Que pena ter enrouquecido a menina Escholastica! Tambem, havia de ir

logo sentar-se ao pé do corredor... Não foi senão o ar da porta com o

calor do chá... (_á Dama_) Quer a sua pelicia, minha joia? (_gesto

negativo_) Tomára que ouvissem!... Canta as modinhas brazileiras como

ninguem... Tem uma graça n'aquelles tons menores!... É mesmo...

COMMENDADOR (_atalhando_)

Uma suspensão.--E é, na verdade, é.

GONÇALO (_a D. Maria Joanna_)

Não lhe dizia eu? Faltou-lhe o seu _tudo_.

D. MARIA JOANNA

Faltando-lhe... tudo, como havia de ter voz!

GONÇALO

São os namorados mais extremosos! Ella, sangrou-se ha tempos. Elle, foi

logo procurar o cirurgião, e deu-lhe cinco moedas pela lanceta!

D. FELICIA

Felizmente veio o sr. Bocage. Não imagina como estamos impacientes por

ouvil-o. (_Sentam-se_. _Tomam todos os seus anteriores logares_.

_Unicamente D. Maria Gertrudes passa á E. de sua mãe_. _Bocage fica em

pé junto a D. Felicia na extremidade E. e o Commendador em pé ao lado do

Morgado, defronte_.) Aqui é melhor, não? O padre procurador não acaba

com as suas historias!...

BOCAGE

Pedi já desculpa, sr.^a morgada. Fui passar o dia ao Lumiar. Na volta

demorei-me mais do que desejava no Campo Pequeno. Ha toiros ámanhã.

GONÇALO

No Campo Pequeno? Tinham-me dado idéas. É cavalleiro o Manuel dos

Santos, não?

BOCAGE

É. E o Romão a pé.

MORGADO (_intromettendo-se_)

Tem disposições o Manuel dos Santos. Chama bem á estribeira; mas não tem

pulso para o rojão, e á espada é fraco. O Romão com as farpas não vae

mal. Se um dia me resolver...

BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

A sr.^a D. Maria Joanna vae?

D. MARIA JOANNA (_que estava entretida_)

Como, sr. Bocage? (_percebendo_) Não vou. Confesso que não é dos

divertimentos mais do meu gosto.

D. FELICIA

Ouvi que se não correm touros em França. Naturalmente hão de dizer mal

de nós por isso.

D. MARIA JOANNA

Nem todos. Ao conde de Saint-Germain, que os tinha visto em Hespanha no

tempo de Filippe V, ouvi eu que era apaixonadissimo.

BOCAGE

No tempo de Filippe V! Quantos annos tem hoje esse conde de

Saint-Germain, e quantos tinha quando esteve em Hespanha?

D. MARIA JOANNA

Esteve em Hespanha e percorreu o mundo. O conde de Saint-Germain é um

viajante como não ha outro. Beijou a mão a Francisco I na vespera da

batalha de Pavia; conheceu El-Rei D. Sebastião quando se preparava a

expedição d'Africa; e teve em Cuba amisade com Fernando Cortez antes de

este ir conquistar o Mexico.

BOCAGE (_rindo_)

Parece tão convencida! Ninguem dirá que está gracejando.

D. MARIA JOANNA

Mas não estou.

BOCAGE (_rindo_)

Ha então em França Mathusalens ainda? Julgava perdida a especie.

D. MARIA JOANNA

Um Mathusalem! Na apparencia não. Quem o vir dirá que tem a edade do sr.

Morgado, pouco mais ou menos... (_maliciosa_) antes para menos que para

mais.

MORGADO

E conheceu El-Rei D. Sebastião! Essa agora!...

D. MARIA JOANNA

Diz elle. Pergunte ao sr. Commendador, que o viu na embaixada, e lhe

fallou nas salas do meu contra-parente D. Vicente de Sousa. É verdade,

sr. Commendador?

COMMENDADOR

É verdade. E viu-o toda a gente em Paris. O conde affirma que possue o

elixir da immortalidade. Só assim.--O grande Raymundo Lullio refere...

BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

E os parisienses acreditam isso?

D. MARIA JOANNA

Acreditam.

BOCAGE

Fallem-me então na credulidade portugueza.

D. MARIA JOANNA

Duvidaram ao principio. Agora vão-lh'o negar! O conde sabia os segredos

de todos... Não admira, tendo vivido e viajado tanto!... Está lá, ainda

creio... Se acaso se lembra de dar uma volta por Lisboa... Ha de ser

incommodo, um homem que está senhor dos segredos de toda a gente... Não

lhe parece, sr. Morgado?

MORGADO (_balbuciante_)

Por mim...

D. FELICIA

Coisas de estrangeiros! Eu, se tal visse, tinha o meu hysterico, por

força. Nome da Benta Hora! Credo!

BOCAGE

E eu quizera encontral-o, para satisfazer uma curiosidade. Desejava

perguntar-lhe... visto que tanto andou e tanto sabe... se alguma vez,

nas suas longas peregrinações, encontrou figurão mais sem pejo... do que

dois sujeitos do meu conhecimento.

COMMENDADOR (_baixo ao Morgado_)

Estão apostados a molestal-o. Não succumba.

MORGADO (_idem_)

Vae vêr. Deixe... Deixe que vae vêr.

D. FELICIA (_a Bocage_)

Queria encontral-o? Não diga isso.--N'estas conversas se vae o tempo, e

nada se faz.--Sr. Bocage... Um improviso dos seus... Quem dá mote?... Dê

mote, sobrinha!

MORGADO

Versos a motes quem quer faz... Não tenho eu querido, senão... Versos a

motes!... Sempre ouvi dizer que era o _A B C_... e está claro que é

(_sem achar saída_), porque os versos com os motes e os motes com os

versos... ou para fallar mais claro, os versos sem os motes e os motes

sem os versos...

COMMENDADOR (_sugerindo-lhe indirectamente a idéa_)

O mote com effeito é uma sentença, que serve de assumpto, e põe a

caminho o engenho. O principal está feito. O mais é ajustar palavras e

combinar as rimas. Com algum exercicio não é difficil!

BOCAGE (_medindo-os admirado e retraido_)

Ah!

COMMENDADOR (_continuando_)

Mote querem alguns que venha do latim _motus_, que significa movimento.

E bem se póde ter que assim é, porque do mote em verdade nasce o impulso

que faz mover o estro...

MORGADO (_atalhando_)

É o que eu queria dizer. O mote vem a ser tudo... Mais por aqui, mais

por alli, é tudo o mote.--O mote é o assumpto; não havendo mote não ha

assumpto; e ahi é que está! (_satisfeito de si e com extrema

volubilidade_) Fazer versos sem assumpto não é para qualquer: tem de se

tirar tudo da cabeça, assim de repente, do pé para a mão, sem mais nem

mais. Tambem não sei porque se ha de pedir mote. Quando uma pessoa monta

a cavallo não precisa de mote para fazer os piafés, e as curvetas, e as

balotadas, e as garupadas; nem tão pouco se dá mote quando qualquer

mette mão á espada, e entra a executar batiduras, ligamentos,

juntamentos, cambiamentos, tentamentos, e esquivamentos. Eis ahi. Isto é

que eu queria... Chegar um homem, não esperar por mais, nem esfregar a

testa, nem pôr os olhos em alvo, bater as palmas e logo alli, zás...

como quem deita um foguete de sete respostas!...

BOCAGE (_atalhando e batendo as palmas_)

Lá vae!

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Sem assumpto?

BOCAGE

Está ahi defronte, o assumpto.

Famosa geração de falladores

Consta que foi, Morgado, a origem tua,

Que nem todos os cães, ladrando á lua,

Tiveram que fazer com teus maiores:

Um a lingua ensinou dos palradores;

Outro, o motu continuo achou na sua;

Outro, além de encovar toda uma rua,

Açaimou n'uma junta a cem doutores:

Teu avô, santanario venerando,

Soube mais orações que mil beatas,

Com reza impertinente os ceus zangando:

Teu pae foi um trovão de pataratas:

Teu tio, o bacharel, morreu fallando;

Tu, fallando sem tom, não morres--*matas*!

TODOS (_applaudindo_)

Bravo! bravo!

MORGADO (_engasgado de raiva_)

Sr. Bocage!... Sr. Bocage!...

BOCAGE (_fitando-o serenamente_)

Que é?...

COMMENDADOR (_com o seu sorriso, ao Morgado_)

Agasta-se? De quê? Não tem rasão... São facecias innocentes, e muito

graciosas na verdade!... (_Gonçalo passa disfarçadamente para o lado de

Bocage_) Mais picantes ainda as fez Juvenal!... Se fosse verdadeiramente

improviso, era deveras um primor... E não digo que não seja... Mas é

facil trazer estas coisas estudadas já... (_Bocage estremece de

indignação ante a contradictoria perfidia_.--_Gonçalo que lhe está ao pé

detem-o_.)

GONÇALO (_baixo_)

Querem fazel-o sair de si. Com algum fito é. Modere-se.

COMMENDADOR (_observando_)

Depois, os conceitos naturalmente andam preparados com antecedencia.

BOCAGE (_sem poder ter-se, batendo as palmas_)

Lá vae!--Sr. Commendador, permitta-me descrever-lhe um certo

individuo... do nosso conhecimento... á moda de Juvenal!

Do Sena, que foi ver por seu desdouro,

Um pedante voltou, de escassa fama,

Que os livros cata, os cartapacios ama,

E n'elles julga os annos um thesouro:

Traz laivos de francez, arranha o mouro,

Sabe que Deus em turco _Allah_ se chama,

Que no grego alphabeto o _G_ é _gamma_,

Que _taurus_ em latim quer dizer touro:

Tem de velhos canhenhos chocho extracto;

Abocanha talentos que não gosa;

Se rosna, prega unhadas como um gato:

Achareis na pintura rigorosa

Um fofo sabichão, posto em retrato,

Que é nada em verso, quasi nada é prosa!

(_Impressão de assombramento_. _Ninguem ousa applaudir_. _Segredam todos

mutuamente_.)

COMMENDADOR (_parecendo satisfeitissimo_)

Muito bem, muito bem, sr. Bocage. Esse sim. A isso é que se chama

responder _apposité_. (_O escudeiro, vem apressadamente a D. Felicia, e

falla-lhe em voz baixa_) Retrato lhe chama, não? Vê-se que é: ha de

mostrar-me o original. Mas cuidado, não o saiba elle!...

D. FELICIA (_ao escudeiro_)

Que me diz! (_erguendo-se alvoroçada_) Meus senhores, o sr. marquez de

Marialva está ahi. (_levantam-se todos_.)

SCENA IX

OS DITOS _e_ MANUEL SIMÕES

MANUEL SIMÕES (_alvoroçado_)

O meu compadre! Está ahi o meu compadre? (_a Francisco_.) Olha que é o

teu padrinho, Francisco.

D. FELICIA

Valha-me Deus! Sem estar nada prevenido... Mande abrir já o portão, João

Rodrigues. (_O escudeiro sae vivamente para a E._) Querem fazer-me o

favor de me acompanhar?...

MANUEL SIMÕES

Vamos esperal-o todos!

D. FELICIA

Vamos receber sua excellencia.

(_Saem todos_. _Fica só o morgado passeiando agitado, e o commendador

observando-o_.)

SCENA X

COMMENDADOR _e_ MORGADO

MORGADO (_depois de os ver sair_)

Ter a confiança de me tratar por tu!... D'esta vez faço uma fallada!...

Ambos... hão de ser ambos!... Fizeram bem em aproveitar a occasião de se

esgueirar.... Não podia já conter-me!... E agora...

COMMENDADOR (_tomando-lhe o braço_)

Deixe-se d'isso.

MORGADO (_forcejando para se desembaraçar, e mais agitado_)

Não me sustenha, commendador, não me sustenha!

COMMENDADOR (_largando-o_)

Aonde quer ir?

MORGADO

Aonde quero ir? Boa pergunta! Aonde quero ir!... (_forcejando como

antes_.) Não me sustenha... (_vendo que o não sustem, e hesitando_.)

Quê?... (_em grandes passos_.) Não me sustenha... Quero dizer,

sustenha-me, sustenha-me, senão vou fazer uma grande desgraça!...

COMMENDADOR

Accommode-se. Não ouviu quem vem ahi?

MORGADO (_estacando transido_.)

São elles?

COMMENDADOR

Não, homem. Não sabe que é o marquez?

MORGADO

Não são elles? (_recomeçando as bravatas_.) Podéra! Olhem se nos

apparecem agora! Olhe lá se voltam senão no meio de toda essa gente!...

Cobardes!

COMMENDADOR

Esteja quieto. Estamos aqui sós... e já nos conhecemos!

MORGADO

Então isto hade ficar assim?--Não é senão o tenente que mette a caminho

o Bocage para nos chasquear. Não o viu ha pouco ir ter com elle?--Isto

hade ficar assim!...

COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Não lhe disse já que não... Andam a semear!... Deixe, que hão de

colher!... Ouve? O marquez subiu já. Vamos tambem. (_Dirigem-se á porta

da E._. _Entra o escudeiro, corre o reposteiro, e colloca-se á

humbreira_. _Os dois tomam tambem de uma e outra parte logar á

porta_.--_Entra o marquez, ao lado de D. Felicia, e seguido de toda a

companhia anterior_.)

SCENA XI

MARQUEZ, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MANUEL SIMÕES,

FRANCISCO, GONÇALO, BOCAGE, COMMENDADOR, MORGADO _e_ CONVIDADOS

MARQUEZ

Se soubesse que vinha incommodal-a, sr.^a morgada...

D. FELICIA

Incommodar-nos, v. ex.^a! Estava bem longe de esperar tamanha honra, e

por isso...

MARQUEZ

Cheguei ha pouco de Cintra, e achei em Belem uma carta de Martinho de

Mello, que me obrigou a vir logo aqui.--Passei por sua casa, Simões...

Disseram lá ao meu volantim, que tinha ido com seu filho de visita á

sr.^a morgada.--(_a D. Felicia_.) Vim assim mesmo, com as minhas

saragoças... Não esperava encontrar tão luzida companhia.--Como é caso

de pressa não queria perder a occasião.

MANUEL SIMÕES (_sem perceber_)

V. ex.^a dignou-se passar por minha casa... é negocio de pressa...

MARQUEZ

Um negocio com o meu afilhado... Onde está elle?

FRANCISCO (_apresentando-se respeitoso_)

Meu padrinho!

MARQUEZ (_em confidencia_)

Teu pae sempre o hade saber... e mais vale que seja agora, diante de

mim. (_alto_.) A nau de viagem sae para a semana. Já vês que se não póde

perder tempo.

MANUEL SIMÕES (_attonito_)

A nau de viagem... o Francisco!...

D. FELICIA.

O sr. marquez de pé! (_offerecendo-lhe o canapé_.) Sr. marquez...

MARQUEZ

Não me demoro... (_indicando a cadeira junto ao bufete_.) Prefiro

aquella cadeira. Está alli um tinteiro, e hade ser preciso... (_a

Francisco_.) Fui eu mesmo fallar a Martinho de Mello. Achei-o em boa

occasião. Serviu-me logo, sem objecções... que é raridade. Pediu-me só

que lhe mandasse o nome por escripto... Não sei como... as minhas

distracções do costume... passou-me de todo. Agora, á volta de Cintra,

recebo uma carta d'elle, e dentro o decreto já assignado, dizendo-me que

fôra expedido com o nome em branco para não causar atrazo, vista a

proximidade da partida... Venho remediar o esquecimento. (_Dirige-se á

cadeira indicada, e senta-se_. _Sentam-se as damas_.)

MANUEL SIMÕES

Mas, meu senhor... V. ex.^a foi fallar ao ministro da marinha? Por causa

de meu filho?... Traz-lhe um decreto!... Sou pae, sr. marquez... não se

hade estranhar... Um decreto de quê?

MARQUEZ

De guarda marinha para Gôa.

MANUEL SIMÕES (_atterrado_)

Guarda marinha!... Para Gôa!... quando eu pensava... quando esperava...

E pediu meu filho similhante coisa a v. ex.^a... pediu-lh'o sem me dizer

nada!

MARQUEZ

Ponderei-lhe isso mesmo... aconselhei-o... Deu-me razões que me

convenceram. Entendo que faz bem... As viagens são distracções

poderosas... são convenientes á mocidade... Voltará quando fôr tempo...

e espero que será breve... Se lhe não convier a vida do mar, dará

baixa... Agora é bem que vá.--Simões seu filho está formado, não se lhe

póde oppôr... Dê-lhe o seu consentimento. Peço-lhe que dê, e digo-lhe

que o deve dar... (_a Francisco_.) Aprompta-te quanto antes. Embarcas

para a semana.

D. MARIA GERTRUDES (_sem poder já, levando a mão ao coração_.)

Ai! Jesus!

D. FELICIA

Que tens... que tens, Maria?... (_vendo-a debulhada em lagrimas_.) Ai! a

minha filha... A agua de Melissa... a agua da Rainha d'Hungria!...

(_acodem todas as damas a soccorrel-a_.) Não repare v. ex.^a, sr.

marquez... é minha filha!

MARQUEZ (_erguendo-se_)

Sei... sei já... É coisa de cuidado?

D. MARIA JOANNA

Não é nada. Um pequeno espasmo. Passa já.

GONÇALO (_de parte a Bocage, indicando D. Maria Gertrudes_)

Vê?

(_Bocage contempla-a meditativo_.)

D. MARIA GERTRUDES (_com esforço_)

Não foi nada... Um affrontamento.

FELICIA

O melhor é recolheres-te ao teu quarto. Queres?

D. MARIA GERTRUDES (_vivamente_)

Não, não, minha mãe... Não é nada.

(_Retomam todos os seus logares_. _O marquez senta-se de novo_.)

MARQUEZ (_a Manuel Simões_)

Então, Manuel Simões, consente?

MANUEL SIMÕES

Que remedio... É desejo d'elle... e v. ex.^a approva.

MARQUEZ (_tirando o decreto, desdobrando-o sobre a meza, e tomando a

penna_.)

Vamos... é pôr o nome, e podemos dar os parabens ao novo guarda marinha.

(_Bocage passa lentamente por detraz de todos dirigindo-se ao bufete_.)

MANUEL SIMÕES (_tristemente, ao filho_)

Sempre cuidei que te acharia ao pé de mim... para me fechar os olhos.

FRANCISCO (_lançando-se-lhe commovido nos braços_)

Meu pae!

MARQUEZ (_acabando de ler o decreto_)

«Samora Correia, em 31 de janeiro de 1786. Com a rubrica de Sua

Magestade.»--Está em ordem. (_Sem levantar os olhos_.) O nome todo?

BOCAGE (_atraz do marquez_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage!

(_Espanto nos circunstantes_.)

MARQUEZ (_erguendo attonito o rosto, e depondo a a penna_)

Quê?

BOCAGE (_mostrando Francisco nos braços do pae_)

Será elle que deva partir?

MARQUEZ

Mas sabe porque o meu afilhado quer embarcar?

BOCAGE

V. ex.^a deseja-o feliz?... Deseja... é o seu coração, e o seu costume.

Permitta-me que faça por um momento as suas vezes, e verá... (_indo ao

grupo do pae e do filho_.) Desculpe, sr. Manuel Simões. (_tomando

Francisco pela mão, em voz baixa_.) Não viu já que o ama? (_indo a D.

Maria Gertrudes, em voz baixa e rapida, indicando-lhe Francisco_.)

Quer-lhe como ninguem. (_alto a D. Felicia_.) Sr.^a morgada da Torre da

Palma, estou auctorisado a pedir a mão de sua filha para o sr. dr.

Francisco Pedro Simões. (_Attenção geral_.)

D. FELICIA (_assombrada_)

A mão de minha filha... Se não fosse o respeito do sr. marquez, tinha o

meu hystérico!... A mão de minha filha!... D'esse modo!... tão de

repente!... (_depois de breve pausa_) O sr. Manuel Simões é um homem

honrado; estimo-o; sou-lhe obrigada, não nego... mas... mas elle bem

sabe que a nossa jerarchia... (_O marquez ergue-se_. _Erguem-se todos_.)

MARQUEZ (_intervindo_)

Perdoe, sr.^a morgada... O meu afilhado segue uma profissão nobre...

Doutorou-se... poderá em breve alcançar algum despacho de Juiz de

fóra... Como seu padrinho tenho obrigação de lhe dar um presente de

noivado. (_baixo_) Fallei já á rainha, minha senhora, a respeito da

sr.^a D. Felicia.--O presente que destino ao meu afilhado é um alvará de

açafata para sua sogra.

D. FELICIA (_encantada_)

Ai! sr. marquez! Devéras? Filha, filha, a minha agua da rainha

d'Hungria!...

MANUEL SIMÕES (_baixo ao commendador em tom supplicante_)

Sr. commendador, posso dizer que sim ao casamento?

COMMENDADOR

Embarca o Bocage? (_Gesto affirmativo de Manuel Simões_) Póde.

MARQUEZ (_proseguindo a D. Felicia, mais baixo_)

Depois, Manuel Simões dá ao doutor quarenta mil cruzados. Excellente

occasião de restaurar a Torre da Palma, que o precisa. (_a Manuel

Simões_) Não dá quarenta mil cruzados a seu filho, Simões?

MANUEL SIMÕES (_no auge de alegria_)

Não, meu senhor. Dou sessenta.

MARQUEZ (_baixo a D. Felicia_)

Por causa de sua filha, queria o meu afilhado embarcar! (_indicando

Francisco e D. Maria Gertrudes_.) E veja... Terá coração para fazer dois

desgraçados? (_alto_.) A sr.^a morgada diz que sim.

FELICIA

Basta ser vontade do sr. marquez. (_comsigo_) Açafata do paço!

MARQUEZ (_que passou a Bocage, em jovial confidencia_)

Acertou, sr. Manuel Maria.

BOCAGE

Então ganhei o meu decreto.

MARQUEZ

Insiste?

BOCAGE

Espero só que v. ex.^a me faça a honra de escrever o meu nome.

MARQUEZ (_indo sentar-se ao bufete_)

Veja bem. Pensou?

BOCAGE

Pensei. Meu pae deixou-me a vocação livre. O mar é a minha vocação.

(_dolorosamente_) Se tivesse aqui um affecto, se podesse haver esperança

que me prendesse... Não tenho. Não ha. E é justo. (_com profunda

amargura_) Nós os poetas cantamos tanto o amor, que o amor todo nos vôa

no canto!

MORGADO (_baixo ao commendador_)

Que lhe parece? Vae para Goa..

COMMENDADOR

Em Goa temos gente tambem.

MORGADO

E se voltar?

COMMENDADOR

Está cá o Santo Officio.

MARQUEZ (_dispondo-se a escrever_)

Repita-me o nome por inteiro... Bem sabe a triste memoria que tenho...

Está a tempo ainda. Considere.

BOCAGE (_decidido_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage. (_Marquez escreve lentamente_)

Meu avô, Gil de Bocage, foi coronel do mar. Herdei talvez a inclinação

com o sangue.

FRANCISCO (_indo a Bocage_)

Não o conhecia ainda... (_intencionalmente_) Ninguem agora o admira

mais.

GONÇALO (_apertando-lhe a mão_)

Regosije-se. Felicito-o. É uma nobre acção.

BOCAGE

Começo outra vida, rude vida de ancias e trabalhos, mas vida explendida

de alvoroços e promessas. (_inebriando-se das proprias palavras_) Oh!

quem me déra já nas solidões do oceano, entre os dois abysmos, para não

ver mais do que o eterno lampadario dos astros, para não ouvir mais do

que o magestoso hymno das vagas!... (_como vendo o que repete_) Ondeante

á pôpa a bandeira que recorda as margens distantes... a melancolia da

saudade!... Diante de mim os horisontes infinitos... a incerteza do

futuro!... Aos meus pés a voragem tumultuosa... a advertencia dos

desenganos!... E além... lá bem ao longe, a nossa India... a India que

démos de presente ao mundo!... o recesso dos mysterios... a terra dos

prodigios... crivada dos nossos padrões, povoada das nossas memorias,

cheia ainda do nosso passado, repetindo de todos os angulos a

maravilhosa historia que os povos decoraram em todas as linguas!... além

as grandes recordações dos grandes feitos... os grandes éccos dos

grandes nomes... as grandes imagens das grandes edades!... além emfim a

perenne e inflammada visão, que acima da escuridão dos tempos e do luto

das catastrophes, como um pharol no meio das trevas, ergue rutilante do

berço do sol a gloria da patria!

D. MARIA JOANNA (_fervorosamente_)

Tem a India inspirado os nossos grandes poetas! Começou já a inspiral-o!

MARQUEZ (_erguendo-se e dando-lhe o decreto_)

Aqui tem sr. guarda marinha. (_a D. Felicia_) Está tudo justo, não? As

escripturas do casamento assignam-se em Belem d'hoje a oito dias!

D. FELICIA

Pois v. ex.^a quer fazer tamanha fineza a minha filha!...

MANUEL SIMÕES (_promptamente_)

Que honra!... Que honra para o afilhado!...

MARQUEZ

Justo é que sejam testemunhas todos os que presenciaram este feliz

accordo. Ficam prevenidos. (_inclinando-se_) Terei occasião de dizer á

sr.^a D. Maria Joanna Galvão o muito que a estimo e respeito. (_D. Maria

Joanna faz mesura_.--_O marquez dirige-se á porta da E._--_Dispõem se

todos a seguil-o_.) Sr.^a morgada, dispenso etiquetas... não consinto...

D. FELICIA

Seria privar-nos da maior satisfação!

MARQUEZ (_a Bocage_)

Não nos falte, Manuel Maria. Quero vêl-o com o seu novo uniforme! (_Sae

com D. Felicia_.--_Acompanham-n'o todos_. _Ficam successivamente em

ultimo logar, Francisco que dá o braço a D. Maria Gertrudes, Gonçalo ao

lado de D. Maria Joanna, o commendador e o morgado da parte opposta,

Bocage_.)

SCENA XIII

OS DITOS, _menos_ MARQUEZ, D. FELICIA _e os_ CONVIDADOS

GONÇALO (_a D. Maria Joanna, indicando D. Maria Gertrudes_)

Não lhe diz nada a vista d'aquelle par?

D. MARIA JOANNA

Diz-me que preciso um protector... e que já o aceitei!

GONÇALO (_transportado_)

É definitivamente uma esperança?

D. MARIA JOANNA (_dando-lhe a mão_)

É mais... é uma certeza.

(_O morgado mostra ao commendador esta acção_.--_D. Maria Joanna

esquiva-se como envergonhada, e mette-se no sequito_.)

MORGADO (_consternado ao commendador_)

Viu?

COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Vi... Não estão ainda casados.

GONÇALO (_que seguiu um instante D. Maria Joanna, volta a Bocage, e

mostra-lhe D. Maria Gertrudes e Francisco que de embevecidos se deixaram

ficar atraz de todos_.)

Repare... O amor e a mocidade, coroados pela ventura!... Alli tem o seu

melhor poema!

BOCAGE

Creio que sim... (_dolorosamente_) porque nenhum ainda me custou tanto!

(_Cae o panno_)

FIM DO QUARTO ACTO

ACTO V

*No palacio dos Marialvas, em Belem*

Sala forrada de damasco, severamente sumptuosa, abrindo sobre um

terrasso que dá para o Tejo. Em perspectiva os montes da

Outra-Banda.--Explendido dia de inverno. Amplas colguduras de seda.

Cadeiras de damasco egual ao do forro da casa. Altos contadores

marchetados, cobertos de preciosas curiosidades. Á _D._ a mesa preparada

para a assignatura das escripturas. Portas á _D._ e _E._

SCENA I

GONÇALO, (_esperando_) _o_ MARQUEZ, _um_ CAVALHEIRO, _um_ MOURO

(_O Cavalheiro, que mostra mais de trinta annos, entra da D., de botas e

esporas, seguido do Mouro_. _Este vestido a uso marroquino, botas

escarlates, zorame, etc_. _O mouro traz-lhe a vara de marmelleiro_. _Ao

mesmo tempo entra do F. o Marquez_. _O Mouro fica immovel onde está_. _O

Cavalheiro vae com profundo acatamento ao Marquez, ajoelha e beija-lhe a

mão_.)

MARQUEZ (_com magestosa simplicidade_)

Deus o abençoe, D. José! Já sei que o murzello começa a executar

soffrivelmente a lição dos quatro circulos para a esquerda... É preciso

trabalhal-o... É rijo dos rins, convem-lhe o trote avançado. Está ainda

desigual dos travadouros.--Póde recolher-se agora aos seus quartos,

filho... Hade precisar descanço... Oiça... recommende ao Mouro que vá

ver como atam o murzello... e se lhe estendem bem as coberturas.--Se

quizer escrever para Cintra a suas irmãs, e ao Marquez D. Diogo, tenha

tudo prompto. Ámanhã de madrugada partimos para Samora. Acompanha-n'os o

conde de Villa-Verde. (_O Cavalheiro sae_. _O Mouro segue-o_.)

SCENA II

O MARQUEZ, GONÇALO

MARQUEZ (_comsigo_)

Estes rapazes precisam dirigidos! (_vendo Gonçalo, que se conserva

respeitosamente de parte, e indo a elle_) Desculpe que o não via. Chegou

ha muito?

GONÇALO

Entrei ha pouco, sr. Marquez.

MARQUEZ

Tenho pena de o não ter apresentado a meu filho.

GONÇALO

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 8 / 10 段