Deus me defenda.--Quando me começavam a florir os annos, casaram-me com

um homem... que já ia desfolhando os seus. Deixei patria e familia aos

dezoito. Achei-me viuva aos vinte. Acolhendo-me a casa de minha prima,

na nossa embaixada em Paris, senti sinceramente a falta do companheiro e

protector. Mas d'esta alliança... da primavera com o inverno... podem

ter-me ficado memorias que me façam desejar novo captiveiro?

GONÇALO

Não o captiveiro, mas a compensação.

D. MARIA JOANNA

Quem m'a assegura?

GONÇALO

Quem? A constancia.

D. MARIA JOANNA

Que diria a isso a allemã?

GONÇALO

Ama-se devéras uma só vez. Quer-me crer? Amo-a assim eu. Digo-lh'o

singelamente, chãmente, cá de dentro, á moda da minha provincia, como um

verdadeiro transmontano.... Deixe-me desabafar. Esta vez, e

acabou-se.--Não sei que pense, não sei se espere... Unicamente sei que

não posso deixar de...

D. MARIA JOANNA

Ia repetir.

GONÇALO

Tem razão. Para quê?

D. MARIA JOANNA

Interrompe a confissão?

GONÇALO

Visto que me não absolve... (_interrogando D. Maria com os olhos;

silencio d'esta_.) Vou ter com o commendador.

D. MARIA JOANNA (_que deitára os olhos para dentro debruçando-se no

canapè_)

Não é preciso; elle ahi vem.

SCENA VIII

OS DITOS _e o_ COMMENDADOR

D. MARIA JOANNA

Então achou?

COMMENDADOR

Está remediado. Não é um _boudoir_, como lá diziamos em França, mas póde

passar. Eu mesmo ajudei a pôr tudo em ordem.

D. MARIA JOANNA

O sr. Gonçalo Mendo permitte?

GONÇALO (_inclinando-se_)

Minha senhora!

D. MARIA JOANNA

Escuso dizer-lhe que ceia comnosco... Desculpa de certo o incommodo que

lhe tenho dado, e preciso agradecer-lhe a companhia que me tem feito.

(_ao commendador_) Ha luzes no corredor?

COMMENDADOR (_galanteando_)

Tudo prevenido, como quem sabe o que n'estes pontos convém. Marcial, que

tão bem conheceu os gyneceus de Roma, dá a respeito dos adornos

femininos informações preciosas.--Acompanho-a?

D. MARIA JOANNA (_relanceando os olhos a Gonçalo_)

Obrigada. (_ao commendador_) Quer ir ver se descarregaram as bagagens, e

mandar-me ao quarto as minhas malas?

GONÇALO (_vendo o commendador hesitar_)

Aproveito a occasião para fazer accommodar as ordenanças.

(_Gonçalo dirige-se ao fundo_. _D. Maria Joanna á D. O morgado apparece

á porta d'entrada do F._)

SCENA IX

OS DITOS _e o_ MORGADO

MORGADO (_ainda fóra da porta, mas á vista do espectador, como reparando

e fallando para dentro_)

Levantem o animal... Puxa-lhe a arreata, Jacintho... Tirem-lhe o resto

da carga... Fortes alarves!... (_Entra_.)

D. MARIA JOANNA (_que parou á porta da D_.)

Que mais temos, sr. morgado?

GONÇALO

Deixaram deitar-se a azemola... Um instante que eu falte!... Mas não tem

duvida já... Arrecadaram-se os comestiveis. (_voltando ao F. a

observar_) Lá está a mula a espojar-se... Levantem-n'a, levantem-n'a.

D. MARIA JOANNA

Commendador, as minhas malas! Acuda ás minhas malas! Cá as vou esperar,

e não tardo. (_Sae pela D._)

SCENA X

OS DITOS _menos_ D. MARIA JOANNA

COMMENDADOR (_ao morgado_)

Sr. morgado, as malas?

MORGADO (_a Gonçalo_)

Sr. tenente, as malas?

GONÇALO

Cada qual no seu officio! (_Sae_.)

SCENA XI

OS DITOS _menos_ GONÇALO

MORGADO

Então, commendador, as malas da prima. Eu não posso servir para tudo!

COMMENDADOR (_tomando o seu partido_)

Bem dizia Socrates, atheniense, «que a mulher é como o altar»: nunca

está bastante ornada (_para sahir_) E com razão a definia o famoso Julio

Cesar Scaligero, de Verona... (_Sae_.)

MORGADO (_seguindo-o_)

Muito melhor canta o nosso rifão «com a mulher e o dinheiro, não zombes

companheiro.»

SCENA XII

MORGADO _só_ (_voltando_)

Bem te percebo, meu feixe de maximas velhas e sentenças occas!... Bom

signal é que de mim te receies... Pressentes que te foge a presa... E

não ha 48 horas ainda!... O que fará d'aqui a dias... Pudéra! similhante

deposito de latins e de catarros, ao pé d'um homem da minha tempera,

moço ainda, bem posto, prendado e cavalleiro!... (_esfregando as mãos_)

Está certa, Bartholomeu Tojo, morgado da Gésteira... está caida. Pódes

ir encommendando sege á boleia... Sege de côrte e sege de campo!... A

fallar a verdade vem a tempo... era tempo. Iam-se já os últimos torrões!

(_esfregando as mãos_) O que é ter artes e astucias!...

SCENA XIII

MORGADO _e_ ZÉ DA MOITA

ZÉ (_deitando a cabeça pela porta da E. em voz baixa e cauteloso_)

Sr. morgado... Pschiu!... eh! sr. morgado!

MORGADO (_assustado_)

Que é? (_voltando-se e dando por elle_) Tu, homen! (_inquieto_) Que

queres?

Zé (_entrando_)

Está só?

MORGADO

Não vês? Vae-te, que póde vir gente. Como vieste aqui parar?

ZÉ

_Ê sê_ as trilhas de cór e salteado. Vinha em sua _précura_.

MORGADO

Porquê? Para quê?

ZÉ

Ê que lá a rapaziada está levada de quantos démos ha. O Manuel da

Brazia, o Domingos Picanço, o Chico d'Alter, o João Gallego, o Timotheo

d'Alcaraviça... aquillo é todos á uma.

MORGADO

Deixou-se apanhar algum?

ZÉ

_Q'al_! Bem alma tinham para isso os cavallarias, que não sabem caminho

nem _carrêra_. A gente _mettemo-nos_ pelo azinhal dentro... pés para que

te quero... Fossem lá pôr mais a vista em cima a nenhum. D'ali a um

credo estava tudo junto no barranco de baixo, ao fundo da Fonte da

Fornalha, ahi ao pé da azinhaga da herdade.

MORGADO (_inquieto_)

Pois sim, mas que me queres?

ZÉ

Como eu é que _les fallê_ por conta do sr. morgado...

MORGADO

Avia-te. Não te dei já o que ajustámos? Quantos eram?

ZÉ

Eram sete... commigo oito.

MORGADO

Dei-te uma moeda. Um cruzado novo para cada um, e dois para ti. O resto

para beberem.

ZÉ

Ai! senhor!... Se os ouvisse!

MORGADO

Não estão contentes?

ZÉ

Contentes! Ficaram derramados!... Andam na mente que os _enganê_... que

não era uma _brincadêra_, como o sr. morgado me disse... que foi uma

fidalga que nós fizemos cara de assaltar na estrada... que dá brado o

caso e que se mettem n'isso as justiças... que o sr. morgado o que

queria era fazer de pimpão sem perigo, á custa dos rapazes... que pódem

ficar agora todos mettidos em trabalhos... e que torna e que deixa...

Ih! Jesus!... um dia de juizo!

MORGADO

Por esta não esperava eu!

ZÉ

_P'ra_ mais ajuda, um dos criados foi-se direito a Vayamonte, e achou lá

o sr. juiz ouvidor com uma escolta do regimento de Setubal...

_Contou-le_ tudo pelos modos... e os rapazes dizem que o melhor é ir

pedir perdão, porque a final elles não teem culpa, e o sr. morgado ha-de

contar a verdade.

MORGADO (_atterrado_)

Pelo amor de Deus, homem. Vae ter com elles... Anda, depressa, vae.

(_comsigo_) Que não diria minha prima!... (_a Zé_) Para que haviam de

fazer tal? Ninguem os conheceu.

ZÉ

Pois sim! Não ha quem os accommode. Como _pesquê_ que os senhores tinham

_botado_ para aqui, lá _assoceguê_ a gente _dizendo-le_ que esperassem

todos um nada, que vinha fallar com o sr. morgado.

MORGADO

Mas se te veem aqui!...

ZÉ

Não tem _duveda_. _Ê_ conheço o feitor, e já fui guarda cá da casa. O

Timotheo d'Alcaraviça é que está mais perro. Tem lá a sua _aquella_ que

ninguem _le_ põe o pé adiante, (_elevando a voz_) e como o sr. morgado

quiz assim fazer pouco da rapaziada...

MORGADO (_afflicto_)

Mais baixo. Que precisão tens tu de gritar?

ZÉ

Bem _sê_ que não era a valer... Se fosse... ai... se fosse!... Mas um

_home_ é um _home_, e...

MORGADO (_inquieto_)

Está bom, está bom... Se lhes désse mais?...

ZÉ (_coçando a orelha_)

_Ê sê_!... tão bravos como estão!... Talvez se accommodassem pedindo

eu... talvez.--Mais quanto?

MORGADO (_com esforço_)

Uma peça.

ZÉ

Uma peça! Quanto faz uma peça?

MORGADO (_ponderando_)

Quinze cruzados novos menos oito tostões.

ZÉ

Quinze?... (_comsigo, contando pelos dedos_) menos... (_resolutamente_)

Tem-n'a ahi?...

MORGADO (_mostrando-lh'a_)

Aqui está.

ZÉ (_fazendo-lhe cara_)

Em oiro?

MORGADO

Se não tenho troco!

ZÉ

Tem a gente de ir trocal-a a Evora, que lá na villa, se nos vêem com

isto, são capazes de pegar logo a desconfiar...

MORGADO (_perdendo a cabeça_)

Então como ha de ser?

ZÉ (_tocando-lhe familiarmente com o cotovelo_)

Ó sr. morgado, a fidalga tem uns olhos!... Ella sempre vale as duas

loiras! (_elevando a voz_) Se vem a saber que foi tudo fingido...

hein?...

MORGADO

Cala-te! (_fitando-o_) Com que então... (_comsigo_.) A final o assaltado

sou eu. (_Alto_) Aqui tens duas peças. (_Dá-lhe as duas_.)

ZÉ (_respeitosamente_)

Não manda mais nada o sr. morgado?

MORGADO

A casa do feitor é para esse lado. Olha não te encontre.

ZÉ

É o mesmo. Não desconfia, já _le_ disse. Até mais ver! (_sae_)

MORGADO

Vae com Deus! (_depois de o vêr sair_) Os demonios te levem, tratante!

ZÉ (_tornando a deitar a cabeça_)

Chamou?

MORGADO (_impaciente_)

Vae com Deus! vae com Deus! (_Zé sae definitivamente_.)

SCENA XIV

MORGADO

Que tal é a lição! O susto que me pregaram os cavallarias... cuidar que

andava tudo por ahi cheio de salteadores deveras... e ainda mais

esta!... Calam-se, agora calam-se: é o seu interesse... O que o

desalmado quiz foi... E gabem-me a singeleza dos rusticos!... Tomára que

succedesse uma d'estas aos srs. poetas de Lisboa, que não fazem senão

deitar lôas á innocencia pastoril... Que remedio! O que lá vae lá vae...

E foram-se as peças!... E o que não rirão á minha custa, os malandrins,

quando as beberem!...--Por fim de contas vale a pena... Se vale... Vale

a pena de tudo...

SCENA XV

MORGADO, _e_ LUIZ MANUEL (_da E_)

MORGADO (_vendo-o_)

Outro!... (_reparando_) Um retrato do tempo d'el-rei D. Pedro!...

(_conhecendo-o_) Ai! o Luiz Manuel.

LUIZ MANUEL (_Trajo do tempo de D. João V, tristeza profunda, sisudez

inalteravel_.)

Bem vindo seja á casa da Torre da Palma, o sr. morgado da Gesteira. Que

estava aqui me disse um guarda do monte, que topei agora como nos

tornavamos do terço. Já não è isto o que era, porque a sr.^a morgada...

«gota a gota o mar se esgota», e quem em maio relva, fica sem pão nem

herva.» Mas... ella é senhora do que é seu!... E eu venho só a dizer a

Sua Mercê que, se bem «onde senhores empobrecem, criados padecem», tudo

o que ha na casa e na quintan está ás ordens do sr. morgado, e mais da

fidalga companhia que traz, a julgar pelo arruido que por ahi vae.

MORGADO

Boa companhia trago com efeito. Como no tempo do sr. capitão-mór!

LUIZ MANUEL

Como no tempo do sr. capitão-mór, que Deus haja!... Isso já lá vae, e

não volta... Não volta... Nem conhecia o sr. morgado, se me não

avisam... Que annos ha! E como assim nos enterramos n'este ermo!...

Tanto faz. Como o outro que diz: «ainda que nos não fallemos, bem nos

queremos.»--O sr. morgado precisa alguma coisa?

MORGADO

Já por ahi procurámos e dispozemos do que encontrámos... São ainda

necessarias roupas, talheres...

LUIZ MANUEL

Ha de apparecer tudo... Tudo?... tudo o que resta. Fizeram bem em se ir

logo servindo... Haviam de achar as chaves nas portas... Era o costume

antigo, bem sabe.

MORGADO

Achámos. Extranhei até... Estando aqui sós...

LUIZ MANUEL

Não tem perigo. Pouco ha já que fechar e arrecadar. Vasios quasi, os

taleigos que andavam de cogulo... a bem dizer no fundo, as arcas d'antes

a arrebentar de fartas. Não será como então, que melhor se podia dizer:

«em casa cheia depressa se faz a ceia.» Mas o que ha, o que houver... É

a vontade da sr.^a morgada... decerto ha de ser. Com ir ahi tudo por

agua baixo... que nem sei já se virei a cerrar os olhos n'esta casa onde

nasci... ella a final sempre é quem é... (_como para atravessar para a

D._) Vou dar ordem a... (_parando de repente e com tom consternado_.)

Queria, sr. morgado, mas não posso... Queria pôr a alma e a vida no que

me cumpre, já que a Torre da Palma está sem amos... Eu bem conheço que

«hospedes em casa dia santo é»... mas... mas... Estou velho, faltam-me

as forças! «Uma coisa se deseja e outra é bem que seja.»

MORGADO

Tem alguma coisa, Luiz Manuel?

LUIZ MANUEL

Eu não, sr. morgado. É a minha Simôa... Isto de viver assim vinte annos

juntos, deita raizes cá dentro!...

MORGADO

Pois... que lhe succedeu?

LUIZ MANUEL

Mal acabou o terço, a minha Simôa foi á sacristia buscar um papel, que

pelos modos tinha encommendado ao nosso padre cura do Vayamonte... Eu

estava á porta á espera... Mal vinha a sair, entra-me a tremer, a tremer

toda, a torcer-se como um vime, e a revirar os olhos, e a sumir-se-lhe a

falla, e sem se poder ter!... Aquillo não é senão olhado que lhe

deram!... Foi preciso trazel-a em braços, e lá ficou em baixo na cama...

(_lembrando-se de subito_) Ai! Jesus! esta cabeça como está com tanta

coisa de repente!... Então não me esquecia?... Quando o moço passou por

nós, e nos advertiu que estava cá o sr. morgado da Gesteira, tornou

assim mais a si a minha Simôa, e disse... (_como recordando_) Queira

Deus que me lembre... Foi isto: «É parente da sr.^a morgada... pede-lhe

que venha ver-me, pede-lhe Luiz... Tral-o hoje aqui a Providencia!» Foi

isto, foi!

MORGADO

E não m'o dizia? Vamos já. (_comsigo_) Porque será?

LUIZ MANUEL

Pois o sr. morgado quer?... Aquillo é tresvario do mal!

MORGADO

Sua mulher assim!... Vamos. (_comsigo_.) Para que será?

LUIZ MANUEL

Como o outro que diz: «o pequeno mal espanta, o grande amansa.» Deixei

gente com ella. A obrigação primeiro. E a obrigação era...

MORGADO

Dispenso-o eu d'ella... Vamos, vamos. Depois se tratará do mais.

LUIZ MANUEL

Agora é o sr. morgado quem manda. (_Sae_. _O morgado vae a seguil-o,

entra Gonçalo e Bocage_.)

GONÇALO (_da porta_)

Sr. morgado.

MORGADO (_saindo vivamente_)

Já volto. Volto já!

SCENA XVI

GONÇALO, _e_ BOGAGE

BOCAGE

Quem é?

GONÇALO

Uma singularidade, emparelhada com outra que hade ver logo.--Não o

esperava aqui, sr. Bocage. Vem mesmo por ordem do Ouvidor?

BOCAGE

Mesmo por ordem do Ouvidor. Faz trez semanas que me aquartelei em

Monforte, n'um destacamento do meu regimento. Esta manhã o sr. Juiz

Ouvidor de Villa Viçosa, que está em correição na villa, saiu a

Vayamonte, e trouxe comsigo uma escolta em que eu vim. Ha pouco chega lá

um homem todo esboforido... Um criado ouvi que era... D'ahi a um

instante o sr. Ouvidor manda-me chamar em pessoa, e envia-me com quatro

soldados aqui, para proteger não sei que fidalga que vem de jornada... O

encargo póde ser lisongeiro, mas confesso que o dava a todos os demonios

quando deitei por esses fraguedos abaixo. Agora, encontrando-o, meu

tenente, dou-me por pago de tudo... Informei-me, e disseram-me que se

tinham recolhido n'esta casa os viajantes. (_reparando_) Que casa santo

Deus!... Dá-me ares de ter escapado ao diluvio... Pois a mobilia!... Da

arca de Noé a trouxeram para aqui, certamente!... E aquelle canapé...

Que canapé!... Um canapé? Um monumento!...

«Quando a velha antiguidade

Dentro n'esta sala entrou,

Disse áquelle canapé:

Sua benção, meu avô!»

GONÇALO

Bravo, sr. Bocage. Não se lhe estanca a veia por estes desertos do

Alemtejo. O mesmo sempre!

BOCAGE

O mesmo diz? Estou a ponto de cair em melancolia... britanica. Mulher

que se alberga n'uma habitação d'estas é por força como ella. Uma mumia,

não? Uma curiosidade archeologica... uma contemporanea das pyramides...

Não me diga quantos annos tem.

GONÇALO

Vinte e tres annos, viuva, todos os dotes do espirito, todas as graças

da formosura, todos os primores de duas côrtes.

BOCAGE

Tudo isso! Aqui?... Aqui!...

GONÇALO

De passagem.

BOCAGE

Não diga mais, meu tenente. Quer-me fazer apaixonar, ou está já

apaixonado.

GONÇALO

Isso estão quantos a vêem.

BOCAGE

Severa ou jovial?

GONÇALO

Um porte que infunde respeito, uma afabilidade esmaltada de sorrisos.

Não ha temeridade que se lhe atreva, nem isenção que lhe resista.

BOCAGE

Esse enthusiasmo faz-me tremer! Uma perfeição!

GONÇALO

Um enigma.

BOCAGE

Enigma ou mulher, o mesmo é.

GONÇALO (_olhando para dentro_)

Eil-a!

BOCAGE

O enigma.

GONÇALO

A perfeição.

SCENA XVII

OS DITOS, D. MARIA JOANNA _e o_ COMMENDADOR

GONÇALO

Se dá licença, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão, apresento-lhe o sr.

Manuel Maria Barbosa de Bocage, cadete do regimento de Setubal, que lhe

traz recado do sr. Juiz Ouvidor de Villa Viçosa.

D. MARIA JOANNA

O sr. Juiz Ouvidor teve noticia de nós, e digna-se pensar em mim!

BOCAGE

Dever é de todo o homem proteger as damas. Mais ainda quando o homem é

magistrado. Mais ainda quando as damas são de tal qualidade.--Por sua

ordem e em seu nome venho. Infelizmente não chego a tempo de ser util.

D. MARIA JOANNA

Se não é já necessario auxilio, o sr. cadete vem sempre a tempo de

receber os meus agradecimentos, e os do sr. commendador de Monsarás...

(_Os homens inclinam-se, cumprimentando-se_) que me acompanha... para os

transmittir á estremada cortezia do sr. Juiz Ouvidor.--Está aqui ha

muito?

BOCAGE

Ha um instante. Os meus soldados esperam as ordens de v. s.^a

D. MARIA JOANNA

Soldados! Mais? Temos uma guarnição completa. Coitados! Mande-os

descançar.

BOCAGE

Estão já descançando.

D. MARIA JOANNA

N'esse caso, o sr. cadete demora-se tambem.

BOCAGE (_inclinando-se_)

Mandaram-me ficar ás ordens! (_baixo, a Gonçalo_.) Tinha rasão.

Gentilissima!

GONÇALO (_a Bocage, do mesmo modo_)

Inflammado já? (_alto_.) Apresentei-lhe o militar, permitta-me agora que

lhe apresente o poeta... O sr. Bocage é conhecido, e já apreciado, pelo

seu estro brilhante... um estro que se revelou desde a infancia... Nem

só em França se frequenta o Parnaso. Aqui tem um moço que nasceu poeta.

BOCAGE

Como outros nascem vesgos ou tartamudos.--Talvez seja assim, se a

amizade do sr. tenente o não cega, ou me não favorece... mas talvez

tambem a segunda apresentação prejudique a primeira.

D. MARIA JOANNA

Porque? As armas e as musas não são inimigas, que eu saiba.

COMMENDADOR

Horacio esteve na batalha de Philipes, o Suetonio foi escriptor e

guerreiro! Ainda que Pittaco, um dos sete sabios da Grecia, dizia «os

validos de Marte são a injustiça e a violencia» não deixou o grande

Plutarcho de escrever «que os Lacedemonios pintavam Pallas armada» posto

serem uma só Pallas e Minerva.

BOCAGE (_contemplando-o abysmado, a Gonçalo em voz baixa_)

Este quem é?

GONÇALO (_idem_)

A outra singularidade!

BOCAGE

Que pena ter estudado! Forte asno se perdeu ali!

D. MARIA JOANNA

«N'uma das mãos a pena, n'outra a espada,» diz, creio eu, o nosso

Camões, poeta e soldado tambem.

BOCAGE

Ahi está um _tambem_ capaz de inventar orgulho no mais modesto... se o

não tomasse á conta de exageração obsequiosa. (_a Gonçalo, baixo_)

Venus, disfarçada em viajante!

D. MARIA JOANNA

Exageração! Em que? Por ler vivido fóra da patria não lhe desaprendi a

lingua, nem lhe desestimo as glorias.

BOCAGE (_lisongeado_)

D'essas glorias não participo eu, como obscuro ainda.

GONÇALO

Não tanto, sr. Bocage!

D. MARIA JOANNA

_Ainda_? Não ha n'essa palavra a consciencia do que é? a confiança no

que será? As musas não deixam muito tempo sem gloria os seus

predilectos.

BOCAGE

Sabe se sou d'esses?

D. MARIA JOANNA

Adivinho-o. Deixa-me vaticinar-lh'o?

BOCAGE (_com enthusiasmo_)

Bastaria o vaticinio para inflammar o estro.

D. MARIA JOANNA

Deveria provar-me que tenho razão. Em França estima-se a poesia, e eu

venho sequiosa da nossa. Era dar-me as boas vindas.

GONÇALO

Ninguem melhor do que o sr. Bocage. É não só poeta, mas improvisador.

D. MARIA JOANNA

Como em Italia.

GONÇALO

Ainda ha pouco...

BOCAGE (_atalhando-o_)

Por quem é! (_a D. Maria Joanna_) Vem de França, v. s.^a?

D. MARIA JOANNA

De Paris.

BOCAGE

Francez era meu avô; com as musas francezas me creou minha mãe... Somos

quasi conhecidos.

D. MARIA JOANNA

Bocage!... Não me é novo o appellido. Não tem em França parentes?

BOCAGE

Tenho. Uma segunda tia materna... Bocage tambem por seu marido.

D. MARIA JOANNA

Já sei. A sr.^a D. Marianna, auctora do poema da _Columbiada_... coroada

ha annos em Ferney pelas proprias mãos de Voltaire... E queixa-se de lhe

faltar a gloria!

BOGAGE

Agora não me queixo. Ainda que não seja minha essa gloria, é meu o

proveito d'ella.

COMENDADOR (_que tem disfarçado alguns signaes d'impaciencia, murmurando

comsigo_)

Coroada por Voltaire!... Boa prenda hade ser!...

BOCAGE (_que não ouviu bem, mas que lhe notou o gesto, a Gonçalo_)

Antipathiso formalmente com a singularidade!

D. MARIA JOANNA

A poesia é hereditaria nos seus, já vejo.

GONÇALO

De ambos os lados. Seu pae o dr. José Luiz Soares de Barbosa adorna a

toga com a lyra, e é um dos discipulos mais estimados de Souto-Mayor.

BOCAGE (_sorrindo_)

É doença de familia, não o nego. Doença chronica, e por isso incuravel.

D. MARIA JOANNA

Em França diz-se: _noblesse oblige_. A poesia, que é nobreza tambem,

está a obrigal-o.

BOCAGE (_exaltando-se progressivamente_)

A poesia... A poesia é a lingua dos deuses, e a historia do mundo. É o

raio omnipotente de Jupiter, e o carro fulgurante de Apollo. N'ella, em

todos os tempos, teem cantado os homens as suas alegrias, teem chorado

as suas dores, teem perpetuado os seus feitos, teem immortalisado as

suas catastrophes. N'ella começou a balbuciar a humanidade; n'ella

fundou os monumentos que desafiam os seculos. A poesia é a expressão do

que ha mais intimo no coração e mais celestial no pensamento; é

magnificencia e harmonia; é arrebatamento e seducção; esplendor pela

fórma, delicia pelo som. É resumo de quantas artes levantam o homem ao

Olympo; sentimento para a alma, idéa para o espirito, imagem para os

olhos, musica para o ouvido, enlevo para todos os sentidos! Seria a

poesia a unica lingua digna de saudal-a, minha senhora, se a mais

completa poesia não fosse a propria formosura. (_recrescendo_) Deve ser

a poesia...

COMMENDADOR (_que durante esta falla passeou ao F. indo á janella_)

Não quer que lhe feche esta janella, sr.^a D. Maria Joanna? Estão frias

as noites, e o ar por aqui traspassa. Dos ares montesinhos, diz o

insigne Columella...

D. MARIA JOANNA (_atalhando-o impaciente e reprehensiva_)

Commendador!

(_O commendador approxima-se tirando a caixa de rapé_.)

BOCAGE (_reprimindo um gesto furioso e como continuando_)

Mas a poesia, como dama, tem os seus dias, tem os seus momentos, tem os

seus caprichos. É rainha, e não serva. Impéra, não obedece. Se vae

arremessada no vôo, se a fazem colher as azas e baixar á terra (_fitando

o commendador_)... para tropeçar na impudencia, ou no ridiculo... faz-se

allegoria, faz-se apologo; é epigramma, é satyra; fustiga, flagella,

punge, dilacera, fulmina... e segue, a sorrir desdenhosa, deixando

atascada no seu lodaçal immundo a sandice enfatuada e grosseira!...

COMMENDADOR (_sorrindo dubiamente e saboreando a pitada_)

Hypotypóse arrojada! Já Democrito, philosopho da Thracia, dizia... o que

quer que seja similhante... ao divino Hypocrates, natural da ilha de

Cós! (_Bocage vae para replicar arrebatado_. _Entra o morgado_.)

SCENA XVIII

OS DITOS _e o_ MORGADO

MORGADO (_com um papel na mão, que esconde apenas vê os que estão em

scena_)

Grande novidade, prima! Grande novidade!

GONÇALO (_que observou tudo_)

Diversão a tempo.

D. MARIA JOANNA (_ao morgado_)

Como as do costume?

MORGADO

A mulher do Luiz Manuel que está muito mal! Perdeu já a falla.

D. MARIA JOANNA

Tão mal a pobre Simôa!... Commendador, sr. Gonçalo Mendo, venham,

venham.

MORGADO

Póde ir logo, prima. A sua refeição hade estar prompta!

D. MARIA JOANNA

Quando me diz que temos ahi uma creatura em perigo! Enlouqueceu? (_aos

outros_) Vamos... (_como lembrando-se, e detendo-se_) Sr. cadete...

qualquer dos seus soldados póde ir buscar o cirurgião á villa.

GONÇALO

Que monte a cavallo um dos dragões: irá mais depressa.

D. MARIA JOANNA

Vamos, venham. (_Sae, e o commendador pela E._)

BOCAGE (_baixo, apressado e a Gonçalo_.)

Uma nympha! uma deusa! Estou doido por ella. Tem só um defeito...

GONÇALO (_indicando o commendador_)

A singularidade?

BOCAGE

A asnidade, digo eu. (_Sae pelo F._--_Gonçalo segue D. Maria Joanna_).

SCENA XIX

MORGADO _só, pouco depois o_ COMMENDADOR

MORGADO (_vendo-os sair, desconfiado_)

Um cadete agora! É o quartel general aqui... (_olhando em redor_)

Tardava-me já ver-me só... (_tirando o papel e examinando-o_)

Fechado!... sem direcção!... E com que ancia e mysterio a Simôa me

segredou... «isto á sr.^a morgada... sem falta!...» Que pena perder os

sentidos!... Que será? Pois que não tem direcção... (_lançando novamente

os olhos em redor_) facil é sabel-o. (_Abre, lê attentamente, e acaba

com um grito de admiração_) Oh!... (_passeiando e meditando_) Quem tal

havia de dizer? (_pára como resolvendo de repente_) Não ha que pensar...

Agora posso ir encommendando a sege... (_assoma á porta da E. o

commendador, sem que o morgado o presinta_) Com um segredo d'estes!...

COMMENDADOR

Que segredo, sr. morgado?

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 2 / 10 段