Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram

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OS PRIMEIROS AMORES DE BOCAGE

COMEDIA EM CINCO ACTOS

POR

JOSÉ DA SILVA MENDES LEAL

(REPRESENTADA PELA PRIMEIRA VEZ NO THEATRO DE D. MARIA II EM 7 DE JUNHO

DE 1865)

LISBOA

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL

MDCCCLXV

INTRODUCÇÃO

Tentando traçar os primeiros lineamentos caracteristicos de um grande

poeta, esboço a que serve de moldura uma época ainda pouco estudada,

desejou ao mesmo tempo o auctor compendiar n'esta peça os tres

principaes generos de comedia--a comedia de enredo, a comedia de

caracteres, a comedia de costumes.

Dizendo-se que é uma comedia, bem se deprehende que não se coadunam com

as suas condições os lances violentos, que só pertencem ao drama.

Desejando-se que em tudo sahisse de feição portugueza, evidente se torna

que não podia entrar no seu quadro o expediente de inverosimeis

situações, que o theatro francez offerece com trivial abundancia.

Não é porém a comedia uma biographia. Não podia apparecer n'ella inteira

a vida do poeta, com todas as modificações que os annos successivamente

exercem nos espiritos. Por isso não tem por titulo _Bocage_, senão _Os

primeiros amores de Bocage_; como para dizer--a aurora d'esse homem--um

homem egualmente singular pela indole e pelo ingenho.

Aquelle homem, com effeito, encheu do seu nome o fim de um seculo e o

principio de outro. Era elle essencialmente o homem do futuro. A morbida

inquietação, progressivamente aggravada até ao desvario, vinha-lhe

naturalmente do estreito ambito de idéas em que o seu talento se

asphixiava!

Para bem o comprehender cumpre ler-lhe attentamente a anciosa poesia, e

logo depois fixar a meditação e os olhos nas paredes negras da

Inquisição, em seu tempo erguidas ainda, e ainda ameaçadoras!

Surgindo entre duas sociedades, uma que o instincto lhe adivinhava,

outra que em torno d'elle se alluia, foi a sua existencia um indeciso

protesto e uma turbida agonia. Os desvios dos annos ulteriores,

precipitando-o tão cedo na sepultura, fizeram-se o triste refugio de uma

actividade intellectual, convulsa de febre, comprimida de fóra, não bem

conscia de si. Os seus ultimos desregramentos apparecem-nos hoje como as

valvulas perigosas por onde se derramou, e brevemente se exhauriu, a

exhuberancia d'aquella alma

«...--que sedenta em si não coube!»

A comedia, tomando o poeta nos primeiros annos e nas generosas paixões

da mocidade, mede-lhe a grandeza do vulto pela grandeza dos impulsos, dá

aos seus mesmos defeitos a explicação elevada e nobre que só se póde ter

por verdadeira em tão alto e claro espirito, mas deixa sempre entrever o

germe fatal das futuras aberrações.

Equivocar-se-ia de todo quem unicamente o quizesse ver segundo a

tradição que ficou do derradeiro periodo da sua vida, transmittindo-se

pela bocca dos que só então o conheceram e chegaram aos nossos dias. O

versista das trovas ao Chrispiniano, á Estanqueira do Loreto, e ao Antão

Broega, o vate plebeu dos sonetos ao Galina e aos novos árcades, não

exclue o admiravel poeta de _Leandro e Hero_, de _Areneu e Argira_, do

_Tritão_ e das Epistolas. A propria mobilidade do seu talento duplica,

multiplica as variantes d'um caracter, cujo principal distinctivo era a

excessiva impressionabilidade.

Na comedia, Bocage mostra-se pelas duas faces essenciaes. Está n'isso a

verdade: o contrario seria grave erro de observação. Ninguem se

apresenta nas salas como na rua. Quando não houvesse esta distincção

natural, que é de todos os tempos, bastaria o que a respeito d'elle

escreveu o viajante Beckford, (que o tratou no tempo em que frequentava

a casa dos Marialvas) para tornar evidente como o fogoso mancebo, apesar

das suas singularidades, não podia ter ao despontar da vida desaprendido

o que recebera da educação paterna, que recordava com desvanecimento da

origem como provam alguns dos seus versos.

Releu cuidadosamente o auctor os preciosos trabalhos dos srs. Castilhos,

Rebello da Silva, e Innocencio ácerca de Bocage; compulsou os documentos

respectivos ao poeta com tanta meudeza, que teve a fortuna de poder

rectificar a data da sua nomeação de guarda marinha para Goa, que não é

a de 1782 como se lê na biographia que precede a ultima edição, mas a de

31 de janeiro de 1786, como authenticamente se vê no proprio documento

official conservado nos archivos do ministerio da marinha; procurou

sobre tudo o segredo d'aquelle complexo caracter nos seis volumes que

encerram a collecção completa dos seus poemas, collecção inteirada pela

illustrada solicitude e zelo incansavel do nosso primeiro bibliographo,

o já citado sr. Innocencio.

A variada feição da indole e talento de Bocage, o seu advento, e os

lances principaes da sua vida, alli com effeito se retratam.

Aos 8 annos improvisava uma quadra, que não poderia ter chegado até nós

se não fosse logo repetida por apreciada, concluindo-se d'ahi que não

póde parecer prematura reputação a que elle goza já aos 19:

Fui ver a procissão a S. Francisco,

A quem o vulgo chama da cidade,

E supposto o apertão, foi raridade

Que indo eu em carne não viesse em cisco.

Logo no primeiro soneto da collecção exclama:

Incultas producções _da mocidade_

Exponho a vossos olhos, oh leitores;

Vede-as com magoa, vede-as com piedade,

Que ellas buscam piedade e não louvores;

Ponderae da Fortuna a variedade

Nos meus _suspiros, lagrimas e amores_;

Notae dos males seus a immensidade,

A curta duração dos seus favores;

E se entre _versos mil de sentimento_

Encontrardes alguns, _cuja apparencia

Indique festival contentamento_,

Crede, oh mortaes, que foram com violencia

Escriptos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependencia.

Ninguem dirá, em presença d'esta dolorosa confissão, que lhe eram

extranhos os grandes affectos e os grandes pezares expressos na mais

alta e culta lingua; ninguem poderá persistir em consideral-o

exclusivamente homem de botequins e oiteiros, incapaz de outras

aspirações e outras praticas; ninguem em summa presumirá conhecel-o

melhor do que elle a si se conhecia.

O soneto 99.^o do Livro I attesta como n'esse privilegiado ingenho se

revelou cedo a vocação, que cedo tambem o fez presado:

Das faixas infantis despido apenas

Sentia o sacro fogo arder na mente.

Se o testemunho d'elle não bastasse, removeria quaesquer duvidas o de

Philinto quando lhe escrevia:

Lendo os teus versos, numeroso Elmano,

E o não vulgar conceito, e a feliz phrase,

Disse entre mim: «Depõe, Philinto, a lyra

Já velha, já cançada,

Que _este mancebo_ vem tomar-te os louros.»

Manifesto é pois que a fama não esperou muito para apregoar o nome de

Bocage, e apregoal-o por voz tão auctorisada como esta, a que o moço

poeta respondia n'um rapto de enthusiasmo em que se está revelando

quanto o lisongeava tal suffragio:

Fadou-me o gran Philinto, um vate, um nume!

Zoilos, tremei! Posteridade, és minha!

O retrato physico de Bocage acha-se, além de outro inferior, no soneto

22.^o do Livro IV:

Magro, de olhos azues, carão moreno,

Bem servido de pés, _meão_ na altura.

O nome que mais frequentemente apparece nas suas queixas amorosas,

indicando uma preoccupação e predilecção pouco vulgar em homem tão

variavel, e consequentemente certificando que fôra aquelle o seu mais

intenso affecto, é justamente o nome de Gertruria. Enlevos,

desconfiança, zelos, saudades, presagios, alternam-se em impetuosos

arrebatamentos e sentidos desaffogos nos sonetos 13.^o, 18.^o, 23.^o,

37.^o e 57.^o do Livro I, e Gertruria é o objecto d'estas persistentes

recordações. Os sonetos 17.^o e 20.^o provam que, indo em viagem, é

ainda esta a memoria que lhe enche o espirito. O soneto 58.^o é uma

despedida a Gertruria na occasião de partir para a India. O soneto 47.^o

chora a ausencia da patria e de Gertruria. Finalmente o 83.^o, com o

respectivo mote, é o que o Bocage da comedia no segundo acto improvisa

sem mudança de uma virgula, e serve nas mãos astutas do commendador, por

intermedio do officioso mestre Amancio, para dar no 3.^o acto motivo aos

temporarios arrufos entre a supposta afilhada de D. Filicia e o filho de

Manuel Simões.

Já portanto se vê que, só desconhecendo-se totalmente as obras do poeta,

se poderiam julgar destoantes do seu caracter estes amores, estes

versos, e a feição d'elles, pois que ahi se encontra, n'aquelle periodo

da sua vida, uma parte da sua propria individualidade com o que é mais

d'ella, ou antes no que é mais ella!

Seria facil multiplicar infinitamente as citações das poesias que

authenticam, digamos assim, o caracter e a expressão que lhe deu o

auctor. Para que? Seria um estudo demasiadamente longo e prolixo; seria

peior, seria pôr em duvida a licção e criterio dos leitores.

Poderia crer-se apenas um freguez do Izidro e do Nicola o poeta que ao

partir para Goa soltava esta enternecida e magnifica despedida?

Amigos, patria minha, e lar paterno

Penates a quem rendo um culto interno!

Lacrimosos parentes

Qu'inda na ausencia me estareis presentes,

Adeus! Um vivo ardor de nome e fama

A nova região me atrae, me chama.

Não diz elle as suas arrojadas esperanças e secretas penas n'este

quarteto tão cheio?

Camões! grande Camões! quão similhante

Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Egual sorte nos fez, perdido o Tejo,

Arrostar co'o sacrilego gigante!

Não deixa entrever, n'est'outro mavioso trecho, a par d'aquelles

grandiosos sonhos, a dôr mysteriosa que o impelle e o acompanha?

_Eu parto_; e vou teu nome repetindo

Por que dê desafogo á magoa dura;

Meus tristes ais, suspiros de amargura

_Áquem dos mares_ ficarás ouvindo!

De tudo isto se compõe o Bocage da comedia!

Em torno d'elle, concorrendo a uma acção fundada nos costumes do paiz e

da época, grupam-se os typos que mais visivelmente representam os

sentimentos e tendencias coevas. De um lado as antigas tradições,

_ainda_ na sua grave pureza. De outro lado a degeneração variada, _já_

mixturando os elementos d'onde surgirá a necessaria transformação. De um

lado o marquez de Marialva, D. Maria Joanna, Gonçalo Mendo; do outro D.

Felicia, o Commendador, o Morgado. Ao fundo a burguezia nascente, isto

é, Manuel Simões e seu filho,--o proprio Manuel Simões concebido e

desenhado por Garrett na _Sobrinha do Marquez_--quanto possivel guardado

e acatado como se guardam e acatam as tellas dos mestres--e só

passageiramente retocado com uma leve tintura de ambição, indispensavel

para indicar a progressão dos tempos, e os futuros destinos de tal

classe. Ao redor do todo, o povo em algumas physionomias rapidamente

esboçadas. Ao longe, como horisonte melancholico, uma idéa do são e

austero lar provinciano, com seus longes dos costumes patriarchaes e

fragueiros que lhe eram usual apanagio.

Eis aqui resumido todo o pensamento e toda a economia da composição, que

depois de experimentar a fortuna do palco, vae agora experimentar a

fortuna da imprensa--duas temerosas experiencias.

Expondo assim o conjuncto do designio, cujas multiplicadas difficuldades

calculou, não procura o auctor antecipar as desculpas, mas unicamente

assentar as responsabilidades.

Se logrou o seu proposito não o dirá elle; decidil-o-ha o publico!

O singular favor com que foi acolhido este ensaio n'um genero pouco

cultivado no nosso theatro, impõe ao auctor o gratissimo dever de

exprimir aqui (vedando-lhe o respeito outra menção) o seu profundo

reconhecimento para com o publico, indulgente e attento, que em todos os

seus tentames o tem acompanhado como um amigo fiel, ora animando-o com o

estimulo do applauso, ora advertindo-o com a benevolencia do conselho, e

que, de certo apreciando a obra mais pela intenção que pela valia,

recompensou os seus esforços por modo tal que lhe ficará indelevel

memoria.

Á imprensa agradece tambem a benignidade com que até aqui o tem honrado.

Á direcção do theatro normal testemunha quanto o penhorou a solicita

cooperação que n'ella encontrou.

Seja-lhe finalmente permittido certificar á graciosa actriz, que fez com

a estreia da peça o seu beneficio, a sua inteira satisfação pela maneira

verdadeiramente distincta com que interpretou o seu variado papel e lhe

venceu as numerosas difficuldades, sendo a maior ter ao lado uma artista

tão conscienciosa e completa como a sr.^a Delfina, que do esboço

senhorilmente comico de D. Felicia tirou uma das suas mais acabadas

creações.

Se a estas, pela primasia devida ao sexo, menciona o auctor em primeiro

logar, nem por isso esquece que deve egual agradecimento aos mais

actores, do primeiro até ao ultimo, tendo achado n'elles tamanho zelo,

que, mesmo graduando-os pela ordem dos meritos bem conhecidos, não

poderia especialisar um sem offender a boa vontade de todos.

A comedia _Os primeiros amores de Bocage_, se Deus der vida ao auctor,

será o introito de uma trilogia, que se destina a abranger o mais

notavel da vida do poeta, e dos curiosos periodos coetaneos da historia

patria, até aos ultimos momentos d'elle em dezembro de 1805.

Junho 12--1865.

ADVERTENCIA

Além dos córtes, effectuados antes da representação, que vão designados

com cômmas no impresso, a experiencia mostrou a necessidade de novas

reducções. Como estas reducções tiveram logar depois de completa já a

impressão dos respectivos actos, vão ellas aqui notadas para facilitar a

execução da peça em quaesquer theatros.

ACTO II

SCENA II

Desde as palavras «estava de pedra e cal que se tinha já livrado»

(exclusivè) até começar a phrase: «dizem que ha ahi uma tal senhora

morgada, etc.» supprime-se tudo.

E depois, egual suppressão desde as palavras: «se não póde chegar a um

rosicler de pedras» (exclusivè) até ao fim da scena.

SCENA IV

Suppressão desde as palavras: «elle só bastára para dar a immortalidade

ao nome portuguez» (exclusivè) até onde Bocage diz: «ouça-me tambem, sr.

Gonçalo Mendo».

ACTO III

SCENA X

Suppressão desde que o Commendador pergunta: «resolveu casar com sua

prima quanto antes?» (exclusivè) até prender onde o mesmo Commendador

diz: «chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que importa, etc.»

Á phrase de Gonçalo Mendo, na scena 2.^a do 5.^o acto: «disse-me que ia

a Setubal despedir-se _dos paes_», phrase que por facil inadvertencia

escapou na composição e revisão, cumpre substituir est'outra: «disse-me

que ia a Setubal despedir-se do pae.»

A mãe do poeta não existia já havia nove annos.

PERSONAGENS

O Marquez de Marialva, 72 annos Sr. _Rosa_

Manuel Simões, mercador, 69 annos Sr. _Theodorico_

Gonçalo Mendo de Sendim, da casa de Mendel, tenente de dragões de Campo

Maior, 33 annos Sr. _Tasso_

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage, cadete do regimento de Setubal,

19 annos Sr. _Santos_

Bartholomeu Tojo, morgado da Gesteira, 44 annos Sr. _Cezar_

Sebastião de Brito Louzellos, commendador de S. Marcos de Monsarás, 52

annos Sr. _Izidoro_

Francisco Pedro Simões, filho do Manuel Simões, 26 annos Sr.

_Coelho_

Um Transeunte Sr. _Corrêa_

Zé da Moita, guarda de montado, 30 annos Sr. _Pinto_

Luiz Manuel, escudeiro, 65 annos Sr. _Moreira_

D. Maria Joanna Galvão Lobo, morgada de Valmoreno, Fresnos e

Carregueiros, 23 annos Sr.^a _E. Adelaide_

D. Felicia Moutoso de Cerqueira, morgada da Torre da Palma, 48 annos

Sr.^a _Delfina_

Maria Gertrudes, sua afilhada, 20 annos Sr.^a _Marianna_

Tia Paschoa do Espirito Santo Sr.^a _Maxima_

Tia Vigencia da Purificação Sr.^a _C. Emilia_

Uma Palmilhadeira. Sr.^a _Maria das Dores_

Compadre Theotonio Alves Sr. _Marcolino_

Compadre Amancio Pires Sr. _Sargedas_

1.^o} { Sr. _Amaro_

2.^o} POETAS { Sr. _Polla_

3.^o} { Sr. _Soller_

1.^o} { Sr. _Vencancio_

} MANCEBOS {

2.^o} { Sr. _Christiano_

O alcaide do bairro do Rogio Sr. _J. Antonio_

O tabelião

Um cavalheiro

O Almeirão }

} Picadores

O Gaeta }

Um cego, pregoeiro de impressos Sr. _Farruja_

Um Volantim

Um penitente

Um escudeiro do Marquez.--O mouro do Marquez.--O escudeiro de D.

Felicia.--Povo.--Convidados.--Damas.--Ronda do Alcaide--Criados, etc.

1785 a 1786

O COMMENDADOR (_atrás de D. Maria Joanna, do mesmo modo_)

Bem... bem diz Xenophonte!... Nem eu sei o que diz! (_Deixa-se ir meio

desfallecido sobre outra cadeira á entrada da porta do F._)

(_Silencio geral. Cada um dos tres personagens procura resfolegar e

reanimar-se_.)

D. MARIA JOANNA (_como tornando a si_.) (_Para os dois_)

Que foi isto?... Como foi isto?...

MORGADO

Pois não sentiu?--Um tiro... tropel de cavallos...

D. MARIA JOANNA

E desappareceu tudo!... E deixaram-me só!... (_meio reprehensiva_) E o

primo a fugir!

MORGADO (_levantando-se_)

Fugir eu, minha prima!... (_Formalisado_.) Fugir!... Seria a primeira

vez.

D. MARIA JOANNA (_recobrando gradualmente o bom humor_)

Pois para a primeira não o fazia mal.

MORGADO

Avistei esta casaria... Corria para aqui... para me fazer forte... para

nos fazermos fortes!

D. MARIA JOANNA

Mas corria diante... E eu corri tambem... corri que nem eu sei... corri

devéras para o poder seguir... E até o commendador correu... Não correu,

commendador?

COMMENDADOR (_gravemente_)

Affirmam boas auctoridades que muitas vezes é prudencia o correr...

_Pedibus celer_, diz Virgilio com louvor.

D. MARIA JOANNA (_sorrindo_)

Já está mais em si, o commendador... Já não falla como toda a gente.

MORGADO (_com extrema volubilidade, que é o seu natural_)

Mas, prima, que havia de fazer um homem só, n'aquelle descampado, contra

tanta gente!... Agora que venham. Dez, doze, vinte que sejam...

D. MARIA JOANNA (_erguendo-se como escutando_)

Espere...

MORGADO (_assustado_)

Que é?

COMMENDADOR (_idem, levantando-se e approximando-se á D._)

Que é?

D. MARIA JOANNA (_Applicando o ouvido, aos dois que se lhe reunem em

grupo turbado_)

Não ouvem?

COMMENDADOR

Tropear de cavallos!...

MORGADO (_inquieto e interrogando as saidas com os olhos_)

Não ter aqui a minha espada!...

D. MARIA JOANNA (_com leve ironia_)

Perdeu-a?

MORGADO (_mais inquieto_)

Não sei como foi... (_dirigindo-se apressadamente a uma porta lateral_)

Vou procurar uma arma.

D. MARIA JOANNA (_com terror dirigindo-se a outra_)

Chame gente, primo.

COMMENDADOR (_que ficára escutando_)

Vem subindo alguem! (_encaminhando-se desorientado á outra_).

(_No momento em que os tres aterrados procuram debalde atinar com os

fechos das portas a que se dirigem, apparece ao F. Gonçalo Mendo_)

SCENA II

OS MESMOS _e_ GONÇALO MENDO

GONÇALO

Da parte d'el-rei... nem mais um passo.

COMMENDADOR (_apegando-se á umbreira_)

Ai!

MORGADO (_idem_)

Jesus!

D. MARIA JOANNA

Desmaiava... se tivesse onde.

GONÇALO

Ninguem tente fugir ou esconder-se. Da parte d'el-rei está preso tudo.

MORGADO (_esperançado, comsigo, e ainda voltado para a porta_)

Da parte d'el-rei!

D. MARIA JOANNA (_do mesmo modo_)

Havia de jurar que me não é desconhecida esta voz.

COMMENDADOR (_voltando dissimuladamente o rosto, e procurando

reconhecer_)

Da parte d'el-rei!... Então...

GONÇALO (_adiantando-se_)

Vamos... Toda a resistencia seria inutil...

D. MARIA JOANNA, MORGADO _e_ COMMENDADOR

(_voltando-se simultaneamente_)

O sr. Gonçalo Mendo!

GONÇALO (_attonito_)

Que é isto! (_affirmando-se e reconhecendo-os_) Na verdade não sei se

acredite... A sr.^a D. Maria Joanna Galvão!... O sr. morgado da

Gésteira!... O sr. commendador Louzellos!... E eu que pensava colher um

bando de salteadores!... (_a D. Maria Joanna sorrindo_) Não são os

salteadores?

D. MARIA JOANNA (_recobrando a jovialidade_)

Somos os assaltados. Respondo-lhe por elles.--Agora diga-me antes de

tudo. Que aventura é esta? Como veiu aqui? Onde estamos? Diga. Foi

terrivel o susto, mas ainda é maior a curiosidade.

GONÇALO

Responderei logo; perguntarei primeiro. Estes senhores pódem auxiliar as

explicações, e eu completo o meu dever. Vinham de jornada e foram

atacados alli em baixo, na estrada, ao fundo do valle, entre a ribeira

d'Aviz e o azinhal grande?

COMMENDADOR (_no seu caracter habitual de prolixa gravidade_)

Fomos. Tinhamos jantado em Portalegre, onde mais nos detivemos do que

deviamos. E não foi por eu não repetir ao morgado, com a auctoridade de

Cicero: «nos negocios graves são perigosas as demoras.» Jornadas, em boa

razão, são graves negocios.

MORGADO (_no seu caracter de costumada loquacidade_)

A que proposito vinha o tal Cicero, ou o que é, quando eu tinha

conseguido pôr na meza á prima, em Portalegre... em Portalegre, como se

estivessemos na côrte!... tudo por diligencias minhas, tudo com receitas

minhas!... uma ôlha á castelhana, um prato de gallinhas de alfitete,

outro de coelho á Fernão de Sousa, outro de arteletes de vitella, outro

de coroa real de folhado francez, sem contar as miudezas... Em jornada

nem princezas teriam melhor, hade confessar, sr. Gonçalo Mendo... Não,

que se não fôra a minha consummada pratica n'estas coisas...

D. MARIA JOANNA

Estavamos ha uma hora em Monforte... e provavelmente não nos tinha

succedido o que nos succedeu.

MORGADO (_desconsolado_)

Ah! prima!

GONÇALO (_a D. Maria Joanna_)

Não me queixarei eu do succedido. (_Aos homens_.) Vamos ao caso...

COMMENDADOR

Era já ao pôr do sol e estavamos quasi ao meio do azinhal, a sr.^a D.

Maria Joanna com a sua aia n'uma liteira, nós dois e dois criados, todos

a cavallo, um pouco atrás uma azemola com as bagagens mais leves, e um

moço de pé...

MORGADO

Bagagens leves!... Leves serão, mas preciosas!... Mil coisas

necessarias!... Uma bateria de cosinha de viagem como não ha outra ainda

em Lisboa... completa... completa... Fôrmas, facas, espatulas, agulhas,

passadores... Nem na uxaria de Salvaterra!... E tudo precaução minha

para commodidade da prima, tudo...

GONÇALO (_interrompendo_)

Vamos ao caso... vamos ao caso, commendador.

COMMENDADOR

A meio do azinhal, pouco mais ou menos, onde a estrada faz um cotovelo e

se aperta entre os montes, damos de rosto com uns poucos de homens

armados...

MORGADO

Poucos!... Quinze eram pelo menos... vinte talvez... vinte de certo, se

não eram mais...

GONÇALO (_atalhando impaciente_)

O numero pouco importa.

MORGADO (_protestando_)

Importa pouco! Para o valor o numero...

COMMENDADOR

O numero não é indifferente... Por não ser indiferente se distinguiu em

singular e plural... Basta ver o que a respeito do numero escreveu

Prisciano Cesariense... mas n'este caso...

D. MARIA JOANNA

N'este caso, continúo eu... ou não se acaba.--Parámos. O morgado e o

commendador vinham ainda um pouco distantes, penso. Os homens fazem

menção de nos cercar a liteira. A minha aia desmaia. Os liteireiros

fogem pelo azinhal, e creio que os criados tambem. Emfim achei-me não

sei como a pé na estrada. N'isto o commendador caiu...

COMMENDADOR

Dei de esporas para acudir, e tropeçou-me o cavallo...

D. MARIA JOANNA

Muito a tempo.

MORGADO (_que espreitava a occasião, apoderando-se da palavra_)

No meio d'estes apuros, conservo toda a presença d'espirito... deito á

carreira, faço parada firme, ponho pé em terra n'um relance, com todos

os preceitos... os tres tempos velozes em meio circulo seguido...

levanto o commendador que estava tolhido pela sella... não indago

mais... a pé mesmo levo da espada, e caio como um raio sobre a malta...

Ah! que se tenho tempo! Duas voltas, um cambiamento, treta sobre treta,

talho e revez, e ensinava-lhes o que é o morgado da Gésteira com a

espada na mão!... A prima veria... Por seu respeito!... Veria... Não

digo mais!

D. MARIA JOANNA

Veria... estou certa. Mas não vi. Foi pena. Apagou-se o raio antes de

fulminar!

GONÇALO (_a D. Maria Joanna_)

Depois?

D. MARIA JOANNA

Depois... nem eu sei bem... ouviu-se um galope... um tiro, creio... O

morgado diz que foi um tiro...

MORGADO

Foi... Por signal, com o estrondo os nossos cavallos, que tinhamos

deixado soltos na estrada, fugiram á desfilada...

D. MARIA JOANNA

Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram os

salteadores... se eram salteadores... já tinha fugido o commendador,

fugiu o primo, e eu, que estava desatinada, confesso, vendo-o fugir...

segui-o. Debandada geral... Não se ria, sr. Gonçalo Mendo... Segui-o, é

verdade, a correr, a bom correr, eu mesma, por essas ladeiras acima, por

entre o matto... E tive folego!... Veja que forças dá o terror, e como

eguala as condições!... Por fim viemos dar todos aqui. Póde explicar-me

o enigma?

MORGADO

Tive a imprudencia de não trazer armas de fogo. Estava apeado, não

esperava dois ataques ao mesmo tempo... Mettido assim entre os

salteadores que nos esperavam, e o outro bando que atirou sobre nós...

Senti assobiar a bala aos ouvidos.

GONÇALO

Admira. Disparei para o ar.

MORGADO (_surpreso_)

Disparou!

D. MARIA JOANNA

Então o outro bando era o sr. Gonçalo Mendo!

GONÇALO

Eu mesmo. Voltava de Marvão, com duas ordenanças do meu regimento, em

direcção a Monforte. Ao descer a encosta avistei um ajuntamento na

estrada... Não podia distinguir bem, porque estava distante ainda, e já

começava a escurecer o valle com a sombra do arvoredo... Metti a galope,

e desconfiei que era ataque a passageiros. Disparei então uma das

pistolas para dar aviso de soccorro, e prevenir alguma ousadia maior.

Não esperava tão grande resultado. N'um instante desappareceu tudo...

menos a liteira e a sua aia, minha senhora!

D. MARIA JOANNA

Jesus! é verdade! A minha pobre Anna Maria! Que é feito d'ella?... Com o

sobresalto, com tudo isto, quasi me tinha já esquecido.

GONÇALO

Tornou a si... Acompanha-a um dos meus dragões... Vem ahi já. Nem pode

acreditar ainda, que esteja viva.

D. MARIA JOANNA

E os ladrões, os criados, os liteireiros...

GONÇALO

Dos ladrões, nem vestigios... Parece que se abriu a terra com elles...

MORGADO (_que escutava attentamente, comsigo_)

Ainda bem!

GONÇALO (_fitando-o_)

Como?

MORGADO

Nada, nada... Explica-se tudo perfeitamente. Ainda bem, dizia eu. Ainda

bem que se explica, está visto.

GONÇALO

Os liteireiros e os criados... deixei a outra ordenança incumbida de

procural-os, e esses de certo não hão de estar longe.

D. MARIA JOANNA

E como veio aqui ter, tanto a proposito?

(_Vae carregando a noite_)

GONÇALO

Porque vi que se acoitavam n'esta casaria alguns vultos... e por...

(_mais baixo_) por destino talvez!

D. MARIA JOANNA (_idem, motejando_)

Como ha dois annos?

GONÇALO (_gravemente e com ardor_)

Como sempre!

D. MARIA JOANNA (_afastando a conversação_)

Mas a final, onde estamos? Que havemos de fazer?

GONÇALO

Em primeiro logar... procurar luz. É noite quasi. Sr. Morgado da

Gésteira, a casa tem ares de habitada. Se quizesse...

MORGADO

Pois não. Eu chamo. (_Successivamente e a intervallos, ás portas da D._)

Olé! Oh!... ó de casa. Venha alguem? Está aqui o morgado da Gésteira!...

Está uma senhora!... Gente de bem, tudo!... (_Silencio absoluto_.) Nem

viv'alma!

GONÇALO

Estarão longe...

COMMENDADOR

É singular!

D. MARIA JOANNA (_inquieta_)

Será a propria guarida dos salteadores!

GONÇALO

Tem-se visto, mas não é provavel... Vamos, sr. morgado. Veja se acha uma

luz. Bem reconhece que não posso ir eu. Está aqui uma dama, e agora,

como militar, respondo pela sua segurança.

MORGADO (_irresoluto_)

Assim é, mas... (_sem se atrever a ir_) Commendador, mais vêem dois do

que um.

COMMENDADOR

«Não é a luz dos olhos a que mais vê», como diz...

GONÇALO (_instando_)

Então! Cada vez se faz mais escuro, e não sabemos onde estamos.

MORGADO (_resolvendo-se_)

Vamos, commendador, antes que seja noite de todo! Por aqui... (_indo á

E._) Uma varanda... (_indo á D._) d'este lado um corredor... Vamos a

ver.

(_Saem os dois pela 1.^a porta da D._)

SCENA III

GONÇALO, _e_ D. MARIA JOANNA

(_Longo silencio como se receiassem quebral-o_)

D. MARIA JOANNA

Sr. Gonçalo Mendo, é ainda submisso como d'antes jurava?

GONÇALO

Nunca faltei a nenhum juramento.

D. MARIA JOANNA

Tornamos a vêr-nos em circumstancias extraordinarias... n'um ermo a bem

dizer... entre sombras e mysterios... Não lhe permitto uma palavra de

galanteio ás escuras... Estão entre nós...

GONÇALO (_gravemente_)

Estão tres seculos de honra... está a espada de um soldado.--Faz-me a

injuria de suppôr necessario advertir-m'o?

D. MARIA JOANNA

Não. Desculpe. É ainda do sobresalto! Desculpe. Conversemos.--Estava bem

longe de me encontrar, não? E assim, e aqui muito menos?

GONÇALO

Só adivinhando. Suppunha-a ainda em Paris.

D. MARIA JOANNA

Volto de lá. Um mez de jornada, faça idéa! Se não posso aturar o mar!

GONÇALO

Um mez!... Entre o commendador e o morgado?

D. MARIA JOANNA

O commendador...

GONÇALO

Uma reminiscencia das academias do sr. D. João V... a quem Deus

perdôe...

D. MARIA JOANNA

Ao sr. D. João V?

GONÇALO

Não, minha senhora, ás academias.

D. MARIA JOANNA

O morgado...

GONÇALO

A casca dos antepassados... que não teve.

D. MARIA JOANNA

Já vejo que os conhece a fundo.

GONÇALO (_ponderando dolorosamente_)

Um mez em tal companhia!... A fadiga do caminho é nada ao pé d'isso.

D. MARIA JOANNA

Um mez com o commendador, que o meu contra-parente D. Vicente de Sousa

Coutinho incumbiu de acompanhar-me, attendendo á sua edade, e que

emprehendeu render-me á força de erudições... um dia com o morgado, que

encontrei em Porto de Espada, e que foi esperar-me á raia, não sei se

por sua conta, se por ordem de minha tia D. Felicia, a quem escrevi de

Paris.

GONÇALO

Ao menos foi só meio supplicio no mez!

D. MARIA JOANNA

Ai! o dia do morgado tem valido bem o mez do commendador. Imagine. È um

nunca acabar de proezas em cavallaria, em... esgrima, em altanaria, em

monteria e em... gastronomia, como se diz em França. Com o pretexto de

um parentesco... de que eu não tinha noticia... quer-me captivar pelas

artes como o commendador pela sciencia.

GONÇALO

Concluo d'ahi que tenho n'elles dois... dois... Como direi?...

D. MARIA JOANNA

Rivaes. Póde dizer. Não tem risco.

GONÇALO

Em summa, requestam-n'a ambos!

D. MARIA JOANNA

O commendador dês que partimos de Paris... O morgado dês que nos saiu ao

encontro na fronteira...

GONÇALO

Complicando o galanteio... ambulante.

D. MARIA JOANNA

Pelo contrario: simplificando-o. Distraem-se mutuamente, e deixam-me

respirar. Dois são menos perigosos que um.

GONÇALO

E tres?

D. MARIA JOANNA

Menos perigosos que dois. Já lhe esqueceu o promettido? (_Pausa_.) Ambos

pertendem a minha mão, é verdade... porque n'esta mão, com ser pequena,

cabe a herança de tres casas.

GONÇALO (_simplesmente_)

Não me lembrava!

O MORGADO (_fóra_)

Prima! Prima!

D. MARIA JOANNA

Ouve? Temos temporal de palavras.

SCENA IV

OS DITOS, MORGADO _e_ COMMENDADOR

(_Ambos com luzes--Clarea de novo a scena_)

MORGADO

Prima. Achámos luz.

GONÇALO

Não é difficil verifical-o.

MORGADO

E não só achámos luz, fizemos um grande descubrimento. (_Vão pôr as

luzes no bufete_.)

D. MARIA JOANNA

Não foi o novo mundo?

MORGADO

Não foi o novo mundo. Foi um mundo antigo... um canto d'elle... muito

seu conhecido... A prima mal se podia lembrar. Não o vê de pequenina...

E eu mesmo... Se não venho por aqui ha bons quinze annos!...

D. MARIA JOANNA

Vamos, acabe. Encontrou gente?

MORGADO

Gente! Ninguem. Um deserto.--Quer saber onde estamos?

D. MARIA JOANNA

Porque não começou por ahi? Não vê que estou morta de impaciencia?

MORGADO

Deus me livre de a molestar na minima coisa, prima. Quizera antes...

brigar commigo! Bem sabe que para lhe evitar um dissabor... uma sombra

d'elle, um... (_Gesto de impaciencia de D. Maria Joanna_.) Já vou,

prima. Lá vae.--Quer saber onde estamos? Estamos no paço da Torre da

Palma!

D. MARIA JOANNA

Em casa de minha tia D. Felicia?

MORGADO

No seu proprio solar. Não ignorava que era para estes sitios, mas deram

nova direcção á estrada, e lá em baixo não me occorreu... Depois, quando

entrámos, com o lusco-fusco...

D. MARIA JOANNA (_maliciosa_)

Com a perturbação...

MORGADO

Nem reparei sequer. Agora, entrando por ahi dentro, quiz-me parecer que

me não era estranho o corredor... tópo uma escada, e dá-me ares de

conhecida... desço, entro n'uma casa lageada, e cada vez se me afigura

mais familiar o piso... Procuro, acho vélas, accendo, ólho em redor...

Era a cosinha... foi um raio de luz...

GONÇALO (_sorrindo_)

Pudéra! Na cozinha!

MORGADO

Tantas vezes jantei n'esta casa!... Fui eu que dei as receitas de fartes

e de manjar real á Dorothéa!... Foi alli que ensinei o Fernandes velho a

fazer perdizes de gigote, quando vinha caçar com seu tio capitão mór...

D. MARIA JOANNA

Memoraveis recordações!... Admira como não reconheceu logo a casa.

MORGADO (_machinalmente_)

Com a perturbação... (_emendando-se_) com o escuro, quero dizer... E era

tão novo ainda n'aquelle tempo!--Não se lembra de seu tio João, de

Carregueiros? Parece-me estar vendo ainda o sr. capitão mór, João

Alvares Lobo, sempre sisudo, e sempre triste... triste como a noite!...

Tudo por quê? Por não deixar filho varão para herdeiro, (_a D. Maria

Joanna_) e por causa da paixão de sua tia D. Felicia pelos donaires...

Nunca se viram dois genios mais oppostos... Elle todo monteador e

fragueiro; ella toda côrte e mimos!... Teimava o capitão-mór em

eternizar, na Torre da Palma, os costumes do tempo em que era castello

fronteiro a casa. A sr.^a morgada D. Felicia não tinha senão um fito...

ser açafata no Paço.

D. MARIA JOANNA

E já é?

GONÇALO

Espera ainda ser. Ha treze annos que espera.

MORGADO

Na filha unica via o capitão-mór a continuação provavel da indole de sua

mulher, e a ruina dos proprios intentos.

D. MARIA JOANNA

Tenho idéa de ouvir dizer que por isso se apartaram.

MORGADO

Por isso, certamente. Foi ella viver na côrte como desejava. Elle

deixou-se ficar, não consentindo que sua tia levasse a filha...

provavelmente para a criar a seu modo... Ficou pois... Mas como

ficou!... Esta casa um ermo, elle uma sombra.--Levou-o mais cedo á

sepultura aquelle desgosto!

D. MARIA JOANNA

E a pequenina?

MORGADO

Tinha dezoito mezes apenas. Tratava d'ella aqui a Joaquina Simôa, filha

de um matteiro de Carregueiros, que havia dois annos casára com o Luiz

Manuel, o escudeiro da Torre da Palma... A creança morreu, e seu tio

pouco mais durou... Ha bons quinze annos isto... dezeseis talvez!

D. MARIA JOANNA

E dezesete porque não? Apezar de mais moço, meu pae havia casado muito

antes de meu tio João. Tinha eu os meus seis annos feitos por esse

tempo, e lembra-me bem de ouvir contar. Foi por morte do tio João e da

filha herdeira, que as casas de Fresnos e Carregueiros passaram para meu

pae, na qualidade de immediato successor. Não é isto?

MORGADO

É. Vivia ainda seu irmão Nuno Alvares, quando morreu o capitão-mór. Ao

menos acabou persuadido de que as terras dos seus iam a herdeiro varão,

como tanto desejava.

D. MARIA JOANNA

Deus tinha disposto d'outro modo. Meu irmão Nuno morreu ainda menino

tambem.--O morgado não é menos forte em genealogias... patrimoniaes...

do que em esgrima, e no resto.--Minha tia D. Felicia nunca mais voltou

aqui? Fui cedo para Lisboa, casei aos quinze annos, e parti logo com meu

marido para a embaixada de Vienna d'Austria, onde elle era secretario.

Desejo informações.

MORGADO

Sua prima? Não voltou. A côrte é o seu encanto, e esta casa só lhe

lembrava desgostos. Haverá dez annos mandou ir para a sua companhia a

pequena da Simôa, que é sua afilhada. Tem o mesmo nome que tinha a

filha, e nasceu pelo mesmo tempo... Recordações... saudades

provavelmente.

D. MARIA JOANNA

E a Joaquina Simôa? E o Luiz Manuel? Tenho ainda uns longes d'elles.

MORGADO

Ficaram por feitores da casa.

D. MARIA JOANNA

E não apparecem, essas reliquias de outro tempo?... Procure-m'as,

commendador... procure-as morgado... Ah!... (_como achando uma idéa_)

Estarão ellas encantadas? Querem vêr que estão!... Desencantem-m'as.

MORGADO

Se não mudaram os costumes, foram ao terço a Vayamonte, e não tardam.

D. MARIA JOANNA

Sabemos onde estamos, e estamos em morada da familia... Não é pouco, mas

não é tudo. Agora que fazemos? Monforte fica ainda longe?

GONÇALO

Meia legoa, o muito.

D. MARIA JOANNA

Não me fio n'estas meias legoas.--Visto que nos podemos julgar a

salvo... (_a Gonçalo_.) Podemos?

GONÇALO

Sempre o julguei.

D. MARIA JOANNA

Acho-me um pouco moída das carreiras que dei atraz do morgado; e não sei

se é do susto, se do ar, se da jornada, sinto uma fraqueza que... que

está solicitando com empenho a intervenção e o soccorro da famosa

ucharia... (_para o morgado_) Não seria occasião de experimentar alguma

das receitas?... Qualquer coisa.

MORGADO

Preveni tudo... Vem tudo nas bagagens, muito bem acondicionado...

Servir-lhe-hei duas ades estilladas, frias, que são um primor, e um

queijo de presunto, que verá... sem contar um prato de broas d'ovos que

tinha de reserva.

D. MARIA JOANNA

Ouviu já fallar no supplicio de Tantalo, morgado?

COMMENDADOR

Tantalo, rei da Lydia, filho de Jupiter e de Plotis.

MORGADO (_sériamente_)

Não conheço o sujeito, mas tratarei de fazer o seu conhecimento, se é

pessoa de bem.

D. MARIA JOANNA

Não é preciso.--Tantalo ardia em sede, e fugia-lhe a agua que via

proxima; devorava-o a fome, e retiravam-se d'elle os fructos que tinha á

vista... Assim estamos nós... Tão boas coisas nas bagagens, e as

bagagens por montes e valles!

GONÇALO (_que parecia escutar_)

Perdoe! (_Continua a applicar o ouvido_.)

D. MARIA JOANNA

Novidade?

GONÇALO (_saindo precipitadamente_)

Volto já.

SCENA V

OS DITOS _menos_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA

Mais inquietações ainda!

COMMENDADOR (_turbado_)

Não agoiro nada bom... Ouço rumor se me não engano...

MORGADO

Não tem a gente um momento de socego. (_comsigo_) Dar-se-ha caso que

devéras... (_alto_) Isto está como nunca... Anda tudo minado de

malfeitores!

COMMENDADOR (_com o ouvido attento_)

Que ha rumor lá fóra, ha!

D. MARIA JOANNA

Assim é que me tranquillisam!

SCENA VI

OS DITOS _e_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA (_assustada_)

Que foi?

GONÇALO

São as suas bagagens. Não é caso de consternar, creio.

D. MARIA JOANNA (_meio enleiada ainda_)

De certo não.

GONÇALO

Teve alguma coisa?

D. MARIA JOANNA

Não tive...--Tive... tive os terrores chronicos do morgado e do

commendador.

MORGADO (_protestando_)

Terrores! Cuidados pela prima.

D. MARIA JOANNA (_aos dois_)

Hão de acabar por me tornar convulsa.

GONÇALO

Chegou a sua aia, voltaram os liteireiros, e appareceu o criado do sr.

morgado. Não falta senão o do sr. commendador.

COMMENDADOR

Esse não me dá cuidado. É dos sitios.

GONÇALO

Tantalo tem férias?

D. MARIA JOANNA

Tem.--A minha Anna Maria?

GONÇALO

Entrou para os quartos inferiores.

D. MARIA JOANNA

Já agora aqui pernoitamos, commendador!

COMMENDADOR

É o mais prudente, se o sr. Gonçalo Mendo nos assegura...

GONÇALO

Basta que esteja em Monforte de madrugada. Eu e as minhas ordenanças

ficamos de guarda a esta casa.

D. MARIA JOANNA

O Luiz Manuel não póde tardar. Sempre ha de haver modo de não ficarmos

peior do que em Monforte.

MORGADO

Ha, pois não... Hade haver onde a prima se accommode como cumpre. Nós...

GONÇALO

Nós em qualquer parte e de qualquer maneira.

MORGADO

Como homens de guerra.

D. MARIA JOANNA

Que poeira trago... reparo agora!--Commendador... minha prima havia de

ter um quarto de toucar... Quer dizer à Anna Maria que suba e procure.

COMMENDADOR

Procurarei eu mesmo (_galanteando_). Pretende Tibullo...

D. MARIA JOANNA (_atalhando_)

Ai! o morgado que faz que não vae acudir ás ades... ás ades... Como é?

MORGADO

Estilladas, prima, estilladas... Vou. Já vou. Deus me livre de entregar

coisas d'estas a lacaios nem mochillas... Vou no mesmo instante.

COMMENDADOR (_indo para sair pela D., e mirando desconfiado Gonçalo

Mendo_)

Dar-se-ha caso que...--Póde lá ser...--Um soldado!

MORGADO (_idem, á porta do F_.)

Querem vêr que...--Ora... um filho segundo!

SCENA VII

D. MARIA JOANNA _e_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA (_que tem ido sentar se na cadeira junto ao bufete,

acompanhada de Gonçalo, que fica de pé_)

Não está cançado, sr. Gonçalo Mendo?

GONÇALO

De quê?

D. MARIA JOANNA

Estou eu... creio que estou.

GONÇALO

Com um mez de jornadas!...

D. MARIA JOANNA

Não é das jornadas.

GONÇALO

Será dos companheiros?

D. MARIA JOANNA

Será.--Continuemos a conversar em quanto elles não veem, os

companheiros.

GONÇALO

A respeito de quê?

D. MARIA JOANNA

Do que lhe parecer.

GONÇALO

Sem restricção?

D. MARIA JOANNA (_indicando_)

Agora temos luzes.--Diga-me alguma coisa de Lisboa. Hade estar

informado.

GONÇALO

Sahi de lá ha quinze dias, e volto antes de oito. Vim á provincia em

commissão apenas. Estou ás ordens do conde de Aveiras.

D. MARIA JOANNA (_distrahidamente_)

Que se faz? que se diz?

GONÇALO (_encostando-se-lhe ao espaldar da cadeira_)

Hade-se dizer em breve que possue Lisboa a perola das formosas e

discretas... que já Paris admirava, e agora fica invejando.

D. MARIA JOANNA

Cumprimentos!

GONÇALO

Bem sei que a enfadam já por continuados.--Cumprimentos não, prophecias.

D. MARIA JOANNA

É moço para propheta... e ninguem o é na sua terra.

GONÇALO

O que se faz?... Deixe-me vêr... (_como recordando-se_) Não se faz nada.

D. MARIA JOANNA

Pois nada?

GONÇALO

O mesmo sempre.--A rainha, minha sr.^a, vae a Salvaterra, e sae ás suas

devoções. De tempos em tempos opera em Queluz. Fóra d'isso a nau de

viagem de anno a anno, e... e acabou-se. É assim depois que morreu o

marquez de Pombal. Ao principio ainda se entretinham em ter medo d'elle,

mesmo depois de desterrado. Agora até essa distracção falta.

D. MARIA JOANNA

Ai! sr. Gonçalo Mendo, desculpe. Está ali uma cadeira convidando-o... e

ahi um logar a esperal-o. (_Indica o lado opposto do bufete. Gonçalo vae

buscar a cadeira, e senta-se no ponto designado_.) Não lhe parece que

estaremos melhor?--São ainda moda os abadeçados?

GONÇALO

Uma vez por outra. Agora estão em voga as assembléas.--Como lhe hade

parecer tudo isto semsabor!

D. MARIA JOANNA (_sériamente_)

Engana-se. Sempre são ares nossos. Não sabe que me trazem saudades?

GONÇALO (_com intenção_)

De...?

D. MARIA JOANNA (_accentuando_)

Da patria.

GONÇALO

E sentimento digno de tal dama. Mas depois sempre se hade lembrar d'esse

Paris, que era já tão seu.

D. MARIA JOANNA

O Paris que viu ha dois annos vae de dia para dia degenerando... Os

requebros são curtidos em philosophia... as canções tem um sabor de

finanças... Que distracção para damas!...

GONÇALO

Amortalharam então a galanteria franceza com a Dubarry?

D. MARIA JOANNA

Que está dizendo! Seria leval-a de caixão á cova. A galanteria

sobrevive; mas agora tem por figurino a sensibilidade... e anda de braço

dado com uma coisa nova, que veiu ha pouco de Inglaterra, e que se

chama... (_recordando-se_) chama-se?... (_occorrendo-lhe_) philantropia.

Sabe o que é?

GONÇALO

Um nome que trescalla a grego. Hade sabel-o o commendador.--Acredita na

sensibilidade de figurino?

D MARIA JOANNA

Não; nem na philantropia de apparato.

GONÇALO

N'isso se occupam agora os francezes!... Substituiram isso aos

madrigaes?... Pois não ganharam na troca. Estou tentado a preferir-lhes

as nossas formalidades ronceiras... a nossa rustiquez e lhaneza... Por

fim de contas, são coisas de casa... e muito de bom tem algumas.

D. MARIA JOANNA

Prefiro-as eu. Por isso vim.

GONÇALO

E bem haja que veiu! (_admirando-a_) Vem, ainda mais formosa do que era

ha dois annos, quando fui levar officios de gabinete á embaixada de

Paris... Lembra-se?

D. MARIA JOANNA

Tinha-se levantado o cerco de Gibraltar!

GONÇALO

Só isso lhe lembra?... Vem prendada de todos os primores do espirito, de

todas as graças da beleza, e não consente...

D. MARIA JOANNA (_detendo-lhe a palavra com o gesto_)

Escute! Cuidei que era já o commendador... Quer ver se o commendador com

effeito achou o quarto?...

GONÇALO (_Ergue-se vivamente_. _Pausa_. _Contemplando-a_.)

É cruel! (_Nova pausa_. _Com visivel despeito_.) Vou procurar o

commendador. (_Encaminha-se á D._)

D. MARIA JOANNA (_levantando-se como por effeito de reflexão_)

Não. Espere. O commendador era capaz de pensar que não posso passar

cinco minutos sem a sua presença.

GONÇALO (_voltando esperançado_)

Dispensa-a então... por óra?

D. MARIA JOANNA

Por mais um instante. (_Vae sentar-se no canapé_.)

GONÇALO (_defronte, de costas para o bufete, fitando-a_)

Porque me obriga a dissimular commigo mesmo? Porque me força a estes

colloquios frivolos? É isto para nós? Não sabe que só a bocca lhe

responde, porque tenho a alma e o sentido n'outra coisa?

D. MARIA JOANNA (_depois de pausa_)

Tem razão. É-lhe absolutamente indispensavel fallar-me do que já me

disse ha dois annos em Paris? Pois fallemos... Fallemos.--Dei-lhe então

esperanças?

GONÇALO

Nenhumas, é verdade.

D. MARIA JOANNA

Dei-as a alguem?

GONÇALO

Rodeam-n'a as homenagens como a soberana... é agradavel. Sorri a

todos... mas fica a todos insensivel... tambem sei!

D. MARIA JOANNA

Insensivel!... Uma pedra, porque não?... Um gelo dos Alpes, vamos...

Diga, diga... Se não o diz, pensa-o.--Somos insensiveis para estes

senhores, nós outras, quando não nos declaramos humildemente rendidas

apenas se dignam dar-nos um signal de preferencia... Nascemos para seu

desenfado... «Sorri a todos»!... Vejam! Uma causa crime, completa só

n'esta phrase: «sorri a todos»! Olhem o attentado! Queriam que

chorassemos sempre? Queriam que _os_ chorassemos!... E quando

choramos... Nem eu digo!--Sentenciado a pena ultima, o nosso sorriso.

Sentenciado porquê?... Não sabem que nas mulheres o sorriso anda perto

das lagrimas!... Deixem-nos ao menos esse raio de luz entre chuveiros...

como o sol de inverno.

GONÇALO

Poderia responder-lhe que mais commodo do que ter amor é deixar-se

amar... Mas não digo... não me queixo... nada peço. Está na sua mão não

preferir ninguem?... Não o está impedir que lhe queiram... mesmo sem

esperança. Porque não serei eu d'esses?

D. MARIA JOANNA

O sr. Gonçalo Mendo!...--Sente-se ahi. Vamos, sente-se. Quero

confessal-o.

GONÇALO

E dá-me a penitencia antecipada!

D. MARIA JOANNA

Verei depois a que merece... segundo o arrependimento.

GONÇALO (_com esperança, fazendo menção de ajoelhar_)

As culpas dizem-se de joelhos.

D. MARIA JOANNA (_vivamente_)

Sente-se. Os culpados começam por obedecer. Isso. Vamos a saber:

(_solemnemente_) é verdade que por occasião da sua ida a Paris desafiou

em Versailles um capitão dos guardas francezes, e o deixou tres mezes de

cama com uma estocada?

GONÇALO

É verdade. Foi para lhe provar que as parisienses não eram as primeiras

entre todas as damas, como elle pertendia.

D. MARIA JOANNA

E porque não seriam?

GONÇALO

Tinha cá as minhas razões.

D. MARIA JOANNA

Boas razões haviam de ser. Como se estiveramos ainda no tempo dos

Magriços!

GONÇALO

Os Magriços em Portugal são de todos os tempos.

D. MARIA JOANNA

É verdade que o anno passado, quando se festejou o casamento do sr.

infante D. João com a sr.^a infanta D. Carlota, n'uma corrida de touros

no paço da Murteira, saiu ao terreiro de espada na mão, e a pé, sem mais

capa nem defesa, chamou a si o animal furioso, e matou-o de um golpe, só

para que elle não pozesse os pés n'um lenço, que da varanda havia caido

a uma dama?

GONÇALO

É verdade. A dama tinha sessenta annos.

D. MARIA JOANNA (_incredula e motejando_)

Sessenta annos!

GONÇALO

Mas chamava-se D. Mencia Jorge, e o lenço tinha bordado um _M_ e um

_J_... as suas iniciaes.

D. MARIA JOANNA (_lisonjeada_)

Ah! (_Pausa_.) Mais...

GONÇALO

Mais ainda? Devo agradecer a curiosidade, que se informou... ou a

informou... com tanta miudeza a meu respeito?

D. MARIA JOANNA

Deve responder.--É verdade que um dia, amotinando-se o regimento de

Meklemburgo... servia então lá... o tenente-coronel... um allemão,

creio... ficou só, ameaçado dos soldados enfurecidos? É verdade que

unicamente um alferes se atreveu a collocar-se ao lado do commandante,

com tal resolução e bizarria, que o exemplo envergonhou os sublevados, e

a firmeza do official salvou a vida ao tenente-coronel?

GONÇALO

É verdade. O alferes cumpriu o seu dever, nada mais.

D. MARIA JOANNA

Mas dizem que n'esse dever lhe serviram de estimulo os olhos azues da

irmã do tenente-coronel. Será assim?

GONÇALO

É. Foi. Ha quantos annos?

D. MARIA JOANNA

Eu sei!...

GONÇALO

Ha seis. (_a D Maria Joanna_.) Não a conhecia ainda.

D. MARIA JOANNA

Ahi está... «Não a conhecia ainda!» O estribilho costumado. É como

todos.

GONÇALO

Pouco mais ou menos. Se imagina uma especie differente... Sou um simples

mortal, confesso humildemente.

D. MARIA JOANNA

É... é todo verduras e temeridades... Por uns olhos affrontar um

regimento!... Por uma palavra provocar os melhores espadas de França!...

Por um lenço arriscar-se a ficar nas armas de uma fera!... Póde lá

dispôr da sua mão, um homem assim?... Para trazer sempre a mulher em

vesperas de viuvez!

GONÇALO (_encantado_)

Oh! se isso fosse uma esperança!

D. MARIA JOANNA

Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos · 第 1 / 10 段