vezes no quartel de Lippe e na academia de Antonio Diniz.
MARQUEZ
Ah! conhecia-o?... Não lhe dá ares do Conde dos Arcos, que tão
desgraçadamente... (_suffoca-se, e desvia o rosto para limpar
escondidamente as lagrimas; pequena pausa; mais senhor de si_) É
tristeza que me não deixa, e é paixão que nunca me hade passar! Não
posso ver qualquer dos meus filhos que me não lembre aquella
fatalidade!... Ha quem murmure de me não ter deixado d'estes
exercicios... Não pensam que assim se fazem homens para as armas, e
soldados para a patria... Na minha casa os costumes transmittem-se
intactos como a honra. Deixal-os murmurar.
GONÇALO
Quem se atreveria a murmurar do venerando patriarcha dos Marialvas, tão
respeitado e tão querido na côrte e no povo!
MARQUEZ
Deixal-os. Não sei que façam mais do que nós; com as suas modas de
hoje!--Deixal-os, e deixemos tambem o que não vem para aqui.--O dia é de
alegrias, e creio que tem bom quinhão n'ellas. Cumprimentei já a sr.^a
D. Maria Joanna Galvão. Uma dama completa. Não podia escolher melhor...
nem ella tambem. Supponho não ser indiscreto.
GONÇALO
A sr.^a D. Maria Joanna já me permittiu confessar francamente o que era
ha muito a minha secreta esperança, o que hoje se me fez inapreciavel
realidade.
MARQUEZ
Estimo... estimo-o devéras.--Uma dama prendada, um valente soldado...
boas familias... elevados sentimentos... Vae tudo de accordo.--É assim
que se perpetuam as casas honradas... Hade, prevenir-me quando fôr o
casamento.--Não andará longe, não?--É festa de que tambem me não
dispenso. O regosijo dos velhos é casar os moços... (_com os olhos no
terrasso_) A sua familia nova já ahi anda... O meu afilhado, esse
madrugou, como é natural... Estão todos, creio... É cedo... ainda me não
deram parte de ter chegado o tabellião.--E o nosso poeta?... o nosso
novo guarda-marinha?... Vem de certo.
GONÇALO
Não o tenho visto. Disse-me que ia a Setubal despedir-se dos paes.
MARQUEZ
Voltou ha tres dias... D'onde procederia aquella resolução repentina!...
GONÇALO
Do mais generoso impulso!
MARQUEZ
Quiz-me parecer...--Que logo de cabeça! Vae em tudo aos extremos.--Ou
hade subir muito alto, ou fazer-se muito infeliz!
GONÇALO
O mesmo diz a sr.^a D. Maria Joanna.
MARQUEZ
É ella que o Hade saber avaliar!... Do espirito e do coração da sua...
da sua noiva... vamos, póde-se já dizer.
GONÇALO
Póde.
MARQUEZ
Do seu espirito e coração tinha ouvido muito Hontem porém fui ainda mais
informado. Esteve aqui o Juiz do Civel da Côrte, que se não cançou de me
gabar a nobreza e desinteresse que provou com a restituição dos vinculos
á prima. Ella mesma desfez todas as difficuldades... e com tal zelo, com
tal contentamento!... A proposito, deu-me tambem a entender coisas um
pouco desagradaveis a respeito do Morgado da Gésteira, e do Commendador
de Monsarás... Quasi que me arrependi de lhes ter aberto as minhas
portas... Sabe se com effeito...
GONÇALO (_constrangido, e volvendo os olhos com frequencia para o
terrasso_)
Que heide eu saber, sr. Marquez?
MARQUEZ (_reparando_)
Fiz a pergunta sem reflexão. Contaram-me tambem que se mostram seus
inimigos declarados... e os homens como o sr. Gonçalo Mendo nunca fallam
de um inimigo pelas costas... Essa mesma resposta confirma o que me
disseram... Que o Morgado, fraco inimigo póde ser... Mais de temer é o
Commendador... (_movimento de Gonçalo_) de acautelar, quero dizer... tem
relações que... (_notando como elle olha para o terrasso_) Não o
preoccupam agora os inimigos, vejo... e tem razão... (_sorrindo_) Hade
querer cumprimentar as senhoras. Na minha edade já se esquecem
facilmente essas impaciencias.
GONÇALO
Sr. Marquez!... Não pense v. ex.^a...
MARQUEZ (_festivamente_)
Não pensava, não pensava... Acompanho-o tambem.
(_Vae a sair; D. Maria Joanna vem a entrar, seguida do Morgado, que se
retira logo vendo o Marquez e Gonçalo_.)
SCENA III
OS DITOS, D. MARIA JOANNA
MARQUEZ (_inclinando-se affavelmente_)
Minha senhora! Não lhe queira mal pela demora. O culpado fui eu:
faltei-lhe a seu respeito. (_reparando para fóra_) É sua tia que está
alli?
D. MARIA JOANNA
É, sr. Marquez,--encantada do palacio, da vista, do dia, do Tejo... e
principalmente de v. ex.^a!...
MARQUEZ
E eu que tão mal lhe pago, que ainda quasi lhe não fiz as honras da
casa, nem lhe cumpri a palavra. (_Desapparece no terrasso_. _D. Maria
Joanna vae a seguil-o_. _Gonçalo detem-a_.)
SCENA IV
GONÇALO, D. MARIA JOANNA
GONÇALO
Esquivava-se ao Morgado, pareceu-me. Esse homem atreve-se ainda a
perseguil-a?
D. MARIA JOANNA
O Morgado?... O Morgado não póde perseguir ninguem! Cuido que tentava
não sei que justificação... Nem eu percebi... Andava passeiando no
terrasso. Ao passar, ouvi a sua voz aqui: entrei... para o não ouvir, a
elle.
GONÇALO (_contendo a colera_)
Tenho agora direitos sagrados. Se o Morgado ousou...
D. MARIA JOANNA
Ousou... evaporar-se apenas o viu. Ora, vamos... é homem que inquiete
alguem, o Morgado?... Começa a fazer de marido cioso?... Previno-o de
uma coisa... tenho horror aos ciosos! (_gracejando_) Se não póde
conter-se, estamos a tempo ainda!...
GONÇALO
Não me contive eu tres annos... padecendo a ausencia... sem uma palavra
de esperança ou de conforto... vendo-a repartir sem differença graças
que só para mim cubiçava, agrados pelos quaes dera a vida?
D. MARIA JOANNA
Não verão o avarento!... Ahi está o que estes senhores querem... e ahi
está porque eu fugia de prender-me!... Se não fazemos differença nos
agrados, um côro de suspiros, uma circular de queixumes... todos a mesma
coisa... Apenas temos a fraqueza de mostrar uma preferencia, o
favorecido converte-se em tyranno, e pede-nos conta... até dos sorrisos
passados.--Bem me dizia em Paris o cavalheiro de Florian... um moço de
gosto e saber.
GONÇALO
Que lhe dizia?
D. MARIA JOANNA
Que para uma dama era inestimavel presente de Deus a mocidade e a
independencia.
GONÇALO (_picado_)
Ah!... (_tristemente_) Repito-lhe então as suas mesmas
palavras:--estamos a tempo ainda!...
D. MARIA JOANNA
Eil-o ahi já todo serio e enfadado! Valha-me Deus!... não vê que estou
gracejando?--A independencia... a nossa independencia!... Muito é para
invejar, na verdade!... Parece á primeira vista que nos festejam e nos
adoram. Examinando bem... não ha mais duro captiveiro do que similhante
liberdade... Os galanteadores são sentinellas, os lisongeiros
espias.--Não foi tão vigiada a nympha da fabula. Ao menos os cem olhos
de Argos fecharam-se uma hora...
GONÇALO (_sorrindo_)
E não foi preciso mais!
D. MARIA JOANNA
Malicioso! (_em tom mais jovial_) Estes Argos interesseiros não os
fecham nem de dia nem de noite. Não sei como fazem, que se fortalecem da
vigilia, como os outros do repouso. Para qualquer lado que nos voltemos,
lá estão elles com os madrigaes assestados. Cada protesto de respeito é
uma atalaya dissimulada. Cada cumprimento é uma bayoneta posta ao peito
para nos tomar o passo... E que severa inquisição!... Se olhamos, é
leviandade; se rimos, inconstancia; se nos desviamos, desdem... se
baixamos os olhos, é disfarce; se choramos, é fingimento; se estamos
sisudas, é reserva... Até se nos encerramos, nos poem á porta a
suspeita!... As mesmas illusões de uns, se fazem nos outros furibundas
indignações. Suffoca-n'os um circulo insuperavel de cortezias
insidiosas, de reverencias desconfiadas, e de homenagens hostis...
(_seriamente_) e quando menos o pensamos, achamo-n'os envolvidas pela
astucia, pela cubiça, pela perfidia... não poucas vezes pela
calumnia!--Eis aqui a nossa independencia!... (_no tom anterior_) O
cavalheiro de Florian ainda não conhecia o mundo!
GONÇALO (_gracejando tambem_)
Dês de quando faz essa idéa da independencia feminina?
D. MARIA JOANNA (_gravemente_)
Dês que uma protecção opportuna me libertou d'esse ambito oppressivo...
cheio de laços e de perigos... e me fez respirar os ares limpos e sãos
de um nobre e generoso affecto!... (_com gentileza_) Não sei se
vacillava ainda... (_dando-lhe a mão com meiga dignidade_) Sei que
d'esse instante para diante não vacillei mais.
GONÇALO (_beijando-lhe a mão, e conservando-lh'a nas suas_)
Desculpa um momento de irreflexão?
D. MARIA JOANNA (_esquecendo a mão nas de Gonçalo_)
Ninguem é perfeito n'este mundo.
SCENA V
OS DITOS, _e_ BOCAGE _da D_.
(_Bocage entrando, vendo-os, e detendo-se_.)
D. MARIA JOANNA
Ah!... O sr. Bocage? (_retira vivamente a mão_.)
BOCAGE
O anão da casa encaminhou-me para aqui. Se sou importuno... (_como para
sair por onde entrou_.)
GONÇALO (_indo a Bocage e detendo-o_)
Era esperado, e desejado... venha. (_descendo com elle_) Ninguem
aceitaria com mais satisfação para confidente dos meus alvoroços.
D. MARIA JOANNA
Não é já o sr. Bocage da nossa intimidade? Não me esqueceu ainda!
BOCAGE (_com forçada jovialidade_)
Filho de Marte e de Venus pintaram o Amor. É indispensavel corrigir a
mythologia... O Amor, de menino fez-se homem; de azougado cordato; de
despido composto; de vendado attento... abjurou por fim a gentilidade, e
até de pagão se converteu a bom catholico... para santamente unir e
abençoar, como o pediam os seus merecimentos, um novo Marte e uma Venus
melhor!
GONÇALO (_fitando-o_)
Porque violenta o espirito?... Esse tom festivo tem o que quer que seja
de febril... não vem do coração.
BOCAGE (_naturalmente_)
Não vem, não; diz bem. No coração... tenho uma tristeza profunda... uma
dôr que eu desconhecia.
GONÇALO (_apertando-lhe a mão_)
Comprehendo. Sente agora o sacrificio!
BOCAGE
Não a merecia!... Deus não quiz!
D. MARIA JOANNA
Arrepende-se?
BOCAGE
Não, minha senhora, não me arrependo. Fiz o que devia fazer...
D. MARIA JOANNA
O que poucos saberiam fazer tão bem!
BOCAGE
Mas a impressão não se apaga assim!... (_a Gonçalo_) Confessei-lhe a
minha natural inconstancia... Conhecia mal esta grave e sincera
affeição, que podia emendar-me... que outro me tornaria talvez!... Que
lhe heide fazer? Bem certo é, que só se dá valor ao bem quando se
perde!...
D. MARIA JOANNA
Hade encontrar um coração que o aprecie... Com o seu merito!... A
felicidadade, que hoje cuida perdida, facil lhe será restaural-a.
BOCAGE
Duvido, minha senhora. Ama-se uma só vez assim... quando se ama. Está em
mim mesmo, está na minha indole, o germe do infortunio. Se o podia
atalhar alguma coisa, era isto... (_resignando-se_) Enfim não estava
para mim!... (_abatido_) A imprudencia foi prometter que viria aqui
hoje... Vinte vezes tive tentações de voltar para traz... Faltava-me o
animo!
GONÇALO
Isso não. Tempera-se a alma nos lances difficeis. E na vida que vae
seguir é preciso ter coração para tudo.
BOCAGE (_recobrando impetuosamente a resolução_)
É.--Isso pensei; por isso vim... e verá!--Era fraqueza: não lhe quiz
ceder. Seria encetar mal uma carreira, em que o sacrificio é condição de
todas as horas, em que o esforço é necessidade de todos os momentos!
N'estas procellas d'alma quero dispor-me para as tempestades temerosas
que resolvem os céos e os mares. O espirito sacudido de embates
angustiosos, que em si mesmo lutou e venceu, está preparado para se não
assombrar nem desmaiar, quando os horisontes se condensam... e os ventos
se desencadeiam... e os abysmos se rasgam... e a crista das vagas,
empinadas como serras, se cruza com a fita do raio, livido como
espectro... quando os silvos do vendaval na enxarcia parecem ais de
agonisante... quando, n'esse tumulto, n'esse horror, n'esse cahos, o
baixel que o valor sustenta, que a intelligencia dirige, que salva a
pericia, range até ás profundezas com o stertor do moribundo!...
Attrae-me, convida-me a perspectiva... E quasi me esqueço do mais... e
todo me ufano revendo-me n'este uniforme, que significa a honra o dever,
o patriotismo, a abnegação... contemplando aquelle glorioso estandarte,
que se já não varre as aguas como conquistador, se já não as senhoreia
como soberano, hade no mundo ser sempre venerado por acções egregias...
hade em Portugal ser sempre saudado de legitimas esperanças!
GONÇALO
Com esses sentimentos, sr. Bocage, não ha magoa que não se console...
não ha grandeza a que se não aspire!
BOCAGE
Os sentimentos... São, sim... estes são, estes devem ser.--(_comsigo_)
Mas o que faz d'elles muitas vezes o destino!
GONÇALO (_olhando para o terrasso_)
O marquez dirige-se para aqui, se não me engano.
D. MARIA JOANNA (_olhando_)
Veem todos.
BOCAGE (_idem_)
O commendador e o morgado são os primeiros! (_a Gonçalo_) Teem-me feito,
pagar bem caro o peccado das más companhias, estes heroes.
SCENA VI
OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO
MORGADO (_ao commendador_)
O que eu vejo, commendador, é que está tudo perdido!
COMMENDADOR (_ao morgado_)
Socegue.--A tempo chega quem sabe dispôr as coisas. «Hoje por vós,
amanhã por nós.» Affirma Cicero que um dia basta para pôr termo aos
triumphos.
BOCAGE (_a Gonçalo_)
Aves de ruim agouro!
GONÇALO
Que hão de agourar-nos agora?
SCENA VII
OS DITOS, MARQUEZ, (_entrando sem dar attencção ao commendador e
morgado, que se inclinam_)--_Depois_ Um ESCUDEIRO, _de habito de
Christo_
MARQUEZ
Vão sendo horas. (_a D. Maria Joanna_) Manuel Simões não cabe em si de
contente, e sua tia anda nos ares. (_vendo o escudeiro_) Creio que
chegou o tabellião. (_O escudeiro dirige-se respeitosamente ao marquez,
e diz-lhe algumas palavras em voz baixa_.) Está ahi com effeito. (_ao
escudeiro_) Mande entrar, e mande pôr as cadeiras.
SCENA VIII
OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA GERTRUDES, FRANCISCO, MANUEL SIMÕES _e_
CONVIDADOS
D. FELICIA (_vendo Gonçalo, jovialmente_)
O sobrinho não tem pressa de cumprimentar a sua tia nova?... Não lhe
chega o tempo, já vejo... Era bem feito que me oppozesse agora!
GONÇALO
Para nos cobrir de tristeza!
D. FELICIA
Ai! não... não quero vêr ninguem triste... Sabe?... O sr. marquez!...
Oh! grande marquez!... O sr. marquez entregou-me já o alvará de
açafata.--Que dia!--que dia para a familia, sobrinha!... Estou curada
dos meus hystericos!
D. MARIA JOANNA
Parabens, minha tia!
MANUEL SIMÕES (_impaciente, ao marquez, mas sem nunca esquecer o usual
acatamento_)
O tabellião traz já as escripturas promptas, meu senhor.--É só assignar.
MARQUEZ
Ler e assignar.--Vejam como vem guapo o nosso guarda marinha!... (_a
Bocage_) Quando levanta ferro a nau?
BOCAGE
Amanhã, sr. marquez.
MARQUEZ (_aos circumstantes_)
E de uniforme grande, em honra do dia. Não lh'o agradece, Manuel Simões?
FRANCISCO
Sou eu... (_indicando D. Maria Gertrudes_) somos nós dois... que
principalmente lhe devemos agradecer. (_indo a Bocage_) Se os votos
d'uma gratidão profunda pódem ser-lhe aceitos... asseguro-lhe que não os
ha mais ardentes e sinceros.
D. MARIA GERTRUDES
Hão de acompanhal-o sempre as nossas orações!
BOCAGE (_commovido_)
As orações dos anjos são para os infelizes... (_com esforço_) e eu...
sou apenas um desterrado voluntario!
MANUEL SIMÕES
Ahi vem o tabellião.--(_comsigo_) Meu filho doutor!... minha sogra
açafata!... a minha nora morgada!... por compadre um marquez!--Está-me a
cair o habito de Christo!...
SCENA IX
OS DITOS, O ESCUDEIRO _precedendo_ O TABELLIÃO, _e seis ou oito criados_
(_O tabellião entra fazendo reverencia a todos, e inclina-se
profundamente diante do marquez; sob indicação do escudeiro toma o seu
logar á meza em pé, e desenrola as escripturas._--_Os criados chegam ao
marquez uma cadeira d'espaldas, e collocam em torno da meza mais algumas
cadeiras communs. O marquez e as damas sentam-se. O escudeiro fica á
frente dos criados, fazendo parede ao F._)
MARQUEZ (_sentado, ao tabellião_)
Póde começar a leitura. (_O tabellião dispõe-se a ler_.)
MANUEL SIMÕES
Ainda o não posso crêr!
GONÇALO (_por detraz da cadeira de D. Maria Joanna, que fica na
extremidade_)
Chegará tambem brevemente o nosso dia!
SCENA X
OS DITOS _e_ UM PAGEM
(_O pagem entra apressadamente com uma bandeja de prata, e em cima um
officio; dirige-se ao marquez, ao qual apresenta a bandeja com um joelho
em terra_.)
MARQUEZ (_vendo o pagem, ao tabellião_)
Queira esperar. (_recebendo o officio_) O que será? (_O pagem retira-se
para o lado_.) É para o sr. Gonçalo Mendo... traz o sello da secretaria
de estado... Provavelmente não o achou em casa o correio, e disseram-lhe
que estava aqui. (_O pagem vae receber o officio da mão do marquez,
leva-o a Gonçalo Mendo, e sae_.)
GONÇALO
Para mim... Da secretaria?--(_recebe o officio, abre, e lê, com visivel
gitacão_.)
COMMENDADOR (_de parte, ao morgado, tirando a caixa_)
Quer apostar que se não faz o casamento de sua prima!
(_O marquez observa-os_. _Bocage não tira os olhos d'elles_.)
MARQUEZ (_inquieto_)
Que é?
GONÇALO (_consternado_)
A nomeação de capitão de Sofála... e ordem terminante de partir na nau
de viagem, que sae amanhã!
D. MARIA JOANNA (_erguendo-se com um grito angustioso_)
Jesus! (_Soccorrem-n'a D. Felicia e D. Maria Gertrudes_.--_Erguem-se
todos, e affluem em roda de Gonçalo_. _Mostras de pezar na familia_. _O
morgado não póde conter o alvoroço_. _Bocage continúa a observar os
dois, refreado unicamente pelo respeito da casa_.)
MARQUEZ (_admirado_)
Tinha requerido?
GONÇALO
Eu, sr. marquez!--N'esta occasião!...
COMMENDADOR (_saboreando a pitada hypocritamente_)
Que transtorno!... No livro 5.^o da Eneida ha...
BOCAGE (_prorompendo_)
Sei eu... vejo eu d'onde vem o tiro...
GONÇALO (_dolorosamente_)
Acertaram-m'o no coração!... (_Breve pausa_.--_A Bocage, com animo
inteiro_) Somos companheiros de viagem.
(_D. Maria Joanna soluça, com o lenço nos olhos, nos braços de D.
Felicia, e sua prima_.)
BOCAGE (_impetuosamente_)
Não póde ser... não deve ser... O ministro foi enganado!
MANUEL SIMÕES (_insinuando_)
Uma palavra que o sr. marquez diga a Sua Magestade!...
MARQUEZ
Parto d'aqui a um instante para Samora. Vou fallar á rainha, minha
senhora. Ha tempo ainda.--Não embarca, sr. Gonçalo Mendo. (_ao
escudeiro_) Que apromptem o meu escaler. (_O escudeiro vae a sair, e
detem-se á voz de Gonçalo_.)
GONÇALO
Peço perdão, sr. marquez: embarco.--Sei o que v. ex.^a póde... mas sei
tambem o que devo.--(_grave e solemne_) Quando ultimamente fui tomar
posse do meu solar de Mendel, aonde não voltara dês que entrei no
collegio dos Nobres, a primeira coisa que me deu nos olhos, na sala de
respeito, foi a longa fileira dos retratos de meus avós... um morto na
defeza de Ceuta... outro espedaçado nos bastiões de Diu... outro
mal-ferido na batalha de Montes Claros!... Todos com o arnez no peito e
a espada no cinto... todos soldados desde Aljubarrota!... Parei a
contemplal-os na vasta quadra, triste e deserta, que novamente a morte
visitava.--Do alto das sombrias paredes pareciam dizer-me aquelles
vultos severos: «por servir a patria, e para servir a patria, nos foi
dado o patrimonio que te deixamos, com as obrigações do nosso nome, com
as tradicções do nosso sangue. De ferro eram os nossos corações, como
eram de ferro as nossas armaduras... nunca tremeram nos riscos mais
affrontosos... nunca vacillaram nos mais apertados transes!... Esta
immaculada austeridade nos fez estimados e honrados... Tal é o deposito
de virtudes hereditarias que te confiamos... Recebe-o para o transmittir
como o recebes.»--Isto julguei ouvir... isto se me gravou n'alma.--Podia
esquecel-o agora?
BOCAGE
Mas essa nomeação foi solicitada pela perfidia... essa ordem...
GONÇALO (_atalhando_)
É da patria. Não a examino; obedeço-lhe. Foi o que prometti quando jurei
bandeiras.--O primeiro predicado militar é a obediencia: o valor é
apenas o segundo. (_vehemente_) O soldado que se nega a obedecer é como
um desertor em dia de batalha,--atraiçôa egualmente o juramento! Ninguem
ousaria aconselhar-m'o... ninguem espera tal de mim! (_D. Maria Joanna
alça o rosto, e escuta-o attenta, enxugando os olhos_.)
BOCAGE
Não, o esquecimento do dever ninguem lh'o poderia aconselhar... Mas o
estado que vae tomar, mas a familia que lhe abre os braços, não lhe dita
deveres tambem?
GONÇALO
A patria é a familia das familias!--Se uma veneranda mãe chama por seus
filhos em nome da honra commum, qual póde recusar-se? com que pretexto
hade eximir-se?--Os affectos de familia! Quem é o desamparado que não
tem alguma familia? Se essa razão prevalece, ninguem servirá. Mais que
para qualquer, para nós, os que seguimos a profissão das armas, e a
patria mãe rigida e imperiosa, mas amada sobre tudo. Ainda mais sua do
que nossa é aquella honra que entregaram á nossa guarda. Que filho
consente que a honra de sua mãe possa entrar em duvida?--Sr. Bocage, o
pundonor do soldado não exige menos que a isenção do poeta. Um passo
para ficar... (_com os olhos no Commendador e Morgado_) e não faltará
quem diga que eu... eu, um militar, um portuguez, um neto de
veteranos!... recuei diante dos perigos do clima, ou da azagaya dos
cafres... A calumnia é a espada da hypocrisia... não tem outra. Haviam
de dizel-o. (_com resolução enthusiasta_) Não o dirão... Podem os meus
inimigos triumphar com o meu supplicio; não triumpharão com as minhas
fraquezas. Ninguem dirá nunca de Gonçalo Mendo, que o viu hesitar... nem
diante da catastrophe subita das mais justas esperanças!
BOCAGE (_desesperado_)
Não tenho palavras que o convençam? (_indicando-lhe D. Maria Joanna_)
Veja se resiste áquelle rosto, áquella dôr, ás supplicas alli
estampadas, á voz e ás lagrimas que mais do que eu o persuadirão.
D. MARIA JOANNA (_descendo, triste e gravemente_)
O que existe no mundo mais santo do que o amor puro de duas almas, que
uma da outra vivem, que uma para a outra só querem viver? Ha distancia
que lhes desate os laços? (_crescendo em vehemente sensibilidade_)
Haverá golpe que lhes corte os vinculos? Não lhes são communs as
alegrias? Não lhes são communs as penas? Não lhes é tudo commum? Póde
alguem separal-as em sentimentos, quando foi o sentimento que as uniu,
que das duas fez uma, quer para viver, quer para pensar, quer para
soffrer? (_Pausa_. _Com ponderativa energia_.) É a mulher de um soldado
a companheira de todos os seus perigos, de todos os seus trabalhos... e
de todos os seus deveres. A gloria d'elle é unico desvelo, unico fito,
unico enlevo d'ella. A obediencia, que é n'elle empenho, n'ella é
culto... Cumpre que seja em ambos a resolução egualmente heroica. Se não
póde acompanhal-o nos dias de batalha... póde esconder-lhe o pranto nos
dias de provação!... (_Pausa meditativa_. _Com subito e convulso
esforço_.) Vá, sr. Gonçalo Mendo... vá que eu espero-o!
GONÇALO
Não, sr.^a D. Maria Joanna. Admiro a nobreza do seu animo... para mais
sentir o que n'elle perco... mas o sacrificio da sua mocidade pesaria
eternamente sobre a minha consciencia.--Restituo-lhe a palavra que me
deu. É livre.
D. MARIA JOANNA (_solemne e decidida_)
Sr. Gonçalo Mendo, se na sua familia o juramento é timbre que a tudo
sobreleva, na minha casa dão-se juntamente o coração e a palavra, e a
palavra só deixa de obrigar quando o coração deixa de bater. Póde
julgar-se livre; eu não. Se tiveramos tempo de consagrar a nossa
alliança, podia negar-me o favor de acompanhal-o? Se estivessemos já
unidos á face do altar, teria acaso direito de dizer-me: «restituo-lhe a
palavra e a liberdade?» Considero-me ligada perante Deus: só Deus me
póde desligar. Ámanhã recolho-me ao convento de Santos. Unicamente a sua
mão me abrirá aquellas grades!
GONÇALO
Quem se não deixará vencer?--Á volta irei dedicar-lhe esta vida, que já
toda lhe pertence. Hade permittil-o Deus!
MARQUEZ (_intervindo_)
Fizeram todos o seu dever. Tenho tambem um para cumprir... (_para o
Commendador e Morgado_) Ás pessoas, que eu protejo, nem o proprio
Marquez de Pombal se atreveu nunca! (_fulminando-os de desdem_) Sr.
Morgado da Gésteira, precisa sair de Lisboa e tornar quanto antes para a
sua terra... (_O Morgado fica attonito_.--_Com intimativa_.)
Precisa.--Hade ter disposições que fazer. Não o quero demorar... (_O
Morgado percebe e encaminha-se todo encolhido e confuso á porta da D._)
Espere... o seu amigo Commendador deseja acompanhal-o.--Sr. Commendador,
é provavel que a Meza da Consciencia lhe queira tomar contas do modo por
que tem cumprido os encargos da sua commenda. (_O Commendador, que ao
principio ouvia altivo, resigna-se tambem o segue o Morgado_.)
SCENA ULTIMA