A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante,

construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o

pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas

tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma

tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do

campo de Portugal chamadas _botões de ouro_, e feita certamente d'aquelle

antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua

transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz

e vento.

Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem

amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda,

de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a

enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente

a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello.

Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que

mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz

continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo

perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia

positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas

costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos

inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.

Emquanto ás outras obras expostas no _Salão_, os quadros e as estatuas,

a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via

d'ellas (_mirabile dicta!_) mais uma vez reconheci quanto é facil

governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de

temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos

democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre

exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da

estructura publica.

Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica,

que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por

ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos

theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles

possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse

ou por convicção, a que só ella prevaleça.

A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas,

apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.

Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente

por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos

entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto

tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá

a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso

para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que,

apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem

desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma

d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma

orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva,

tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um

erro--e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao _Salão_,

no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada cabeça, depois de

ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se

tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o

servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais

que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe

ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto,

por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o

direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio,

a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se

erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a

humanidade é gado--e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender

para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.

Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de

tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da

indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita

alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam,

no _Salão_, a curiosidade e a admiração do publico.

Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de

seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam

arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico,

ou antes o Guia Critico, do _Salão_, publicado pelo Jornal, lhes

indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes

deviam parar, e fazer _ah!_ e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só

o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a

emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria

que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o

jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela,

recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um

adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus

teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina

mental.

Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas

para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista,

symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão

um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se

entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos

Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade

de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia

philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses,

e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de

Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura,

divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.

Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas

faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias

innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a

abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo

uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando

a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando

tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias

innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje

amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem

valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do

pensamento.

É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua

melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan,

a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que

raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres

revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra

e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver

conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião,

espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe

indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve

exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do

_Figaro_, ou se trate d'um _vaudeville_ e o Ulema seja Sarcey,

do _Temps._

D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem

verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não

chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra

redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle

está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em

factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais

rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero,

intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome

de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que

determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades

parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio

de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois

livres!»--e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes,

obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem

pensar mais e sem mais querer, porque a _palavra_ essencial foi dita,

elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer

e para pensar por elles.

De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem

iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar.

Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser

louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços

são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no

famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se

sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões

estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia

outr'ora a Voltaire:--«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me

sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:--e que, se já

era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para

ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é

necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de

trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige

viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento

particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo--porque, como se

sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses,

os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os

prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação

artistica:--e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por

fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e

profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um

quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á

Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e

Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais

desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da

multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra

tempo para ter bom gosto!»

Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive

n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que

se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa

manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um

selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte,

já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em

que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em

todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão

indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar,

pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e

respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no

bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se

ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as

lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem

gravata. Tudo n'este nosso seculo é _toilette_, dizia o velho Carlyle.

O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se

quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?

N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como

é todos os annos a abertura do _Salão_, cada bom burguez (para usar

o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres

ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas

relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um

trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa

o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar

ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma

sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer

áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas

d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de

retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar

ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões,

como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou

claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica

apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr

culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica

e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de

corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento,

dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao

armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e

dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um

senhor.

Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando

n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua

admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da

auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo

de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire

escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e

ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava

realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma

tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um

amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous

ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter

alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com

senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como

um cartucho--e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat,

dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este

anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.

E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um

portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo,

á entrada do _Salão_, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um

bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do _Cavalleiro das

Flores_, de Rochegrosse, ou do _Papa e o Imperador_, de Laurens, ou da

_Brunehilde_, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de

prosa desbotada e fugaz.

Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha

tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte

a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é,

segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto

eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas

como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil,

pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia

fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E

como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado

sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava

a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da

Natureza. O que seria petulante.

XVII

CARNOT.

O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo

caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente

Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.

Com effeito! Que rara inverosimilhança!

O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal

dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como

Henrique IV ou como Marat!

Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a

municipalidade de Lyão para assistir, no _Grand-Theâtre_, a uma

representação de gala.

O seu _landeau_, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre

uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem,

trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á

maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o

rebordo do _landeau_, tocou no peito do presidente com as flôres ou com

o papel. O _maire_ de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com

o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba

immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o _maire_ de

Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o

salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o

presidente _para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião

de Honra!_ E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos

acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses

homens que se não suppõe que possam ser accommettidos--senão para serem

roubados.

Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios--porque não

representava um partido e muito menos um principio. A Constituição

reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma

parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a

muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua

presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes

da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias--mas

eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas

preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr.

Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas

opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta

derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou

a reputação phantasista _de ser de pau._ A sua vontade immovel ou

immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não

ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição.

Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os

caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse

mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas

dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram

saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica

da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o

Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse

este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo

apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente

e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa.

Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao

anarchismo;--porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação

raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade

pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o

capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para

demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns

empregados do commercio sentados n'um café a beber _bocks._ Os seus

crimes nem sómente são inuteis--são ainda contraproducentes, porque vão

formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e

indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com

ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de

toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do

abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser

secretamente assalariado pelo despotismo.

O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda

não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de

naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não

é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida.

Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista--porque

só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita,

poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e

irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr,

pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu

governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes

de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só

contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas

de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d'este vez o

anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende

ser a expressão suprema e perfeita;--e a sua arma não era mais do que uma

nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da

burguezia capitalista.

Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo

n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição»

de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem

lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por

excellencia o magistrado integro.

Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados

imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos

leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o

mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta

annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os

outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da

prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela

Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente

na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas

provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas

provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus

meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade

concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que

soube presidir com perfeita dignidade e tacto:--a suppressão do

boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal

de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes

acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações

que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu

predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de

legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao

contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus

episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação

e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao

menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda

legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque,

se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes,

que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado»,

mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das

chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento

da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna,

tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza,

como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi

um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda

a Europa.

Particularmente, era o mais excellente dos homens--affavel, caritativo,

leal, clemente, cultivado.

Echos de Pariz · 第 11 / 12 段