Segredo!... (_serenando, ironicamente_) Um segredo meu, sr. commendador.
COMMENDADOR (_com o habitual sorriso entre fatuo e maligno_)
Segredos, só debaixo da terra... como faziam os romanos!
(_Cae o panno_)
FIM DO PRIMEIRO ACTO
ACTO II
Ao fundo a frente e esquina d'um quarteirão da rua Augusta, tomadas da
extremidade de uma travessa, cujos edificios estão ainda em obras.
Janellas praticaveis em dois andares. A entrada do predio pela
travessa.--Renques de marcos de pedra guarnecendo os passeios.--Toldo
cubrindo a rua.--As janellas, ornadas de armações de damasco, e
preparadas para illuminação. Cubertores de seda e colxas da India nos
parapeitos.--O chão areiado; espadanas e murta. Faltam ainda os
lampiões.
Fins da tarde. Pouca animação. Alguns transeuntes apenas.
SCENA I
BOCAGE (_á paizana, encostado á esquina da direita, com os olhos n'uma
das janellas da rua Augusta_.)--COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO
(_que veem de lados oppostos_.)
(_Durante esta scena e a seguinte,_ BOCAGE _dá algumas voltas,
apparecendo e desapparecendo, mas sempre tornando ao mesmo logar e á
mesma observação_.)
COMPADRE AMANCIO (_topando-se com o outro_)
Aonde vae com tanta pressa, compadre Theotonio!
COMPADRE THEOTONIO
Ao _presepio_ da Mouraria. Quero ver se apanho ainda o Manuel Gonçalves
da Ribeira das Naus.
COMPADRE AMANCIO
Trabalha hoje com os arames?
COMPADRE THEOTONIO
Entra no fim. Porquê? Não vou a tempo?
COMPADRE AMANCIO
Se vae! O Manuel Gonçalves tem sua graça... principalmente na scena do
diluvio, quando se queixa que perdeu o pente de derrubar.
COMPADRE THEOTONIO
Pois quando ardem as estopadas! As pulhas que elle deita aos
demonios!... Tem pilhas de graça!--Deixe-me ir que se faz tarde, e já
agora a de seis está destinada (_partindo_).
COMPADRE AMANCIO (_detendo-o_)
Que eu, cá para mim, como o Tortinho da Sé, apesar de velho, é que não
ha... Nem o Antonio Antunes, do Bairro-Alto. Saca as palavras assim com
um tremor do buxo, o maldito, que é a gente espojar-se!--Deus o leve,
compadre. Até á noite na loja.
COMPADRE THEOTONIO
Não fecha hoje?
COMPADRE AMANCIO
Lá mais tarde. É dia de muito freguez de fóra, não tem mãos a medir os
rapazes, e para alguma barba, assim mais tal, preciso servir eu. Bem
sabe a roda que tenho.--Chego alli abaixo á Arcada, a comprar os Autos
da Maria Parda para o serão das pequenas, e volto já.
COMPADRE THEOTONIO
Vá com Deus, compadre Amancio, e até logo. (_Separam-se e sahem,
compadre Theotonio para a E., compadre Amancio para a D._--_Entram logo
tia Paschoa, e tia Vicencia vindo juntas da E._)
SCENA II
TIA PASCHOA, TIA VIGENCIA _e_ BOCAGE
TIA VICENCIA
Ih! Jesus, Deus Menino! Ainda por aqui arrastadinha, tia Paschoa! O seu
homem ainda no Limoeiro! Quer creia, quer não, estava de pedra e cal que
se tinha ja livrado. Uma pessoa estabelecida! com loja aberta!...
TIA PASCHOA
E mestre d'officio!... Um mestre de torno, que ninguem lhe leva as
tampas!... É isto, que vê, tia Vicencia... Debaixo dos pés se levantam
os trabalhos... Que a culpa não é d'elle...
TIA VICENCIA
Isso sempre eu disse... Pobre homem!... Não fui logo lá quando sube,
porque da rua dos Remedios á Esperança sempre é um estirão. Aquillo com
a labotação do padejo, é vir uns dias por outros ao Terreiro, e não ha
tempo para mais.
TIA PASCHOA
Pois eu não sei!--Tudo intrigas do Alcaide!
TIA VICENCIA
Sim? Ora vejam! E então como foi?
TIA PASCHOA
O Alcaide tem uma sobrinha na rua do Lambaz... Sobrinha, vamos...
sobrinha ou o que quer que é, que se eu tivesse má lingua...
TIA VICENCIA
Sim, sim, não sabe a gente o que são sobrinhas d'essas!... Que mundo,
ai! que mundo, tia Paschoa!
TIA PASCHOA
Uma sobrinha toda peralta!... Sempre como em dia de cirio ou de
festa!... Quer na rua, quer em easa, capotilho de durante e bajú de
escumilha, um palmito mesmo!... Sobrinha, pois não!... Vá que fosse
sobrinha... Estava a ir-nos todos os dias à loja, que até já eu não
andava contente, Deus me perdôe... Tudo era encommendar continhas,
botõesinhos, coquilhos, cabos de chapeus... um nunca acabar. Mas coisa
de pagar, qual! Tanto encommendou, e tanto faltou, que o meu Francisco
por fim deixou de lhe fazer obra, e quiz obrigal-a a pagar por
justiça... Justiça, está bom!... Ella tinha o pae Alcaide... pae ou tio,
que eu sei lá o que lhe é... Foi-n'os a casa toda assanhada... palavra
puxa palavra... Emfim, deram-n'os uma força por injuria, e agora o
veràs... Eu bem dizia ao meu homem: «ó Francisco, deixa... deixa. Não
apertes com a moça.» «Agoa vertida nem toda é colhida.» Mas, nada.
Pensam que só elles teem juizo, estes senhores homens! Teimou, teimou, e
aqui está. Vae já para um mez que dura este fadario. Sempre com o
mantinho aos hombros!... E Deus sabe o que durará!... E tudo em casa a
derreter-se... Os meus cordões e arrecadas, foi tempo... Dois tóros de
buxo, que elle tinha comprado pelo S. Miguel... sem um nó, que eram
mesmo uma perfeição... e haviam de render bons vintens... já lá vão por
dez réis de nada... Até uma grosa de piões, que estavam para a Senhora
do Cabo... hade crer, tia Vicencia?... a quinze réis cada um, que a bem
dizer mais custou o ferrão!... E ainda se não fosse o mestre José
Gomes... Deus lh'o pague!... Sabe? O mestre José Gomes, cerieiro ás
Trinas, que é juiz do povo!... Se não fosse elle nem resquicios havia já
da loja. Agora venho eu do Terreirinho das Olarias, de casa do escrivão,
e vou para o Poço dos Negros, a ver se fallo ao sr. juiz do crime do
Mocambo.
TIA VICENCIA
Até hoje! Cuidei que andava a ver as ruas!
TIA PASCHOA
A ver as ruas, eu! Ai, santo Antonio e almas! Não faço senão correr de
Herodes para Pilatos... E é duas peças a um, quatro moedas a outro...
Que os leve a todos trezentos... Jesus, santo nome de Jesus! Nossa
Senhora do Livramento me perdôe, que nem eu sei o que ia a dizer...
Cruzes, inimigo!... Mas Paschoa do Espirito Santo não seja eu, se o
Alcaide, e a beberrona da tal sobrinha, m'o não pagam mais duro que
ossos... Pesquei hontem cá uma coisa... O que eu queria era fallar ao
sr. Juiz... Dizem que ha ahi uma tal sr.^a morgada, de lá de cima... uma
sr.^a D. Felicia, que dá assembléa todas as semanas, aonde vae o sr.
Juiz...
TIA VICENCIA
Sei eu quem é... Móra ás Portas da Cruz... É minha fregueza, e por
signal que me deve bons vintens. Vou lá muita vez.
TIA PASCHOA
Vae? Se me arranjasse modos de fallar á morgada, para ver se ella
pedia...
TIA VICENCIA
Isso é fácil. Mas quer que lhe diga?... Se deseja que o Juiz lhe dê
audiencia, e depressa, vá á Esteireira... aquella que representa no
Salitre... passe por casa da madama Charles, e leve-lhe uma peça de
esguião... se não póde chegar a um rosicler de pedras.
TIA PASCHOA
Ai! Senhor!... Coisas que custam os olhos da cara!...
TIA VICENCIA
Então é deitar o coração á larga... Deus ainda está onde estava, e atraz
do tempo, tempo vem. Eu cá nas minhas afflicções pego-me com a Senhora
da Purificação, rainha madrinha, que ainda me não faltou. Agora mesmo
lhe vou levar á Boa Hora uma quarta de cera, que comprei alli em cima no
Soccorro...
TIA PASCHOA (_dispondo-se a acompanhal-a_)
Vamos para a mesma banda.
TIA VICENCIA
Eu da Boa-Hora tenho de ir á botica das Portas de Santo Antão, que se
vende lá uma agoa...
TIA PASCHOA
Tambem tenho de tornar ao Terreirinho. Em quanto fica na egreja, chego
eu acima e volto por lá.--Teve novidade em casa?
TIA VICENCIA
Tive a minha _Guiteria_ com umas terçãs, que não havia tirar-lh'as do
corpo... Estava-me a enthisicar, a enthisicar todos os dias... na
espinha mesmo... Assim Deus purifique a minha alma, em como não foi se
não mal que lhe deu a Brites do Forno... Conhece?
TIA PASCHOA
Pois não conheço. Não fosse ella atravessada! O tição!... E então
porquê?
TIA VICENCIA
Contos largos. Vamos andando. (_Saindo juntas ao passo que entra da D.
um transeunte_.) E a respeito da sobrinha do Alcaide, não me disse...?
TIA PASCHOA
Paga-m'as todas, com certeza. O caso é fallar ao Juiz. Hontem ao
escurecer, tinham dado trindades no convento, vinha eu...
(_desapparecem_.)
SCENA III
BOCAGE, _e o_ TRANSEUNTE
TRANSEUNTE (_embuçado, observando, descendo a Bocage, que está de novo
parado á esquina, e batendo-lhe no hombro_)
Elmano, a lyra divina
Por que razão emmudece?
BOCAGE (_voltando attonito, mas acudindo logo_)
Porque mais cala no mundo
Quem mais o mundo conhece!
TRANSEUNTE
Que tens n'esse mundo achado
Que mais assombro te faça?
BOCAGE
Um poeta com ventura,
Um tratante com desgraça.
(_Entra da E. Gonçalo Mendo, de fumo no braço, e pára ao F.
observando_.)
TRANSEUNTE
Bem respondido, sr. Bocage.
BOCAGE
Bem perguntado, sr. Tolentino.
(_Nicolau Tolentino aperta-lhe a mão, e segue para a D. saindo_.)
SCENA IV
BOCAGE, GONÇALO MENDO
GONÇALO
Quizera que tivesse mais testemunhas o encontro e o improviso.
BOCAGE (_chegando-se_)
Para que?... Riam... mofavam. Dois poetas que se cumprimentam em verso!
GONÇALO
Effectivamente não são vulgares os cumprimentos entre poetas... e consta
que não é prodigo d'elles o sr. Bocage.
BOCAGE
Não sou, porque não me inclino senão ao merito verdadeiro e superior. A
este qualquer póde inclinar-se. Raramente nos encontramos; fallamo-n'os
ainda menos; mas admiro-o e respeito-o.
GONÇALO
Desejara tambem que lhe ouvissem essas palavras.
BOCAGE
Porquê?
GONÇALO
Porque sou seu amigo. Correm por ahi, de mão em mão, copias d'alguns
improvisos satyricos... seus decerto...--Deixa-me fallar-lhe com
franqueza?
BOCAGE
Tão custoso é o que me quer dizer!
GONÇALO
A verdade amarga.
BOCAGE
Trava menos na bocca da amizade, e eu creio na sua.
GONÇALO
Encontro-o em occasião grave para mim. Talvez d'ahi venham estes desejos
de o prevenir e aconselhar.
BOCAGE
Ainda agora reparo. De luto?
GONÇALO
Achei em Lisboa a noticia do fallecimento de meu irmão.
BOCAGE
Sinto!... (_apertando-lhe a mão_.) Sinto-o.--Cheguei tambem ha oito dias
do Alemtejo com licença. Não sabia ainda...
GONÇALO
Tornou-se-me obrigação a sisudeza.--Tem um grande talento, sr. Bocage;
não lhe faltam protecções... Empregando esse talento em proveito da
patria, será grande em pouco, e dar-lhe-ha grandeza. Se tão altos dotes
recebeu de Deus, foi para honra da sua terra. Dedicar-lh'os é dever;
esperdiçal-os é sacrilegio. O engenho, o saber, o estro são instrumentos
que valem segundo o uso que d'elles se faz. Não ha gloria maior quando
bem dirigidos; não ha mais pesada responsabilidade quando mal
aproveitados.
BOCAGE (_um pouco resentido_)
Porque me diz isso? Estou em crer que tenho aos pés um abysmo.
GONÇALO
E tem talvez. As suas frechas epigrammaticas promovem-lhe odios tenazes
e profundos. Quanto mais agudas forem, e mais acertarem no alvo, mais
inimigos lhe hão de suscitar. E os perigosos não são os que lhe
respondem como podem; são os que na perfidia dissimulam a vindicta; são
os que no sorriso affectado encobrem a vaidade ulcerada, e o rancor que
não perdôa.
BOCAGE
Quer então que desça a humilhar-me em dissimulação egual? Quer que abata
aos pés do vicio dourado, ou da ignorancia presumida, esses dons em que
me falla? Quer que envileça a lyra fazendo-a servir aos festins dos
poderosos, como accessorio apettitoso, ou como adorno comprado?
GONÇALO
Quem lhe diz tal! Supõe-me capaz de lhe aconselhar baixezas? Consagre a
lyra á patria, como os egregios poetas de todos os tempos, como Homero,
como Virgilio, como o Dante, como Camões... como o nosso grande
Camões... tão grande e tão nosso, que se tudo em Portugal acabasse, elle
só bastara para dar a immortalidade ao nome portuguez!... Faça-o que
pode. São largos trabalhos esses, são cruas batalhas tambem. No arduo
trilho achará egualmente diante de si o erro, o vicio, a vulgaridade, a
ignorancia!... mais ainda, a mediocridade!... peior ainda, a inveja!
Terá de cingir o corpo como os peregrinos, terá de affrontar o martyrio
como os apostolos. Não lhe faltarão obstaculos nem dissabores. Não lhe
faltarão perigos nem trabalhos. Não lhe faltará a luta, a luta acerba,
continua, ardente... Mas ao cabo está a gloria, a verdadeira gloria, a
gloria infallivel ainda que tardia.--Hade seduzil-o esta!
BOGAGE
E não será ainda servir a patria castigar os ridiculos? Não faltam ahi
tambem em compensação de qualquer desgosto, os applausos para impellir,
para embriagar, para exaltar, para inspirar a musa... E a minha musa...
que lhe hei de fazer, sr. tenente?... a minha musa é toda isenções e
aventuras. Não consente sujeição.
GONÇALO
Os ridiculos d'estes! os applausos d'aquelles! Que applausos e que
ridiculos? Não valerão tanto uns como outros? É para mais o seu engenho
do que para servir de desafogo a rivalidades pequenas. E diga-me: tem
certeza de ser sempre justo? Não o entristecem muitas vezes esses
ruidosos applausos em recintos frequentados de ociosos? Não vê que
muitos glorificam nos seus versos, menos a claridade que os illumina, do
que o raio que vae ferir um émulo, ou um superior? «[1]Não vê que
arrastando na ignominia os seus competidores, a si mesmo se apouca? Não
repara que d'esse modo só favorece os baixos instinctos dos detractores
sem alma?» É para isso a musa e a lyra? Applaudem-n'o! Applaudem. Mas
como? Mas porquê? Mas quem? Ólhe em torno de si e medite. Applaudem-n'o
enthusiasmos que depois o nauseam, applaudem-n'o paixões que depois o
envergonham. O epigramma cortante, a hypérbole sarcastica, a imagem
insultuosa, despertam na sua presença um delirio interessado, que lhe
deixa após o vacuo e o pejo. Compare esse applauso suspeito com outros
menos estrepitosos, mas selectos, que já lhe tem grangeado obras mais
altas e mais dignas. Recorde a satisfação que lhe fica na consciencia,
quando arremessa o vôo ás regiões luminosas onde fita os
astros!--Falla-lhe pela minha bocca a sympathia, e a experiencia. Somos
camaradas; sou seu amigo, repito-lhe... sou ainda mais amigo d'esta
terra, de que deve ser, de que póde ser ornamento e brazão... e que o
precisa, creia... que precisa de todos os grandes esforços para a
levantar da ameaçadora decadencia.--Está nas primeiras impressões e nos
primeiros annos. Tem aberta a carreira das armas. Com o seu nascimento,
com a sua capacidade, com a instrucção e o estudo... qualquer outra que
prefira se lhe póde abrir. É por isto, é para isto que o importuno...
Nicolau Tolentino é official de secretaria... Manuel de Figueiredo
tambem... Ahi em dois poetas!...
BOCAGE (_interrompendo arrebatado_)
Manuel de Figueiredo, poeta!... Um moralista seccante, que se julga
innovador por imitar de longe os antigos!... O Tolentino, sim... esse ha
de ficar para a posteridade!... (_Pausa, longa reflexão_. _Gonçalo
observa-o attentamente_. _Levanta depois o rosto e continúa com
progressiva exaltação_.) Ouça-me tambem, sr. Gonçalo Mendo. Verá que
avalio os seus affectuosos conselhos... E se alguma vez lhe disserem que
Bocage é uma indole pertinaz e intractavel, poderá affirmar como a
austeridade e a razão o acharam docil.--Oiça-me. Não é novo para mim o
que me diz...
GONÇALO
Ahi verá!
BOCAGE
Tem-m'o repetido a meudo a consciencia.
Oh! não mais que momentos inebria
O sordido clamor da turba sordida!...
Perdoe, involuntariamente se me formulou em, verso a idéa.
GONÇALO
Prodigiosa faculdade! E quer desbaratal-a?
BOCAGE (_proseguindo_)
Não pense que estimo a plebe das admirações... tanto como admiro as
magras rimas de ôccos versejadores!... No meio das mais estimulantes
palestras, quando é maior o alarido e a matinada, quando egualmente
espumam os copos e os labios, quando se condensa o vapor que tolda a
casa e o cérebro, quando os motejos se crusam como settas, e os
paradoxos refervem como vagas, que de vezes não fico eu mudo, absorto,
sem escutar, sem perceber, sem discernir o que tenho diante!... É que se
me desprende a alma para cima!... Tenho os olhos e o espirito nos
espaços radiantes, d'onde se encara o infinito e o futuro!... Ouço o
hymno triumphal na bocca dos povos reconhecidos!... Enfeixo nos braços
as palmas das nações!... Cinjo na fronte os louros perpetuos!... Vejo as
edades curvadas aos pés d'um monumento coroado de perennes
resplendores!... Esta e só esta é a gloria, digo... esta e só esta...
eterna primavera, eterna aurora... eterna recompensa!
GONÇALO (_enthusiasmado_)
E quem tal sabe conceber não ha de saber realisal-o!
BOCAGE (_tristemente, estendendo-lhe a mão_)
Dê-me que o mundo se povoe de juizos como o seu, de almas como a sua...
e será possivel, e será facil... Como elle é, não sei se algum dia terei
força para tanto... Por ora, não... Resgate a minha franqueza a minha
fragilidade... O menor abalo que d'esse extasi me atire á realidade, mal
acerto com a vista na nullidade soberba, na villeza prospera, na
abjecção remunerada, na astucia triumphante, na hypocrisia
omnipotente... n'esse ascoroso acervo das miserias humanas... todo se me
revolve o coração... e sae-me pela bocca em strophes irritadas, que a
amargura envenena, que a indignação inflamma! Quero, e não posso, conter
esta furia, represar esta onda, que se entumece, e trasborda com o
temporal de dentro!... Depois... Nenhuma fraqueza lhe dissimulo...
Depois, as palmas, os bravos, as acclamações, o frémito das turbas, que
pendem da minha voz e a minha voz avassalla, todo este rumor contagioso
e irresistivel... é novo excitante á febre, é maior alimento ao
incendio, que lavra, que lavra, que se desata em labaredas accumulando
as cinzas... que investe ao acaso... que devora quanto encontra... que
hade acabar por me devorar tambem!
GONÇALO
Veia exuberante! Seiva excessiva! Torrente impetuosa!--Os annos o
corrigirão.
BOCAGE
Não sei... Nasci assim. Acho-me assim ao entrar no mundo. Corrige-se
isto?
GONÇALO
Quando se não corrige, mata. E o sr. Bocage ha de viver.--Desculpe se o
turbei nas suas contemplações... Não pude resistir... posto saber o fito
d'ellas.
BOCAGE (_sorrindo_)
Das minhas contemplações de agora? Duvido (_passeiando com Gonçalo_).
GONÇALO
Quer que o vá perguntar ao honrado mercador Manuel Simões, que móra
n'aquelle primeiro andar, para onde entrou haverá uma hora, com a sua
interessante afilhada a sr.^a morgada D. Felicia? Bem se vê que está
todo no seu enlevo... Tem por mysterio o que se passa nas ruas!...
Presumo que não anda ahi por causa da morgada velha... (_Bocage
protesta_) Logo vi.--E a viuva, diga-me? Quando ha quinze dias nos
encontrámos na Torre da Palma parecia meio apaixonado.
BOCAGE
Apaixonado de todo.
GONÇALO
Que fez então a essa paixão subita?
BOCAGE (_gracejando_)
Foi como veio... subitamente. «Vê que não está na minha mão dissimular,
e aproveita-se.»
GONÇALO
«Se pensa...»
BOCAGE
«Não: desculpe.--Sei que não é curiosidade indiscreta. E a quem melhor
podia abrir o coração? Como hei de eu dizer-lh'o? A viuva é cheia de
attractivos... merece todas as adorações... (_malicioso_) Não é esta a
sua opinião, sr. tenente?»
GONÇALO
«Ainda que o seja? Pouco vem ao caso.»
BOCAGE
«Reservas commigo! Vamos, confidencia por confidencia. Confesse que não
deita luto pela morte da minha paixão da Torre da Palma.»
GONÇALO (_sériamente_)
«A sr.^a D. Maria Joanna Galvão nunca me deu direito para me offender de
qualquer preferencia sua.»
BOCAGE
«Podia não se offender, e custar-lhe. E não seria da minha parte loucura
constituir-me rival do unico amigo verdadeiro que ainda encontrei?...
(_Movimento de Gonçalo_.) Oh! não, não cuide que lhe quero forçar os
segredos... não pense que foi generosidade...» Já que me obriga,
digo-lhe tudo. Peço-lhe só que não seja severo. Ou venha dos annos ou do
temperamento, o amor em mim é egual á musa, compraz-se no improviso.
Rebenta em chammas, mas a chamma fulge e esvae-se como relampago...
Depois... outra fraqueza ainda... é tão superior ás damas que tenho
conhecido, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão!... tão superior pela graça
senhoril, pelo tracto do mundo e cultura do espirito!... (_Pausa_.)
Encontrei-a, logo que cheguei, n'uma assembléa, em casa de sua tia D.
Felicia onde me apresentaram... Ferviam os motes, e eu calado. Passei
quasi todo o tempo escutando-a e reflectindo.
GONÇALO
Foi um estudo então?
BOCAGE
Um exame de consciencia. Intimida aquella distincção, subjuga aquella
formosura, ordena respeitos aquella voz. Revoltou-se-me o coração contra
similhante imperio... Se abomino todo o captiveiro!... Estava alli
tambem, como esquecida, uma flor modesta, a afilhada da sr.^a D.
Felicia. Com ser mimosa sua, era visivel a inferioridade da condição.
Como, porquê, não sei... Para essa me voou a alma... Admira-se?.... Não
posso supportar a idéa da dependencia, nem sequer em amor. Á dama
opulenta e festejada que podia dar o pobre cadete, o poeta noviço? Ainda
que me correspondesse... esmola seria a sua mesma preferencia. Com a
donzella humilde succede o contrario... é ella a favorecida, e eu o
generoso.--Prefiro estes amores... não tolero outros!
GONÇALO (_olhando para a E._)
Tem muito empenho em se encontrar com o mercador?
BOCACE
Porquê?
GONÇALO
Porque se não tem, podemos ir aqui de roda dar uma volta até á esquina
da Inquisição, e tornar depois.
BOCAGE (_olhando tambem_)
É elle, e não sei quem mais. (_a Gonçalo_) Com todo o gosto...
(_indicando a janella_) Como vê, as minhas contemplações não eram bem
succedidas... não tinham ainda objecto.
GONÇALO (_andando_)
Logo terão. As estrellas levantam-se com a noite!
BOCAGE (_saindo com elle pela D., ao passo que entram da E. Manuel
Simões e Francisco_)
Invade tambem os dominios da poesia, o sr. tenente! (_Saem_.)
SCENA V
MANUEL SIMÕES _e_ FRANCISCO PEDRO SIMÕES
MANUEL SIMÕES
Que espantos que não vae agora fazer a sr.^a Monica!... Se nem me
lembrou dizer-lhe nada!...
FRANCISCO
E está boa a minha tia Monica?
MANUEL
Toda em cuidados pelo seu menino, pelo seu Francisquinho, que has de ser
sempre para ella o Francisquinho, como ha vinte e trez annos, quando o
Sebastião foi para a Bahia, e tu ficaste tanto monta no berço... As
raparigas e a caixeirada não te chamam já senão o sr. doutor... Ella...
sim!... Nem annos nem Coimbras lhe persuadem que o seu Benjamim está um
homem... (_revendo-se n'elle_) e d'aqui a pouco um sr. doutor devéras...
não é assim?
FRANCISCO
Este anno ainda, espero.
MANUEL
Mas vê lá, rapaz... Não te sirva de atrazo esta vinda a Lisboa! Jornadas
para cá, jornadas para lá... sempre é tempo perdido!...
FRANCISCO
Sendo por poucos dias...
MANUEL
Será. Pois que!... Não pensei n'isto quando te escrevi.--Recebeste a
minha carta a tempo? Recebeste, está visto. Pui-te esperar á estalagem,
por me parecer que não faltavas... mas como não respondeste...
FRANCISCO
Mandei logo buscar os machos, e puz-me a caminho. A resposta era
obedecer. Que novidade foi esta, pae?
MANUEL
Estava tremendo não chegasses... (_em voz baixa_) Vem esta noite cá teu
padrinho.
FRANCISCO
O sr. marquez!... a nossa casa!
MANUEL
Á nossa propria casa. Será o primeiro marquez que vem a casa de teu pae?
FRANCISCO
É verdade... o sr. marquez de Pombal era tambem padrinho de meu irmão, e
tenho-lhe ouvido que...
MANUEL
Que me visitava em pessoa, elle mesmo... (_olhando em redor_) o grande
marquez... E não foi só isso... De vez em quando mandava-me parar a sege
á porta da loja... (_esquecendo-se_) É que tambem não torna cá homem
como aquelle... (_caindo em si e olhando em volta_) que este não é
somenos, em certas coisas! Vem, vem hoje... Podia lá deixar de lhe ter
cá o afilhado! Vem hoje... hoje, em vespera de Corpo de Deus, faze idéa!
E toda a gente pelas janellas!... E o que se hade fallar no
arruamento!... E o que ahi não virá de encommendas!--Já mandei buscar
mais um caixeiro.
FRANCISCO
Que não seja como o Zé Braga ou o Zeferino... Lembram-me ainda.
MANUEL
O Zé Braga estabeleceu-se na terra... e vamos, tem queda para o
negocio... É nosso correspondente.
FRANCISCO
Ah!
MANUEL