O peralvilho do Zeferino... esse lá foi para esses Brazis... Não sae

d'alli coisa de geito, verão... Confundia-me sempre o lemiste com os

droguetes, e o panno jardo com as baetas!... Deu em fazer de faceira...

já de chapeu á Anastacia... sempre em touros e presepios... Só lhe

faltavam os polvilhos. Deixal-o. Cá me tenho remediado com outros dois

novos, e marçanos não faltam.--Ai! nós aqui a fallar, a fallar, e lá em

casa tudo cheio de gente!... A Monica estou que perde a cabeça!... Não

me lembrava com o gosto de te ver, e de te fazer beijar a mão ao sr.

marquez... que elle sempre hade puxar por ti!--Anda, rapaz, vamos...

vamos!... (_em acto de partir_.)

FRANCISCO

Tudo cheio de gente lá em casa! É novidade... E quem está? Não me hei de

apresentar n'este trajo de jornada, se são pessoas de respeito.

MANUEL (_voltando_)

Tens razão. Não vieras tu de Coimbra!... Com isto sempre me embalaram:

«ou armas ou letras.» Quem está?... Has-de ir mudar de fato primeiro,

has-de. Estão pessoas de consideração, e espero mais. Verás... Sujeitos

de peso e de porte, que me honram com a sua amizade... (_comsigo_) e

precisam do meu dinheiro... Pois n'um dia d'estes, e vindo cá teu

padrinho!... Está a sr.^a morgada D. Felicia, que essa é já conhecimento

velho... está...

FRANCISCO (_alvoroçado, vivamente_)

E a afilhada?

MANUEL

E a afilhada... bem sabes que nunca a larga... Está a afilhada, e vem

tambem uma sobrinha, que chegou de França ha dias!

FRANCISCO (_em acto de partir_)

E nós aqui a perdermos tempo.

MANUEL (_detendo-o_)

Espera, espera. Que fogo te deu mal te fallei na morgada! Dar-se-ha

caso... (_severo_.) Francisco?

FRANCISCO (_timidamente_)

Meu pae.

MANUEL

Esse alvoroço não é natural!

FRANCISCO (_como acima_)

Está fazendo falta de certo, pae.

MANUEL

Já vamos. (_Comsigo_.) A morgada não póde ser... a sobrinha não a viu

ainda... Querem ver... (_com inteireza_) Sr. Francisco Pedro, forma-se

este anno. D'aqui a tempos será juiz de fóra, desembargador, quem

sabe?... Conversei já a seu respeito com o meu amigo João Pires...

Conhece? O sr. João Pires, á Magdalena, que traz dois navios para a

India, e tem uma filha que não anda por assembléas, mas leva quarenta

mil cruzados de dote.--Quando pensar em casar, é a noiva que lhe convém.

FRANCISCO (_consternado_)

Oh! meu pae! Por quem é não disponha assim do meu coração!

MANUEL

Do seu coração! A que proposito vem o seu coração? Quer dizer que olhou

para a afilhada da sr.^a D. Felicia? Ignora que é filha d'uma criada?

FRANCISCO

Mas educada com tanta estimação! O amor não mede distancias.

MANUEL

Ensinaram-lhe isso em Coimbra?... Não o tirasse eu do balcão!...

Felizmente seu pae não dorme. Perca d'ahi o sentido. Já lhe disse o que

lhe convinha. Escusa de se cançar... não costumo repetir as coisas duas

vezes!

FRANCISCO

Não me permitte uma supplica ao menos?

MANUEL

Com tanto que seja breve.

FRANCISCO

Morro por ella... (_hesita_).

MANUEL

Se me não diz mais...

FRANCISCO

E dei-lhe palavra de casamento.

MANUEL

Deu-lhe palavra... (_furioso_) Porquê? Para quê?... Sem me consultar...

sem consultar seu pae!... sem saber se lhe fazia transtorno!... Viu-se

já!... (_fitando-o_) Estes rapazes!... (_mais brando_) Com que então

deste-lhe palavra? (_Gesto affirmativo de Francisco_.) Pois se lh'a

déste, cumpre-a.--Um Simões nunca faltou a ella!

FRANCISCO (_transportado_)

Consente!... Consente?... Como lhe hei de agradecer, meu pae!

MANUEL

Não é o que eu queria, e custa-me... Não te mandei a Coimbra para te

empregar na filha d'uma criada!... Mas na nossa casa a palavra é

escriptura. Pagamos á vista... sempre, e tudo: é o nosso brazão!

SCENA VI

OS DITOS _e o_ MORGADO

MORGADO

Ora até que o encontrei, sr. Manuel Simões. Procurei-o hontem, antes de

hontem, esta manhã...

MANUEL (_interrompendo-o seccamente_)

Sei, sei... Bem sei.

MORGADO

Se me désse licença logo...

MANUEL

Tenho gente em casa, tenho muita gente... Hade-me dar licença.--Vamos,

Francisco, vamos.

SCENA VII

MORGADO _pouco depois o_ COMMENDADOR

MORGADO (_desesperado e ameaçador_)

Se fôra da nobreza... e se não fôra a necessidade!...

COMMENDADOR (_que tem entrado_)

Que é isso, sr. Morgado? Quem o fez agastar?

(_Durante esta scena os creados acendem de dentro as illuminações das

janellas_.)

MORGADO

Quem hade ser? Esta gente de negocio que na verdade...

COMMENDADOR

Não tem uso do mundo, é sabido... cança-se de dar dinheiro, e nem sempre

se lembra das jerarchias!... Que quer? Na opinião de Cicero o dinheiro

faz todos eguaes... e lá resa o nosso rifão: «negro è o carvoeiro,

branco é o seu dinheiro!!»

MORGADO

Mas quem lhe diz...

COMMENDADOR

Que precisa de dinheiro? O sr. Morgado precisa sempre... Que o mercador

lh'o recusa? Encontro Manuel Simões, e acho-o enfadado. Não é preciso

ser astrologo para adivinhar. Excellentes astrologos são os olhos... que

sabem ver. Bem o disse o poeta Manilio, e melhor o explica Julio Firmico

Materno, contemporaneo de Constantino Magno, nos oito livros que

escreveu sobre o assumpto.

MORGADO (_meio aborrecido_)

Oito? Admiro-lhe a paxorra.--Mas, vamos, sr. Commendador... Estão já

accendendo as luminarias. D'aqui a pouco enche-se ahi tudo de

gente.--Que noticias?--Sabe que morreu Salvador Teixeira, o irmão mais

velho de Gonçalo Mendo? Ficou senhor da casa agora o tenente, e...

COMMENDADOR

E... receia o competidor.

MORGADO

Receial-o! Porquê? Em quê? Um homem como eu não teme nenhum rival...

Minha prima é senhora de gosto e de juizo... E em ultimo caso tenho modo

infallivel de supplantar o tenente... (_intencionalmente_) ou qualquer

outro.

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Infallivel!

MORGADO

Infallivel.

COMMENDADOR

Contra qualquer?

MORGADO

Contra qualquer.

COMMENDADOR

No dizer de Plinio poucas coisas se pódem julgar infalliveis.--Tem

estado com sua prima?

MORGADO

Todos os dias.--Ainda antes de hontem em casa da morgada da Torre da

Palma... ainda hontem a ver correr parelhas e alcanzias em Campolide.

COMMENDADOR

Então para que pergunta noticias?

MORGADO

Para saber o que se diz.--Posso contar com a sua amizade?

COMMENDADOR

Como eu com a sua.--Amizade de obras mais do que de palavras, como a

quer Tito Livio.

MORGADO

Tambem... commigo póde o commendador contar para a vida e para a morte.

O braço e a espada do morgado da Gesteira estão sempre ao seu dispor.

COMMENDADOR

Deseja saber o que ha?

MORGADO

Não se me dava... para afugentar de vez o primeiro que se atreva a

galantear abertamente minha prima.

COMMENDADOR (_malicioso_)

Terá que fazer.--Veja o que Propercio diz da sua Cynthia... Póde fazer

calar os requebros dos pintasilgos á aurora?

MORGADO

Pintasilgos, diz bem. Principalmente o cadetinho... o tal sr. poeta de

loas, ou das duzias... Ia-me saindo das medidas na casa da Torre da

Palma. Se não fosse a morte quasi repentina de Simôa!... Já o encontrei

por ahi e não o perco de vista. Não que minha prima possa olhar para

similhantes figuras...

COMMENDADOR

Eu sei, morgado. Elle é de boa gente, e as damas... Emfim a respeito

d'esse, descance... Traz o Sentido n'outra parte.

MORGADO (_avidamente_)

Em quem?

COMMENDADOR

Ainda não reparou?... Na afilhada de D. Felicia.

MORGADO (_desdenhoso_)

Ah!... (_como reflectindo_.) Mas o filho do mercador? É correspondido, e

está ahi.

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Era correspondido... Verá como os dois se arrufam, como o poeta fica e é

acceito, como... Isso corre por minha conta.

MORGADO

Por conta do commendador! (_desconfiado_.) E com que interesse?

COMMENDADOR

Interesse? Nenhum... Amizade... Desejo de lhe ser util... Não queria

afugentar os galanteadores de sua prima?... Para isso vale mais a

astucia do que a força, creia. O mestre das rhetoricas ensinava a

Herennio «que a verdadeira prudencia era a sagacidade,» e como diz

Cornelio Nepote, «mais poude a destreza de Themistocles do que as armas

da Grecia.»

MORGADO (_pensativo_)

Não é fóra de rasão... ainda que nada d'isso vale uma recarga a tempo

como a ensina o alferes Theotonio Rodrigues, ou uma flanconada como as

queria o grande Montenegro. (_mirando-o de revez_) Com que o poeta

desistiu já de minha prima?

COMMENDADOR (_sorrindo, e do mesmo modo_)

Respondo-lhe por elle.

MORGADO

O tenente, esse...

COMMENDADOR

Faz-se desistir.

MORGADO (_como acima_)

E depois?

COMMENDADOR

Depois... não ha rivaes que affrontem o sr. morgado. (_Cresce o numero

dos passeiantes_.--_Ruido dentro_.) Ahi vem já o rancho dos poetas.

Conhece-se pela algazarra.

(_Principiam a apparecer ás janellas algumas senhoras de gala, e

toucadas_.)

MORGADO (_olhando para as janellas_)

Já as _madamas_ começam tambem a apparecer.

COMMENDADOR

Vou n'um instante a casa do mercador para lhe fazer a vontade. Volto

logo.

MORGADO

Encontra lá minha prima.

COMMENDADOR

E não vem?

MORGADO (_despeitado_)

O sr. Manuel Simões não me fez a honra de me convidar.

COMMENDADOR

Que dissabor lhe ha de ser ter sua prima alli e ficar de fóra! Que quer?

Diogenes, de Synope, comparava as riquezas ás plantas... que nascem em

despenhadeiros! (_Sae tomando á esquina ao F._)

(_Entram logo Bocage, 1.^o e 2.^o poetas, companheiros, e Gonçalo Mendo,

da E._)

SCENA VIII

BOCAGE, GONÇALO MENDO, 1.^o _e_ 2.^o POETAS

GONÇALO (_a Bocage, despedindo-se e indicando as janellas de Manuel

Simões_)

Boa sorte e propicios amores!... Da inspiração não lhe fallo: nunca lhe

falta, e hoje menos lhe faltará.

BOCAGE (_meio desconfiado_)

Já não quiz entrar commigo um instante no Nicola, e agora deixa-me!

GONÇALO

É noite de festas, e está ainda mal fechada a sepultura de meu irmão!

BOCAGE (_caindo em si_)

Tem rasão.

MORGADO (_chegando-se_)

Sube o desgosto que teve, sr. tenente Gonçalo Mendo... Muitos

parabens... (_corrigindo-se_) dou-lhe os sentimentos, quero dizer... Seu

irmão, tambem era doente... Quantos annos tinha?... Boa casa!... É uma

boa casa, a casa de Mendél, dizem todos. E de mais a mais com os coutos

de Sandim!... Deixou uma grande casa!... O sr. Gonçalo Mendo

naturalmente larga a vida militar.--Com uma casa d'aquellas!

GONÇALO (_com inteireza_)

«Sr. morgado da Gesteira, a minha familia foi sempre uma familia de

soldados. Alli cumprir a lei e servir a patria não é especulação, é

preceito. Se meu irmão por fraco e enfermo não poude satisfazer a

obrigação, por elle a satisfazia eu. Hoje, que me falta, essa obrigação

fez-se duplicada: é a d'elle e a minha!»--Creio que o sr. Bartholmeu

Tojo não vê no vinculo senão a renda. A mim ensinaram-me de pequeno a só

considerar no patrimonio dos meus, como coisas superiores, o dever e o

nome!--Adeus sr. Bocage! (_Sae_.)

MORGADO

E então! Dês que está senhor da casa parece que traz el-rei na barriga!

BOCAGE (_fitando-o_)

Engana-se. Tem o coração no seu logar... e não succede o mesmo a todos.

(_Signaes de approvação nos circumstantes_.)

MORGADO (_ameaçador_)

Isso entende-se commigo?

BOCAGE (_com obsequioso sarcasmo_)

De nenhum modo: era suppor-lhe coração!

(_Riso nos circumstantes_.)

MORGADO (_com satisfação_)

Logo vi que se não podia entender commigo.

(_retira-se magestosamente, e sae pela E._)

SCENA IX

BOCAGE 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, 1.^o _e_ 2.^o MANCEBOS,

DAMAS, POVO

(_Vão-se povoando mais e mais as janellas; augmenta na rua a

concorrencia_.)

1.^o MANCEBO

Sr. Bocage, sr. Bocage!

BOCAGE (_ainda agastado da altercação com o morgado_)

Que é?

1.^o MANCEBO

Fez-me o favor de limar aquellas decimas, que lhe entreguei o outro dia?

BOCAGE

Pois não!

1.^o MANCEBO

Queria ver se as recitava esta noite... Tem-n'as ahi?

BOCAGE

O que?

1.^o MANCEBO

As minhas decimas.

BOCAGE

Como hei de ter, se nada sobrou d'ellas.

1.^o MANCEBO (_pasmado_)

Não sobrou nada?

BOCAGE

Absolutamente nada. Ficou-me tudo na lima!

(_Riso nos circumstantes; o 1.^o mancebo mette-se na turba corrido_.)

2.^o MANCEBO

Sr. Bocage, um obsequio?

BOCAGE

Que temos?

2.^o MANCEBO

Faz annos, depois d'amanhã, um tio que eu tenho...

BOCAGE

A novidade seria fazer annos um tio que não tivesse.

2.^o MANCEBO

Compuz dois sonetos...

BOCAGE

Dois d'uma assentada! Já vejo. Monta um Pegaso manhoso que lhe desandou

uma parelha de...

2.^o MANCEBO (_ingenuamente_)

Isso. Estão aqui os sonetos. Só lhe peço que me diga qual é o melhor...

para o offerecer ao tio...

BOCAGE

Ao sr. seu tio... que vocemecê tem.--Deixe ver. (_2.^o mancebo

entrega-lhe um papel de dois que tem na mão_.--_Bocage chega-se á luz

das luminarias, e lê attentamente_. _Em quanto lê, o 2.^o mancebo

responde aos poetas que parecem divertir-se com elle_. _Depois de ler,

restituindo-lhe o papel e em tom decidido_.) Leve-lhe o outro.

2.^o MANCEBO

O outro! Mas ainda não viu o outro.

BOCAGE

É o mesmo... leve.

2.^o MANCEBO

Porquê?

BOCAGE

Porque não póde ser peior do que esse.

(_Riso dos circiumstantes; o 2.^o mancebo sae tambem corrido_.)

SCENA X

BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, DAMAS, POVO

2.^o POETA

Está de veia hoje, o nosso cadete.

BOCAGE

Menos isso.--O cadete ficou onde ficou a farda. Aqui está só o poeta.

1.^o POETA (_ao 2.^o_)

Condemnado como reu de lesa Arcadia. O Bocage tem razão. Será cadete no

regimento; entre os pastores do Pindo é Elmano, o esperançoso Elmano,

como tu és Alcino, como eu sou Lereno. A propósito, falta-nos Albano.

(_Bocage parece cair em profunda meditação_.)

2.^o POETA

Foi jantar a casa d'algum fidalgo. É o seu costume. Mas vem de certo.

Disse-me que vinha.--Agora nego que fosse reu de lesa Arcadia tratando

Elmano pelo grau militar.

1.^o POETA

Como provas essa?

2.^o POETA

Muito facilmente. Qual é n'este caso o distinctivo do vale e do soldado?

Uma estrella. O mesmo em ambos. Cada qual tem a sua. Logo...

(_declamando_)

O Appollo, e o Marte que zellas,

Não se afastam grande espaço:

Tem um a estrella no braço,

Outro o braço nas estrellas!

1.^o POETA

Fóra o seiscentisto. Sempre te achei queda para os conceitos alambicados

e antitheses retorcidas! Essa vem na _Phenix renascida_, ou nos

_Desmaios de Maio_, aposto!--Bocage... (_reparando e tomando-lhe o

braço_.) Bocage!... Em que pensas?... Que fizeste á picante jovialidade

tão bem estreada, e que tanto promettia para esta noite?

BOCAGE (_como despertando_)

Que?... Eu?... (_comprehendendo_.) Ah!... Jovialidade lhe chamas? Não

era, não. Era raiva, era furia, era...

1.^o POETA

Contra uns pobres rapazes! Deixa versejar a vadiagem. Cançará depressa.

Não vale a indignação.

BOCAGE

Isso dizem todos, e d'isso sobra forças á mediocridade e a vilania, que

são gemeas. Uns pobres rapazes! Hoje nescias vaidades apenas... ámanhã

calumniadores invejosos!... Deixae-os medrar, deixae; e queixae-vos

depois dos damnos que vos fizerem! E ha peiores ainda... Peiores e mais

nocivos são os desalmados, que nem adivinham a alma, e d'esse aleijão

moral fazem a bitola de todos os caracteres!... Que me hão de apparecer

por toda a parte vilezas!... Não reparem, amigos... São restos da cólera

em que me deixou esse homem, que até na morte vê o interesse sem lhe ver

as lagrimas!... Quando estas ignominias me surgem diante, sou como

aquelle tyranno antigo, que desejava um só corpo á humanidade, para a

degollar d'um golpe!... Quizera tel-as tambem todas congregadas e

encorporadas debaixo da mão, para lhes arrancar a mascara hypocrita,

para as retalhar com o látego justiceiro, para apresental-as como são,

hediondas e infames, perante a sociedade que illudem ou

pervertem.--Desculpem a rajada. Vamos ao que importa. (_olhando para as

janellas do mercador, ainda desertas_) Ficamos aqui?

1.^o POETA

Alcino tem uma Anarda alli n'um segundo andar do quarteirão immediato, e

ella provavelmente traz-lhe mote preparado. Queres vir?

BOCAGE (_com os olhos nas janellas_)

Com tanto que voltemos depressa!

2.^o POETA

Percebo. Temos tambem por cá pastora! Uma Armia, uma Isbella, uma

Anfrisa?

BOCAGE

Melhor do que isso. Uma esperança!

(_Gritos, tumulto fóra á E._)

2.^o POETA

Ha novidade, ao que parece.

(_Grande tumulto á E. fóra_. _Gritos_: Aqui d'el-rei! Agarra! _O povo

afllue áquelle lado_.)

BOCAGE

É desordem?

1.^o POETA

O costumado.

VOZES (_no povo_)

Arreda! arreda!

(_Reflue tudo sobre a D._--_Bocage, á frente dos companheiros, impellido

pela turba, acha-se na extremidade D. quando entra, correndo d'este

lado, Alcaide, e a ronda de quadrilheiros e paisanos_.)

SCENA XI

ALCAIDE, BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, MORGADO (_que entra

esboforido da E._) DAMAS, POVO.

ALCAIDE (_topando Bocage, e pondo-lhe uma pistola aos peitos_)

Da parte da ronda--quem é? d'onde vem? para onde vae?

BOCACE (_serenamente_)

Sou o poeta Bocage,

Venho ha pouco do Nicola,

E vou para o outro mundo

Se me dispara a pistola!

POETAS _e_ COMPANHEIROS

Bravo! Bravo, Bocage!

ALCAIDE (_deixando-o_)

Ah! é o Bocage! Que foi então? Quem gritou?

MORGADO

Foi um chibante de cigarro que deu tres facadas n'um moço das

carvoarias, que ia cantando a _Fôfa_ alli para a banda da Bitesga!...

Ah! que se o apanho a geito!... (_esquiva-se para a D. logo que o

Alcaide interroga_.)

ALCAIDE

Quem fallou para ahi?... (_á ronda_) Depressa, anda... Venham as

lanternas, que nas travessas está escuro como breu. (_Os paisanos

adiantam-se com as lanternas, mostrando certa repugnancia_.) Mais

depressa... (_aos quadrilheiros_) Para a frente vocês. (_Estes obedecem

com promptidão, e passam velozmente para a E._--_O Alcaide continua para

este lado como fallando a um dos quadrilheiros que passou_.) Ó Gaiola,

bota cordão lá para diante... agarra tudo!... O sr. Corregedor do Crime

mora ahi para cima; elle que os joeire!... Vá, vá.

(_Os grupos abrem vivamente passagem ao Alcaide e aos mais da ronda, que

saem apressados pela E._)

SCENA XII

OS DITOS, _menos o_ ALCAIDE _e_ RONDA, _depois_ UM CEGO (_que vende

impressos_)

(_Apenas o Alcaide sae, ouve-se tambor e gaita de folles para a D._--_O

povo grupa-se para esse lado_.)

2.^o POETA

Cirio agora, querem vêr!

1.^o POETA (_observando_)

Não. São os foliões do Espirito Santo com a bandeira, e o ermitão da

Senhora do Monte com o Embrechado. Metteram-se para a outra travessa.

BOCAGE

Por isso estão todos nas janellas dos lados.

2.^o POETA

Com similhante inferneira, bem se ha de poetar agora.

O CEGO (_passando ao F. e apregoando em cantilena_)

Comprae, meninas comprae,

Por dez réis, ou meio tostão,

_O Testamento da Velha_

_Ind'antes da serração_;

Ou as obras afamadas,

Que ninguem comprou em vão,

Da Chrystaleira de Coimbra,

Coisa de satisfação.

BOCAGE (_rindo e como terminando a trova do cego_)

Temos rival pela prôa:

Vá, ao outro quarteirão

1.^o e 2.^o POETAS (_galhofeiros_)

Vá, vamos. (_Saem os tres_.)

SCENA XIII

O CEGO, _logo depois_ TIA VICENCIA. _e_ TIA PASCHOA, _logo depois_

COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO. (_Movimento_. _Homens

apregoando caramello_. _Pretas apregoando alcomonia, etc_.)

CEGO

Comprae, meninas, comprae,

Por dez réis ou meio tostão...

(_Perde-se-lhe a voz na distancia_.)

TIA VICENCIA

Bem lh'o cantava eu, tia Paschoa! Qual juiz, nem meio juiz! Não lhe poem

a vista em cima! A Esteireira é que é de desengano. Que eu não lhe digo

isto para me esquivar... Se quer que peça á morgada, appareça ámanhã...

ámanhã não, é dia de festa... appareça depois de ámanhã, e lá iremos...

Verá que me não diz que não...

TIA PASCHOA

Vou... Sempre vou... Se por ahi se arranja o negocio é uma boa dóse que

poupo, e para quero está já tão arrastado...

COMPADRE AMANCIO (_entre as dez e as onze, capote a um lado, entrando

com compadre Theotonio_)

Safa!... Cuidei que me filavam tambem!

TIA PASCHOA

Se não se fizer nada, então tomo o seu conselho, e vou á Esteireira...

Por fim de contas são conhecimentos que se tomam... Ah! meu rico Santo

Antonio! sou capaz de vender a camisa do corpo só para metter pelo chão

abaixo aquelles marotos que nos desgraçaram... (_Saem pela E.

conversando_.)

SCENA XIV

COMPADRE THEOTONIO, COMPADRE AMANCIO (_observando para a E._) _pouco

depois_ MORGADO _e_ COMMENDADOR. _Grupos rareados_.

COMPADRE THEOTONIO (_tambem com um grão na aza, mas dando-lhe para

taciturno, e preoccupado, e servindo-se com frequencia de um cheirador

de simonte_)

Prenderam o homem?

COMPADRE AMANCIO

A ronda vae apanhando a torto e a direito, mas o homem, sim! Metteu-se

para a rua das Hortas, salta n'um pulo a S. Roque, e de lá á Cotovia...

Depois... boas noites... (_puxando, endireitando o capote, e mirando-o_)

Por um triz se não vae d'esta feita, o meu cobre-miseria! E o seu não

ficou tambem pouco derreado, compadre Theotonio!

COMPADRE THEOTONIO

Leve a fortuna os apertões, compadre Amancio.

COMPADRE AMANCIO

Olhe se não vae na ronda o mestre Joaquim da Ferraria... (_olhando em

redor_) Está isto por aqui só ainda! (_Ouvem-se fóra á D. palmos e

applausos_.) Que é? (_Vae vêr_) Ah! são os poetas que andam pelo outro

quarteirão... Vamos até lá, compadre?... Quero dar o meu voto a respeito

do Bocage, que ainda não ouvi... Tem-me ido já umas poucas de vezes

barbear-se á loja, e dizem que na versaria põe tudo a uma banda!

COMPADRE THEOTONIO

Cá por mim... o José Daniel!

COMPADRE AMANCIO

Não digo que não, mas vista faz fé. Vem?

(_Entram da D. o morgado e o commendador_. _Formam dois grupos

distinctos_.)

COMMENDADOR

Onde ia tão assustado? Não me via?

MORGADO

Assustado eu!... Ia desesperado... O tal sr. cadete, o tal sr. poeta!...

COMMENDADOR

Disse-lhe alguma?

MORGADO

A tanto não se atrevia elle... Ainda agora o fiz eu tornar atraz... Os

modos... os modos é que me dão a perros... Tomára achar azo de lhe

pregar uma boa vaia, ahi diante de toda a gente.

COMMENDADOR

Havia de lhe doer... mas isso é antes desforra de mulher que de homem...

A verdadeira vingança quer-se mais segura. No conceito de Seneca toda a

soberba é injuria, e Plauto ensina como as injurias se pagam... (_Ficam

conversando_.)

COMPADRE AMANCIO (_do outro lado_)

Não se mexe d'ahi, compadre? Parece-me jarra! Largue o cheirador, que é

capaz de lhe subir o simonte ao miolo. Se não está para ouvir os poetas,

venha até ao Talaveiras, que tem uma pinga do velho...

COMPADRE THEOTONIO

Cá por mim, o Petinga.

COMPADRE AMANCIO

Não sae d'isto! Ó compadre Theotonio, você por mais que me digam já fez

hoje mais de uma estação!... (_Ouve-se campainha á E._) Será a

Misericordia? (_Indo verificar_) Ora o que ha de ser!

COMPADRE THEOTONIO

O que é?

COMPADRE AMANCIO

É o Bernardo atafoneiro, que vem ahi todo vestido de hollandilhas, com

bordão de gancho e lanterna pendurada, a pedir para o Senhor Jesus dos

Afflictos... Conheço-o pelo roliço. Aquillo faz dinheiro de tudo!

Rendem-lhe mais as penitencias que o officio, e ainda em cima aluga a

preta para andar a vender pelas ruas.

(_Atravessa ao F. o penitente, como está descripto tocando a espaços a

campainha; traz á cinta um mealheiro_. _Dão-lhe esmola_.)

COMPADRE THEOTONIO (_elevando a voz_)

Ora se ha um birbas assim!

COMPADRE ANASTACIO (_impondo-lhe silencio_)

Mais devagar, compadre, mais devagar, que o Bernardo é familiar do Santo

Oficio... como alguns fidalgos!

MORGADO (_do outro lado, ao commendador olhando para a janella dum 2.^o

andar_)

Lá está uma palmilhadeira do meu conhecimento, no 2.^o andar, mesmo por

cima da casa do mercador... (_depois de reflectir, como achando_) Ah!

COMMENDADOR (_ironico_)

Teve alguma lembrança feliz?

MORGADO

Tive. (_olhando para a D._) Cá vem o rancho outra vez! (_D. Felicia e D.

Maria Joanna apparecem a uma das janellas do 1.^o andar da esquina_.

_Maria Gertrudes a outra_. _Enchem-se as janellas_.--_Affluem

suecessivamente os grupos_.) Verá Verá que vergonhaça!... Digam que não

sei varar um gamo, nem pegar n'uma espada, nem determinar uma mesa, se o

poeta não fica hoje corrido!... (_Sae precipitadamente pela D. dobrando

a esquina_. _O commendador vê-o sair, encolhe os hombros

desdenhosamente, e mette-se por entre os grupos_. _Compadre Theotonio e

compadre Amancio giram na turba_. _Entra Bocage e os poetas_. _O grupo

d'estes fica sobresaindo_.)

SCENA XIV

BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, COMMENDADOR, COMPADRE

AMANCIO, COMPADRE THEOTONIO, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA _e_ MARIA

GERTRUDES, (_nas janellas_) DAMAS, POVO.--(_Grande animação_)

1.^o POETA

Oh! agora está já tudo pelas janellas. Vamos, quem rompe?

BOCAGE

Eu não... Logo.

2.^o POETA

Rompo eu. (_para as janellas_) Mote... Venha mote, minhas senhoras!

(_Grupam-se todos curiosamente para ouvir_.)

D. FELICIA

Essas peraltas de agora,

Eu não sei d'onde lhes vem.

2.^o POETA (_repetindo_)

Essas peraltas de agora...

Eu não sei d'onde lhes vem.

(_Fica por momentos pensativo_.)

BOCAGE (_ao 1.^o poeta_)

Foi a morgada que deu o mote?

1.^o POETA

Foi. (_ao 2.^o Poeta_.) Glosa-lh'o ao geito, se queres que te applauda,

a tartaruga!

2.^o POETA

Deixa. (_batendo as palmas_) Lá vae:

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 4 / 10 段