Oh! que se eu me não contivesse... Mas contenho-me.

COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Motejos sempre, sr. Bocage! Plinio, o moço, celebra como coisa de muito

apreço a graça das palavras!

BOCAGE (_a Gonçalo_)

Está mais verde ainda... Foi a peçonha que se lhe derramou!

MORGADO

Oh! que se eu me não contivesse!...

GONÇALO

Já disse isso!

BOCAGE

Que lhe parece, sr. Gonçalo Mendo! Acabamos com esta raça damninha?

(_indo á janella_.) A altura é soffrivel. Dêmos um exemplo.--Deitemos

_isto_ á rua. (_indica os dois_.) Limpamos a cidade.

(_Morgado recua aterrado_.)

COMMENDADOR (_sorrindo mais_)

Tem graça o sr. Bocage, tem muita graça!

GONÇALO (_fitando o commendador_)

É a praga de todos os tempos!... Deixe... Espera-os a publica justiça,

que hade chegar... Em gente d'essa não põem mão homens de bem. As

viboras esmagam-se com o pé! (_Indicando-lhes a porta, com um gesto a

que os dois logo obedecem_.) Temos que fallar com o dono da casa!

(_Cae o pano_)

FIM DO TERCEIRO ACTO

ACTO IV

Em casa da morgada D. Felicia, ás Portas da Cruz.--Sala de visitas dando

para outra.--Ao F. a porta que abre sobre esta.--Á E. a porta da

ante-sala, fechada com reposteiro de pano azul, orlado de amarello, com

as armas da casa ao meio.--Á D. duas portas. Para o F., á E. da porta de

communicação com a outra sala, um bufete com tinteiro, etc.--_Trumeaux_,

cadeiras o canapés; a mobilia branca e dourada de meias canas.

SCENA I

(_Ao levantar do panno, um grupo de homens á porta do F. como vendo e

admirando o que se passa na outra sala.--Ouve-se n'esta uma rebeca

terminando o minuete da côrte.--Apenas acaba, muitas palmas em que toma

parte o grupo da porta. Logo depois entram os personagens da scena

seguinte, e a sala toma o aspecto de uma reunião ou assembléa do

tempo.--As damas vêem successivamente sentar-se na ordem adiante

designada.--Os homens ficam pela maior parte em pé diversamente

grupados_.)

SCENA II

D. FELICIA _pelo braço do_ COMMENDADOR; _successivamente_ D. MARIA

JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MORGADO, GONÇALO MENDO, DAMAS _e_

CAVALHEIROS CONVIDADOS

D. FELICIA (_para fóra_)

Não o faz melhor o proprio Dupré!... Admiravel!... Divino!... Uma

suspensão!... (_ao commendador_.) Ninguem dança o minuete da côrte como

o sr. Thomaz Xavier... Uma gravidade... um garbo!... Viu, aquelle

rasgado das cortezias?

COMMENDADOR

E a sr.^a D. Angelica?... Uma magestade... um donaire!

D. FELICIA.

É o par mais completo!... (_procurando com os olhos em redor_.)

Maria?... A minha filha?...

MARIA GERTRUDES

Estou aqui, minha mãe!

D. FELICIA (_sentando-se_)

Isso... Bem ao pé de mim, filha. (_ao commendador_) Não repare... Não me

canço de repetir este nome de filha... Tinha-o quasi desaprendido!...

Ainda o não creio... Ainda me parece tudo um sonho... Foi milagre, sr.

commendador, não foi?

COMMENDADOR

Com razão symbolisaram os doutos e discretos o maternal affecto na ave

chamada pelicano, figurando-a o dar-se a morte para dar vida aos filhos.

(_continúa como conversando_.)

GONÇALO (_dando o braço a D. Maria Joanna_)

Se sua tia soubesse com quem desafoga aquelles enlevos!

D. MARIA JOANNA

E para que o ha de saber? Mais lhe vale ignorar sempre similhantes

vilanias. (_sentando-se_.) Foi meu cumplice no cumprimento do dever.

Seja-o no segredo d'essas iniquidades.--É dever tambem.

GONÇALO

A que não me obrigará com a perspectiva de tal

cumplicidade?--Cumplice!... Mediu bem a palavra?

D. MARIA JOANNA (_graciosamente_)

Medi. (_continuam conversando_.)

(_Entra Francisco, como procurando alguem. Vê D. Maria Gertrudes, e vae

tristemente encostar-se ao trumeau fronteiro_.)

SCENA III

OS DITOS _e_ FRANCISCO

D. FELICIA (_beijando D. Maria_)

A minha filha!... Bem parecia que me adivinhava o coração!... (_vendo

Francisco_.) Sr. dr. Francisco Pedro, seu pae está na roda do

_isque_?... Estas modas novas de Inglaterra fazem os homens bem pouco

sociaveis!

FRANCISCO (_com melancolica resignação_)

Não, minha senhora... Não é homem de modas, meu pae.--Creio que o vi ao

pé do padre procurador de S. Vicente.

D. FELICIA

Ai! se elle se fica a ouvir as historias que o sr. D. frei Caetano conta

ás meninas, não sae de lá tão depressa... (_abanando-se_.) Porque não

nos tem apparecido, sr. morgado da Gesteira?

(_Acham-se todos dispostos como segue: D. Felicia n'um canapé á E.,

tendo ao lado D. Maria Gertrudes em cadeira.--N'outro canapé, defronte,

D. Maria Joanna, e Gonçalo Mendo proximo, em pé.--O Commendador, que

passou á extremidade D., sentado conversando com uma dama. Junto d'este

o morgado em pé.--Do mesmo lado, encostado ao trumeau, Francisco Pedro

extatico para D. Maria Gertrudes, que não ousa levantar os olhos para

elle_.)

MORGADO

Não tenho tido mãos a medir, sr.^a D. Felicia, não tenho tido mãos a

medir... Fui passar quatro dias ao pé da Arrabida... Não me deixava um

amigo, homem poderoso, que tenho para aquelles sitios... Tudo por causa

d'uma caçada de javardos... Sem mim não se podia fazer... Fui eu que

dispuz os emprazadores. Fui eu que dirigi os couteiros. Fui eu que fiz

chapear os cavallos por causa dos estrépes, e metter-lhes as çapatilhas

e peitoraes de matto como é indispensavel. Fui eu que determinei a

_calcada_... Finalmente, bateram-se duas moitas, e trouxemos nem menos

de seis rezes grandes, uma cerva, dois vareiros e trez javardos... Só eu

á minha parte, a tiro e á faca, matei sete.

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Trouxeram seis, e matou sete!

MORGADO

É verdade. Perdeu-se um bique enorme... Sumiu-se no brejo que não foi

possivel achal-o.

COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caçadores?

MORGADO (_ao commendador_)

Admiraram. (_a D. Felicia_) Antes de hontem passei a tarde n'uma

academia de espada... (_ao commendador_) em casa de mestre Estevão da

rua das Hortas... (_á companhia_) Ia lá um genovez de quem se diziam

maravilhas. E com effeito é homem desembaraçado na arte. Tirou a melhor

de quantos contenderam. Eu estava alli a vêr, e não queria assim sem

mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que não sabe a

gente quem é... Mas os amigos, que me tinham levado alli...

provavelmente já de proposito... começam a dizer-me: «Sr. morgado, isto

é uma vergonha para o reino!... Sr. morgado, só v. s.^a póde

desaffrontar a nação!... Sr. morgado, isto são pontos d'honra!...»

Atacaram-me pelo meu fraco... Não pude resistir... (_fazendo menção de

despir_) Largo o josésinho... pego na espada... colloco-me no recto...

Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo... Paro de forte

contra forte!... Faço um prendimento rapido... Estava desarmado o homem!

(_Gonçalo sorri_.) Não é por me gabar: confessou elle mesmo que nunca

vira pulso tão rijo, nem uma agilidade assim!

GONÇALO (_com obsequiosidade ironica_)

Estava em boas mãos... a honra nacional!

MORGADO (_seccamente_)

Favores! (_continuando_.) Hontem fui a uma corrida de pombos a Carnide.

(_negligentemente_) Não enfiei senão cinco. Deram-me para correr um

cavallo quasi serril... E era á gineta, que se fosse á brida!... Hoje

estava convidado para jantar em casa d'um desembargador da Casa da

Supplicação, meu amigo de tu. Chegou-lhe um cosinheiro de França, que

faz na perfeição a sopa de natas e as tortas de espargos.--O meu amigo,

sabendo como sou entendedor, fazia empenho no meu voto.--É tambem tarde

de opera na Rua dos Condes. Representam uma coisa italiana que se

chama... que se chama...

COMMENDADOR

_Il Mercato di Malmantile_... Uma opera nova.

MORGADO

Creio que sim. A estas primeiras representações nunca falto.

D. FELICIA

E não foi? Um peralta de quarto voto, como o sr. morgado!

MORGADO

Não fui... só para não faltar aqui logo no principio, e vir aos pés da

sr.^a morgada!

D. FELICIA

Já vejo que me queixei sem razão. Uma pessoa como o sr. morgado nunca é

senhora de si. (_ao commendador_.) E que tal é a opera?

COMMENDADOR

Não são para mim similhantes futilidades. Em coisas de theatro só acho

sabor aos gregos e romanos.--Sabia o titulo da opera nova, porque o vi

na _Gazeta_ de terça feira. Aqui a trago eu. (_tira do bolso uma folha

impressa, em papel pardo, em quarto pequeno_.)

D. MARIA JOANNA

A opera nova?

COMMENDADOR

Não, minha senhora... a _Gazeta_. Já se sabe a razão por que o eleitor

de Saxonia toma parte tão activa na liga germanica. Eu prophetisei-o

sempre!

D. FELICIA

Não gosta do nosso theatro? Não tem razão. Queria que visse aquella peça

intitulada... _As lagrimas da bellesa são as armas que mais vencem_...

que se representou o anno passado no Bairro Alto... Faz chorar as

pedras... E já não é o que era, aquella casa. Viu, sobrinha?

D. MARIA JOANNA (_que conversava com Gonçalo_)

Não vi, minha tia.

D. FELICIA

Em França tambem ha theatros e peças bonitas? Se hade haver! Tem

gracioso em todas, como cá? E magicas?

D. MARIA JOANNA

Ha de tudo, e com abundancia.--Para mim nunca achei auctor que me

deleitasse como um chamado Molière. Não é dos modernos, nem está agora

em voga; mas escreveu comedias, que ainda não li outras de egual

verdade... duas sobre tudo... o _Tartufo_... Não conhece o _Tartufo_ sr.

commendador?

COMMENDADOR (_um pouco turbado_)

Não conheço senão os antigos... Terencio, Plauto, Aristóphanes...

D. MARIA JOANNA

Que pena! Pois é excellente comedia o _Tartufo_... E acho tambem um

sainete particular ao _Importuno_... O sr. morgado da Gesteira devia dar

uns annos de folga á monteria, ou á esgrima, ou á gastronomia, e

aprender o francez... só para ler o _Importuno_!... Estou que havia de

gostar.

(D. FELICIA _que a ouvia admirada_)

Vês, filha, que de coisas se sabem lá por fóra?

MORGADO (_a D. Maria Joanna_)

Os homens da minha condição não perdem o seu tempo com...

D. MARIA JOANNA (_atalhando ironicamente_)

Com um insignificante como Molière. Acho-lhe razão.

D. FELICIA

Em operas, vi eu já o que se póde ver. Quem assistiu em Queluz á opera

da Galathea!... Eram os annos do principe D. José, e estavam para se

ajustar as pazes com a Hespanha... Quem assistiu a uma coisa

d'aquellas...

D. MARIA JOANNA

Ah! esteve no theatro da côrte?

D. FELICIA (_hesitando um pouco_)

Estive... alguma coisa de longe... Não era onde devia estar... mas

estive... Alcancei entrada pelo sr. marquez de Marialva, que esse sabe

dar estimação a quem a merece... Estive... Por signal fui achar entre as

açafatas a mulher d'aquelle da alfandega... que se não sabe d'onde lhe

veiu o dom... Não tem senão um criado d'almofada... e quando lhe vão

visitas, chama pelo nome e sobrenome o criado de porta abaixo, que não

ha outro na casa, para figurar de escudeiro... Estava lá, estava alli,

ella, em quanto pessoas que sempre se trataram á lei da nobreza...

Açafata aquillo!... Não foi senão por empenho do Estacio, o bobo do

paço, algum dia que teve a fortuna de fazer rir Suas Magestades...

Aquillo açafata!... Ai!... Ai!... Maria, filha... a agua de Melissa...

depressa!...

D. MARIA JOANNA E D. MARIA GERTRUDES (_erguendo-se como para

socorrel-a_)

Tem alguma coisa?

D. FELICIA

Não é nada... o meu hysterico!...

D. MARIA JOANNA (_ameigando-a_)

Passou?... Passou... (_voltando a sentar-se_.) E a Galathea?

D. FELICIA

Isso sim!--A Galathéa, de Metastario, com musica do Antonio da Silva...

a orchestra dirigida pelo João Cordeiro... tudo professores da real

capella!... Pois os cantores!... Vindos de Italia de proposito... o

Romanini, o Violani... o Violani principalmente... Umas volatas... uns

gorgeios... uma... uma suspensão!... Não espero tornar a ouvir cantar

assim... E depois o baile d'Alberti!--E as pessoas reaes!... E toda

aquella côrte... Não se via senão sedas, veludos e oiro!... E que

tellas, que pinturas, que lustres!... Theatro aquelle! Opera aquillo!...

o mais...

SCENA IV

(_Entra um escudeiro velho e dirige-se respeitosamente a D. Felicia_.)

D. FELICIA

Que quer, João Rodrigues? (_a D. Maria Gertrudes_)--São já sete horas?

D. MARIA GERTRUDES (_distraida, e sem levantar os olhos_)

São.--Hão de ser.

D. FELICIA (_vivamente_)

Que tens?... Triste agora!

D. MARIA GERTRUDES (_constrangendo-se_)

Triste, eu?--Nunca estive tão alegre!...

(_O escudeiro diz algumas palavras em voz baixa a D. Felicia_.)

D. FELICIA (_ao escudeiro_)

Já sei, já sei. Ponha a banca e as urnas na outra sala. (_Levanta-se, e

todos_. _Aos circumstantes_.) São horas do nosso chá. (_indo a uma das

damas presentes_.) A menina Escolastica hade-nos cantar depois aquella

modinha brazileira com primeiras e segundas... tão linda, tão linda...

uma suspensão mesmo!... Aquella... Recorda-se?... (_achando_.) Ah! «_Os

Melindres da Sinhá_!» Canta, riquinha, sim?

D. MARIA JOANNA (_a Gonçalo_)

Se não estiver com a rouquidão do costume.

GONÇALO

Está decerto, em quanto não chegar o seu tudo.

D FELICIA (_a outra_)

A sr.^a D. Euphrasia das Neves faz a segunda e o sr. D. frei Caetano

acompanha-as ao cravo... (_a uma dama_.) Alli onde o vê, o meu cravo foi

o primeiro cravo de martellos que veiu a Lisboa... já depois da guerra

de 62, creio... Mandou-o vir Sua Alteza o sr. conde de Lippe, que era

grande tocador, e muito divertido, (_a Gonçalo Mendo_.) Lembra-se da

guerra de 62?...

GONÇALO

Uma guerra que não passou do principio?

D. FELICIA

Desculpe... Não póde lembrar-se... Tive um primo nos reaes

voluntarios... foi morrer á India. A proposito, o nosso cadete? O seu

amigo Bocage demora-se... Estou vendo que nos falta hoje!... Logo hoje

que não veiu outro, e estão cá tantas pessoas para o ouvir!...

GONÇALO

Não falta. (_em voz baixa_) Mas pelo amor de Deus, sr.^a morgada, não

lhe diga isso...

D. FELICIA

Isso o quê?

GONÇALO

Que lhe faz falta por não ter outro. É capaz de se declarar mudo... se

não fizer peior!

D. FELICIA

Sempre lhe digo que tem um tal genio, o cadetinho!

GONÇALO

Desculpe-o. Não é poeta como os outros.

D. FELICIA

Fazem-se sempre assim. Em ganhando fama!... (_como em confidencia ao

commendador, que veiu dar-lhe o braço_) É a novidade, que eu cá para mim

acho mais chiste ao padre Braz... e mesmo ao Caldas.

COMMENDADOR

Pois tem dúvida!--Chamarem áquillo poeta!...

D. FELICIA

Ai! nem tanto!... (_Saem_.)

(_Vão saindo todos_. _Fica em ultimo logar Gonçalo Mendo com D. Maria

Joanna pelo braço_.)

GONÇALO (_em quanto os outros saem_)

Que me diz ás nossas assembléas? Francamente, lembra-se com pena do seu

Paris?

D. MARIA JOANNA

Pensa que não há ridiculos tambem? Não tenho pena! Vaidades? Ólhe a

lucta de Marmontel e do abbade Arnaud por causa de Gluck e do Orlando.

Vicios? Ólhe o processo do cardeal de Rohan o anno passado, a prisão da

condessa de la Mothe, e as negras machinações de Cagliostro!... Se visse

o que de lá me escrevem!

GONÇALO

Devéras; não lhe dão saudades?

D. MARIA JOANNA (_gentilmente_)

Cada vez menos.

GONÇALO (_transportado_)

Oh!... Quando poderei eu ter esperanças?

D. MARIA JOANNA (_como acima_)

Não começou já?

SCENA V

OS DITOS, BOCAGE (_da E._)

GONÇALO (_vendo Bocage_)

Ah!... Ahi chega o nosso poeta. Permitte-me que lhe falle em quanto vão

ao seu chá? (_conduzindo-a á porta da outra sala_.)

D. MARIA JOANNA

Permitto que vá da minha parte agradecer-lhe.

SCENA VI

GONÇALO _e_ BOCAGE

BOCAGE

Pelo que vejo parece-me que lhe posso dar os parabens.--Pois dou, e de

todo o coração. É mais do que formosa a sr.^a D. Maria Joanna... é mais

do que discreta... é uma alma grande, d'essas que é fortuna encontrar.

Como ella se despojou facilmente e alegremente da maior parte dos bens,

que desde pequena tinha como seus!

GONÇALO

É o menos, isso. Era dever: bastava. Tem raras qualidades em tudo... por

isso a adorava já de longe...

BOCAGE

Ah! confessa?

GONÇALO

Posso confessal-o... agora.

BOCAGE

Porque a adora... de perto. Foram então a proposito os parabens!

GONÇALO

Os parabens, ainda não.

BOCAGE

Mas não podem tardar.

GONÇALO

Mais caso de parabens é o seu. A transformação da menina da casa

engrandece o objecto das suas predilecções. Em vez da humilde afilhada,

pobre e dependente, acha uma boa familia e uma rica herdeira!

BOCAGE (_despedidamente_)

Por causa d'isso estive para não vir!

GONÇALO

Porquê? Não lhe tem já amor? Bem me dizia então...

BOCAGE

Dizia mal... O que lhe dizia não se entendia com esta!... Não lhe tenho

já amor? Tenho. E bem devéras, e bem de dentro... De certo o primeiro da

minha vida... e... quem sabe?... talvez o ultimo! Mas o que provocou

este amor desappareceu. Foi-se o que lh'o fazia grato, o que m'o fazia

generoso. Foi-se-lhe com a condição, foi-se-lhe com a orphandade.

GONÇALO

Se tem esse modo de encarar as coisas...

BOCAGE

Poucos me hão-de entender. Poucos me entendem com effeito. Mas

entende-me o sr. Gonçalo Mendo... Sei já que entende.--Rica! Rica? E eu

que lhe levo em troca?... Dirão que lhe procuro a riqueza!... Dirão que

fiz do affecto um pretexto, do carinho um degrau, da paixão uma

usura!... «A poesia áquelle serviu», repetirá contente por ahi a turba

vilan dos malevolos e dos zoilos... Arrendou-a por contrato... poz a

lyra a juros... vende mais caro o coração que as obras.»--Dirão isto,

dirão... e Deus sabe o que mais... E o grande numero crê... e não poucos

applaudem...--Vender-me, eu!... Eu, Bocage!... Vender o coração! vender

a musa!... esta musa indomita e indomavel!... Oh! basta que o suspeitem!

GONÇALO (_calorosamente_)

Pois a taes considerações sacrifica a felicidade? Pois...

BOCAGE

A felicidade?... Seria... Aqui presinto que era... Mas o orgulho a

sublevar-se-me de continuo!--Resistiria a felicidade a similhante

procella?--Podia a donzellinha modesta ser a estrella pollar do poeta

sem graus nem haveres... Podia em quanto era o infortunio... Deixou de

ser a constellação melancholica das noites saudosas; fez-se o astro

d'oiro dos dias refulgentes!... Era... era a felicidade no amor casto,

no puro enlevo... Veiu a fatalidade, e levantou em seu logar o idolo das

multidões.--Esse não póde ser o idolo de Bocage!

GONÇALO

Tudo exagera... tudo leva ao extremo. É de condição distincta. Casando

com a herdeira, póde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o

estro, e servir a patria... O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!

BOCAGE

Bocage casar! Casar eu!... Curvar o collo a esse jugo!... roxear os

pulsos com esses grilhões! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!...

Eu!... Que mal me conhece!--É pouco para mim o ar e o espaço... Toda a

idéa de sujeição me opprime como as grades de um carcere... Alexandre de

Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da

miseria extrema fazia officio e gala.--«Pede sem receio. Que queres de

mim?» disse o grande conquistador.--«Que te affastes d'ahi, para me não

tirar o sol,» respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do

espirito d'esse philosopho... Acima de todas as venturas ponho uma... a

verdadeira, a maior, a superior, a unica... a minha independencia!

GONÇALO (_severamente_)

Que quer então fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma

é uma flor de candura.--Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos

juvenis?... Quer-lhe immolar a mocidade?... A quê?... Ainda ha pouco

estava ahi um pobre moço, penando por ella que fazia dó... penando uma

paixão sincera e sem egoismo. Sabe quaes são os intentos d'esse mancebo?

Deixar o lar e a patria... só para não vêl-a indifferente!...

BOCAGE (_arrebatado_)

Quem é?

GONÇALO

Conhece-o já... É o filho de Manuel Simões, que se doutorou

ultimamente.--É um rapaz honrado... é rico tambem... e começa uma

carreira estimada. Podia fazel-a feliz... e fazia de certo. Com que

direito a priva se não póde compensal-a? Julgaria elle destino invejavel

o que o sr. Bocage reputa insupportavel prisão!

BOCAGE (_pensativo_)

E ella?

GONÇALO

Ella, a pobre innocente, sabe lá!--Diga-me, o que quer fazer?

BOCAGE (_pensativo_)

Não sei. (_reparando para dentro_) É o morgado da Gesteira, e o

commendador de Monsarás, que vejo na outra sala?

GONÇALO

São.

BOCAGE

Aqui? ambos!

GONÇALO

Ambos.--A sr.^a D. Maria Joanna deseja formalmente que se não falle do

que se passou com elles em casa do mercador. E tem rasão. Impõe-lhe este

dever a delicadeza. Não podemos publicar a parte vergonhosa, que tiveram

no caso, sem dar occasião a divulgarem elles a fraqueza do

capitão-mór.--Isso quer evitar a sr.^a D. Maria Joanna por attenção á

memoria de seu tio. Calando nós, calam-se forçosamente os dois. Que

estamos todos na resolução de nos calar, já o Commendador percebeu, e

d'ahi tiram ambos a audacia.--Comprehende agora o nobre silencio da

sr.^a D. Maria Joanna, e a presença do Commendador e do Morgado?

BOCAGE

Comprehendo o silencio: não comprehendo a impudencia. Esses homens não

teem sentimentos!

GONÇALO

Se tivessem sentimentos não faziam o que fazem. Eil-os ahi.

BOCAGE

Vamo-n'os então, nós. Custa-me a conter.

SCENA VII

OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Gonçalo e Bocage vão a sair_. _Os dois veem entrando_.

_Encontram-se_.)

COMMENDADOR (_indo prazenteiramente a Bocage, e offerecendo-lhe a mão_)

Oh! sr. Bocage! Como vae?

BOCAGE (_sem lhe dar a mão, passando_)

Vou para diante! (_Sae com Gonçalo para a outra sala_.)

SCENA VIII

COMMENDADOR _e o_ MORGADO

COMMENDADOR (_tirando a caixa e encolhendo os hombros_)

Mocidade imprudente!

MORGADO

Vê, commendador? Não temesse eu que fallassem, e saberiam...

COMMENDADOR

Não fallam. Se o podessem fazer, já o tinham feito.

MORGADO

O que lhe invejo é o socego.

COMMENDADOR

Claudiano diz: «O espirito do sabio é similhante ao cume do Olympo; fica

tão superior aos ventos e ás nuvens, que nunca as tempestades o

inquietam.»

MORGADO

Mas eu que não sou sabio... nem tenho pena... aqui estou agora...

(_olhando em redor_) Ninguem nos ouve... Aqui estou agora sem dinheiro,

sem casamento, e sem esperanças.

COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Sem esperanças!... Porquê?--Sua prima tem ainda a casa de Val-moreo.

Cinco mil cruzados de renda, creio que me disse... Não é o mesmo,

seguramente... um terço apenas do que era... mas nas suas circumstancias

actuaes... Pela minha parte sou justo. (_olhando em redor, em voz

baixa_) A escriptura de divida, não será já de trinta, será de dez mil

cruzados. Dispenso a sege.

MORGADO

Pois teima ainda! Não se desenganou com o desastre do outro dia?

COMMENDADOR

O outro dia... veja o que tirou das suas duvidas e espalhafatos!

Quintilliano tem por vergonha desesperar do possivel. Eu nunca me

desengano em quanto vejo remedio.

MORGADO

Remedio! Mas que remedio? Não vê como o tenente anda todo derretido para

minha prima? Não vê como ella o attende? E agora, de mais a mais, que

está senhor de uma boa casa.

COMMENDADOR

Extranho-o. Pois é possivel imaginar que póde alguem competir com o

Morgado?

MORGADO

Não digo isso...

COMMENDADOR

O tenente fica por minha conta. Tenho que lhe pagar uma divida... e ao

Bocage tambem. Nós sabemos esperar... e nada esquecemos. Não ha inimigo

peior do que o inimigo que espera e não se espera. _Inexpectatus

hostis_, lhe chama Ovidio, Sulmonense.--Sua prima está já casada,

porventura?

MORGADO

Mas aquelle ajuste que ella ouviu! a impressão que lhe ficou!

COMMENDADOR

Empregue tambem pela sua parte algum esforço. Não sejam tudo vozes

vãs.--Se estivesse no seu logar, d'isso mesmo faria um merecimento mais.

Attribua-me toda a culpa. Indigne-se bem contra mim: não tem duvida.

Diga-lhe que foi a desesperação, o amor, o desejo de alcançar a sua mão.

As damas raramente deixam de se convencer d'isso. Affirme-lhe que vive

no meio de um incendio... como a salamandra... Ainda que Gesnéro

assevera que a cinza de salamandra é remedio soberano, e d'ahi se deva

concluir que mal poderá viver no fogo o que se reduz a cinzas... Em fim

pinte-lhe ao vivo as chammas em que se abraza... (_enfastiado_) Isso é

com o Morgado, não é commigo.--Convem-lhe ou não lhe convem ainda o

casamento?

MORGADO

Se convem! O que eu não sei é como se ha de agora estorvar o tenente!

COMMENDADOR

Sei eu (_olhando para dentro_). Acabou o chá. Ahi vem todos outra vez.

(_Vae ao F. dar o braço a D. Felicia para a conduzir para o seu logar_)

SCENA IX

OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, BOCAGE,

GONÇALO, FRANCISCO _e_ CONVIDADOS

D. FELICIA

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 7 / 10 段