O sr. commendador tambem é?... (_o commendador faz-lhe signal de

silencio: a meia voz_.) Os padres sabem que nunca desobedeço... Mas que

interesse pódem ter...

COMMENDADOR

Não é preciso que o saiba.

MANUEL SIMÕES

E quem me assegura...

COMMENDADOR

Que o não engano? Veja este bilhete. (_dá-lh'o_.)

MANUEL SIMÕES (_lendo_)

«Faça quanto lhe disser o sr. commendador de Monsarás.--Padre Ignacio!»

(_resignado_.) Não casará.

COMMENDADOR

Agradeça a seu pae, que por minha intercessão lhe faz o gosto.

MANUEL SIMÕES (_comsigo_)

Com esta gente nem pae se póde ser!...

FRANCISCO (_humilde e tristemente_)

Meu pae...

MANUEL SIMÕES

Está bom, está bom... O sr. commendador deseja mais alguma coisa?

COMMENDADOR

Tenho ainda que lhe fallar a respeito do negocio de um amigo meu, que

hade aqui vir ter commigo.--Está occupado agora?

MANUEL SIMÕES

Estava ajustando umas contas, e confesso que muito desejo concluir.

COMMENDADOR

Conclua, conclua. Não tenho pressa, e o meu amigo ainda não chegou.

Esperarei, se m'o permitte.

MANUEL SIMÕES

Está em sua casa. Dando-me licença, vou acabar. (_comsigo_.) E o tempo

que já tenho perdido!... (_como occorrendo-lhe_.) Olha, Francisco... Vae

lá abaixo ao armazem... abre a carteira... aqui tens a chave...

(_dá-lha_) hasde achar ao canto da direita um masso pequeno, atado com

um nastro encarnado. Manda-m'o aqui ao escriptorio, e a chave tambem...

Pódem vir de roda para não incommodar o sr. commendador e o seu amigo,

se já tiver chegado. (_Francisco sae_. _Para o commendador_.) Aproveito

o obsequio, e abreviarei o que poder.

SCENA VIII

COMMENDADOR _só, pouco depois_ MORGADO

COMMENDADOR (_saboreando uma pitada_)

Bem diziam os escriptores da gentilidade: estavam fóra de si os deuses

quando inventaram o homem, e mal recobraram o tino desataram a rir pondo

os olhos na sua obra. Tudo n'elle é vão. _Vana mortalitas_, como lhe

chamava Plinio, o Historiador. Movem-se por um fio... (_sentando-se_)

Tudo está em saber-lho atar. (_Entra o morgado esboforido e derreado_.)

Chega a proposito, morgado... ia-me tardando... Que é isso?... Teve

alguma coisa?... Aposto que fez das suas... Não quer domar esse

genio!...

MORGADO (_lisongeàdo_)

Não posso. Muitas vezes quero ter mão em mim... mas qual... todo eu sou

fogo.

COMMENDADOR

Deixe, deixe. «Casarás, amansarás!»--Foi briga, pendencia, rixa,

desafio?... Pois nem pensando em sua prima, deixa descançar a espada!

Quer ser como Lucio Licinio Dentato, que oito vezes em repto singular

saiu vencedor á vista de dois exercitos?...

MORGADO (_mais lisongeado_)

Cada vez o vejo mais: o commendador é um amigo devéras... um amigo como

ha poucos...

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Ainda agora dá por isso!--Homem, é boa a fama de valente para captivar

as damas, mas nem tanto que assuste. Brigou?

MORGADO

Nada. (_com fatua arrogancia_.) Não acho já quem queira.

COMMENDADOR (_comsigo_)

_Miles gloriosus_!

MORGADO

Quê?

COMMENDADOR

Estou morto por saber o que teve... que o morgado não vinha no seu

natural.

MORGADO

Que havia de ser?--Esta manhã, para matar o tempo, fui até á feira das

cavalgaduras... alli pela banda do nascente do passeio... Bem sabe o meu

fraco. Estava na barraca dos juizes, segundo o costume... Tudo

entendedores de mão cheia... Não sei como se passou o tempo... o caso é

que deram dez horas... Era a hora a que tinhamos ajustado o nosso

encontro aqui... Despedi-me á pressa... instaram-me que ficasse... Se

elles não pódem passar sem mim! Foi preciso dizer-lhes que tinha que

fazer na baixa, e era tarde já... O Domingos Sanches... aquelle

polvorista rico... Decerto conhece... (_gesto negativo do commendador_.)

Ora, não conhece outra coisa!... O Domingos Sanches quiz por força que

viesse no seu lasão... um lasão melado... bonito animal... mas de maus

signaes... gazio dos olhos, e bebendo em branco... «Não és boa peça,

não,» disse eu logo commigo... «esperem que vão ver o que é o morgado da

Gesteira a cavallo!...» (_enthusiasmando-se_.) Estava tudo attento...

Monto... como eu costumo montar... O cavallo, apenas me sente, começa a

defender-se, e a negar-se... Eu aperto-lhe as esporas... Elle atira dois

saltos encabritados... Eu cozo-me com a sella... Elle furta-me o

corpo...

COMMENDADOR (_depois de breve pausa_)

E depois?

MORGADO

Depois... caí!

COMMENDADOR (_erguendo-se, sem poder suster o riso_)

Caiu?... Cuidei... Caiu!...

MORGADO (_mais enthusiasmado_)

Mas como eu cai!... com todos os preceitos... Ficou tudo pasmado!

COMMENDADOR

Creio, creio... E o cavallo?

MORGADO

Fugiu.--Para não perder tempo, vim ás carreiras... Ahi tem a razão da

demora.

COMMENDADOR

Bem empregada foi, visto que lhe proporcionou triumpho

similhante.--Tacito conta que Julio Cesar, o fundador do imperio, tambem

caiu d'um cavallo... Provavelmente caiu assim.

MORGADO

Favores, favores.--E a respeito do meu negocio? Fallou já a Manuel

Simões?

COMMENDADOR

A respeito do seu negocio ainda não. Está ajustando umas contas, não

tarda. E primeiro temos nós que fallar, porque emfim... (_Sussurro na

rua_.--_applicando o ouvido_.) Espere. Não ouve?

MORGADO

Oiço. Parecem gritos de agarra! (_Chegam ambos á janella do 2.^o plano,

e debruçam-se para ver_.)

SCENA IX

OS DITOS, MANUEL SIMÕES, _e_ D. MARIA JOANNA (_á porta do escriptorio_)

MANUEL SIMÕES

Enganou-se o Francisco. Não era aquelle o arrendamento... (_vae a

avançar, e detem-se vendo os dois_) Ai! que já me não lembrava.

D. MARIA JOANNA (_rapidamente_)

É o commendador Louzéllos, e o morgado da Gesteira?

MANUEL SIMÕES

São.

D. MARIA JOANNA

Quizera esquivar-me ás suas importunidades.

MANUEL SIMÕES

Não a viram. Póde esperar no escriptorio... O peior é que talvez tenha

de me demorar um pouco. São horas de enfardar as fazendas, e...

D. MARIA JOANNA

Vá, vá... Não tenho pressa. Espero.

MORGADO (_attento para fóra_)

Vê o que é?

COMMENDADOR

São os rapazes a correr... Ah! agora... É um cavallo solto... e é

lasão... Será o tal?

MORGADO (_affirmando-se_)

É, é!

MANUEL SIMÕES (_rapidamente a Maria Joanna_)

Se lhes não quer fallar...

D. MARIA JOANNA (_fechando a porta_)

Até logo. (_fecha vivamente a porta_.)

SCENA X

OS DITOS, _menos_ D. MARIA JOANNA

MORGADO

E como elle se leva! Não o apanham, não.--Já se não vê.

COMMENDADOR (_voltando tambem e rindo_)

Em vez de vir o Morgado atraz do cavallo, veiu o cavallo atraz do

Morgado. (_vendo Manuel Simões_) Ah! Sr. Manuel Simões! Acabou já as

suas contas?

MANUEL SIMÕES

Ainda não. São horas de carregar as fazendas que hão de embarcar ao meio

dia, e se eu não assisto... Não tendo v. s.^a coisa de maior urgencia...

Na minha vida não se póde perder um instante!...

COMMENDADOR

Já lhe disse que o não quero estorvar.--Sei o que é a lida de uma casa,

no ponto a que chegou a sua... (_intencionalmente_) Vamos, que lhe não

tem corrido mal... Passei ainda agora pela loja, e vi a azafama que por

lá ia... Uma fileira de carros á porta, e um deitar abaixo de fazendas

das prateleiras, que era um terramoto!

MANUEL SIMÕES (_cobrindo o rosto com as mãos_)

Um terramoto!... Jesus! Santo nome de Jesus, sr. Commendador! Pelo amor

de Deus, não diga essa palavra diante de mim! Já lá vão trinta annos, e

ainda me parece ver as torres da Sé a dançar!... E a minha casa!... E a

minha pobre mulher, a primeira, que alli ficou!... E toda essa ira de

Deus!... (_benzendo-se_) Em nome do Padre, do Filho, e do Espirito

Santo!... Todo eu me arripio ainda.

COMMENDADOR

Tem razão... não direi mais... Mas o que lá vae, lá vae! E dê graça a

Deus (_intencionalmente_) pelas boas protecções que tem tido!

MORGADO (_cumprimentando obsequiosamente_)

Sr. Manuel Simões!

MANUEL SIMÕES (_seccamente_)

Viva, sr. Morgado! (_ao Commendador_) É o amigo que esperava?

COMMENDADOR

Em pessoa.

MANUEL SIMÕES (_ao Commendador_)

D'aqui a meia hora, o mais, estou ás suas ordens.

COMMENDADOR

Não se apresse... Temos tempo.

SCENA X

MORGADO _e_ COMMENDADOR

MORGADO

Vê como elle me trata? Oh! que se não fosse...

COMMENDADOR

Quando estiver de posse da casa de Carregueiros, faça-lhe o mesmo.

MORGADO

Oh! isso!... E ha-de ser quanto antes. Estou resolvido a acabar de vez

com estas incertezas e duvidas de minha prima. Tenho o remedio na mão.

COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Tem?... (_indo examinar a porta do F. e a da D., 2.^o plano, e depois

voltando_.) Ninguem na casa de fóra, nem no corredor... Estamos sós e á

vontade... Podemos conversar um pedaço.--Com quê... resolveu casar com

sua prima quanto antes? Faz muito bem. Casar, e casar rico, era já

conselho de Plauto. _Nubere in divitias_!

MORGADO

Faço muito bem? É devéras a sua opinião, Commendador?

COMMENDADOR

Pois porque não há de ser?

MORGADO

Quer que lhe diga uma coisa?

COMMENDADOR

Diga.

MORGADO

Andei muito tempo desconfiado... Loucuras minhas, agora vejo!... Uma

pessoa prudente e de juizo, como o commendador?...

COMMENDADOR

Diga sempre. De que andou desconfiado?

MORGADO

Tinha-me querido parecer que se inclinava a galantear tambem minha

prima.

COMMENDADOR (_tranquillamente_)

Não se enganou.

MORGADO (_sobresaltado_)

Não me enganei?

COMMENDADOR

Socegue. Passou-me isso pela cabeça na jornada em que a acompanhei de

Paris... Mas reflecti depois.--Socegue. Já lá vae.--Escreveu-me um

antigo conhecimento de Santa Clara.

MORGADO (_malicioso_)

Ah! chegaram-lhe lembranças dos doces e da grade!

COMMENDADOR

Reflecti... dês que o encontrei.

MORGADO (_lisongeado_)

Dês que me encontrou?

COMMENDADOR

E principalmente quando o conheci a fundo. Cada vez tenho por mais

seguro que ninguem convem tanto a sua prima... nem a mim.

MORGADO (_admirado_)

Nem ao Commendador?

COMMENDADOR

Reflecti muito.--Sua prima está ainda no calor da mocidade, não lhe

ficaram as melhores impressões do primeiro matrimonio, e ha-de querer

indemnisar-se... O segundo marido leva grande responsabilidade e grandes

trabalhos!... Eu, o que preciso é descanço... Mesa substancial, o meu

copo do Porto velho, os meus livros... e uma boa sege á bolea. A doirada

mediania, de que falla Horacio Flacco, o Venusino.--N'isto assentei... e

veja como o tenho ajudado.

MORGADO (_convencido_)

Assim é, assim é. Realmente, não sei como lhe hei de pagar tantas

obrigações!

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Ah! isso não lhe dê cuidado.--O Bocage não o affronta já: está todo

captivo da afilhada de D. Felicia... E a afilhada de D. Felicia... não

lh'o prognostiquei?... deu já de mão ao filho do mercador. O tenente, de

um momento para o outro... D'esse depois se tratará, sendo preciso.--Bem

vê como lhe abro praça, e o deixo só em campo tornando-lhe facil a

victoria. (_vae sentar-se á E._)

MORGADO (_recuando com uma especie de terror_)

E tudo por amizade!

COMMENDADOR

A amizade é o meu fraco. Chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que

importa. (_O morgado senta-se-lhe ao pé_.) Manuel Simões não parece

muito disposto a dar-lhe ao cincoenta moedas de que me disse precisava

infallivelmente.

MORGADO

E preciso. Que faria eu diante de minha prima sem real?

COMMENDADOR (_preparando a caixa para tomar uma pitada_)

Mau era na verdade... Mas a Gésteira, que nunca chegou para muito, já

não dá para mais... As vinte moedas, qne lhe arranjei o anno passado,

foram-se n'um instante á banca, e ao loto de Génova... Manuel Simões

sabe tudo isto perfeitamente, vê-o afogado n'um diluvio de hypothecas, e

não é homem que deite o seu dinheiro pela janella fóra...

(_offerecendo-lhe a caixa_) Toma?

MORGADO (_erguendo-se consternado_)

Mas então como ha de ser? Se me mandou vir aqui só para me dizer

isso!...

COMMENDADOR

Hade ter as cincoenta moedas; abono-o eu.

MORGADO (_sentando se e abraçando-o_)

Isto é que é um amigo.

COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Que rendimento terá a sr.^a D. Maria Joanna? Já averiguou?... Hade ter

averiguado.

MORGADO

Só da casa de Val-Moreno, que recebeu pela mãe, anda por cinco mil

cruzados.

COMMENDADOR (_offerecendo-lhe tabaco_)

Serve-se? (_Morgado tira machinalmente uma pitada_.) É isso.--Quanto aos

vinculos de Fresnos e Carregueiros... que lhe tocaram por parte do pae,

e que o pae tinha herdado de seu irmão o Capitão-mór, marido de D.

Felicia, que morreu sem filhos... quanto aos vinculos de Fresnos e de

Carregueiros, deve andar cada um para mais ainda... principalmente o de

Carregueiros.

MORGADO

Não tem menos de quinze a dezeseis mil cruzados ao todo. Mas a que

proposito...

COMMENDADOR

Calculos necessarios. Vinte moedas em junho passado, cincoenta agora,

fazem setenta... que o morgado vem a dever-me.

MORGADO (_como protestando_)

Devo, devo... Heide dever, e heide pagar... juro-lhe. Juro por... pela

cruz da minha espada.

COMMENDADOR

Se podesse jurar por outra coisa!

MORGADO (_offendido_)

Duvída?

COMMENDADOR

Ha viver e morrer.--Homem, a commenda, bem sabe, apenas me chega para

viver com decencia... e parcimonia.--Suetonio, e outros auctores, louvam

a parcimonia como virtude; mas Terencio tem que a dureza da vida não é

para gente adiantada... e eu sou da opinião de Terencio!--O morgado não

ha-de querer que perca assim setenta moedas!

MORGADO (_desconfiado_)

Deseja alguma segurança?

COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Quasi nada. O morgado faz-me uma escriptura de divida de trinta mil

cruzados!... e sou eu que lhe hei-de pôr a data!

MORGADO (_erguendo-se de subito e exclamando furioso_)

Trinta mil cruzados! Dois annos de rendimento da casa de minha prima!...

COMMENDADOR (_tranquillamente_)

Não grite.--Ólhe se estivesse ahi alguem perto?

MORGADO (_contendo mais a indignação_)

Trinta mil cruzados para pagar setenta moedas!

COMMENDADOR

Quem lhe diz isso? Para deitar sege, e ter honradamente as commodidades

que me faltam.--Oiça, e entre na razão. Desistindo de aspirar á mão de

sua prima, renuncio áquella riqueza toda. Não tem valor isto? E faço

mais; trabalho para desafogal-o de rivaes perigosos... perigosos,

podemos dizel-o entre nós. Não merecerão estes serviços trinta mil

cruzados? Contou bem. São dois annos do rendimento de sua prima. Póde

pagar em quatro. Fica-lhe ainda metade. Veja quem lh'o fazia por

menos.--Não recuse, ou ponho-lhe quarenta por condição.

MORGADO

Por condição?

COMMENDADOR

Por condição. E hei-de obtel-a.--Ha condições de muitas especies. No

codigo de Justiniano, e nos cincoenta livros dos Pandectas, que lhe

servem de commentario...

MORIGADO (_atalhando-o desesperado_)

Quaes Pandectas nem qual Justiniano! Esse pinhal de auctores e de

latins, é um pinhal da Azambuja. (_passeiando agitado_) Trinta mil

cruzados!... Nada, não me deixo roubar... Tão tolo era eu que assinasse

similhante escriptura!... Poem-me condições!... a mim!... Sempre quero

vêr!...

COMMENDADOR (_cruzando a perna tranquillamente e tirando um papel do

bolso_)

Hade ver.

MORGADO

Poem-me condições!... E d'essas!... É muito caro o seu auxilio,

commendador. Dispenso-o. Tenho outro modo de convencer minha prima, mais

seguro e mais barato.

COMMENDADOR

Mais barato, duvido.

MORGADO

Verá.

COMMENDADOR

O seu famoso segredo?

MORGADO

Verá.

COMMENDADOR (_socegadamente_)

Pois então experimente. (_O morgado pára e fita-o_.) Vá dizer a sua

prima: «Prima, tenho aqui uma declaração, que me entregou nos ultimos

momentos a Simôa da Torre da Palma...» É provavel que a traga no

bolso... (_O morgado leva vivamente a mão ao bolso, como para verificar

se lá está o papel indicado_.) Traz, descance!...

MORGADO (_mais tranquillo_)

Conjecturas para pescar verdades... O ardil é velho.

COMMENDADOR

Quer saber o que diz a declaração? (_desdobra o papel que tem na mão_.

_Estão ambos attentissimos um para o outro_. _Descerra-se mansamente a

porta do escriptorio, e D. Maria Joanna apparece alli, a rapidos

intervallos, observando_.)

SCENA XII

OS DITOS _e_ D. MARIA JOANNA (_meia occulta_)

COMMENDADOR (_lendo_)

--«Por temor de Deus, e amor da verdade, eu Joaquina Simôa, familiar da

casa da Torre da Palma, tendo presentimento de que me chegará breve a

hora de dar contas, e não querendo condemnar a minha alma, declaro o

seguinte, que n'esta hora confirmo com juramento aos Santos Evangelhos,

em presença do reverendo padre cura de Vayamonte, e por sua exhortação e

conselho...» (_O morgado, primeiro attonito, depois aterrado, tem tirado

do bolso a outra declaração, como para comparar com o que ouve, e

parecendo duvidar ainda_.) É exactamente isto?

MORGADO

Ou o commendador tem parte com Satanaz... ou é verdade o que dizem!

COMMENDADOR (_negligentemente_)

Então que dizem?

MORGADO

Dizem que é um jesuita... dos que não trazem roupeta.

COMMENDADOR (_severamente_)

Sr. morgado, não repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se

póde arrepender!--Quer verificar o resto da declaração? Conta n'ella a

Simôa:--como estando já separada do marido a morgada da Torre da Palma,

a filha della Simôa adoecéra;--como o capitão mór, em casa de quem a

mesma Simôa nascêra e se criára, a reduzira a prometter-lhe que, se a

creança morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e

faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de

Carregueiros passassem a varão;--como o escudeiro Luiz Manuel fôra

mandado administrar uma herdade da casa ao pé de Olivença, até á morte

do Capitão-mór, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher

ficava unica depositaria;--finalmente como a Simôa, levada das

obrigações que devia á casa do Capitão-mór, tivera a fraqueza de ceder,

e criára como sua a filha de D. Felicia, até que esta a mandou buscar já

crescida cuidando ser a afilhada.--Está tudo claramente explicado, e

devidamente datado e assignado.

MORGADO (_subjugado_)

Essa declaração passou das mãos da Simôa ás minhas... nunca a mostrei...

nunca a larguei... Como é possível sem ser por artes sobrenaturaes...

COMMENDADOR

Tem innocencias!--Dei uma volta a Vayamonte. O cura é... É meu amigo.

Não me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevêra.

(_sentando-se de novo_) Como iamos dizendo... O morgado vae a sua

prima... mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: «a supposta afilhada de

sua tia D. Felicia é sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio

Capitão-mór. Este papel e este segredo valem dois terços da sua riqueza.

É a unica prova. Se quizer que tal prova desappareça, case commigo. Nada

tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante

rematado.» (_Movimento do morgado_) É tudo isto, é, morgado... e mais

alguma coisa. (_Como se proseguisse o discurso do morgado_.)

«Mas,--continuará,--rasgando este papel é como se lhe trouxesse em dote

os vinculos de Fresnos e de Carregueiros.» O argumento conclue. Entra na

ordem d'aquelles a que Cicero chamava: _argumento premente_. Ora como o

tenente Gonçalo Mendo não é ainda coisa certa, e como ninguem perde de

vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos,

convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada

mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta

minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu

poder a declaração, sem a entregar!... Era deitar tudo a

perder!--Verdade, verdade; não vale quarenta mil cruzados?

MORGADO

Quarenta agora!...Trinta!...Tinha dito trinta!...

COMMENDADOR (_abrindo a caixa_)

Tinha? Enganei-me. Quem se não engana? Lucio Floro, da nobre familia dos

Anneanos, conta que um engano decidiu uma batalha, e Seneca chama-lhe

_allucinatio_ para mostrar a perturbação mental que o determina

(_voltando-se mesmo sentado, inclinando-se sobre a esquerda, como para

evitar que a pitada que vae sorver lhe macule a tira_.) Foram quarenta,

nem menos um real... E se hesita...

MORGADO (_acudindo_)

Não hesito... Assigno-lhe a escriptura.

D. MARIA JOANNA (_que se adiantára sem que os dois, absorvidos na

conversação a presentissem, apresentando-se entre ambos com jovial

placidez_)

E eu sirvo de testemunha!

COMMENDADOR (_erguendo-se sobresaltado_)

A sr.^a D. Maria Joanna Galvão aqui!

D. MARIA JOANNA (_com o mesmo modo prazenteiro_)

Porquê? Não sou interessada?

MORGADO (_enleiado_)

A prima, naturalmente, não sabe ainda...

D. MARIA JOANNA (_atalhando como transfigurada, com grave altivez o

severa dignidade_)

Sei... Sei que o sr. morgado da Gésteira me entrega immediatamente esse

papel... e o sr. commendador esse tambem!

SCENA XIII

OS DITOS, BOCAGE _e_ GONÇALO MENDO, (_apparecendo ao F. e detendo-se a

observar_)

MORGADO

Ha de perdoar, prima. Este papel foi-me confiado.

D. MARIA JOANNA (_como acima_)

De que modo correspondeu á confiança?--Esse papel é o allivio d'uma

saudade, a consolação de uma familia, a restituição d'um patrimonio...

Esse papel é a consciencia e o dever. Tem direito de o conservar nas

suas mãos?

COMMENDADOR (_de parte ao morgado_)

Não ceda. Se fica ella com a prova, fica o morgado sem o casamento!

D. MARIA JOANNA (_sem os perder de vista_)

Sr. commendador, não se envileça mais... nem faça envilecer mais o sr.

morgado! A cegueira de um homem, que já não vive, privou sua propria

filha do nome e dos bens que lhe pertenciam... O temor da hora extrema

corrigiu essa injustiça... (_crescendo em indignação_) Sobre este erro,

que é para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se

um pacto infame... (_Movimento dos dois_.) Infame, repito!... Um

mercadeja a honra, outro a consciencia!... Um sacrifica a natureza,

outro o decóro!... Isso tudo que é senão valor para traficar, fazenda

para vender?... Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher

offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir. É o seu interesse...

Pensaram isso?... Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o

pensarem! É o mal das indoles corrompidas não admittirem sequer a

existencia de corações sãos e inteiros, para quem a satisfação do dever

seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. Não o

podiam imaginar maior!--Sr. morgado, esse papel!... Sr. commendador,

esse papel!

MORGADO

Se outra pessoa que não fosse a prima se atrevesse a dizer-me

similhantes coisas!...

(_Bocage quer adiantar se; Gonçalo detem-n'o_.)

COMMENDADOR

Estes papeis pertencem-n'os!

D. MARIA JOANNA (_mais exaltada_)

É a minha tia que pertencem. Sou eu que lh'os quero entregar!... Sou eu

que devo entregar-lh'os!... Não me obriguem a...

GONÇALO (_adiantando-se e interpondo-se com respeitosa serenidade_)

Perdôe, sr.^a D. Maria Joanna Galvão... Uma senhora da sua qualidade não

póde entender-se com estes senhores.

BOCAGE (_com ironia mal dissimulada_)

Estes senhores vão pôr já nas suas mãos os papeis que lhes não

pertencem.

GONÇALO (_com terrivel frieza, crescendo contra o morgado, que recua na

sua presença_)

O sr. morgado não ha-de querer desattender sua prima!--O papel?

BOCAGE (_do mesmo modo ao commendador_)

O sr. commendador de certo não falta ao respeito a uma dama.--O papel?

(_O Morgado e o Commendador, tranzidos e suffocados, entregam os papeis

aos homens que teem diante_.)

GONÇALO (_entregando reverentemente o papel a D. Maria Joanna_)

Aqui está.

BOCAGE (_idem_)

Aqui está.

SCENA XIV

OS DITOS _e_ D. FELICIA, _entrando do F. pelo braço de_ MANUEL SIMÕES,

_que vem sem chapeu_

MANUEL SIMÕES

Isto é coisa que se creia! Obrigar-me a sair assim pela rua fóra, eu, um

compadre dos dois marquezes!

D. FELICIA

Queria que entrasse pelos armazens, ou désse o braço ao escudeiro? Viu-o

na loja... chamei-o para me acompanhar. Vinha com o meu hysterico, e já

não podia...

D. MARIA JOANNA (_correndo a ella e atirando-se-lhe ao pescoço_)

Minha tia! minha tia! Mal sabe...

D. FELICIA

Credo, sobrinha! Olhe que me desmancha o penteado. Isso são modos de uma

senhora?--A afilhada não está na sua companhia?

MANUEL SIMÕES

Está lá dentro com a mana Monica.

D. MARIA JOANNA (_alvoroçada_)

A sua... a minha... (_dando-lhe o braço do outro lado e levando-a

comsigo_.) Venha, venha, que a espera uma grande alegria.

D. FELICIA (_toda turbada_)

Que dia de juizo é este!--Não me largue o braço que não estou boa, sr.

Manuel Simões.

(_Saem pela porta do 2.^o plano da D._--_D. Maria Joanna puxando por D.

Felicia, D. Felicia puxando por Manuel Simões_.)

SCENA XV

BOCAGE, GONÇALO, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Pausa em que os quatro se medem reciprocamente_.)

GONÇALO (_rindo, para Bocage_)

Conhece alguma coisa mais horrenda do que o sr. morgado quando se faz

amarello?

BOCAGE

Conheço: é o sr. commendador quando se faz verde.

MORGADO

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 6 / 10 段