construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o
pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas
tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma
tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do
campo de Portugal chamadas _botões de ouro_, e feita certamente d'aquelle
antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua
transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz
e vento.
Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem
amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda,
de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a
enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente
a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello.
Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que
mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz
continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo
perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia
positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas
costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos
inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.
Emquanto ás outras obras expostas no _Salão_, os quadros e as estatuas,
a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via
d'ellas (_mirabile dicta!_) mais uma vez reconheci quanto é facil
governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de
temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos
democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre
exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da
estructura publica.
Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica,
que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por
ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos
theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles
possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse
ou por convicção, a que só ella prevaleça.
A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas,
apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.
Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente
por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos
entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto
tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá
a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso
para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que,
apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem
desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma
d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma
orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva,
tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um
erro--e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao _Salão_,
no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada cabeça, depois de
ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se
tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o
servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais
que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe
ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto,
por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o
direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio,
a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se
erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a
humanidade é gado--e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender
para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.
Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de
tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da
indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita
alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam,
no _Salão_, a curiosidade e a admiração do publico.
Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de
seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam
arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico,
ou antes o Guia Critico, do _Salão_, publicado pelo Jornal, lhes
indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes
deviam parar, e fazer _ah!_ e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só
o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a
emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria
que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o
jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela,
recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um
adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus
teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina
mental.
Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas
para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista,
symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão
um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se
entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos
Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade
de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia
philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses,
e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de
Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura,
divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.
Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas
faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias
innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a
abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo
uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando
a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando
tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias
innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje
amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem
valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do
pensamento.
É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua
melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan,
a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que
raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres
revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra
e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver
conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião,
espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe
indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve
exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do
_Figaro_, ou se trate d'um _vaudeville_ e o Ulema seja Sarcey,
do _Temps._
D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem
verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não
chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra
redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle
está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em
factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais
rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero,
intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome
de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que
determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades
parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio
de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois
livres!»--e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes,
obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem
pensar mais e sem mais querer, porque a _palavra_ essencial foi dita,
elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer
e para pensar por elles.
De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem
iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar.
Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser
louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços
são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no
famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se
sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões
estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia
outr'ora a Voltaire:--«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me
sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:--e que, se já
era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para
ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é
necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de
trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige
viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento
particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo--porque, como se
sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses,
os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os
prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação
artistica:--e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por
fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e
profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um
quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á
Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e
Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais
desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da
multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra
tempo para ter bom gosto!»
Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive
n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que
se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa
manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um
selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte,
já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em
que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em
todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão
indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar,
pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e
respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no
bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se
ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as
lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem
gravata. Tudo n'este nosso seculo é _toilette_, dizia o velho Carlyle.
O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se
quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?
N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como
é todos os annos a abertura do _Salão_, cada bom burguez (para usar
o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres
ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas
relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um
trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa
o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar
ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma
sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer
áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas
d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de
retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar
ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões,
como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou
claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica
apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr
culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica
e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de
corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento,
dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao
armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e
dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um
senhor.
Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando
n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua
admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da
auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo
de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire
escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e
ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava
realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma
tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um
amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous
ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter
alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com
senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como
um cartucho--e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat,
dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este
anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.
E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um
portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo,
á entrada do _Salão_, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um
bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do _Cavalleiro das
Flores_, de Rochegrosse, ou do _Papa e o Imperador_, de Laurens, ou da
_Brunehilde_, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de
prosa desbotada e fugaz.
Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha
tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte
a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é,
segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto
eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas
como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil,
pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia
fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E
como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado
sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava
a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da
Natureza. O que seria petulante.
XVII
CARNOT.
O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo
caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente
Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.
Com effeito! Que rara inverosimilhança!
O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal
dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como
Henrique IV ou como Marat!
Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a
municipalidade de Lyão para assistir, no _Grand-Theâtre_, a uma
representação de gala.
O seu _landeau_, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre
uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem,
trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á
maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o
rebordo do _landeau_, tocou no peito do presidente com as flôres ou com
o papel. O _maire_ de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com
o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba
immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o _maire_ de
Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o
salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o
presidente _para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião
de Honra!_ E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos
acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses
homens que se não suppõe que possam ser accommettidos--senão para serem
roubados.
Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios--porque não
representava um partido e muito menos um principio. A Constituição
reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma
parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a
muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua
presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes
da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias--mas
eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas
preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr.
Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas
opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta
derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou
a reputação phantasista _de ser de pau._ A sua vontade immovel ou
immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não
ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição.
Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os
caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse
mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas
dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram
saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica
da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o
Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse
este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo
apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente
e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa.
Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao
anarchismo;--porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação
raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade
pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o
capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para
demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns
empregados do commercio sentados n'um café a beber _bocks._ Os seus
crimes nem sómente são inuteis--são ainda contraproducentes, porque vão
formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e
indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com
ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de
toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do
abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser
secretamente assalariado pelo despotismo.
O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda
não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de
naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não
é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida.
Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista--porque
só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita,
poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e
irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr,
pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu
governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes
de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só
contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas
de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d'este vez o
anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende
ser a expressão suprema e perfeita;--e a sua arma não era mais do que uma
nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da
burguezia capitalista.
Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo
n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição»
de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem
lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por
excellencia o magistrado integro.
Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados
imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos
leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o
mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta
annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os
outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da
prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela
Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente
na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas
provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas
provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus
meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade
concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que
soube presidir com perfeita dignidade e tacto:--a suppressão do
boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal
de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes
acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações
que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu
predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de
legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao
contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus
episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação
e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao
menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda
legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque,
se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes,
que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado»,
mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das
chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento
da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna,
tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza,
como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi
um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda
a Europa.
Particularmente, era o mais excellente dos homens--affavel, caritativo,
leal, clemente, cultivado.