem presentemente. Os sabios de futuro
terão de resolver o problema.
Reservando para aqui as palavras que de proposito sublinhei de: «_Alguns
Mambari nos visitaram quando estavamos em Naliele_.» direi que não têem
qualificação possivel, visto que o illustre viajante foi visitado por
mim, e não pelos Bihanos, faltando por consequencia ao que deve a si
como cavalheiro, nivelando um outro com os selvagens.
A paginas 77 e 78 o seguinte; ouçamos o que diz ao ponto o Dr.
Livingstone, e ficaremos desenganados:
Mr. Oswell e eu nos dirigimos para Sesheh (_Quiceque?_) a cento e
trinta milhas ao Nordeste, e, no fim de junho de 1851, fomos
recompensados das nossas fadigas com o descobrimento do Zambeze no
interior do continente. Isto era de grande momento, porque d'antes
não se sabia que existisse alli aquelle rio. Os mappas portuguezes
todos o representam como tendo origem muito mais a Éste do lado
onde nos achavamos, e se em algum tempo tivesse existido coisa que
semelhasse uma serie de postos commerciaes atravez do paiz, entre
as latitudes 12.^o e 18.^o Sul, esta magnifica porção d'aquelle rio
devia ter sido conhecida. Nós o vimos no fim da estação estiva,
tempo em que o rio está mais diminuido, e comtudo levava então
corrente de agua profunda na largura de tresentas a seis centas
jardas. Mr. Oswell declarou que nunca vira rio tão formoso (_que
não tem em tal logar formosura, visto ser despido de arvoredo_),
nem mesmo na sua India. No tempo da sua inundação annual eleva-se
perpendicularmente vinte pés e alaga quinze ou vinte milhas de
terras adjacentes ás suas margens.»
Não obstante repizar n'um objecto que não admitte controversia, como
seja o Riambeje visitado em antiga data pelos meus concidadãos;
anteriormente a 1845 pela minha gente em territorio do dominio da Lunda,
e d'esta data por deante no Lui, lembrarei a feira de Cassange
estabelecida de antiga data, e da qual ainda me não occupei. Os
portuguezes ahi estabelecidos enviavam e enviam suas fazendas pelo
interior, tomando diversas direcções, e em algumas, segundo os pontos a
que se dirigem, passam e tornam a repassar o Riambeje. Em identicas
circumstancias temos os portuguezes residentes nas Pedras de
Pungoandongo, as suas fazendas seguem da mesma fórma para todos os
pontos do interior, em alguns passam e tornam a repassar o
Riambeje,--_Riambei_ e _Riambeje_, nomes empregados commummente pelos
indigenas por estas paragens, para designar o grande rio, e cujas terras
banha com as suas aguas, o qual, como já tive occasião de falar, é o
manancial de mais longo curso conhecido aqui em Africa.
No dia 20 de janeiro de 1848 na viagem dos meus empregados, eis o que
digo em relação a este rio:
--«Passámos o Riambeje para a margem opposta, ao qual se torna
impossivel marcar as braças que poderá ter, em consequencia de ser um
grande descampado todo cheio de agua na presente estação; o rio dirige o
seu curso pelo centro, as canoas largando da margem direita para a
esquerda, gastam seis horas de bom remar na ida e volta. O Riambeje tem
a nascente na terra do dominio da Lunda denominada _Musso-candanda_, e
vae desaguar no mar para o Oriente.»
Na actual viagem encontrei no estabelecimento Bonifacio José Basquete e
o seu empregado João Francisco da Silva; aquelle senhor na sua viagem do
Bihé para Cazembe-mucullo, passou, a um dia de distancia d'aquella
terra, o Riambeje, com agua pela curva da perna; accrescentando o dito
seu empregado, que, a gente da povoação Namoanna Hicungo, do já citado
dominio de Musso-candanda, está situada na cabeceira do rio em questão,
d'onde tiram agua para seu uso diario. A povoação de um dominio qualquer
pode existir hoje, e amanhã desapparecer em virtude da sua fórma de
governo, mas já não a terra de Musso-candanda, ou mesmo outra qualquer
em dominio poderoso; mudam apenas os sobas. Concedendo porém que assim
não seja como acabo de transcrever, é fóra de toda a duvida que qualquer
rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel que seja com a agua pela curva da
perna, d'ahi á sua cabeceira não podem distar mais de quatro dias de
jornada, a experiencia assim m'o tem ensinado. Fica pois demonstrado que
não tem razão de ser a pretensão do illustre viajante á descoberta do
Riambeje no interior do continente, em 21 de junho de 1851, querendo
ainda corroboral-a com a presença de mr. Oswell, attendendo a que muito
anterior á sua apresentação no dito local, isto é, de fins do seculo
passado até ao presente, os portuguezes o teem passado e repassado em
todos os pontos banhados pelas suas aguas.
A paginas 79 e 80 o seguinte:
«Fallando do reino de Matiamvo, e do desejo que tivera de visitar
este potentado, diz o dr. Livingstone: Que lhe asseguram, assim os
commerciantes indigenas, como os naturaes de Balonda (_Calundas?_)
que um braço consideravel do Zambeze, corre no territorio a leste
da capital, e caminha ao sul. «Todo este braço (accrescenta o dr.
Livingstone) incluindo o ponto, d'onde toma a oeste, para Masiko
(_Machico?_) está assignalado no mappa (d'elle Livingstone)
provavelmente em demasia ao nascente. Foi assim marcado quando eu
pensava que o Matiamvo e Cazembe ficavam mais a leste do que tive
ao depois motivo para julgar. Sendo todas estas indicações
derivadas do testemunho dos indigenas, eu as dou com desconfiança,
e como carecendo de ser verificadas por novos exploradores.